ENTRE PRÁTICA EDUCATIVA E O DISCURSO DO PROFESSOR
Da prática educativa desempenhada pelos docentes escutada durante o trabalho clínico com professores, pôde-se depreender que o docente se estabelece na prática pedagógica de acordo com o seu próprio discurso.
Com efeito, o discurso do sujeito no contexto social foi teorizado por Lacan (1970) quando anunciou que são quatro as posições discursivas possíveis de serem ocupadas no âmbito social. Assim, Lacan utilizou deste recurso para falar a respeito da constituição do sujeito e dos vínculos por ele estabelecidos, apresentando as possibilidades discursivas para o homem engendrar sua condição humana.
Ao situar a etimologia da palavra discurso2, é interessante notar que o termo não trata necessariamente de um excesso de palavras, mas, ao contrário, ela vem do latim discursus, particípio passado de discurrere, “correr ao redor”, formado por dis, que quer dizer “fora”, mais currere, cujo significado é “correr”. O que quer dizer que não há continuidade, mas sim (dis)curso, e, neste sentido, há falta de palavras, já que não se pode prever o todo do seu sentido e nem mesmo o seu efeito no outro. A este respeito, Forbes (1999) diz que o conceito de discurso trata justamente da noção do imprevisto que há no uso da linguagem, pois está fora do curso, mostra um sentido de desregramento. Como é um dis-curso, diz respeito a uma des- continuidade ou à incompletude.
Desde os anos de 1950, Lacan se preocupou em tratar deste tema e em tentar compreender como o discurso, para além das palavras, estabelece seu status, já que alguma coisa estaria fora de seu lugar devido ao mal-estar do homem. Assim, após longos anos de estudos e de pesquisas a respeito de como a palavra poderia ser tratada para além do enunciado, ou mesmo como o silêncio poderia ser escutado, Lacan, em “O avesso da Psicanálise” (1970), anunciou que o que prefere, e até proclamou um dia, é um discurso sem palavras. Desta maneira, é possível pensar que há no que se fala algo que não é somente da ordem das palavras, mas
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Origem da Palavra – Site de etimologia. Disponível em: <http://origemdapalavra.com.br/site/>.
escapa ao seu sentido, ao curso que pode ser dado, saindo do previsto a priori, já que o que importa é a posição que o sujeito ocupa diante do que fala.
Notadamente, o acento não está, justamente ou efetivamente, no que o sujeito fala, mas como fala, ou de qual lugar diz alguma coisa, o que não é da ordem do enunciado, mas da enunciação, da cadeia de significantes a qual pertence. Por esta perspectiva, a palavra pronunciada escapa ao dito. Para se reportar às marcas do discurso no outro, Lacan (1970) recorre a Freud, que compara os pontos de fuga, os furos, o impossível de controlar no discurso, ao umbigo, que é por vazar que toma seu sentido. Assim, pode-se concordar com Coelho (2006) que a teoria dos discursos tem posição relevante no que toca à teoria psicanalítica, justamente por instaurar um novo modo de pensar às estruturas e ao vínculo social ao articular os campos da linguagem e do gozo, o sujeito e o saber inconsciente.
É possível pensar o laço social estabelecido pelo professor com os demais participantes do cenário escolar, pois as perspectivas do campo da linguagem e do gozo, onde habita o humano, podem ser articuladas para compreender os vínculos instaurados no âmbito educativo.
Os discursos nada mais são do que a articulação significante, o aparelho cuja mera presença domina e governa tudo o que eventualmente pode surgir de palavras. “São discursos sem palavras (…) assim, este fenômeno embriagador chamado tomar a palavra (…) vez por outra, não se toma sem saber o que está fazendo” (LACAN, 1970, p. 159).
Os discursos são dinâmicos e circulam, mas o que se pode depreender é que sempre há, em toda instituição, a prevalência de um ou outro discurso. Para Almeida (2010), as instituições são produções humanas inventadas para darem conta de alguma solução para o mal-estar do homem, fundamentadas na produção do laço social.
Assim, as posições discursivas propostas por Lacan são: a posição do Mestre, da Histérica, do Universitário e a posição discursiva do Analista, que no campo discursivo entram em rotação, deslizam uma em direção à outra, em um quarto de volta, no mesmo contexto, na mesma prática social, dependendo da posição que o sujeito ocupa na estrutura discursiva. Esta é composta de quatro lugares fixos, ocupados pelos significantes que irão produzir os giros discursivos e, como efeito, os laços sociais, a partir das quatro posições do discurso.
