• No results found

4. METHOD FOR ONLINE EXPERIMENT

4.3 Q UESTIONNAIRE AND MEASUREMENT

Muito se questiona sobre o conhecimento que o aluno traz consigo oriundo de suas vivências cotidianas, que são originadas de sua prática diária, das suas relações sociais, da convivência com um lugar específico. Quando se trata da Geografia, essa discussão se torna mais pertinente, uma vez que, essa ciência estuda as relações próprias do homem com o espaço, perpassando por várias esferas da vida em sociedade.

Resende (2002), ao estudar o saber do aluno pré-escolar, constatou que existe um saber geográfico anterior à escola e que está estreitamente vinculado ao modo como o aluno se enquadra no processo de produção. Além disso, a autora alerta para o perigo de não se considerar o aluno como habitante do espaço que estuda.

A questão que chamou a nossa atenção para a realização desta pesquisa foi a de saber se esse conhecimento (que nós estamos chamando de vivências que o aluno adquire no lugar onde mora) pode ser mobilizado nas aulas de Geografia.

Consideramos o papel fundamental do professor nesse processo, tendo em vista ainda uma busca de novas alternativas para a aula, de modo que possa se tornar mais interessante e instigante para os alunos.

Sobre os professores estudados, constatamos que há uma conscientização da importância dessa prática de interligar esses dois conhecimentos, mas que, por muitas vezes, a sua efetivação esbarra em muitas dificuldades enfrentadas no cotidiano escolar.

Um primeiro ponto a ser destacado é a formação dos professores; como já foi mencionada, essa é uma questão que precisa ser debatida, pois não adianta falarmos em mudanças ou melhorias na educação se não se acorda para esse elemento tão importante. Como esperar um professor dinâmico, preparado, atualizado, consciente de sua responsabilidade social se não se instrumentaliza esse profissional desde sua graduação até um acompanhamento na sua prática docente, através de cursos de aperfeiçoamento.

Dos professores que estudamos, cinco são pós-graduados e apenas um tem somente graduação. No entanto, essa informação não nos permite saber até que ponto os cursos hoje oferecidos estão voltados para a formação do professor, enquanto esse elemento mediador que esperamos, esse é um questionamento passível de outro estudo. No que tange a nossa pesquisa, reconhecemos que é imprescindível que esses cursos estejam voltados não somente para os conteúdos geográficos, mas também para a forma como esse profissional vai lidar com as situações reais em sala de aula, ou seja, uma formação teórica e prática.

É muito comum se conhecer os conceitos, teorias; o mais difícil é saber como mediá- los de modo que esse conhecimento se torne interessante para os alunos, chamando sua atenção. Na Geografia é preciso ultrapassar a fama de ser uma disciplina chata e decorativa. Entendemos que ao tratar o aluno como possuidor de um conhecimento sobre a realidade que se estuda, estaremos oportunizando a sua maior participação e envolvimento: “Se o espaço não é encarado como algo em que o homem (o aluno) está inserido, natureza que ele próprio ajuda a moldar, a verdade geográfica do indivíduo se perde, e a geografia torna-se alheia a ele”. (RESENDE, 2002, p. 84).

Além da formação do professor, outro ponto a se considerar é a forma como esses professores concebem a disciplina que ensinam; nesse aspecto, procuramos entender como os professores estudados entendem a Geografia e sua importância para a sociedade. Analisando o que foi dito, em quase todas as respostas, destaca-se a relação entre a sociedade e a natureza na transformação do espaço, apenas uma professora não citou essa relação.

Sobre a importância dessa disciplina/ciência foi destacado o entendimento das relações entre o homem e meio, da sociedade, do cotidiano, do espaço mundial e ainda do cotidiano. Através dessas respostas, percebemos que está claro para os professores a Geografia como uma ciência que nos ajuda a entender melhor o meio em que vivemos, na medida em que procura desmitificar o espaço, entendendo como uma esfera natural e social, ao mesmo tempo.

