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Figura 03 Figura 04 Figura 05

Figura 06 Figura 07 Figura 08

A trama do poder e da sedução começa a ser encenada nas cenas iniciais do filme, já nas primeiras seqüências o abuso sexual do Padre Manolo em Inácio é projetado, configurando a importância desse episódio para o desenvolvimento da história. A primeira cena abre com a voz em off de Ignácio discorrendo sobre o prêmio na forma de um passeio que mensalmente os melhores alunos ganhavam: “... sempre éramos acompanhados pelo professor de literatura

Padre Manolo”. Aparentemente este detalhe é irrelevante na trama fílmica como um

todo, porém no contexto do ASI demonstra a estratégia de aproximação do abusador.

Sandersom (2005) define aliciamento como o modo de aproximação utilizado por pedófilos e abusadores sexuais, cuja base se dá através da sedução emocional, que requer paciência para conquista da confiança e amizade da criança, dos pais ou responsáveis, podendo levar de semanas até anos, antes que a atividade sexual aconteça. Um aspecto fundamental mostrado pelos estudos promovidos com os abusadores sexuais de crianças refere-se ao estereótipo existente em que as crianças são orientadas para o perigo que os estranhos representam.

A cena começa mostrando as roupas dos alunos já no chão e a preparação do grupo para pular na água. Ignácio é o único que continua vestido, cantando ao lado de Padre Manolo, que também continua com sua batina. Em close, já é possível perceber a divisão entre os mundos – das crianças, aproveitando ludicamente o passeio e do adulto, imerso em seu desejo, demonstrado em sua fisionomia de prazer, pela exclusividade da atenção da criança. Tal processo de mostrar à vítima que ela é diferente, especial, superior aos colegas e grupos de pares, faz parte do processo de aliciamento.

Gabel (1997) cita uma pesquisa de Conte, Wolf e Smith feita com abusadores para elaboração de um perfil e entendimento de seus métodos de aliciamento das crianças. Uma das várias perguntas do questionário utilizado no estudo descreve:

“Como você faz para começar os contatos sexuais com a criança? A maioria descreve um processo de encetar o relacionamento antes de chegar aos contatos sexuais. Por exemplo: conversar com ela, passar um tempo em sua companhia, tocá-la com freqüência, fazer-lhe carinhos. Um deles conta que depois de ter brincado com a criança e ganhar sua confiança, começa a utilizar diferentes modos de contato: primeiro toca as costas da criança, depois a cabeça etc., com o objetivo de testar os limites da vítima. Outro afirma que isola a criança das demais pessoas e faz

carícias, de uma maneira lúdica, aproximando-se cada vez mais dos órgãos sexuais (Gabel, 1997, p. 57).

Nas imagens fica explícita a insatisfação de Ignácio por não desfrutar das atividades lúdicas e estar isolado do seu grupo de amigos. Apesar de estar cantando e demonstrar gostar de fazer isso, busca com um olhar aflito, o prazer que não está vivenciando com os colegas. Por outro lado, Padre Manolo transmite, através do olhar, da expressão de sua fisionomia e de seu discurso não-verbal, seu interesse afetivo/sexual em relação a este aluno em especial. O filme não revela por que Ignácio se tornou o objeto de desejo de Padre Manolo, pois a história mostra este vinculo já estabelecido entre o adulto e a criança.

Como explicita Dunaigre (1999) é importante entender que o interesse do sujeito pedófilo na criança segue uma lógica determinada por processos inconscientes, que tornam a criança, na imaginação desses indivíduos, um ser com qualidades e poderes “mágicos”, idealizados e projetados na criança real a partir de seus conteúdos arcaicos, originados dos fantasmas de sua criança interior. No pensamento do autor:

“Tudo se realiza entre essa criança “interna” imaginada pelo adulto e a criança “externa”, que é muito real e totalmente apartada da trama na qual é surpreendida. Existe, assim, um engano no sentido mais radical, isto é, algo ou alguém é tomado erradamente por outro” (Dunaigre, 1999, p. 19)