O algoritmo dos quatro lugares fixos, onde os significantes se localizam e por onde efetuam a rotação, tem o seguinte matema:
agente outro verdade produção
O lugar do agente é ocupado por aquele que dirige ao outro uma demanda, isto é, algum tipo de satisfação de seu desejo, apoiado por uma verdade, que estrutura o discurso. O lugar do outro é ocupado por aquele que recebe a demanda e que, aceitando-a ou não, produz uma resposta, que poderá ou não ter relação com a demanda de satisfação. De todo modo, trata-se de uma demanda que jamais poderá ser satisfeita plenamente, pois o discurso nunca funciona como uma comunicação perfeita.
Os matemas dos quatro discursos são representados a seguir e são constituídos pelos significantes que operam a rotação discursiva, ocupando os quatro lugares fixos do algoritmo e determinando cada uma das posições discursivas.
Discurso do Mestre
S1 S2 $ a
Discurso Universitário Discurso da Histérica
S2 a $ S1 S1 $ a S2
Discurso do Analista
a $
Sinteticamente, S1, significante-mestre, representa o significante da lei, o que singulariza o discurso e a intervenção do sujeito no campo do Outro, no campo do saber; S2 representa a bateria de significantes, é o significante do saber; $ representa o sujeito dividido, castrado, marcado pela falta de objeto; e a é o significante do objeto causa do desejo ou o objeto “mais-de-gozar”.
Coelho (2006) argumenta que Lacan buscou fundamentação teórica para construir seus argumentos no texto de Freud, sobre a histeria, e no estudo de 1930, “O mal-estar na civilização”, cujo conteúdo discute as quatro maneiras de estabelecer laço social e, ao mesmo tempo, representa as maiores fontes de sofrimento do homem, quais sejam governar, educar, analisar e fazer desejar.
A estrutura do discurso é uma maneira, sem palavras, de estabelecer enlaçamentos sociais, uma articulação entre os significantes tomados emprestados da cultura e simbolizados pelo sujeito do inconsciente, aquele que é dividido, incompleto, cuja característica que o funda se assenta na possibilidade de sempre vir a ser. “A palavra não tem outro valor simbólico, com o que se referia ao discurso” (LACAN, 1970, p. 159).
Para conceituar sua teoria dos discursos, Lacan utilizou referências matemáticas como os algoritmos. “ (…) esse aparelho de quatro patas, com quatro posições, pode servir para definir quatro discursos radicais” (LACAN, 1970, p. 18).
Tomando o uso do aporte da Psicanálise fora de seu setting, que é a clínica, e lançando o olhar para a dinâmica escolar, percebeu-se na escuta da fala dos professores que prevaleceu, por suas características, o discurso do Mestre. Todavia, as relações balizadas por tal discurso na escola têm efeitos bastante comprometedores tanto na qualidade das relações quanto na aprendizagem dos estudantes. Como argumenta Almeida (2010), escolas centradas no discurso do Mestre se sustentam na plenitude do desejo do professor, que acredita que tudo vai funcionar bem apenas porque o Mestre assim o deseja. Acredita que basta uma ordem proferida por ele para fazer com que os seus servos obedeçam com competência e subserviência.
Me irrita quando o aluno diz: professor eu não estou entendendo, mas o aluno quer que você fale a resposta pra ele. Aí eu digo: lê aí, cara! Mas não dá! É um analfabeto funcional. (Prof. Joel).
O docente, ao se referir ao estudante desqualificando-o em sua dificuldade ao invés de ensiná-lo, pareceu estar, justamente, investindo no avesso do que deve ser a educação, qual seja ensinar para libertar o estudante de seus entraves. Mas o professor, ao adotar atitudes como a citada acima, está sustentando o não saber de seu estudante para assim ter seu desejo de poder e de mestria garantidos. Todavia, se ele lhe ensina, pode soar como ameaça ao seu narcisismo. Neste caso, o caminho adotado é o de manutenção da dificuldade e do não conhecimento. Assim, percebe-se que nesta posição discursiva há lugar apenas para mestres e discípulos, sendo a função destes a de atender o desejo de seu senhor. Entretanto, o professor que age com esta prática, desconsidera o saber de seu aluno e o que ele tem a dizer.
No ensino médio, a gente tem que fazer tudo novamente, são sempre poucos os que a gente consegue perceber a mudança. (Profa. Lia).
Nas escolas, os estudantes são compelidos à repetição dos conteúdos e ao que o Mestre propõe como regra. Alienado de seu próprio desejo, se assujeita ao do outro, de maneira servil, ou se recusa a aceitar tal posição, pela rebeldia, indisciplina e violência.
