Figura 09 Figura 10 Figura 11
Figura 12 Figura 13 Figura 14
A assimetria de poder é bem explícita pois, além dos vínculos acadêmico, institucional e espiritual, a condição entre abusador e vítima é de um adulto em relação a uma criança de 10 anos de idade. Na primeira cena onde o abuso sexual ocorre os estudantes estão usufruindo do prêmio em um lugar campestre, brincando e nadando no lago. A voz em off do sujeito-personagem Ignácio explica claramente:
“A cada mês os meninos que conseguiam honras, quero dizer, os que tinham as melhores notas, eram presenteados com um passeio pelo campo. Sempre éramos acompanhados pelo professor de literatura Padre Manolo”.
É crucial durante toda a narrativa a importância do Padre Manolo nas atividades dos alunos e bem representada nesta cena, a predileção que tem em relação a Ignácio. Enquanto todos se divertem com jogos e brincadeiras coerentes com o momento, Ignácio, ainda vestido, canta acompanhado pelo violão de Padre Manolo. O poder exercido por Padre Manolo não se restringe à sua relação com os alunos, o que pode ser verificado na seqüência em que Padre José retira Ignácio do refeitório, ainda sem terminar sua refeição, para cantar em homenagem ao aniversário de Padre Manolo. É assim demonstrado o quão fortemente este sujeito – personagem é investido de um poder autoritário.
Em Faleiros (2005), vemos esse tipo de poder, que não precisa se utilizar da violência brutal, assim como mostrado por Padre Manolo que é detentor dos poderes morais e legais decorrentes dos papéis de sacerdote, professor e diretor da instituição. A hierarquia de poder presente no filme é taxativa no que concerne aos poderes legítimos e ilegítimos que o Padre Manolo detém. Um momento onde fica bem claro esse poder, é a cena da expulsão de Enrique, apesar do pedido e “pagamento sexual” de Ignácio ao afirmar: “Se não o expulsar, farei o que quiser.” Nesta fala, a submissão torna manifesto o jogo entre o poder do adulto e a obediência da criança.
Arendt (1970) afirma que algumas pessoas sentem-se fortes e poderosas quando fazem outro ser humano agir de acordo e em função de seus desejos, ou seja, faze-los submissos à sua vontade. Podemos observar que no abuso de poder de Padre Manolo sobre Ignácio, para fins de satisfação sexual, foram utilizadas estratégias de sedução como mostra a imagem do passeio campestre.
Nesta cena é representada a fixação do adulto em relação à criança. Enquanto seus pares brincam, Ignácio canta acompanhado por Padre Manolo, e as imagens mostram sua expressão de angústia e impaciência (pelo conflito entre o desejo de se divertir e a obrigação de satisfazer o interesse de Padre Manolo). Já as imagens de Padre Manolo mostram seu semblante embevecido pelo prazer em olhar e ouvir Ignácio cantando.
Considerando que o leitmotiv-dramático da história do filme Má Educação acontece em torno do texto “A Visita” escrito pelo próprio Ignácio. Toda a trama é arquitetada em torno das “visitas” que se intercalam como um quebra-cabeça, que é concluído na última cena, quando Enrique fecha o portão e todos os segredos foram revelados; de forma análoga podemos constatar, na afirmação de Ignácio no trecho: “E eu jurei que um dia eu o faria pagar por isso”, o leitmotiv-psíquico do drama do personagem.
Na análise do discurso da carta que Ignácio adulto escreve para Enrique, encontramos o mesmo sentimento de ressentimento/reparação que foi expresso em seu juramento aos dez anos de idade:
“Querido Enrique, enfim tenho noticias suas. Li no jornal. Dirigiu seu primeiro filme, cara. Ainda que seja “underground”. E pensar que o cinéfilo era eu. Vai ficar feliz em saber que ainda escrevo. Estou mandando uma história que daria um ótimo filme. Padre Manolo a inspirou. É incrível, mas encontrei com ele outro dia em Valência. Estou visitando minha mãe agora, mas moro em Valência. Investiguei e ele não é mais padre. Usa o seu sobrenome agora, Berenguer. Trabalha numa editora. É casado e tem um filho. Pensei: ‘esse cara está pedindo para ser chantageado!’. Assim escrevi “A Visita” a história que te envio. Leia, por favor. Nesse momento de minha vida, preciso de muito dinheiro. E aquele filho da puta vai me pagar. Ele me deve muito e chegou a hora de me pagar. Escreva para mim e eu te conto o resto das estória. Não te peço nada, só quero notícias suas. Essa história eu só posso partilhar com você. Te amo. Teu Ignácio”.