Como as imagens do filme constituem nosso discurso não-verbal, em três cenas específicas, podemos constatar essa idealização da criança nos seguintes episódios: 1) Após o primeiro contato com Zahara na sacristia, Padre Manolo, ao chegar em sua sala de diretor, retira uma foto de Ignácio quando criança e fica contemplando-a com a fisionomia de saudade, nostalgia; 2) Quando Padre Manolo celebra uma missa, logo após a experiência do primeiro contato sexual e Ignácio

está cantando no coral, posicionado bem à frente dos outros integrantes, é focalizado o rosto de Padre Manolo emocionado como se ouvisse apenas a voz de Ignácio.; 3) Na seqüência em que Ignácio canta uma música em homenagem ao Padre Manolo, tanto nas imagens em close-up do rosto emocionado do Padre, como na voz em off de Ignácio dizendo: “Padre José me pôs no centro do refeitório. Me

senti estranho na frente dos padres comendo e bebendo e tive um pouco de medo. Mas me olhavam com simpatia, exceto pelo Padre Manolo que parecia estar prestes a chorar”.

Nesta cena podemos perceber a fixação do adulto em relação a criança. É explÍcita a diferença da postura e das fisionomias dos outros padres e a emoção exacerbada de Padre Manolo. Em relatos de abusadores incestuosos, como no estudo de Gilgun (1995), observou no grupo pesquisado, que ao serem questionados sobre os afetos em relação as crianças vitimizadas, alguns perpetradores respondiam que nutriam sentimentos de amor e paixão pelas crianças; sonhavam até em fugir com elas e, em seus atos de abuso, estavam dedicando amor, carinho e prazer a elas.

A despeito do jogo de poder e sedução no ASI, Gabel (1997) e Sanderson (2005) salientam que os pedófilos têm critérios individuais e específicos para escolha de suas vítimas, que devem corresponder a determinadas características desejadas tais como: a) idade ou faixa etária específica; b) tipo de personalidade e grau de vulnerabilidade, que pode ser demonstrado na criança mais nova, que tem menos capacidade de denunciar, c) mais carente afetiva e/ou socialmente; d) portadora de deficiências físicas e/ou mentais; e) crianças do meio familiar ou ligadas à família.

No questionário desta pesquisa temos uma pergunta feita aos abusadores sobre estas preferências: “O que o seduz na aparência da criança?” “Certas

características físicas tais como: pele suave, cabelos longos, o fato de ser bonita, uma criança aberta, amigável com eles e que tem confiança no adulto” (Gabel, 1997,

p. 57).

Há uma transição de cenas em que as crianças que brincam alegremente dentro da água e se divertem a valer, desaparecem dando lugar à imagem da moita de bambus, onde não se vêem mais os personagens Ignácio e Padre Manolo e não se ouve mais o violão, apenas a voz de Ignácio como fundo musical terminando a canção. Há um silêncio, um close na pequena plantação de bambus sem a presença dos personagens e, logo após, Ignácio sai de dentro da moita correndo e gritando:

”Não!”. Tropeça e cai ferindo a testa. Padre Manolo vem atrás fechando a batina na

altura da cintura, chamando-o.

Nesta seqüência o ato do abuso sexual é representado de modo implícito, através do discurso não-verbal das imagens, considerando a total impossibilidade ética, estética e legal de filmar-se uma cena explícita de atividade sexual entre um adulto e uma criança o cineasta utilizou a linguagem cinematográfica sem abrir mão do realismo necessário para a compreensão da história..

Orlandi (1992), ao considerar o implícito como o “não-dito”, nos permite analisar nesta cena específica, o silêncio e a ausência dos personagens, como recursos de imagem, para configurar o abuso sexual que não pode ser demonstrado explicitamente. Assim, no jogo das imagens, o diretor (através das cenas anteriores e posteriores ao quadro) mostra implicitamente o ato de abuso sexual.

