As considerações anteriores podem ser pensadas a partir da posição do professor diante do seu próprio discurso. Notadamente, é a posição discursiva ocupada pelo docente que determina sua práxis, em que o desejo comparece em direção à responsabilidade e ao compromisso de educar as crianças e os jovens. A partir do entendimento da Psicanálise, o laço social está ligado à linguagem, já que é por meio das representações simbólicas que o homem tem acesso ao desejo do outro, sobretudo, é a palavra que tem o potencial de tornar presente o desejo e é também o meio pelo qual todos se apresentam na vida social. O discurso diz respeito à apropriação dos recursos, dos códigos linguísticos dispostos culturalmente, cujos sujeitos fazem uso singular, particular, pois aponta para o modo de implicação do humano na vida em cultura. Analisando a importância da linguagem na constituição da criança, Dolto (2002) afirma que o mundo é apresentado para a criança por meio de palavras, um mundo de discurso imbuído de representações simbólicas. Para a autora, cultura é linguagem.
Eu não me intimido. Você tem de resolver a situação, tem de falar com o aluno. (Profa. Lara).
Esta fala retrata a ideia da necessidade da conversa e do uso da palavra para que o professor possa se posicionar diante do seu estudante, a partir de um discurso próprio.
É pela linguagem e pelo discurso que os desejos inconscientes se tornam presentes e arrematam o laço social, e de maneira análoga, na escola, o mesmo acontece, pois há sempre um dado discurso que circula entre os sujeitos. Apesar de toda precariedade e desautorização que hoje o docente enfrenta, a palavra do professor tem e sempre terá um lugar privilegiado na vida psíquica do estudante, já que é estruturante, determinado, desde sempre, por sua importância no processo de ensino e aprendizagem.
Notadamente na escola em questão, no discurso dos professores os estudantes compareciam por meio de vários significantes:
Mal educados, massa de manobra, um psicopata, ruim, desinteressados, coração gelado, curta (um professor assim se referiu à inteligência do estudante), geração apática, alienados, analfabeto.
Como a posição discursiva ocupada pelo professor é habitada por desejos inconscientes, entende-se que sua prática é por ela determinada. É por meio do discurso que o docente se posiciona frente às questões do cotidiano escolar, como a violência na escola. Na posição de mestria, de um saber todo, sem furo e sem possibilidades de questionamentos, o professor ocupa, atualmente, um lugar que parece pouco investido de desejo, deflacionado, um lugar de Mestre-todo. Pela escuta do grupo, os significantes da desesperança e da menos-valia, na maioria das vezes, apareceram quando os docentes se reportavam aos estudantes. Assim, eles eram vistos como incapazes e impediam o professor de ensinar.
É difícil, eles não obedecem, não aceitam regras. Ele só faz o que quer em sala, comete violência na minha cara. (Prof. Joel).
Não tem jeito, a gente leva tudo isso pra casa. Tentando achar uma solução pra quem não merece. (Profa. Mara).
A escola, se não der acesso à palavra como manifestação da subjetividade do professor, faz calar a violência contida em suas vivências cotidianas. A negação do caráter subjetivo do profissional de educação tem como efeito uma série de sintomas que apontam para o comprometimento do sujeito no real do corpo. “A voz,
a garganta, o humor da gente ficam alterados”, desabafa uma das professoras do grupo e o desabafo continua nas palavras de sua colega.
Falam sem conhecer a realidade do professor. Professor vive doente... não gosta de trabalhar! Sempre o DF TV fala que 25% dos professores estão de atestado e não querem saber o porquê. Isso é muito marcante na vida do professor, já não está mais aguentando... e diz? O que me levou a isso? Eu não sou uma pessoa assim (relatava sobre sua condição atual, seu mal- humor, nervosismo e altíssimo grau de irritabilidade). Isso nunca vai deixar de ser assim. E como se só o professor que adoecesse... é muita coisa em cima do professor. O Estado não se sensibiliza. (Profa. Lara).
