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1. INTRODUCTION

1.3 S TRUCTURE

A escola não é o lugar da informação, mas da busca e da organização da informação no sentido da construção do conhecimento. (CALLAI, 2000, p. 101)

A ideia que desenvolvemos neste trabalho de utilizar os conhecimentos geográficos que os alunos já possuem em decorrência de suas vivências cotidianas no lugar onde moram na educação formal usa como pressuposto a concepção socioconstrutivista da educação. Consideramos, por conseguinte, enriquecedor abordar alguns aspectos relevantes sobre essa proposta e de que forma ela pode cooperar para uma prática que confronta esses dois tipos de conhecimento: o cientifico e aquele que o aluno já traz para a sala de aula.

Segundo a perspectiva socioconstrutivista da educação no processo de ensino- aprendizagem há uma interação entre o aluno e conhecimento que é mediado pelo professor, pois ele vai construir o conhecimento com ajuda do professor e não somente recebê-lo pronto. Segundo Libâneo (1995) apud Cavalcanti essa concepção pode ser definida:

É sócio porque compreende a situação de ensino-aprendizagem como uma atividade conjunta, compartilhada, do professor e dos alunos, como uma relação social entre professor e alunos ante o saber escolar. É construtivista porque o aluno constrói, elabora seus conhecimentos, seus métodos de estudo, sua afetividade, com a ajuda da cultura socialmente elaborada, com a ajuda do professor. (2001, p. 139)

A partir da Geografia Crítica, com um ensino mais voltado para a construção da cidadania, passou-se a se considerar mais importantes as relações sociais dos alunos. Nessa proposta de ensino, o aluno é levado a refletir sobre a dinâmica da sociedade. Foi nessa corrente que a proposta socioconstrutivista ganhou força, uma vez que considera o aluno como agente social e que tem uma história de vida a ser levada em conta no processo educativo.

As ideias de Vygotsky sobre o processo de aprendizagem e desenvolvimento podem contribuir significativamente para uma visão socioconstrutivista do ensino escolar. Segundo esse autor, o desenvolvimento humano passa por uma constituição social, ou seja, os seres humanos se desenvolvem a partir das relações sociais que vivem, é trabalhada a ideia de internalização dos processos externos; através das interações sociais, a criança vai aprendendo e se modificando. Assim, o pensamento, o desenvolvimento mental, a capacidade de conhecer o mundo e de nele atuar é uma construção social que depende das relações que o homem estabelece com o meio. (CAVALCANTI, 2001, p. 140)

Outro aspecto da teoria de Vygotsky é a importância que se dá ao meio, quanto maior for o acesso aos instrumentos físicos e simbólicos maiores serão as possibilidades de desenvolvimento. Nesse sentido, a linguagem tem papel fundamental, pois possibilita ao sujeito um maior relacionamento, receber informações e expressar suas opiniões e pensamentos.

É nesse sentido, que a teoria de Vygotsky traz uma importante colaboração ao processo de ensino-aprendizagem, pois valoriza as trocas entre os sujeitos, no caso da educação a interação entre professor e aluno. Há uma possibilidade do desenvolvimento de conceitos científicos pelo professor a partir dos conceitos mais cotidianos trazidos pelos alunos; através dessas discussões, esses últimos são enriquecidos pelos primeiros e o conhecimento é internalizado, ocasionando o desenvolvimento dos alunos.

A base das relações em sala de aula seria a interação em que os alunos possam construir conhecimentos e não mais uma relação autoritária entre professor e aluno em que os saberes são impostos, sem questionamentos:

A perspectiva socioconstrutivista [...] concebe o ensino como uma intervenção intencional nos processos intelectuais, sociais e afetivos do aluno, buscando sua relação consciente e ativa com os objetos de conhecimento [...]. Esse entendimento implica, resumidamente, afirmar que o objeto maior do ensino é a construção de conhecimento pelo aluno, de modo que todas as ações voltadas para sua eficácia do ponto de vista dos resultados no conhecimento e desenvolvimento do aluno. Tais ações devem pôr o aluno, sujeito do processo, em atividade diante do meio externo, o qual deve ser “inserido” no processo como objeto do conhecimento, ou seja, o aluno deve ter com esse meio (que são os conteúdos escolares) uma relação ativa, um a espécie de desafio que o leve a um desejo de conhecê-lo. (CAVALCANTI, 2002, p. 312)

A teoria Vygotskyana traz também contribuição sobre a formação de conceitos que, na sua perspectiva, são favorecidos pelas interações em sala de aula. O professor exerce o papel de mediador de forma a auxiliar para que os conceitos espontâneos - aqueles construídos nas relações do cotidiano, que são concretos, mas não estão organizados – em conceitos mais organizados, característica do conhecimento científico.

Vygotsky desenvolve também os conceitos de Zona de Desenvolvimento Real e Zona de Desenvolvimento Proximal. A primeira se refere ao conhecimento que o indivíduo já domina, e a segunda diz respeito ao seu potencial daquilo que ainda pode ser aprendido. Defende ainda que para que aconteça o desenvolvimento do indivíduo é muito importante o papel das relações sociais:

O processo de desenvolvimento e a relação do indivíduo com seu ambiente sócio-cultural e com sua situação de organismo que não se desenvolve plenamente sem o suporte de outros indivíduos de sua espécie. É na zona de desenvolvimento proximal que a interferência de outros indivíduos é mais transformadora. (OLIVEIRA, 1997, p. 61)

O ensino, sob essa ótica, dar-se-á também através de uma relação dialógica, em que os sujeitos do diálogo – professores e aluno – são de uma diversidade social, econômica, cultural, na qual essa troca pode ser enriquecedora para ambos os lados. É muito importante considerar esse contexto, pois a palavra só pode ser entendida nesse todo e não de forma isolada. Na teoria de Vygotsky, a palavra assume importante papel, é através da linguagem que funciona, como uma ferramenta do pensamento, que o sujeito tem a suas relações intra- subjetivas e por meio delas vai se criar um novo aprendizado e consequentemente um maior desenvolvimento.

Na Geografia, esse diálogo entre professor e aluno e entre os conceitos cotidianos e os científicos vai contribuir para a formação de conceitos geográficos, que possibilitarão o desenvolvimento da espacialidade dos alunos. Essas idéias trazidas pela teoria socioconstrutivista, reforçadas por Vygotsky, trazem a necessidade de haver essa relação entre os conceitos cotidianos, mediação pedagógica para a formação dos conceitos geográficos e o desenvolvimento do aluno. Dessa forma, o conhecimento do cotidiano tem que ser levado em conta pelo professor, pois expressa as experiências que o indivíduo tem no seu espaço, contribuindo para a formação de um conhecimento mais sistematizado.