O trauma do abuso sexual foi representado no filme na forma de uma “metáfora-visual” quando “cenicamente” Ignácio cai e fere a testa. Um filete de

sangue escorre pelo meio de seu rosto, enquanto ouvimos sua declaração de que, a partir daquela experiência, sua vida estava irremediavelmente dividida. É durante este efeito visual conhecido como split screen – tela rachada, que se ouve a voz em off de Ignácio Rodrigues ainda criança. “O sangue correu e dividiu minha testa em

dois. Senti que a mesma coisa iria acontecer com minha vida. Que ela seria sempre dividida e nada poderia fazer para evitar”. Esta fala no discurso de Ignácio,

representado logo no início da trama fílmica, tornar-se-á emblemático na constituição do drama como uma “auto-sentença”, uma “profecia-auto-realizadora” que será montada no decorrer da história, configurando o quanto ser vítima de ASI tornou-se para este sujeito-personagem uma experiência traumática, dolorosa e desorganizante para seu desenvolvimento psicossocial.

Já discorremos sobre as variáveis e a complexidade para afirmação e/ou verificação das conseqüências do abuso sexual em suas vítimas. No âmbito da presente análise, verifica-se que para o sujeito-personagem Ignácio, a situação de abuso sexual configurou-se uma ocorrência traumática e desorganizadora para seu psiquismo. Apesar dos outros contextos da vida do personagem que não foram apresentados pelo filme, um aspecto fica bem patente: o silêncio e a ausência de figuras de proteção, no âmbito escolar do personagem.

Durante toda a narrativa fílmica é demonstrado o esforço de Ignácio em contar, falar, escrever, filmar de algum modo seu trauma. A conceituação sobre trauma explicitada por Penso, Legnani, Costa e Antunes (2005), demonstra a angústia vivenciada por Ignácio. Vejamos:

“O trauma se faz a partir da ausência de sentido frente ao vivenciado. Assim, a experiência de abuso sexual se torna traumática para a criança justamente pelo encontro das sensações sentidas no próprio corpo com o não-dito e com o impossível de se dizer sobre tais experiências. Porém, esse real indizível não assola apenas a vítimas, mas, sim, todos que a

circundam, pois todos passam a ter a difícil tarefa de significar o que não é passível de significação” (Penso, Legnani, , Costa e Antunes, 2005, p. 99).

Considerando a riqueza polissêmica das imagens pode-se constatar neste discurso do “não-verbal” o que denominaremos de “imagens do trauma” através dos recursos da linguagem do cinema. As imagens 07 e 08 representam tanto o trauma vivenciado no corpo físico, simbolizado pelo sangue que escorre da testa, quanto na montagem da seqüência, em que durante o efeito da tela rachada a face de Ignácio vai se dividindo em duas e o rosto de Padre Manolo insere-se “visualmente” dentro da cabeça da criança, representando o que psiquicamente ocorre na situação traumática.

De acordo com Faiman (2004), pelo foco da economia libidinal, o material psíquico ligado a uma ocorrência concreta ou fantasiosa, desperta um afluxo de excitação superior à capacidade de assimilação e elaboração do indivíduo, o que configura o trauma psíquico que se instala como uma “tatuagem” ou um “outro” fixado no psiquismo, bem representado no recorte das imagens.

No âmbito dos estudos sobre ASI, uma questão de muita relevância refere-se sobre o porquê do silêncio por parte da criança. Na pesquisa anteriormente citada de Penso (2005), Legnani (2005), Costa (2005) e Antunes (2005) com famílias de crianças e adolescentes vitimas de ASI em situações de risco, foi possível constatar o misto de incredulidade e indignação da mãe do vitimizado por este não ter revelado sobre a situação de abuso que se perdurou por dois anos. O silêncio e a manutenção do segredo por parte das crianças é explicado através da Síndrome da Adaptação/Acomodação pesquisada por Summit.