O retorno do recalcado fala por meio das formações sintomáticas as mais diversas (FREUD, 1914). Efetivamente, o sujeito age de acordo com suas moções inconscientes e recalcadas.
Cada pessoa é de um jeito diferente, umas são mais sensíveis. É muito difícil o professor ficar bem neste esquema que nós estamos aqui. Sempre tem problema que tira teu sono, que vai te perturbar e causar estresse. Cada um vai sentir de maneira diferente. Não que as outras não passem as mesmas coisas que a outra está passando. (Profa. Lia).
A falta de companheirismo reclamada por alguns docentes se traduziu, muitas vezes, na posição do discurso da histérica, que se apresentava na escola sob diversas roupagens, inclusive nas idealizações daqueles que viam os professores como figuras. Alguns professores participavam desta idealização do coletivo docente e, como estratégia defensiva, negavam os problemas do cotidiano escolar e assumiam como produção sintomática a belle indifférence (JAMA, 1969), que diz respeito ao sintoma histérico da indiferença para fazer face à gravidade dos problemas ou do próprio sintoma. Nesta perspectiva, a fala da professora:
Eles (os alunos) não se interessam, eles não estão nem ai! Eu? Não faço mais nada! (Profa. Mara).
Souza (2011 apud Martins, 2011) teoriza a respeito de constituição subjetiva e discute a respeito da problemática do sentimento de exclusão no processo de subjetivação humana. Para a autora, é preciso trabalhar no sentido da desconstrução de saberes, que implica a problematização dos processos de práticas hegemônicas operadas por discursos de desqualificação.
Não tem como não interferir no psicológico da gente. O alto índice de depressão na rede é coisa absurda, é um julgamento precipitado, quem julga não estava na pele da professora. A destruição do sonho já é uma violência, o que ela passou em tantos anos de magistério, as pessoas julgam sem saber. (Profa. Lara).
O professor reclama da impossibilidade de ter o desejo reconhecido, mas nas disfarçadas situações de violência que deslizam no discurso escolar, presentes nas hostilidades veladas, denotando a exclusão do outro semelhante, dão o troco e a resposta àqueles pelos quais se sentem provocados e desvalorizados. Os dois recortes são exemplos de reações às possíveis feridas narcísicas vivenciadas pelo docente em seu cotidiano na escola. Um diz respeito ao colega:
Como em todas as profissões, tem os picaretas que denigrem a profissão; (e o outro uma resposta a um aluno) tem um aluno que me disse, você grita demais, e eu disse, vocês falam demais! (Prof. Joel).
Ao propor a discussão a respeito das violências individuais e coletivas, Barus- Michel (2011) aponta que a identidade coletiva, constituída por pertencimentos, dá força à identidade individual, todavia ao se impor pela violência cada sujeito se trai e expõe sua fragilidade.
A violência cresce na coletividade. Sozinho o aluno não faz tanto, mas se o aluno está em grupo, na sala de aula se o aluno é incentivado... É como na natureza o aluno é como um animal ele age primitivamente. Tudo que ele faz com o colega ele faz com o professor. (Profa. Lara).
A professora cuja fala é retratada abaixo constata a realidade da desautorização do professor e a necessidade de impor limites aos estudantes, a partir de uma posição subjetiva marcada pela Lei:
Nós somos colegas há pouco tempo, mas vocês hão de convir que nós não falamos a mesma linguagem, vocês sabem disso. Tem professor que fala no celular em sala de aula. Como nós vamos exigir que os alunos obedeçam se nós não cumprimos as regras? Eu hoje mandei duas alunas pra fora de sala. A direção permitiu porque são do 3º ano, mas não têm maturidade. Quinta-feira eu deixei meu celular com o diretor (para dar o exemplo aos estudantes). (Profa. Lara).
6.13 AS POSIÇÕES DISCURSIVAS POSSÍVEIS E A PRÁTICA DOS