Costa (2003), em sua análise do binômio Violência e Psicanálise, apresenta reflexões e considerações relevantes para a compreensão da dinâmica do abuso sexual infantil e as relações de poder imbricadas e representadas no filme. A palavra violência, em uma concepção usual e leiga, é definida como coerção e intimidação através da superioridade física ou “moral”, assim como a ruptura de uma lei ou contrato por alguém que deliberadamente desrespeita um acordo previamente combinado.
Para a teoria psicanalítica a violência é classificada como uma experiência físico-psíquica que, pela reiteração e/ou intensidade, ultrapassa a capacidade de ser absorvida pelo aparelho psíquico. Nesta visão economicista a violência traumática é produzida pelo transbordamento de excitações que ao romperem os dispositivos de proteção do ego, desestabilizam o equilíbrio homeostático psíquico através da dor e da angústia (Costa, 2003). Esta definição está explicitada na revisão de literatura.
O autor nos chama a atenção para essa concepção da violência nas neuroses traumáticas a partir de um critério restrito ao fator quantitativo e econômico. Nesta visão, corre-se o perigo de nivelar situações heterogêneas levando a uma generalização arbitrária do conceito, que conseqüentemente não é percebida em fenômenos sociais e nas intersubjetividades.
Dessa forma, a violência psíquica não pode ser considerada um mero equivalente ou variação quantitativa de sua versão física. O que transforma em violento um “traumatismo cumulativo “ e uma “neurose traumática” não é a soma total da excitação, porém, a representação que lhe será associada como causa. Se a compreensão da violência ficar restrita ao crivo economicista, impedirá o conhecimento e reconhecimento das representações indutoras da violência, que
trazem em sua essência as questões ligadas ao seu conceito leigo e usual, traduzido na utilização arbitrária e gratuita da força dos mais poderosos contra os mais fracos, como o “abuso de força” e o “abuso de poder” (Costa, 2003).
Sendo assim, o que caracteriza o ato ou a vivência da violência não é determinado pelo impacto de uma palmada ou a dureza de um sermão moral usados para a “educação” da criança, nem também os processos de humanização para inserção aos tabus da cultura, as leis da linguagem ou mesmo a chamada violência- traumática-do-nascimento; pois como afirma Costa (2003 ):
“Qualquer uma destas condutas impõe, como condição de sua realização, momentos de coerção e, por conseguinte, de desprazer. Todavia, o essencial é que nenhuma delas, em seu funcionamento ideal, se exerce à revelia da lei. O sujeito que a elas se submete saberá, portanto, reconhecer o caráter necessário da submissão.
Totalmente diferente é a experiência da violência. Nela o que domina é o sentimento ou pensamento da gratuidade e do arbítrio. O sujeito violentado é o sujeito que sabe ou virá a saber, sente ou virá a sentir, que foi submetido a uma coerção e a um desprazer absolutamente desnecessários ao crescimento, desenvolvimento e manutenção de seu bem-estar, enquanto ser psíquico.
A violência é portanto um fato da cultura e só existe em relação a uma lei. Psicanaliticamente falando, esta lei ou contrato diz respeito ao direito que todo sujeito tem de ocupar um lugar irreversível na cadeia das gerações e uma posição em face da diferença dos sexos, conforme o sistema de regras que ordena seu meio sociocultural” (Costa, 2003, p. 125).
De acordo com essas premissas podemos afirmar que Padre Manolo rompeu todos os contratos referentes as suas funções de professor, diretor e sacerdote, pois tais atividades profissionais/espirituais regem-se por princípios éticos e jurídicos.
Qualquer profissional que tem por atividade a relação direta com pessoas, e no caso do filme, crianças, subordina-se a um estatuto social e profissional de respeito aos direitos humanos e individuais. Como sacerdote tal postura traz em si toda uma gama de sacralização e mitificação do sujeito que estaria “ungido” por
poderes humanos e “sobre-humanos”, logo a autoridade “espiritual”, dependendo do meio sócio-cultural, extrapola a esfera do poder profissional e/ou legal.