Summit (1983, citado por Gabel 1997), através de suas pesquisas com crianças vítimas de abusos sexuais descreve cinco características que podem ser

apresentadas pelas vítimas de ASI, e são elas: 1) segredo – como a realidade do abuso causa um terror na criança e este horror deve ser silenciado através do segredo forjado pelas ameaças e manipulação desse medo; 2) - submissão ao adulto em função da ideologia do poder, confiança e respeito aos mais velhos; 3) – descreve a utilização pela criança de um processo de clivagem do psiquismo onde poderá “fingir” que não é ela que está nesta situação; identificação com o abusador facilitado pelos vínculos afetivos ou ganhos secundários; 4) processo de revelação tardio e traumatizante; 5) retratação – muito comum em função dos tabus e questões de poder que permeiam o ASI.

O filme também apresenta esta dinâmica, que pode ser evidenciada pela ausência de qualquer episódio de revelação, ou mesmo um pedido de ajuda de Ignácio, para outro professor ou para o amigo Enrique. Também podemos observar, quanto ao silêncio, a forma indireta que Ignácio encontrou (já adulto) ao transformar sua história em um conto para ser filmado, publicado ou filmado.

Assim, vemos que a questão do silêncio e do segredo que permeia o ASI confirma-se tanto na realidade dos fatos quanto na obra artística. Em duas falas, com voz em off de Ignácio, revelam-se sua “sujeição” ao abuso e o conseqüente segredo ficam evidenciados, primeiro quando está auxiliando Padre Manolo como coroinha e segundo, após o abuso que ocorre na sacristia:

“Acho que perdi minha fé naquele momento, então não acredito mais em Deus ou no inferno. E como não creio no inferno, não tenho medo, e sem medo, sou capaz de qualquer coisa” – “Me vendi pela primeira vez naquela sacristia, para evitar que Enrique fosse expulso. Mas Padre Manolo me enganou. E eu jurei que um dia eu o faria pagar por isso”.

Como já assinalamos, Furniss (2002) caracteriza o ASI como a Síndrome de Segredo e de Adição que explica o mecanismo que sustenta as situações

abusivas através dos rituais de entrada e saída, como já descritos na revisão literária. Está inter-relação entre as síndromes de segredo e da adição é melhor descrita pelo autor como:

“As síndromes de segredo e adição são síndromes interligadas. O abuso sexual da criança é uma interação ilegal, aditiva para a pessoa que abusa, em que a “droga” é uma criança estruturalmente dependente. Em muitos casos, a criança se relaciona com a pessoa que abusa como figura parental. A adição a uma ‘droga’ que é uma criança estruturalmente dependente torna extremamente difícil e, ao mesmo tempo, da máxima importância, a descontinuação efetiva da adição. O aspecto do segredo e o aspecto da adição constituem, ambos, mecanismos de evitação da realidade para a pessoa que abusa, sendo que a criança é forçada a associar-se à síndrome de segredo. A grande dificuldade de se parar o abuso sexual da criança, romper o segredo, criar e manter a realidade e lidar com os apegos mútuos, freqüentemente muito fortes e destrutivos, entre a pessoa que abusa e a criança são efeitos específicos do abuso sexual da criança como síndrome conectadora de segredo e adição” (Furniss, 2002 p. 40)

O filme não retrata os motivos por que Ignácio manteve segredo do abuso quando criança, mas vários estudiosos como Gabel (1997), Sanderson (2005), Faleiros (2005), Furniss (2002) descrevem os principais motivos como: medo de ser punida e rejeitada pela família ou profissionais, medo de não acreditarem nela, medo das ameaças que o abusador faz (matar a vítima, pais, irmãos), confusão emocional na forma de vergonha, culpa, constrangimento, não entendimento da situação do abuso e a Síndrome da Adaptação/Acomodação, pesquisada por Summit acima citada.

Apesar do seu silêncio na infância o sujeito-personagem Ignácio planejou sua denúncia sobre o ASI que lhe foi perpetrado. O medo na infância foi representado em seu conto dramático “A Visita”. A “criança” só teve voz quando já havia superado a insegurança de ser desacreditada.