4. AIDS Problems and Policies in Norwegian Co-operation Countries
4.4 Tanzania
Em seu livro “A Condição Humana”, Arendt apresenta seis condições da existência humana100 a partir das quais a vida é dada ao homem:
1) planeta Terra – o homem nasceu neste planeta e este estabelece condições de vida orgânica diferentes das que se o homem nascesse em outro planeta;
2) vida biológica – ciclo biológico que vai do nascimento à morte, que o homem necessariamente tem que cuidar;
3) mundanidade – o homem constrói sobre o mundo natural, um mundo artificial que o possibilita criar nele sua habitação e preservá-lo para gerações futuras.
4) pluralidade – o homem nasce no mundo já em relação, seu ser é originariamente o viver em meio aos outros homens e agir em conjunto. Ao mesmo tempo em que ele é singular, constitui-se a partir da pluralidade;
99 ARENDT, H. A Condição Humana, pg. 18. 100 ARENDT, H. A Condição Humana, pg. 19.
5) natalidade – ao nascer, o homem é um iniciador de uma cadeia nova de eventos no mundo; e a todo o momento pode lançar mão dessa faculdade de iniciar movimentos novos; e
6) mortalidade – a vida mortal do homem advém da vida biológica, mas não se reduz a ela, diferenciando-se de todas as outras coisas por ser uma vida identificável do nascimento à morte. A morte encerra e demarca a singularidade dos indivíduos.
Essas condições humanas jamais explicam o que o homem é, nem lhe condicionam de modo absoluto, como as ciências humanas propõem. Elas mostram que o homem vive sob condições, mas não é passivo a elas, pois embora essas condições diferenciem o homem dos demais entes, elas não condicionam a existência de modo determinístico-causal. É justamente no direcionamento a ser dado a elas que reside a sua liberdade. Apropriar-se desta liberdade depende do quanto pode suportar sua condição de estranho no mundo, que é seu modo originário. Para Arendt, apesar do homem nascer como estranho, tem a possibilidade de sentir-se em casa no mundo101. Para isso, precisa tomar parte no diálogo interminável com a história humana que o constitui, que é a essência da compreensão, isto é, a tarefa de buscar significados para tudo aquilo que faz e o afeta no mundo, junto com os outros.
Arendt também aponta para uma outra possibilidade do homem dar conta da estranheza que lhe é própria: viver a vida de modo supérfluo. Para a autora, tal modo de viver é característico da era moderna, na qual o homem desenraizado vive alienado: “o que distingue a era moderna é a alienação em relação ao mundo”102, e portanto desatento de que é co-autor dessa história que tece junto com os outros homens: “o desarraigamento pode ser a condição preliminar da superfluidade”103. Na medida em que o homem estabelece um modo de viver identificado com o consumo, mergulhado nos afazeres da vida
101 ARENDT, H. A Dignidade da Política, pg. 39 102 ARENDT, H. A Condição Humana, pg. 266.
cotidiana, sem raízes, sem espaços de reflexão, privilegiando o imediatismo do presente apartado do chão do seu passado, cala a estranheza através da familiaridade que o aliena de si mesmo. Esse fenômeno da superfluidade, que aparece inclusive nas relações afetivas104, é acompanhado de um enorme avanço tecnológico que encobre a pobreza de vínculos. Para Arendt, estar no mundo de modo supérfluo é tão grave, que pode significar “não pertencer ao mundo”105. Essa falta de um lugar reconhecido e garantido no mundo, gerado pelo isolamento, faz com que o homem moderno seja constantemente assolado pela solidão. Não a solidão necessária para se estar consigo mesmo, mas a que retira do homem a capacidade de compartilhar com os outros o mundo comum, podendo até chegar à perda do próprio eu106.
Portanto, a proposta de Arendt, do homem procurar estar em casa no mundo, não é a de viver de um modo habitual, mas a de encontrar um significado para o viver. É estar sempre na busca de significados para os acontecimentos, a fim de que estes tenham um lugar legítimo na história de cada um, sem jamais se reduzir a uma rotina assegurada. Este sentido só é possível se for alcançado em meio aos outros homens, pois, “para a confirmação da minha identidade, dependo inteiramente de outras pessoas”107.
O homem precisa da companhia dos outros homens para que saia da dúvida e do equívoco que surgem, quando entende que pode viver e dar conta de si totalmente sozinho. Arendt argumenta que “estando a sós, o meu próprio eu me abandona”, ou seja, quando o homem considera que não precisa do contato com seus semelhantes para que possa integrar o diálogo do seu pensamento, não sabe que perde a confiança em si mesmo, pois quando rompe o contato eu- mundo, perde junto a capacidade de pensar e de sentir108.
Dando continuidade a esse capítulo, serão apresentados três itens para delimitar o âmbito que se quer dar à história pessoal: em primeiro a natalidade,
103
ARENDT, H. Origens do Totalitarismo, pg. 528.
104 O sociólogo suíço Zygmunt Bauman refere-se a essa superfluidade das relações afetivas utilizando o
termo “amor líquido”. Ver Bauman, Z. Amor Líquido. RJ: Jorge Zahar Editores, 2005.
105 ARENDT, H. Origens do Totalitarismo, pg. 528. 106
ARENDT, H. Origens do Totalitarismo, pg. 529.
por ser o início de todas as biografias; em segundo será mostrado o conceito arendtiano de auto-apresentação, por este ser fundamental para o entendimento da identidade do ator da história pessoal e por último será apresentada a faculdade da vontade, por essa ser responsável pelos caminhos que um ator escolhe para escrever sua própria história.