A cena começa mostrando as roupas das crianças já no chão e a preparação do grupo para pular no lago. Em close, já antevemos a divisão entre os mundos da criança, vivendo sua infância e do adulto, em seu desejo erótico deturpado. Nas imagens fica visível a insatisfação de Ignácio por não desfrutar das atividades lúdicas e estar isolado do seu grupo de amigos. Ele busca, numa imagem em close, com um olhar aflito, o prazer que não está vivenciando. Por outro lado, Padre Manolo transmite, também através do olhar, da fisionomia e de sua linguagem não-verbal, toda pulsão sexual em relação à criança.
Há uma transição de cenas em que as crianças, que brincam alegremente dentro da água e se divertem a valer, desaparecem dando lugar à imagem da moita de bambus, onde não se vêem mais os personagens Ignácio e Padre Manolo e não se ouve mais o violão, apenas a voz de Ignácio. Ao término da canção, há um
silêncio onde se deduz que o abuso foi consumado e logo após Ignácio sai de dentro da moita correndo e gritando, quando tropeça e cai ferindo a testa. Padre Manolo vem atrás fechando a batina na altura da cintura, chamando o menino. Ignácio, ainda no chão, volta o rosto com o olhar em direção ao Padre Manolo, quando um filete de sangue escorre de sua testa, dividindo literalmente sua face ao meio. Durante este efeito visual (split screen – tela rachada) ouve-se a voz em off de Ignácio Rodrigues ainda criança.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança – voz em off) – O sangue correu e dividiu minha testa em dois. Senti que a mesma coisa iria acontecer com minha vida. Que ela seria sempre dividida e nada poderia fazer para evitar.
DIÁLOGO
IGNÁCIO RODRIGUES (criança – voz em off) – A cada mês os meninos que conseguiam honras, quero dizer, os que tinham as melhores notas, eram presenteados com um passeio pelo campo. Sempre éramos acompanhados pelo professor de literatura Padre Manolo.
(Ignácio sai correndo da moita de bambu seguido pelo Padre Manolo)
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Não PADRE MANOLO – Ignácio!
(A seqüência retorna para sala de Padre Manolo, que é informado por Padre José que os objetos sacros da Igreja foram roubados)
ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Este deve ser o Padre José. Ainda bate nos alunos?
ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Não, isso era privilégio do Diretor. Resumindo, quero um milhão em dinheiro, ou então, o “Diário 16” vai publicar a história na íntegra.
PADRE MANOLO – Não tenho um milhão de pesetas, muito menos em dinheiro. ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Mas pode conseguí-las. Agora, se não se importa estou de saída. Disse tudo que tinha a dizer. A chave.
PADRE MANOLO – Espere. Espere até o horário do recreio. Será daqui a um minuto. Então veio me chantagear. Diga para Ignácio que valoriza muito essas páginas. São lixo.
ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Um lixo muito quente! Nós dois fazemos uma dupla que irá vender muito. E o editor do “Diário 16” sabe disso melhor do que ninguém.
PADRE MANOLO – Não está em posição de ameaçar ninguém. As pessoas vão acreditar em mim, não em você.
ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Não, as pessoas mudaram. Estamos em 1977. A sociedade põe minha liberdade acima de sua hipocrisia.
PADRE MANOLO – Se tratamos Ignácio tão mal, por que ele voltou no outro ano. Por que não nos denunciou ou mudou de escola?
ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Ele voltou porque havia se apaixonado por um colega de classe, Enrique Serrano, lembra dele?
PADRE MANOLO – Sim. Se importa se continuar a ler? IMAGEM 06
A seqüência mostra a comemoração do Dia do Diretor, no pátio da escola. Há uma partida de futebol com os padres e os alunos, onde vemos o início da amizade de Ignácio e Enrique. Acontece então o primeiro contato afetivo dos dois
alunos. Há também um encontro de olhares durante uma missa onde Ignácio canta no coro infantil e Enrique o admira.
Padre José retira Ignácio do refeitório para cantar uma música em homenagem ao Padre Manolo que se tornou diretor da escola. É explícita a emoção e a paixão do Padre Manolo por Ignácio.
Ignácio e Enrique começam a se conhecer e vão juntos ao cinema e enquanto assistem a um filme de Sara Montiel, no Cine Olympo, os dois trocam carícias sexuais.
Os amigos conversam no banheiro do dormitório e são surpreendidos por Padre Manolo, que os repreende e ameaça e ordena que Ignácio o acompanhe para ser coroinha na missa da manhã. Na sacristia, Ignácio pede que Enrique não seja expulso, oferecendo-se em troca para não perder o amigo. Fica implícita na seqüência a nova ocorrência do abuso sexual, quando a tela fica negra enquanto a voz em off de Ignácio/criança descreve: “Me vendi pela primeira vez naquela sacristia, para evitar que Enrique fosse expulso. Mas Padre Manolo me enganou. E eu jurei que um dia eu o faria pagar por isso”. A seguir tem-se a expulsão de Enrique da Escola.
