4. AIDS Problems and Policies in Norwegian Co-operation Countries
4.2 Malawi
Em seu artigo “O Conceito de História”91 Arendt afirma:
“os homens são “os mortais”, as únicas coisas mortais que existem, pois os animais existem tão-somente enquanto membros de espécies e não como indivíduos.”92
E ainda traz de Hegel o argumento de que “o homem não se distingue das outras espécies animais por ser um animal racional, mas por ser a única criatura viva que sabe de sua própria morte.”93 O que tem concordância com a
idéia heideggeriana quanto à diferença da morte do homem e a morte dos outros seres vivos: “Chamamos de finar o findar do ser vivo. (...) Morrer, exprime o modo de ser em que o ser-aí é para a sua morte”94
Esse destaque à mortalidade do homem em comparação com os seres vivos, que esses filósofos mostram, tem suas raízes no início da história
89 ARENDT, H. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999, p.199
90 Arendt desenvolve no capítulo V – Ação em “A Condição Humana” que “ninguém é autor ou criador da
história de sua própria vida” ou seja, o homem é sujeito da história, revela-se como agente desta, mas
não a cria. Ver pág. 197 da tradução brasileira, RJ: Forense Universitária, 1999.
91
ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. SP: Editora Perspectiva, 2002, pg. 69-127.
92 ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. SP: Editora Perspectiva, 2002 pg. 71. 93 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 218
ocidental. Em “Entre o Passado e o Futuro”, Arendt retoma o pressuposto principal desta época, que era o de se encontrar a justa diferença entre o que era perecível e o que era permanente (feitos humanos e natureza). Já que tudo o que é feito pelo homem se torna perecível como o homem é (mortal), a única maneira de imortalizar os feitos humanos era dotá-los de alguma permanência. Se tal objetivo fosse cumprido, então o homem encontraria seu lugar no cosmo, onde tudo é imortal. A autora afirma que Heródoto, o pai da história ocidental, tinha esse objetivo quando afirmava que buscava preservar aquilo que o tempo se encarregava de esquecer, para que os feitos gregos pudessem ser relembrados pelas gerações seguintes e continuassem a brilhar para sempre. Por isso, tudo o que pode ser esquecido, por ter um caráter inefável, por não ter existência própria, deve ser registrado. E é isso o que a história registra: aquilo que é extraordinário, aquilo que rompe com a rotina da vida cotidiana. E o faz através da recordação, rumo à imortalidade. Assim, finalmente história e natureza têm um ponto de encontro:
“a história acolhe em sua memória aqueles mortais que através de feitos e palavras, se provaram dignos da natureza, e sua fama eterna significa que eles, em que pese sua mortalidade, podem permanecer na companhia das coisas que duram para sempre.”95
Mas esse entendimento do homem como “mortal” também aponta para uma outra conclusão de Arendt: A de que embora a história da vida (bios) de cada um esteja compreendida entre o nascimento e a morte, esta não se circunscreve na vida biológica (dzoé). Mais do que isso. Ser mortal faz do homem um ser que inaugura movimentos que atravessam a repetição contínua e cíclica da vida biológica, emergindo dela tal como os feitos extraordinários rompem com a cotidianidade da vida. É devido à mortalidade que os homens constroem o mundo artificial e aí instauram relações onde participam como pessoas. A vida de uma pessoa, uma bios, se dá num movimento duplo em relação à vida biológica: ao mesmo tempo em que se apóia nela, resiste à
94 HEIDEGGER, M. Ser e Tempo vol II, pg. 70.
ciclicidade inerente à mesma, que o faria mais um em sua espécie. Cada indivíduo que nasce constitui, então, um ninho capaz de lhe oferecer condições de se diferenciar dos demais homens de sua mesma espécie, emergindo, assim, um quem. A trajetória deste quem não tem uma direção determinada, embora se possa encontrar um sentido nela. Essa história da vida que cada um de nós escreve junto com os outros, que é a nossa história (story), é a nossa bios- grafia. Ao conjunto entrelaçado de biografias podemos nomear de História (history).