Eu não coloco aluno para fora de sala, eu digo: você vai ficar aí, não vai sair não! Vai ficar até o final da aula. (Prof. Tito).
Todas as possibilidades discursivas podem ser articuladas pelo professor na escola, embora seja ela uma instituição marcada, sobretudo, pelo discurso do Mestre, cujo enunciado deixa transparecer o peso de certezas, de verdades, de saberes cristalizados e sem buraco algum, além do teor de hostilidade carregado nas palavras. A desqualificação do outro e o desejo de controle imperavam na fala dos docentes.
A gente ainda controla esses alunos com notas. (Profa. Mara).
Pereira, Paulino e Franco (2011) compartilham da ideia do valor social que a escola tem e dizem que, imaginariamente, a posição adotada pelo professor pode ser, em sua cadeia discursiva, a do Mestre, enquanto aquele que professa, se autoriza à produção de objetos produzidos para seu usufruto, para exercitar seu
poder, objetos de gozo. Esses objetos de gozo podem ser desde as atividades pedagógicas em jogo, como as avaliações e as menções, até mesmo os próprios estudantes. Na escola, a relação entre Mestre e discípulo é legitimada pela legalidade de seu dito que é, senão outro, que o aluno deve submeter-se à lei, mas a do seu desejo.
Lacan (1970) recorreu aos diálogos de Platão para deslindar o saber epistêmico, ligado ao conhecimento. Para elucidar sua crítica, faz a analogia do saber produzido pelo escravo em oferta ao senhor. S¹ é o significante sobre o qual se apoia o saber do senhor que, todavia, é produzido pelo escravo. “O campo próprio do escravo é o saber” (p. 18). Logo, o escravo é quem dá suporte ao saber do Mestre, do senhor, à episteme. Na exacerbação do poder, o discípulo produz o objeto “mais-de-gozar”, objeto perdido na relação do gozo com o saber, que, no âmbito pedagógico, Pereira, Paulino e Franco (2011) anunciam que podem ser os erros, a desordem, já que o sentimento superegóico, seu suposto domínio e obscura autoridade são sustentados pela via do gozo.
Na perspectiva da educação escolar, a palavra do Mestre é aquela que submete seu discípulo, o estudante, ao exercício do seu imaginário poder, legislando, a partir de significantes que legitimam uma condição na qual o sujeito se aprisiona, em um dito que é quase sem possibilidade de retorno. O exemplo disso, na escola, está no discurso pedagógico e no papel desempenhado pelo professor, nas demandas de sua função docente no cotidiano, em que o processo ensino- aprendizagem acontece de maneira que os saberes não são considerados, mas domesticados, quando a escola oblitera as experiências subjetivas e o estudante é embotado na perspectiva da criatividade e da criticidade. Contrariamente, o que produz é necessariamente um conhecimento imposto ao aluno, desprovido de sentido para ele e, assim, fica impossível sua apropriação.
Lacan, no “Seminário 17”, deixa clara sua oposição em relação ao saber todo, o do Mestre, que julga uma imposição, não pertinente à produção de sentidos, cuja verdade não é questionada. Todavia, sobre a verdade, Lacan pronuncia que esta é sempre um semi dizer e pela metade.
Entretanto, o que se escutou dos professores não condizia com a verdade provisória, discutida em Lacan, mas a que não é passível de questionamentos. Uma maneira bastante defensiva de lidar com uma realidade cujo sentido, atribuído pelos
docentes, obturava qualquer possibilidade de acesso a um saber novo, que colocasse em circulação no grupo novas questões e encaminhamentos para debate. Assim, contaminados pelo conformismo, pareciam não estar dispostos a investir qualquer esforço na direção de mudanças nas práticas profissionais e na trajetória escolar de seus alunos. A crença era a de que, para estes estudantes, não compensava investir em aulas mais elaboradas e criativas, ou planejar cuidadosamente as atividades pedagógicas, pois o destino dos adolescentes já estava traçado:
Alguns destes meninos chegam aqui porque não querem trabalhar e saem da escola rapidamente. Para muitos, a expectativa de vida não passa mesmo de 30 ou 35 anos... Às vezes temos notícias que um ou outro foi morto, ou por marginal ou pela polícia. (Prof. Guto).