Alguns discursos, principalmente entre Padre Manolo e Padre José mostram que eram conscientes de seus papéis sociais. Como na seqüência em que Zahara tenta sair do escritório mas Padre José chega e comete o assassinato:
“Padre Manolo – Você a conhece?
Padre Jose – Você o conheceu melhor que eu. É Ignácio Rodriguez. Padre Manolo – Ignácio! Não pode ser.
Padre Jose – Temos de acabar com ele. É um perigo para toda congregação. Padre Manolo – Quer nos dizer algo.
Padre Jose – Sim, que o soltemos.
Zahara (Juan-Angel) – Se vão me matar gostaria de me confessar antes. Padre Jose – Confessar o que. Graças a você, não temos saída.
Padre Jose – Temos que manter a calma. Eu me livro do corpo. Padre Manolo – Como?
Padre Jose – É melhor se não souber de nada. Foi em defesa própria. Ele teria tornado nossas vidas impossíveis.
Padre Manolo – Sim. Suponho que sim.
Padre Jose – Alem disso, não tem testemunhas. Padre Manolo – Deus.
Padre Jose – Sim, mas Ele está do nosso lado”.
O discurso dos dois personagens nos mostra o pensamento foucaultiano,
que de acordo com Orlandi (2002), quando um indivíduo fala, ele fala de uma
posição específica. Assim, o que pronuncia, retira seu sentido relacionado a formação discursiva por qual inscreve suas palavras. A mesma coisa acontece com suas outras falas. Logo, como representantes da “Igreja”, falam na posição de padres sem se darem conta da carga histórica e ideológica que trazem em seus discursos, no caso, o poder sobre a vida ou a morte do outro “em nome de Deus”.
Orlandi (2002), fundamentada na idéia de esquecimento debatida por Pêcheux, explicita que este conceito refere-se a uma ilusão referencial que leva o sujeito a acreditar que a origem do seu discurso, de sua fala, origina-se em si mesmo; quando verdadeiramente, ele apenas retoma sentidos pré-existentes, pois
tais sentidos determinam-se na maneira como o sujeito inscreve-se na língua e na historia, e por isso significam, e não por meio de sua vontade.
Padre Manolo rompe de forma arbitrária, desnecessária e perversa o contrato ético secular descrito por Engelhardt (citado por Diniz, 1999), como o
“princípio do consentimento” que surge a partir do conceito de inocentes ou aqueles,
onde o “princípio da permissão” não foi respeitado. Na cena da sacristia, onde aparece de modo implícito, pelo silêncio e escurecimento da imagem, outro episódio de abuso sexual Ignácio demonstra permitir na exploração do seu corpo, contudo, sua atitude não pode ser considerada como um livre consentimento porque uma criança de dez anos de idade não desenvolveu maturidade cognitiva, emocional e fisiológica suficientes para iniciar sua vida sexual, principalmente com um adulto. Diferentemente dos jogos, curiosidades e descobertas sexuais que acontecem entre crianças e adolescentes de idades compatíveis, como demonstrado no próprio filme quando Enrique e Ignácio se masturbam no cinema.
Mesmo na situação em que a criança demonstre “seduzir” o adulto, este deverá estar consciente intelectualmente, eticamente e judicialmente sobre o impedimento tácito sobre atividades sexuais com menores, ressalvados os casos em culturas específicas, onde a sexualidade infantil é vivenciada de outras formas, e mesmo em grupos, cujo posicionamento sobre o “princípio do consentimento” e as relações de poder/violência devem ser observadas.
Desse modo, pode-se entender o abuso sexual de Padre Manolo em relação a Ignácio, como um exemplo de Incesto Polimorfo definido por Cohen (1993, p. 163) como:
“devemos considerá-lo como um ‘equivalente incestuoso’, e neste caso incluímos as relações que ocorrem entre pessoas que se aproveitam do
cargo ou da função que exercem, para se satisfazerem sexualmente com seu subalterno. Nestes casos sempre existem, por trás destas relações, fantasias incestuosas, embora não haja consciência disto (chefe- secretária, médico-paciente)” (Cohen, 1993, p. 163).
