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Nesta seção buscou-se apresentar uma breve perspectiva histórica do setor citrícola, uma vez que a aplicação do postponement na indústria do suco de laranja se deve, entre outros fatores, à maneira como o setor é organizado no Brasil.

As primeiras indústrias processadoras de laranja foram instaladas na década de 1940 no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nessa época, a citricultura brasileira se desenvolveu principalmente para suprir a demanda doméstica de centros urbanos, como a cidade do Rio de Janeiro, sendo considerada uma cultura acessória doméstica, em comparação com o café e o açúcar, produtos de exportação (PEREIRA, 2008).

Somente na década de 1960 que a indústria brasileira de suco e outros subprodutos da laranja ganharam impulso. A motivação foi a grande geada que, em 1962, destruiu grande parte da citricultura dos Estados Unidos. Os danos foram enormes e a recuperação muito lenta. A falta de suco provocada pela geada transformou o Brasil em um promissor pólo alternativo para os mercados norte-americanos e europeus, sendo então criadas pequenas fábricas, quase experimentais, no interior paulista. As estatísticas oficiais registram algumas exportações de suco de laranja em 1961 e 1962. Mas para todos os efeitos, a indústria brasileira de cítricos, voltada para a exportação nasceu em 1963, quando exportou mais de 5 mil toneladas de suco, arrecadando pouco mais de 2 milhões de dólares. (HASSE, 1987).

As primeiras indústrias de Suco de Laranja Concentrado e Congelado (SLCC) se instalam no estado de São Paulo, em geral, associando produtores nacionais com grupos estrangeiros, tanto processadores como importadores (Neves & Lopes, 2005).

Já na década de 1980, o Brasil se tornou o maior produtor mundial de laranjas, passando os Estados Unidos em volume produzido. Atualmente, a citricultura brasileira é um

dos setores do agronegócio brasileiro mais competitivos e está voltada prioritariamente à exportação. De acordo com Fracalanza et al. (2007), os custos de produção do suco de laranja no Brasil são os mais baixos, e a produtividade média da laranja no Brasil cresceu aproximadamente 30% em relação à última década.

Os principais produtos obtidos do setor citrícola, segundo Souza (2006), são classificados em quatro segmentos, a saber: laranja de mesa (fruta fresca), suco natural, suco de laranja integral pasteurizado (SBPI), suco de laranja concentrado e congelado (SLCC). Estes dois últimos, geralmente, são obtidos pelo processamento da laranja pelas empresas processadoras de suco de laranja (foco desta pesquisa), sendo explicados com maiores detalhes a seguir.

O suco de laranja integral pasteurizado, também denominado suco de laranja pronto para beber industrializado - SPBI (ou NFC - not from concentrate, na sigla em inglês), é um suco extraído naturalmente da laranja, sem diluição ou adição de açúcar ou outros componentes e é utilizado como bebida pronta, sem a necessidade de reconstituição, com o mesmo frescor do suco espremido na hora.

O suco de laranja concentrado e congelado (SLCC), mais conhecido pela sua sigla em inglês (FCOJ - frozen concentrated orange juice) é obtido por meio do processo de extração e concentração da polpa da laranja, sendo, após este processo, congelado a baixas temperaturas para preservar suas propriedades naturais. Em geral, o SLCC é o suco do qual se extraiu água até chegar-se à concentração de 65º Brix (65% de sólidos solúveis e 35% de água), forma ideal ao congelamento, sendo necessária a adição de aproximadamente cinco porções a mais de água para sua diluição e consumo. Em algumas empresas processadoras de suco de laranja, o SLCC é ainda dividido em duas sub-categorias que definem sua forma de processamento, venda e tipo de postponement aplicado. Essas categorias são: o suco standard (ou padrão) e o suco especial. O suco standard constitui-se de uma preparação padrão (ou base), para que o processamento final do suco seja realizado posteriormente. Dentro desta categoria são produzidas duas a três bases padrão, separadas de acordo com as características dos mercados a que se destinam. Já o suco especial é mais customizado, produzido dentro de características pré-determinadas pelos clientes. Neste caso, embora a configuração final também seja realizada pelas empresas clientes, algumas vezes, suas características já devem ser definidas desde o momento do plantio e separação da laranja, para que seja possível fornecer um suco com as propriedades e sabor exigidos pelos clientes.

O suco é o principal produto do processamento da laranja. Porém, há outros subprodutos da indústria citrícola, que também possuem valor comercial expressivo. Destacam-se os óleos essenciais da casca utilizados como insumos na indústria de alimentos, bebidas, cosméticos e perfumes; essências aromáticas obtidas na concentração do suco; d'limoneno empregado na fabricação de tintas e solventes; farelo de polpa cítrica destinado à produção de ração e polpa de laranja utilizada pelas indústrias de alimentos e bebidas. Todos eles são também exportados.

O Estado de São Paulo é responsável por aproximadamente 95% das exportações brasileiras de suco de laranja. O maior volume de laranja produzido no estado se destina ao processamento de suco de laranja concentrado congelado (SLCC, ou FCOJ, em inglês). A indústria de processamento de SLCC é bastante específica, pouco flexível, pois demanda grandes investimentos. É projetada para processar exclusivamente laranjas (em alguns casos, também limão).

No Brasil, a citricultura é quase que totalmente voltada para indústria, tendo grande parcela de sua produção destinada ao mercado externo, ou seja, o suco de laranja concentrado e congelado se configura como principal produto do setor, sendo exportado para diferentes países, tendo como os principais consumidores os EUA e Europa. Segundo Neves et al. (2004) aproximadamente 82,14% da produção de laranja produzida no estado de São Paulo (maior produtor) é destinada ao processamento de suco, 17, 26% ao mercado interno e 0,6% para exportação de fruta fresca.

Em todo o mundo, as empresas de sucos vêm se juntando às multinacionais de bebidas, por meio de fusões e aquisições. O mercado é cada vez mais restrito. As empresas processadoras de suco de laranja: Citrosuco, Cutrale, Citrovita e Louis Dreyfuss dominam a produção e exportação brasileira. As duas primeiras, líderes mundiais, são familiares e têm suas origens na década de 1960; a Citrovita, a que mais cresce atualmente, é do grupo Votorantim; e a Louis Dreyfuss, francesa, também é familiar. A Cargill pertencia ao seleto grupo, mas deixou a atividade no Brasil. É interessante notar que estas empresas não investem em marca própria, nem na distribuição de seu produto até o consumidor final. Sua estratégia de operação consiste na redução de custo de produção e melhoria de logística, ou seja, estratégia adotada para commodities. Dentro desta estratégia, estas empresas adquiriram terminais privados no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Também devido a este posicionamento, estas empresas adquiriram unidades fabris na Flórida, segundo centro mundial de produção de laranja, expandindo sua atuação de produção. Assim, ainda que o

Brasil seja o maior produtor mundial de suco de laranja, as exportações brasileiras referem-se ao produto processado básico, o qual é posteriormente colocado no mercado com marcas próprias por distribuidores locais. Dentre as companhias que atuam na comercialização de sucos, pode-se citar: Gerber Foods, Tropicana, Eckes-Granini, Refresco Holding, Conserve Itália, Procter & Gamble, Riedel Drinks e Coca-Cola Company.

Nesta pesquisa, o foco será principalmente as empresas processadoras do suco concentrado e congelado situadas no Brasil e responsáveis pelo produto base (o SLCC e o suco integral) que terão sua produção final e processo de adição de embalagem e distribuição postergados a outras empresas clientes, localizadas, em sua maioria, no exterior.