Nestes recortes de falas, a desesperança comparece no discurso dos professores. Se, por um lado, há um sentimento de menos-valia e de auto- desvalorização por parte dos docentes, na mesma medida desqualificam seus alunos com severas críticas. Assim, a verdade na qual os professores acreditam é um lugar comum que condena o sujeito a perder-se nela. No seminário “De um Outro ao outro”, Lacan (1969) questiona que a verdade absoluta e fechada, sem furo algum, que não abre possibilidades de simbolização, é a morte do discurso, pois depois de tudo dito não há mais nada a dizer.
No mesmo seminário, Lacan diferencia saber e verdade, e diz que o saber acrescenta ao real, portanto, até ao falso dá o tom de verdadeiro. Aliás, deixa claro que só de onde se supõe que é falso que o saber se preocupa com a verdade. O efeito da verdade é apenas uma queda do saber, no sentido de que é justamente pela condição de queda que surge algum produto, ou seja, um resto, o que condiz com o objeto a, o objeto de desejo. Nesta condição, quanto mais se envereda pelos caminhos de uma verdade cristalizada e tenta-se assegurar seu domínio, o que mais se assegura é seu caráter de impossível. Lacan aponta para a impossibilidade da verdade e diz que todo o esforço do homem consiste justamente em assegurar o poder dos impossíveis, e propõe a discussão da posição do homem diante da linguagem, do que pronuncia e da impossibilidade do domínio de seus efeitos sobre o outro. Assim anuncia que o S¹, o significante Mestre, se expande na linguagem como um rastro de pólvora e se engancha ao ponto de fazer discurso.
Diante do exposto, foi possível pensar na impossibilidade do domínio dos efeitos do que se tornou discurso naquele ambiente escolar e da dimensão dos efeitos da linguagem, por meio do dito.
Eu acho que só está piorando e não tem como melhorar. (Profa. Lara). Eu não sei o que fazer com a educação! Não tem como reverter esse quadro. Professor falando pra eles e nada é a mesma coisa. Se eles tivessem interesse... (Prof. Tito).
Eles abrem o Youtube e está tudo lá tem todas as aulas lá. Estão cada vez mais desinteressados pelo conteúdo que a gente passa em sala de aula. Se 10% forem interessados já é demais! (Prof. Joel).
Isso tem reflexos na minha saúde. Todos os dias eu saio daqui mal. Eu saio daqui estressada. A gente recebe 40 alunos, todos falando ao mesmo tempo sem te respeitar. E difícil trabalhar. (Profa. Mara).
Lacan (1953-1954) nomeia a repetição de resistência e de rejeição ao que há de inapreensível e não pode ser representado na cadeia de significantes, também à pulsão, pois é da ordem do real. Todavia, o que está em jogo é a verdade, a que não pode ser dita a respeito do desejo, pois remete à falta, à própria finitude, condição de sujeito barrado. Em Lacan (1970), a repetição remete ao desperdício do gozo, àquilo que é impelido ao gozo pleno e ao excesso. Pela via do discurso do Mestre, os docentes resistem em abandonar a posição de poder e de saber todo. A dificuldade consistia no repetitivo e no gozo desmedido, presentes na crítica defensiva do outro e no mal humor. Se há deboche, boicote e desrespeito na escola, é na relação professor-aluno que eles transitam.
Na internet está circulando a bolsa crack, não vai ter como... eles vão dar um jeito de burlar isso... (os alunos usuários). O cartão vai virar minha pedra minha vida! O governo dá tudo, pra quê trabalhar? É essa palhaçada paternalista. É uma geração apática. Os meninos não têm interesse de fazer diferente do que o pai fez. (Profa. Lara).
Em meio a tantas críticas e queixas, quando os docentes falavam de seu sofrimento psíquico diante do cenário escolar, referiam-se ao mesmo tempo à falta de organização do trabalho docente, às condições de trabalho, na escola, aos colegas e aos estudantes e não somente às suas ações e práticas pessoais. Tudo, na escola, parecia revoltá-los e desorganizá-los internamente.
Eu vejo isso como uma guerra. A gente tá lutando contra o sistema e até mesmo contra professores alienados que não querem mudanças.
Tem colega que não quer nada, está sentado em sala mexendo no Iphone dele. Para o aluno esse professor é gente boa! (Profa. Mara).
A escola é um aparelho ideológico. O aluno não sabe o que quer, se a gente quer dar aula ele reclama. (Profa. Lara).
O aluno só quer desculpa pra malhar. (Profa. Lia).
O professor (que não quer trabalhar) não é alienado não, ele é comodista, é diferente! Alienado é o moleque! É diferente! (Prof. Joel).
6.14 O DISCURSO HISTÉRICO NA ESCOLA COMO CONTRAPONTO AO