Tais indivíduos se valem do argumento do legítimo exercício de suas funções profissionais, favorecidos pelas idealizações das vítimas potenciais, que no caso de crianças e adolescente acontece de forma facilitada em função da própria imaturidade biológica e psicológica. Para Cohen (1993) a violência dessa modalidade de abuso sexual decorre, principalmente, pela ruptura dos vínculos de confiança, proteção e intimidade inerentes às funções dos perpetradores, como no caso específico do filme, onde Padre Manolo exercia três funções e vínculos com Ignácio.
O filme retrata que Ignácio veio a saber e sentiu as “marcas da violência” nas “entranhas” de sua subjetividade. Além do caráter desnecessário dos abusos (sexual e de poder) inerentes ao ASI, também a violência contra Ignácio estendeu- se a seu vínculo afetivo (Enrique) quando, de modo arbitrário e perverso, Padre Manolo o expulsa da instituição, mesmo após o “pedido” e “pagamento” de Ignácio para que não tomasse tal atitude.
Assim a experiência de violência que Ignácio sofreu configurou-se, como nas palavras de Faleiros (2005, p. 112), “O trauma se faz e se guarda como
sofrimento, como perda de si, como exclusão de possibilidades, e pode se mostrar em raiva ou em feridas psicossomáticas muito diversas de pessoa a pessoa”.
Como nosso objetivo de pesquisa foi fazer uma análise das relações de poder presentes na trama do ASI representado no filme “Má Educação”, foi possível compreender que o fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes não pode ser estudado, combatido ou até mesmo compreendido longe das questões
de poder, que de acordo com Foucault permeiam todos os âmbitos da história humana, como vemos no seu pensamento:
“Se me perguntassem o que faço e o que outros fazem melhor do que eu, diria que não fazemos pesquisa de estrutura. Faria um jogo de palavras e diria que fazemos pesquisas de dinastia. Diria, (...) que procuramos fazer aparecer o que na historia de nossa cultura permaneceu até agora escondido, oculto, mais profundamente investido; as relações de poder. Curiosamente, as estruturas econômicas de nossa sociedade são melhor conhecidas, mais inventariadas, melhor destacadas que as estruturas de poder político”(Foucault 1999, p. 30).
Como já pontuamos, a trama fílmica transcorre da história de Ignácio em busca de vingança/reparação contra o Padre Manolo/Sr. Berenguer e em vários momentos de seu discurso estes sentimentos são revelados como por exemplo:
“Padre Manolo – Não está em posição de ameaçar a ninguém. As pessoas vão acreditar em mim, não em você.
Zahara – Não, as pessoas mudaram. Estamos em 1977. A sociedade põe minha liberdade acima de sua hipocrisia”.
“Me vendi pela primeira vez naquela sacristia, para evitar que Enrique fosse expulso. Mas Padre Manolo me enganou. E eu jurei que um dia eu o faria pagar por isso”.
“Padre Manolo – Mesmo se arranjasse o dinheiro, como posso ter certeza que não vai me chantagear de novo?
Zahara – Nunca terá certeza.Essa é minha vingança”.
“Usa o seu sobrenome agora, Berenguer. Trabalha numa editora. É casado e tem um filho. Pensei: “esse cara está pedindo para ser chantageado!”. Assim escrevi ‘A Visita’ a história que te envio. Leia, por favor. Nesse momento de minha vida, preciso de muito dinheiro. E aquele filho da puta vai me pagar. Ele me deve muito e chegou a hora de me pagar”.
Kehl (2000), em seu trabalho de análise dos filmes “O Piano” e “Dead Man”, faz reflexões sobre o conceito do afeto ressentimento, principalmente em relação ao suporte dramático que empresta às narrativas cinematográficas. Descreve que o ressentimento tem sido utilizado pelas artes para mobilizar a ação dos personagens. Provoca a identificação no espectador, no próprio ato deste se reconhecer com o sentimento de que existe algo a ser cobrado de alguém ou, provocando a simpatia originada da sua má consciência.
