Para Lacan (1970), o discurso da histérica é o discurso eminentemente do ser humano, aquele que é desde sempre dividido pela linguagem e pelos significantes dados a priori, marcado sob a insígnia da falta. A histérica coloca o outro para trabalhar e produzir saber, portanto o saber não está nela. A posição histérica, ocupada, quer seja pela professora ou pelo professor, demanda do estudante que produza para ele respostas para suas dúvidas e angústias existenciais, dito de outro modo, para seus sintomas, o que é da ordem do impossível, pois a resposta aos seus enigmas jamais existirão.
A docência é uma das posições discursivas escolhidas e possíveis de serem ocupadas na vida, uma posição sintomática com a qual os docentes têm de se haver e dar conta para extraírem algum sentido do processo pedagógico e da função de educador. O professor, na posição do discurso da histérica, a de quem demanda do outro o custo da felicidade, coloca em evidência o que há de angustiante no exercício docente.
Com essas mídias não se consegue mais dar aula. O menino não querendo saber de nada! Só no celular! Temos que fazer isso, aquilo. (Profa. Lia).
Essa é uma das posições discursivas que pode ser muito criativa, se bem manejada, já que este discurso, se tomado pelo professor pode, e muito, ser produtivo e subverter o discurso do Mestre, que é preponderante na escola. O discurso histérico é aquele que coloca o outro para produzir saber sobre seu desejo indecifrável, ou, como salientam Rinaldi e Coutinho Jorge (2002), sobre o objeto causa de seu desejo.
É possível ao professor, planejando as atividades junto com seus alunos, encontrar estratégias para implicá-los na aquisição do próprio saber. Perguntados a
respeito das estratégias criadas para darem conta do mal-estar na escola, os docentes responderam, em sua maioria, que não viam muita saída. No geral, conversavam uns com os outros, nas reuniões, em dias de coordenação, contudo, não havia estratégias coletivas negociadas entre eles visando a atuação com os alunos.
O desejo é o elo entre professor e aluno, balizado na e pela transferência, que dá o suporte necessário ao docente para enfrentar internamente os embates e os desafios diários, comuns em toda escola. A professora que fez o relato abaixo deixou transbordar em suas palavras a angústia vivida em seu cotidiano, já que não encontrava mais prazer em ensinar e, como dito acima, não encontrava saída ou estratégia alguma. Para ela, as vicissitudes do ofício eram particularmente penosas, dolorosas e adoecedoras. Não conseguia mais criar, nem mesmo movimentar-se, é como se estivesse paralisada, acuada e sem recursos.
Eu tenho noção de que não gosto disso, estou acomodada, não tenho motivação. (Profa. Mara).
Tamponar a falta existencial é a grande demanda da posição histérica, a busca do saber sobre seu desejo, o enigma sobre o qual se depreende um quantum enorme de angústia, que surge sob forma de questionamentos, tais como, “o que o Outro quer de mim?”, “Quem sou eu?”. No entanto, a demanda de busca de respostas positivas para seu enigma é, na relação professor-aluno, dirigida imaginariamente aos estudantes, que não podem responder à demanda de amor do professor. A recusa do aluno se torna fonte de estresse e de sofrimento para o professor, que elegeu o estudante como depositário de seu desejo. A fala da Professora Lia deixou clara sua angústia em relação ao desinteresse dos alunos pela aquisição de conhecimentos e por suas aulas, o que feria, frontalmente, o narcisismo da docente. A professora, que se declarava extremamente fragilizada, colocava em palavras, com muita agressividade, sua frustração em relação ao desinteresse dos estudantes:
Só falta a gente ir pra cima da mesa e dançar lá o tchá- tchá- tchá e colocar uma melancia na cabeça, porque de outro jeito não tem como. Só falta a gente colocar um nariz de palhaço! (Profa. Lia).
O que caracteriza o discurso é o significante que está no lugar de agente, ocupando o lugar de semblante, nos diz Quinet (2012). No caso do discurso da histérica, quem o agencia é aquele que assume uma posição de quem demanda do outro a produção de saberes. Nesta medida, para Quinet (2012), o ato da posição discursiva histérica é o tratamento do outro objetivado pelo saber, pois cada discurso tem seu próprio ato. Tomado assim, o professor que atua em sua prática docente, a partir desta posição, tem a função de assumir na escola o lugar de quem demanda do estudante desde sua aprendizagem até o manejo do desejo de desejo do professor ou a busca de seu prazer em relação à educação.
O bom ensino não está ligado à técnica ou a aulas deslumbrantes, mas, sim, ao ensino que suscita no estudante o desejo de saber, de ir em busca do desconhecido e de apreendê-lo. Todavia, professores e estudantes nem sempre encontram esse caminho e acabam por se violentar nas relações intersubjetivas.
O sistema educacional brasileiro é errado, a escola pública prepara é para a universidade. A grande parte quer é trabalhar. O ensino acadêmico pra 200 milhões de pessoas não funciona. Nem todo mundo quer estudar. O Brasil tá querendo o quê? Meter todo mundo lá no Pós-Doc? Na periferia, a gente tem que colocar sonhos na cabeça dos meninos. O menino tem que ter a opção de não fazer universidade, mas ter uma profissão. Não tem curso técnico. Tem que dar profissão para os meninos. O acesso ao ensino superior é muito difícil. (Prof. Tito).
Há uma diferença radical na postura do docente que é sensível às tarefas que ele mesmo propõe e que são cumpridas pelo estudante, ou que valoriza as produções dos estudantes no curso de seu desenvolvimento e aprendizagem, e aquele que deposita no aluno suas angústias e agressividade. Foram ouvidas, sobretudo, no grupo clínico, as expressões de professores para quem o ensinar havia se transformado em uma tarefa realmente impossível, face à renúncia ao ato educativo.
As melhores turmas são as que você consegue passar uma mensagem e aceitam a hierarquia e aceitam que o professor sabe um pouquinho mais do que eles. Só tem um aluno suprassumo da nota, os outros são horríveis. (Profa. Lia).
A fala da professora, que transbordava uma agressividade contida, deixou clara sua resistência e o discurso de desinvestimento do próprio desejo em relação à educação de seus alunos.