DIÁLOGO
IGNÁCIO RODRIGUES (criança – voz em off) – Havia muitas festas na escola. A mais importante delas era o dia do diretor. Naquele dia, existiam competições esportivas, atos religiosos e fazíamos uma refeição especial.
PADRE JOSÉ – Venha comigo Ignácio. Acompanhe-me Ignácio. IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Ainda não acabei de comer. PADRE JOSÉ – Vai cantar melhor assim. Conhece a letra nova?
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Sim, recebi a partitura que o Padre Manolo entregou.
PADRE JOSÉ – Chame-o de Padre Diretor. Já que a partir de hoje é o diretor da escola.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Eu sei.
PADRE JOSÉ – Não retruque. Quando cantar, olhe direto para ele como se não houvesse mais ninguém no refeitório. Entendeu?
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Sim. (voz em off) – Padre José me pôs no centro do refeitório. Me senti estranho na frente dos padres comendo e bebendo e tive um pouco de medo. Mas me olhavam com simpatia, exceto pelo Padre Manolo que parecia estar prestes a chorar.
PADRE JOSÉ – E agora, Padre Manolo, como presente de aniversário, Ignácio vai cantar uma de suas canções favoritas “Torna a Sorrento”. A nova letra “Jardineiro”, foi escrita pelo Padre Manolo, auxiliado por este humilde criado.
(Os amigos vão ao cinema)
ENRIQUE (criança) – Achei que não gostasse de mim. IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Não, é o contrario.
ENRIQUE (criança) – Mas cada vez que olhava para você, desviava o olhar. IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Porque me deixava nervoso.
ENRIQUE (criança) – E agora não deixo? IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Não.
(Na seqüência dentro do cinema os dois amigos tocam reciprocamente os órgãos genitais e se masturbam enquanto assistem ao filme)
ENRIQUE (criança) – O que houve?
ENRIQUE (criança) – Nem eu.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – O que fizemos no cinema não foi certo. ENRIQUE (criança) – Eu gostei.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Eu também. Mas acho que era pecado e Deus vai nos punir.
ENRIQUE (criança) – Deus? Não acredito em Deus. IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – No que acredita? ENRIQUE (criança) – Sou hedonista.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – O que é isso?
ENRIQUE (criança) – Alguém que gosta de diversão. Eu li numa enciclopédia. IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – O que foi?
ENRIQUE (criança) – Ouve isso?
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Padre Manolo!
PADRE MANOLO – Abram a porta! Ou devo arrombá-la e deixar que toda escola saiba o que estão fazendo? Ignácio, sei que está aí dentro! Vi seus pés. Posso te ouvir respirar. Ignácio!
ENRIQUE (criança) – Não estamos fazendo nada. PADRE MANOLO – Saia. Cuido de você depois!
ENRIQUE (criança) – Não vou deixar Ignácio sozinho com o senhor. PADRE MANOLO – Como se atreve! Saia daqui imediatamente!
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Enrique, por favor, faça o que ele manda. PADRE MANOLO – Venha aqui. O que estavam fazendo lá dentro?
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Nada
PADRE MANOLO – Nada? Então por que a porta estava trancada? IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Nada. Eu juro Padre.
PADRE MANOLO – Venha comigo. Venha comigo até a capela.
(Nesta seqüência Ignácio auxilia Padre Manolo como coroinha e, após a missa, na sacristia, Padre Manolo conversa com Ignácio sobre o episodio no banheiro)
PADRE MANOLO – O sino! No que está pensando?
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) (voz em off) – Acho que perdi minha fé naquele momento, então não acredito mais em Deus ou no inferno. E como não creio no inferno, não tenho medo, e sem medo, sou capaz de qualquer coisa.
PADRE MANOLO – Vamos esquecer isso Ignácio. Mesmo se eu quisesse não conseguiria ficar bravo com você. Mas me promete que o que houve não vai acontecer de novo.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – E Enrique? PADRE MANOLO – O que tem ele?
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Ele será punido?
PADRE MANOLO – Deveria expulsá-lo. Tenho certeza que foi ele quem te levou ao banheiro.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Não, fui eu.
PADRE MANOLO – Não chore. Ele não é boa influência para você. Eu quero o que é melhor para você.
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) – Se não o expulsar, farei o que o senhor quiser. PADRE MANOLO – Silêncio, silêncio...