A Geografia e o seu papel no ensino médio foram evidenciados pelos professores pesquisados; em cinco falas, notamos que há preocupação com a formação de consciências críticas e de cidadãos, há também a enfatiza no fato de que, nessa fase do ensino, essa disciplina deve estar empenhada em ajudar o aluno a compreender melhor o mundo, a sociedade, através de um pensamento crítico e sendo capaz de exercer sua cidadania, uma vez que o conhecimento das relações que se processam no espaço em todas as escalas é imprescindível para esse fim:

Para ter eficácia, o processo de aprendizagem deve, em primeiro lugar, a partir consciência da época em que vivemos. Isso significa saber o que o mundo é e como ele se define e funciona, de modo a reconhecer o lugar de cada país no conjunto do planeta e o de cada pessoa no conjunto da sociedade humana. É desse modo que se podem formar cidadãos conscientes, capazes de atuar no presente e de ajudar a construir um futuro melhor. (SANTOS, 1994, p.121)

Esse entendimento por parte do professores é muito importante, pois vislumbra que, através do melhor conhecimento da realidade, pode-se melhor conviver com ela e ainda a Geografia como um saber que possibilita uma visão crítica, pois nos ajuda a entender o porquê de muitos fatos que vivenciamos diariamente.

Como vimos, os professores estudados estão cientes de uma Geografia para a vida que ajude ao aluno a pensar a sociedade e nela melhor atuar como cidadão, no entanto ainda são muitas as dificuldades enfrentadas para que essas concepções se transformem em práticas efetivas que estejam presentes de forma mais rotineira nas suas aulas.

Entre as dificuldades citadas pelos docentes estudados estão: falta de material de apoio, pequena carga horária (o que se agrava por se tratar do ensino médio e ainda mais no turno da noite), falta de acompanhamento dos alunos, falta de leitura dos alunos, pressão por causa do vestibular, falta de recursos que podem ajudar a aula a se tornar mais interessantes, pouco apoio na realização de práticas de campo e ainda a dificuldade de levar os alunos a se sentirem parte do conteúdo estudado.

Segundo os professores, esses problemas contribuem para uma queda de qualidade nas aulas dessa disciplina. Questões como falta de material de apoio e recursos didáticos poderiam ser equacionados por meio de maiores investimentos nesse setor, o que realmente possibilitaria maiores opções para o profissional de educação preparar suas aulas. A realização de práticas de campo é uma opção que certamente auxilia na aprendizagem, pois oportuniza o aluno a ter um contato prático com o conteúdo em estudo, o que se torna interessante e enriquecedor.

A pequena carga horária é um problema de currículo, já é imposta pelo sistema escolar. Essa situação é agravada pela imposição dos conteúdos cobrados e pelas datas dos vestibulares.

No que se refere à falta de leitura dos alunos, esse é um entrave que dificulta a educação de um modo geral, pois quando se chega ao ensino médio já se tem uma cultura escolar e reverter esse quadro não é uma tarefa fácil. O gosto pela leitura, pelos livros pode contribuir muito para um melhor aprendizado não só em Geografia, mas em todas as disciplinas. O professor não pode obrigar o aluno a se habituar a ler, mas pode incentivá-lo.

Destacamos ainda a sobrecarga de aulas que muitos professores possuem, ou seja, com muitas aulas a ministrar, fica comprometido o tempo de planejamento e preparação das aulas, o que pode recair sobre a qualidade do ensino. Entre os professores pesquisados, observamos que essa carga horária chega até a 48 horas/ aulas semanais.

Uma dificuldade citada pela Professora 4 nos chamou atenção, ela relatou que é difícil fazer com que os alunos entendam que fazem parte da Geografia que é ensinada, que ela não está presente apenas nos livros. É exatamente nesse ponto que entendemos que a Geografia pode contribuir muito para formação de um cidadão mais crítico, quando ela passar a ser vista no dia a dia, ou nas palavras de Resende:

Se nós, professores, passássemos a considerar devidamente o saber do aluno (seu espaço real), integrando-o ao saber espacial que a escola deve transmitir-lhe – o que, segundo-me parecia, supõe repensar o objeto mesmo da geografia que ensinamos -, tal atitude poderia trazer profundas e benéficas consequências a nossa prática de ensino. (2002, p. 84)

Um dos principais aspectos que norteiam a prática de ensino é a metodologia escolhida para trabalhar o conteúdo, ou seja, é forma que se encaminham as discussões que se oportuniza ao aluno construir o conhecimento. Conforme as respostas dos professores pesquisados, constatamos que a aula expositiva dialogada ainda é a prática mais recorrente e que o livro didático é o recurso mais usado por eles.

O livro didático é uma ferramenta muito importante, que facilita e sistematiza as aulas, no entanto ele não pode ser visto como uma verdade absoluta e inquestionável. O professor precisa ter uma visão crítica diante desse recurso, para saber extrair o que ele tem de positivo e desprezar o que não contribui efetivamente com sua aula.

