Existem diversos métodos de procedimento disponíveis para a realização de uma pesquisa. De acordo com Yin (2001), cada estratégia apresenta vantagens e desvantagens próprias e para obter o máximo de uma estratégia, é necessário conhecer a diferença entre elas. Além disso, a escolha entre elas depende de três condições: o tipo de pesquisa, o controle que o pesquisador possui sobre os eventos comportamentais efetivos e o foco em fenômenos históricos, em oposição aos fenômenos contemporâneos.
No Quadro 3.3, uma síntese de alguns métodos de procedimento é apresentada, seguida de uma análise da relevância de cada um para o escopo dessa tese.
Método de
Procedimento Características
Survey
Bryman (1989); Forza (2002)
consiste na coleta de dados por questionários com perguntas estruturadas; envolve a coleta de informações de indivíduos sobre eles mesmos ou sobre a
unidade social a qual eles pertencem;
pesquisadores não intervêm na organização e observam os efeitos das intervenções;
determina informações sobre ampla população com um nível de conhecimento acurado. Modelagem/Simulação Berends e Romme (1999); Bertrand e Fransoo (2002)
consiste na construção de um modelo que represente física ou simbolicamente um sistema real;
possibilita que variáveis possam ser manipuladas para que sejam obtidas previsões a respeito do comportamento do sistema real;
tipicamente quantitativo.
Experimentos
Bryman (1989)
são realizados em grupos de indivíduos (no caso da pesquisa organizacional); objetiva o estabelecimento de relações de causa-e-efeito entre as variáveis
dependentes e independentes;
o pesquisador tem controle sobre as variáveis dependentes.
Pesquisa-ação
Thiollent (1997); Coughlan e Coughlan (2002)
tem como objetivos entender uma ação e criar conhecimento e teoria sobre aquela ação;
possui um caráter participativo, pois promove ampla interação entre pesquisadores e membros da situação investigada;
o pesquisador torna-se parte do campo de investigação.
Estudo de Caso
Yin (2001); Bryman (1989); Voss et al. (2002)
o foco está na perspectiva dos indivíduos e no contexto;
ênfase em fenômeno contemporâneo dentro de seu ambiente natural;
útil quando os limites entre o fenômeno e seu ambiente não estão bem definidos; o pesquisador define o que deve e o que não deve ser levado em consideração na
coleta de dados;
fontes de dados qualitativas: entrevistas, observações diretas e análise de documentos.
QUADRO 3.3 - Tipos de métodos de procedimento
Fonte:Elaborado pela autora
Pelas características dos métodos descritos acima e as características desta pesquisa, pode-se descartar os procedimentos survey, experimentos e simulação. Como a presente tese tem por objetivo captar a perspectiva dos indíviduos a respeito do fenômeno em estudo e não possui uma teoria bem consolidada sobre a aplicação do postponement em empresas alimentícias, estes métodos tornam-se inadequados para proposta de trabalho. Adicionalmente, Yang & Burns (2003) e Dröge et al. (1995) afirmam que pouco se conhece sobre as melhores maneiras de se implantar o postponement e que modelos conceituais ainda devem ser desenvolvidos por meio de estudos de caso antes que pesquisas quantitativas sejam efetuadas. Finalmente, a pesquisa ação não é adequada devido a requerer a participação intensa do pesquisador junto com outros membros da organização estudada em atividades
dentro da organização, e nenhuma organização disponibilizou-se a permitir a presença do pesquisador por um longo período de tempo na empresa.
Assim, o estudo de caso é o mais adequado às necessidades da pesquisa. Segundo Yin (2001, p.32), “um estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro do contexto da vida real, especialmente quando os limites entre fenômeno e contexto não estão claramente definidos”. O foco desta pesquisa é direcionado para a situação presente, ou seja, a amplitude que as empresas alimentícias têm utilizado o postponement, os fatores que caracterizam e possibilitam a aplicação do conceito e medidas para avaliar seu desempenho. Além disso, o estudo de caso permite captar as percepções dos indivíduos sobre as condições para adoção do postponement e medidas para sua maior aplicação na indústria de alimentos, detalhes que não são obtidos através das limitações estruturadas de um rígido questionário, como no método survey, ou dentro de um laboratório, como na simulação e modelagem.
De acordo com Yin (2001), os estudos de caso podem ser exploratórios, descritivos ou explanatórios. Os estudos exploratórios ocorrem no estágio inicial de muitos programas de pesquisa, onde a exploração é necessária para desenvolver idéias e questões de pesquisa. Os objetivos deste tipo de estudo são: buscar antecedentes e maior conhecimento para uma pesquisa descritiva ou explanatória; manejar com maior segurança uma teoria; ou servir para levantar possíveis problemas de pesquisas. Já os estudos descritivos têm por objetivo aprofundar a descrição de determinada realidade e relatar com maior exatidão os fatos e fenômenos desta realidade. Finalmente, nos estudos explanatórios, as questões lidam com ligações operacionais que necessitam ser traçadas ao longo do tempo, ao invés de serem encaradas como meras repetições ou incidências. Visa identificar os fatores que determinam ou contribuem para a ocorrência de certos fenômenos. Aprofunda o conhecimento da realidade porque explica a razão das coisas (YIN, 2001 e TRIVIÑOS, 1987).
Os estudos de caso desenvolvidos nesta pesquisa são de natureza exploratória, pois apesar de haver mais de 50 anos de estudos acadêmicos sobre o tema, o processo de adoção do conceito postponement no ambiente de negócio brasileiro e principalmente nas empresas de alimentos é ainda pouco explorado. Além disso, o objetivo da pesquisa é descobrir idéias e relações novas, levantar informações sugestivas a respeito da prática de postponement nas empresas da indústria de alimentos.
A pesquisa de estudo de caso pode, incluir tanto estudos de caso únicos quanto estudos de caso múltiplos (YIN, 2001). Um estudo de caso único é justificável quando o caso
representa um teste crucial da teoria existente, quando o evento é raro ou exclusivo ou quando o caso serve a um propósito revelador. Já estudos de caso múltiplos seguem o mesmo fundamento lógico do estudo de caso único, apresentando algumas vantagens e desvantagens. Os estudos de caso múltiplos aumentam a validade externa, os resultados são considerados mais convincentes, facilitam a replicação e possibilitam a comparação entre casos. Por outro lado, mais recursos são necessários e tem-se menos profundidade por caso (YIN, 2001 e VOSS et al., 2002). Esta pesquisa foi desenvolvida em múltiplos casos, para aumentar o grau de validade externa e também reduzir qualquer viés do pesquisador no decorrer da pesquisa.