IGNÁCIO RODRIGUES (criança) (voz em off) – Me vendi pela primeira vez naquela sacristia, para evitar que Enrique fosse expulso. Mas Padre Manolo me enganou. E eu jurei que um dia eu o faria pagar por isso.
MAGEM 07
Na seqüência, após a imagem de Ignácio no pátio fazendo exercícios com outros alunos e vendo Enrique ser expulso da escola acompanhado pela mãe, os dois amigos se olham em uma despedida silenciosa e sofrida e as imagens dos rostos de cada um, através de um efeito de cinema, se transportam para a forma adulta com os dois se reencontrando no escritório de Enrique Goded para discussão do roteiro e da filmagem do texto “A Visita”.
DIÁLOGO
ENRIQUE GODED – Que bom que veio. Estou lendo sua história de novo. IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Não gostou da primeira vez?
ENRIQUE GODED – Claro, muito! Olha só como está. Não pude evitar tomar notas. Força do hábito.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Não importa, é sua cópia.
ENRIQUE GODED – Obrigado. Certo, bem... Como posso te dizer? Acho que há um bom filme nessa história e eu gostaria de dirigi-lo.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Sério? Não está brincando comigo?
ENRIQUE GODED – Nunca brinco com o trabalho. Mas primeiro, me diga quanto quer pelos direitos.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Quais direitos? A história é sua! Faça o que quiser com ela. Então gostou mesmo dela?
ENRIQUE GODED – Admito que quando disse que era baseada em nossa infância... me senti um pouco apreensivo. Mas me tocou muito.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Fico tão feliz, cara. Lembre-se que sou ator e que adoraria sair do grupo Besouro.
ENRIQUE GODED – Sim, sei disso. Você seria perfeito como Enrique Serrano nu na cama, com a carta de Zahara no travesseiro.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Enrique Serrano? Acho que preferia interpretar Zahara. ENRIQUE GODED – Zahara, tu ? Está louco!
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Por quê?
ENRIQUE GODED – Bem, é muito forte, não é o tipo certo. Martin já temos nossa história. Faça uma fotocópia.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Posso emagrecer, posso entrar no personagem. Estou acostumado com o teatro, cara. Como De Niro.
MARTIN – “A Visita”.
ENRIQUE GODED – Sim. Ignácio e eu começaremos o roteiro.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Não, se vai dirigir é melhor que você mesmo escreva. ENRIQUE GODED – Muito bem, Ignácio.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Angel, comece a me chamar de Angel. Ou nunca irá se acostumar.
(Os dois amigos estão saindo de uma casa noturna em direção ao carro de Enrique Goded que está alcoolizado e muito feliz)
ENRIQUE GODED – Estou tonto
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Estou surpreso que consiga andar com tudo o que tomou.
ENRIQUE GODED – Tínhamos de festejar, certo?
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Achei que falaríamos do projeto. ENRIQUE GODED – Falaremos depois.
(No carro, Ignácio dirige e Enrique, com expressão emocionada, faz perguntas sobre o passado)
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – De que deveria lembrar? ENRIQUE GODED – Nada. Vire aqui.
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Essa casa é sua?
ENRIQUE GODED – Não, acabei de alugar. Que tal nadar?
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Cara, te faria bem. Como está a água? ENRIQUE GODED – Esperando por você.
(Os dois nadam e Enrique sai primeiro da piscina, seca-se e deita na cadeira enquanto Ignácio sai fica observando seu corpo)
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Me passa um cigarro.
ENRIQUE GODED – Quando sugeriu interpretar Zahara não falava serio, certo? IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Completamente. Não brinco com trabalho também. ENRIQUE GODED – Então não vamos falar de trabalho. O que está fazendo? Vai dormir aqui ou voltar para Madri?
IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Se quiser eu fico. Mas falando de corpos se pareço muito masculino posso emagrecer. Sou muito flexível, posso fazer qualquer coisa que pedir.
IMAGEM 08
Na seqüência Ignácio (Juan-Angel) vai embora com raiva de Enrique por este não acreditar que possa interpretar Zahara. Enrique encontra um isqueiro que Ignácio esqueceu e lê a propaganda da pensão “A Pérola” e resolve ir em busca de informações sobre Ignácio. A seqüência mostra-o de carro passando por cidades até chegar em Ortigueira, como indica no isqueiro entra em um bar e puxa conversa com o barman.
Enrique está em uma cidade do interior procurando um endereço e o fundo musical é a música do coral com vozes infantis onde Ignácio cantava na
escola. É nesta seqüência que ele encontra a mãe de Juan e Ignácio, descobre que Ignácio morreu, deixou-lhe o texto “A Visita” e confirma que Juan está se passando por Ignácio.
DIÁLOGO