O homem inicia sua história pessoal a partir de uma história que o precede. É uma biografia particular que escreve com os outros, assim como participa da história alheia que é escrita pelos demais. Sendo assim, os homens são co-autores de suas próprias histórias, jamais autores tão somente nem mesmo autores quaisquer. Essa co-autoria lhes é conferida pela sua condição humana de ser plural, pois todos os seus atos ocorrem numa trama, numa teia de significações que é tecida constantemente pelos homens. Jamais um ato humano ocorre de modo solto, isolado. Será sempre o ato de um homem, que uma vez nascido já está numa teia, que ao precedê-lo passa a contar com sua participação, mesmo que de modo distraído. Quando por exemplo um bebê chega numa família, modifica os papéis de todos os seus membros, e mesmo que venha a morrer na infância, jamais deixa essa família como era antes dele chegar; portanto, nascer é iniciar uma história, e morrer não implica em desaparecer dela, pois cada um que nasce, ao escrever a sua história pessoal, particular, participa da história dos outros homens e permanecerá na história deles através da lembrança, da recordação. O que cessa é a possibilidade de gerar novos atos humanos, mas jamais termina a possibilidade de continuar soando o eco de seus atos já feitos e sempre ressignificados por outros.
Durante o curso dessa história pessoal, dessa biografia própria, escrita junto com os outros, o sentimento de estranheza acompanha seu autor do nascimento até a morte, fazendo com que a tarefa da compreensão seja interminável, pois embora todos os homens nasçam de um par, num mundo
onde é natural chegar sempre novos habitantes, para aquele que nasce, o mundo lhe é estranho.
Pelo fato dos seres mortais não serem preparados previamente para viver neste mundo, nascem (aparecem) no mundo como estranhos, interagem até deixarem de existir. Tal estranheza se dá devido ao modo de ser do homem, como Heidegger mostra em Ser e Tempo, que ele é um ente cujo modo de ser é abertura, onde seu sentido está sempre em jogo no seu existir96. Equivale dizer que o fato do homem não ser constituído por uma essência permanente que lhe determine97, faz com que nada mais lhe confira pertencimento e identificação com o mundo, tal como se dá com a natureza. Os animais, as plantas têm relações com o meio ambiente já definidas, prontas e o homem, por ter seu ser lançado no mundo, portanto numa relação diferente, tem sempre que cuidar dessa relação que não lhe oferece nenhuma direção prévia. Arendt diz que apesar do homem ser aquele que determina e define a essência natural de tudo o que está à sua volta, não quer dizer que tem autoridade para concluir que sua natureza tenha o mesmo sentido que a natureza das coisas98.
Sendo assim, o homem necessita de um constante esforço de reconciliação com um mundo que lhe é inóspito, por condição. É sua a tarefa de enraizamento, que se dá na relação com os demais homens. Sem esse sentimento de pertinência no mundo, sem referências, sua vida pode tornar-se sem sentido, ou até pode se tomar como se fosse um ente cujo ser é simplesmente dado, vivendo como “vive-se”, perdido em um modo impessoal.
Aprofundando essa idéia, Hannah Arendt mostra a diferença entre o conceito de natureza humana e condição humana. Natureza humana pressupõe uma essência, que colocaria todos os homens numa mesma categoria e que teria o mesmo estatuto de essência daquelas em que se inserem os outros elementos da natureza. Arendt considera impossível a descoberta de uma natureza dos homens partindo-se dessa concepção, porque implicaria em
96 HEIDEGGER, M. Ser e Tempo, vol. I, pg. 77.
97 “a essência do homem não pode ser determinada” - ARENDT, H. Lições sobre a Filosofia Política de
Kant, pg. 75.
presumirmos que o homem tem uma natureza no mesmo sentido dos outros entes, ou então que o homem teria que fazer consigo o que faz com todas as coisas que o rodeiam, o que significaria em “pular sobre nossa própria sombra”99. Para a autora, responder sobre a natureza do homem passa então a ser uma tarefa para a teologia, tanto quanto sobre a natureza de Deus. Natureza tem a ver com conceitos como permanência, essência, constância, etc. características essas que não aparecem como sendo o que mais caracteriza o humano. Assim, Arendt apresenta o conceito de “condição humana”: é tudo aquilo que constitui e fundamenta a vida de todos os homens, sem que lhes seja possível escolher ou não tais condições, embora possam tomá-las reflexivamente como questão.