Uma das questões sobre o livro didático é a sua conexão com a realidade dos alunos esse é um questionamento que deve estar presente, pois, apesar de ser um único país, o Brasil apresenta uma grande diversidade, com vários contextos que dificilmente serão todos abordados em um único livro. Nesse âmbito, o professor deve estar atento em procurar novas alternativas, outros materiais que tratem da realidade dos seus alunos.

Na avaliação do livro didático utilizado por suas escolas, os professores estudados afirmaram em geral que são satisfatórios, no entanto precisam ainda melhorar muito no que diz respeito às questões locais e regionais e ainda precisariam de uma linguagem mais adequada que chamasse mais atenção dos alunos.

Encontramos nesse aspecto um entrave à prática que nos propomos estudar, isto é, a interpenetração dos conhecimentos geográficos escolares e científicos com aquelas vivências trazidas pelo aluno, que foram adquiridas no seu cotidiano e que estão muito ligadas ao lugar onde moram. O livro didático muitas vezes ainda é o mais forte aliado do professor ao preparar as suas aulas, no entanto na maioria das vezes, esse livro não está a contento no que

diz respeito a tratar dos contextos mais próximos: o bairro, a cidade, o estado em que aluno mora, e, nesse ponto, a realidade mais próxima do aluno pode ficar esquecida nas aulas de Geografia; é preciso que haja essa complementação do professor procurando a significação dos conteúdos trazidos pelos livros na vida dos alunos:

Ao trabalhar esse conteúdo definido por ambos, o método emerge, agora de maneira significativa. Portanto, dos conteúdos abstratos, sem sujeito definido, sem sentido para a sua realidade cotidiana (histórica), de uma repetição monótona e seqüencial das páginas de um livro qualquer [...] passa-se na prática para um processo de construção (lenta, é verdade) da identidade própria de cada sujeito e do seu possível trabalho frente à sociedade internamente dividida, desigual, a que pertence. (VLACH, 1987, p. 55)

Um aspecto muito importante é identificar como é feita a escolha dos conteúdos a serem discutidos; como já discutimos anteriormente, os currículos oficiais são apenas propostas que funcionam como norteadores; muitas vezes, podem ser vistos como uma imposição, mas, mais uma vez, entra o discernimento do professor e o seu conhecimento sobre a realidade em que trabalha.

Os professores pesquisados afirmam que os conteúdos propostos pelos currículos oficiais são adequados, no entanto é preciso que sejam contextualizados conforme a realidade do aluno. No entanto, observamos que nenhum dos professores pesquisados ressaltou a importância de se considerar o conhecimento que o aluno já tem, que, mesmo não sendo organizadas, poderiam contribuir para o processo ensino-aprendizagem:

Nós, professores de geografia, temos a oportunidade de transformar essas percepções desordenadas, baseadas em uma dinâmica funcional, em conteúdos de habilidades significativas para o desenvolvimento da inteligência. A escola deveria ressignificar essas ideias prévias. (SOMMA, 1999, p. 162)

Os professores ainda destacaram que os assuntos cobrados nos vestibulares são incluídos no planejamento e ainda seguem a sequência trazida pelo livro didático adotado pela escola, pois afirmam que esse material é o que os alunos têm de mais fácil acesso.

Evidenciamos agora como os professores estudados concebem a relação entre os conhecimentos geográficos sistematizados e aqueles trazidos pelos seus alunos construídos cotidianamente. Primeiramente todos consideram muito importante que seja feita essa ligação, que os conteúdos devem ser sempre enquadrados nos contextos dos alunos.

Inserir questionamentos sobre os problemas que ocorrem no bairro, na cidade, sobre as noticias que são veiculadas nos meios de comunicação sempre chama atenção dos alunos e até os leva a participar mais das aulas, conforme as afirmações dos professores pesquisados. “Trazer a discussão em sala de aula para o ‘espaço’ mais próximo do aluno torna o ensino muito mais proveitoso e participativo. O aluno se localiza, identifica-se e acaba criando um elo de aprendizagem com o conteúdo abordado”.(PROFESSORA 4)

Foi ainda observado pela Professora 3 que os alunos estão muito expostos a informações, principalmente pela internet, que são trazidas para a sala de aula e podem ser temas geradores de discussões. Esse ponto destacado é relevante, uma vez que os meios de comunicação estão muito presentes na vida desses alunos (principalmente a TV e a internet) trazendo muitas informações, que precisam ser interpretadas; a Geografia pode auxiliar nesse entendimento: “Questionar o que a mídia apresenta é fundamental, pois, sem dúvida, qualquer criança ou adolescente passa horas em frente à televisão”.(KAERCHER, 2002, p. 140)

