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8. GENERAL DISCUSSION AND CONCLUSION

8.6 C ONCLUSION

George Vignaux (1995,p.565), em seu texto, “Entre linguística e cognição: problemática da enunciação em certos desenvolvimentos tirados da obra de Culioli”, observa: “muitos linguistas ficariam embaraçados se lhes pedissem para explicar ‘o que se passa entre as palavras e o mundo’, o que são os ‘poderes do discurso’ e outras coisas que intrigam nossos semelhantes” (ibidem,p.565). Para ele, o objetivo de todo linguista é a construção de um objeto teórico que concentre propriedades para fundar uma ciência, e explicita: “a ‘língua’ será esse ‘objeto teórico’ de que se sabe, simplesmente, que é comum a todos os membros de uma mesma comunidade linguística, ainda que, no entanto, cada um a empregue com a sua própria competência”. (ibidem,p.565).

Para Vignaux (1995,p.565) é imprescindível entender que o mesmo objeto teórico perante o qual se debruçou Saussure, priorizando a descrição e a compreensão de seus mecanismos “em nome de uma pureza e estaticidade” (ibidem,p.565), passa a ser visto por um outro ângulo por Benveniste, preocupado com “as condições de emprego da língua”, enfatizando o fenômeno da enunciação que seria “esse colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização” (BENVENISTE apud VIGNAUX,1995,p.566). De acordo com o citado texto, ao longo do século XX, observamos um movimento cauteloso, considerando as concepções de linguagem e língua que convergiram para uma teoria da enunciação, “levando em conta as categorias distintas da definição dessas ações da linguagem, mas visando a modelar suas combinações semânticas, conforme os diferentes níveis de ‘profundezas’ linguísticas, cognitivas, sociais ou antropológicas” (VIGNAUX,1995,p.566).

Segundo Culioli (1976,p.3-4), a atividade de linguagem, que corresponde à faculdade universal da espécie humana de produzir e interpretar textos, por ser simbólica (cognitiva), não pode ser diretamente observável. Ao afirmar que a “linguística tem como objetivo estudar a linguagem apreendida através da diversidade das línguas naturais e dos textos orais e escritos” (CULIOLI,1990,p.14), que são concretos (mesmo os textos orais podem ser gravados, filmados e repetidos quantas vezes seja necessário), podendo ser observados e manipulados (ibidem,p.12), esse estudioso está propondo, assim, que o estudo se sustente sobre a língua para compreender a linguagem (ibidem,p.14). Essa atividade simbólica se materializa, portanto, em cada uma das línguas naturais nas quais se projeta e a partir delas se concretiza (CULIOLI e DESCLÉS,1981,p.21).

Para esta abordagem teórica, as línguas naturais são sistemas autônomos de representações, compostos de unidades linguísticas, aqui entendidas como substitutos simbólicos de objetos. Elas são concebidas, ainda, como produtos históricos localizados sobre espaços geográficos (CULIOLI; DESCLÉS,1981,p.21), daí percebermos, ao longo das leituras sobre o tema, que há uma intenção metodológica de seus defensores ao enfatizar que:

O objeto da linguística é ‘o estudo da linguagem apreendida através da diversidade das línguas’. Isso significa que os linguistas: 1º partem dos textos formulados nas línguas; 2º constroem os protocolos experimentais de observações, constroem os sistemas de representações linguísticas e metalingüísticas; que permitem notar as operações liberadas a partir das observações; 3º investigam até validar as operações e retornam aos textos, nas línguas para; 4º avaliar a pertinência dos sistemas de representações elaborados. (CULIOLI; DESCLÉS,1981,p.21).

A partir desses pressupostos, fica depreendido que a linguagem é um objeto construído de modo que as línguas sejam uma atualização empírica observável da própria linguagem (ibidem,p.21). Esta é apreendida, nesse caso, através das produções efetuadas pelas operações colocadas em jogo pela atividade cognitiva dos sujeitos. Conforme Culioli e Desclés (1981,p.21), as operações não são totalmente entendidas ou dominadas pelos linguistas (nem por psicólogos, nem por filósofos), elas devem ser descobertas na série de observações repetitivas e transmissíveis.

Assim, de acordo com o raciocínio desses teóricos, cada língua é uma manifestação social da linguagem; cada enunciado, cada texto é uma realização individual de um ato de linguagem (ibidem,p.22). Dessa forma, a linguagem não pode ser apreendida, segundo Culioli e Desclés (1981,p.22), senão por meio dos enunciados efetivamente produzidos ou suscetíveis de ser produzidos pelos enunciadores concretos, já que cada utilização da língua produz um texto fônico ou gráfico. As línguas naturais são, portanto, produtos da atividade de linguagem. Nessa abordagem teórica, Culioli e Desclés (1989,p.23) postulam que, ao produzir um texto, um sujeito visa a representar para seu ouvinte/interlocutor um estado de coisas ou um evento; o ouvinte recebe o texto e, a partir desse, ele deve reconstruir o “estado de coisas” ou o “evento” representado pelo enunciador ou pelo texto escrito. Na sequência, eles enfatizam que o sistema de representação (ou sistema linguístico) próprio de cada língua natural não tem correspondência biunívoca com a realidade extralinguística, embora tenha relação com uma realidade sensível aos órgãos de percepção (ibidem,p.23). Culioli e Desclés (1981,p.23) concluem essa temática explicitando que cada sistema linguístico é adquirido e

construído pelos sujeitos falantes/ouvintes que, em interação com o contexto apropriado, aprendem a representar o mundo no qual estão imersos. Sobre isso Culioli explicita:

Eu insisto sobre esses dois pontos: de um lado, eu afirmo que o objeto da linguística é a atividade da linguagem (ela própria definida como operações de representação, de referenciação e de regulação); de um outro lado eu afirmo que essa atividade nós podemos apenas aprender, a fim de estudar o seu funcionamento, através de configurações específicas, de organizações em uma língua dada. A atividade de linguagem remete a uma atividade de reprodução e de conhecimento das formas, ora, essas formas não podem ser estudadas independentemente dos textos, e os textos não podem ser independentes das línguas”.

(CULIOLI apud PAVEAU e SARFATI,2006,p.186)