O ressentido é representado através dos personagens vitimizados e/ou vingativos “condenados a não esquecer do que o outro lhe fez” (Kehl, 2000, p. 217). A autora define ressentimento como um efeito da rejeição do sujeito em envolver-se em seu próprio desejo. É a insistência repetitiva na lembrança de um sentimento, onde ressentimo-nos contra um Outro. Foi originado pela desistência, submissão, concessão ao Outro, recalcamento de suas representações de desejo e assim
“passar a vida reclamando contra ‘o que fizeram comigo’, aprisionado por uma necessidade de vingança contra os supostos agentes de sua infelicidade” (Kehl,
2000, p. 216).
Na situação do ASI tais agentes não são supostos, como afirma a autora, mas reais. O sujeito-personagem Ignácio retrata estes sentimentos de ressentimento e revolta contra Padre Manolo e tenta engendrar uma “reparação de danos” através da chantagem financeira, quando o reencontra já como Sr. Berenguer. Nosso interesse nestes conteúdos, fundamenta-se porque fica claro na caracterização do personagem, e é compatível com a experiência clínica, como parte da dinâmica do ASI relatada nas pesquisas, principalmente no que se refere aos sentimentos de raiva e revolta que os vitimizados introjetam no psiquismo.
Entretanto, os esforços de Ignácio para reparar sua revolta não são concretizados. Sua “vingança imaginária” parece estar condenada ao Silêncio e suas tentativas de contar a história de seu drama, não provocam a re-significação necessária para libertar-se do passado.
O segredo e o conseqüente silêncio que o envolvem o ASI tornam-se o motor que alimenta o “eterno retorno” da dor do vitimizado. Sua vida fica dividida, como na metáfora visual almodoviana mostradas nas figuras 07 e 08, em antes e depois da ocorrência do abuso sexual. Tal dinâmica pode gerar um quadro de
estigmatização do vitimizado por si mesmo, ou ser estigmatizado, quando na revelação mal-conduzida do ASI, em uma ou em todas as esferas responsáveis por sua proteção, que são: a família, os órgãos de segurança e justiça e profissionais especializados. Este momento da denúncia deve ser pautado pelo cuidado e preservação da criança vitimizada, o que muitas vezes torna-se difícil em função dos
tabus.
Ao contrário do que acontece em relação ao cinema, o ASI seja como tema teórico ou fato social, cria uma “impressão de irrealidade” e traz o estatuto do
“inacreditável” e “impossível”, nos remetendo à filosofia do trágico esboçada por
Rosset (1989) que nos lembra da crueldade e imprevisibilidade do real como nas palavras do pensador: “O trágico é aquilo que emudece toda e qualquer
possibilidade de discurso, expressando-se na forma mais perene de silêncio: a indiferença frente a todas as moralidades existentes” (Rosset,1989, p. 65).
Assim, podemos nos perguntar, ao final desse exercício de análise e interpretação, o que restou para o sujeito-personagem Ignácio ou o que faltou em sua trágica-trama? Diante de todos os estudos, debates e reflexões que esta proposta de trabalho tentou abordar, torna-se crucial o entendimento de que o indivíduo vitimizado deseja e precisa falar e revelar sua dor e os segredos que alimentam seu ressentimento.
Quando adulto, este indivíduo poderá encontrar canais de expressão e re- significação de seu sofrimento, mas na infância, algo ou alguém, deve tornar-se porta-voz da vítima. Como afirma Faleiros (2005), é através da palavra que o vitimizado poderá fazer o corte do circuito da violência sexual, pois assim:
“a expressão do drama, o desfazimento da trama e o enfrentamento do trauma se descobrem e constroem,(...) através da palavra do vitimizado e da vitimizada e da comunicação aberta com a palavra. É através da palavra que vamos poder
trabalhar todo o cuidado, ela é o centro da revelação do segredo e do desmonte do poder” (Faleiros, 2005, p. 119).
Scodelario (2002) em sua analise sobre a comunicação na família onde existe problemática de ASI tece considerações sobre o complô do silêncio que permeia as relações familiares e perpetua a situações do abuso.
Podemos salientar que este Silêncio na dinâmica do ASI está presente não apenas no sofrimento do vitimizado, como conseqüência da dinâmica do segredo, mas há também o Silêncio social envolto nos véus dos tabus e das