Outro aspecto levantado também pelos professores no tocante a ligação entre a Geografia sistematizada e os conhecimentos do aluno é que quando se faz esse elo, provocando o aluno através de um fato, realidade ou lugar que ele conhece bem é que ele sempre tem algo para acrescentar, como destaca a Professora 5: “Eles participam mais, pois têm suas próprias experiências para contar”. Esse ato de ouvir os alunos pode ser enriquecedor:

Parece claro que quanto mais ouvimos os alunos ou, melhor, os provocamos a falar, mais material temos para prepararmos nossas aulas e melhor entendermos seus interesses e sua lógica. Muitas vezes, tomamos, precipitadamente, como ‘errados’ certo dizeres ou pensamentos de alunos, sem nos darmos conta de que seu raciocínio encontra-se em nível distinto do nosso e que, o que para nós é um ‘erro’, para eles pode ser um caminho, um ponto de partida para um entendimento. (KAERCHER, 2002, p. 139)

Ao considerar essas vivências também vai se evidenciado o aspecto prático dessa disciplina. Toda ciência tem um objetivo, uma finalidade social, ou seja, existe para conhecer um tipo de fenômeno e ajudar a sociedade a conhecer mais sua realidade e resolver problemas práticos. Dessa forma, a disciplina ensinada na escola também tem uma função, está no currículo porque tem um papel a ser desempenhado.

A consideração da vivência no ensino, na verdade, não se deve restringir ao inicio do processo, de nada serve o conhecimento propiciado pelo ensino se não tiver resultados na vivencia prática. E é nesse ponto que se deve destacar

a ligação da aprendizagem de conceitos e a formação de atitudes, de valores e de convicções para a vida cotidiana. (CAVALCANTI, 2001, p. 149)

Foi esse aspecto prático citado também pelos professores pesquisados, ou seja, quando se contextualiza os conteúdos planejados conforme o que o aluno já conhece, eles percebem a Geografia que está presente nas suas próprias vidas. “Precisamos acabar com a ideia de que a Geografia é matéria ‘decorativa’ e que está distante dos alunos. A Geografia é vivida por eles”. (PROFESSORA 1)

Um exemplo muito citado nesta pesquisa foram as enchentes que aconteceram na cidade de Teresina no ano de 2009; através desse acontecimento trágico que atingiu todos direta ou indiretamente vieram vários assuntos à tona, como: o clima, por que em alguns anos chove mais, as casas construídas nas margens dos rios, o que evidencia o problema da habitação urbana, os cuidados com o meio ambiente, a necessidade de se ter um melhor planejamento na cidade, os transportes públicos, entre outros. Esse é apenas um exemplo de como os fatos que ocorrem no lugar mesmo onde os alunos moram podem gerar uma reflexão sobre os temas geográficos, de uma forma que vai despertar curiosidade e interesse por parte dos alunos.

Entendendo as diversidades que existem na escola, uma vez que nelas se encontram alunos de diferentes lugares e que cada um deles contribui com experiências próprias, jeitos peculiares de viver e entender o mundo, pode se ensinar uma Geografia mais crítica, mais comprometida. Dessa forma, ratificamos a importância dessa prática efetivamente existir na sala de aula, resgatar as experiências dos alunos nos seus lugares, que essas sejam consideradas e utilizadas como pano de fundo para uma aprendizagem mais significativa.

Se, por um lado, os professores precisam considerar seus alunos no conjunto da humanidade, não perdendo de vista, portanto, traços universais a serem preservados e/ou construídos/reconstruídos, por outro, é preciso considerar a diversidade presente no contexto escolar, contextualizando-a, especificando-a no lugar, afinal, as diversidades ao são todas iguais, os lugares fazem com que as experiências dessas diversidades também sejam diferentes. (CAVALCANTI, 2005, p. 70)

É nesse sentido de procurar meios de conjugar a Geografia com essa possibilidade de se discutir o lugar onde o aluno mora levando a um melhor conhecimento dele, a uma possibilidade de discussão, de um posicionamento mais crítico, podemos através da prática

docente contribuir para a formação de cidadãos mais conscientes da realidade em que estão inseridos.

4.2. A relação da Geografia e o conhecimento cotidiano vivido no lugar, na visão dos