A proposta da pesquisa foi analisar o fenômeno do Abuso Sexual Infantil em sua representação na produção cinematográfica “Má Educação”, do diretor espanhol Pedro Almodóvar, utilizando como referencial teórico e metodológico os estudo sobre o ASI, a teoria psicanalítica e a Análise do Discurso de linha francesa.
O objetivo principal do estudo se constitui na análise e interpretação das relações de abuso de poder e de sedução envolvidas no ASI, através das narrativas verbais e imagéticas do corpus do filme. O estudo proporcionou valiosas percepções das sutilezas nas relações de poder presentes na dinâmica da violência e abuso sexual de crianças e adolescentes.
Foi possível observar pela análise dos discursos dos sujeitos- personagens Abusador e Vitimizado, Padre Manolo e Ignácio Rodriguez, um descortinar de duas subjetividades “virtuais” que se objetivaram de modo “real” durante o processo analítico e interpretativo. Em alguns momentos, durante a pesquisa, a “impressão de realidade” e o sentimento de intimidade com os sujeitos imaginários, tornou-se quase tangível para a pesquisadora.
Foi possível verificar que a história contada no filme é verossímil com a realidade dos fatos descritos em pesquisas e na prática clínica. No percurso da pesquisa, tendo os sujeitos-personagens ao alcance das mãos e das retinas, o contato com o objeto de investigação foi privilegiado.
Entretanto, em conseqüência dessa mesma proximidade, a cada nova leitura visual, mais questões eram suscitadas gerando um processo angustiante como uma “sessão de cinema interminável”.
Isto posto, ficou clara a impossibilidade de se esgotar neste estudo as múltiplas interpretações e leituras discursivas possíveis diante da riqueza de conteúdos da trama fílmica e dos personagens que representaram os papéis de Abusador e Vitimizado, escolhidos como objetos de análise e interpretação.
Assim, gostaria de finalizar estas considerações por meio de um exercício de “interpretação” a partir de um olhar que combina a análise do discurso do sujeito- personagem Ignácio e o discurso da pesquisadora. Acredito que tal desejo originou- se, não apenas no resultado das leituras, debates e reflexões sobre o fenômeno do ASI, mas sobretudo pelo “mal-estar” gerado no desfecho da trama do personagem vitimizado.
O silêncio imposto ao sujeito-personagem Ignácio foi ilustrado por todas as estruturas que o cercavam. O filme representa sua morte por duas vezes: a primeira pela overdose de heroína quando foi silenciado pelo irmão e pelo Sr. Berenguer/Padre Manolo (o abusador), que lhe entrega a dose de heroína para provocar sua morte. Como o personagem Zahara era uma espécie de alter-ego de Ignácio, até em sua própria ficção foi morto para que o silêncio se mantivesse. Podemos ver isso represento na figura de Padre Jose ao matar Zahara, como o representante social de seu silêncio e sua morte.
O filme também nos coloca uma interrogação do porquê nenhum representante da escola apareceu como figura de proteção para Ignácio. Em síntese: podemos afirmar que Ignácio (o Vitimizado) foi silenciado pelos poderes públicos e privados, representados por sua família, pela escola, pela igreja e também pelo Abusador que, na trama fílmica, não sofre nenhum julgamento nem questionamento dos seus atos por parte da sociedade.
A análise fílmica propiciou uma visão diferente do pedófilo que é retratado pelo senso-comum, na mídia ou nas crenças individuais, como sendo um individuo portador de sérias patologias psicossociais, “louco” ou “besta-humana”, suspendendo-o da categoria como um sujeito cultural e moral responsável por seus atos e opções e que utiliza seu poder para satisfação perversa de seus desejos e necessidades.
Na realização dessa conciliação entre a Psicologia e o Cinema, buscou- se uma maior compreensão da dinâmica do ASI e foi possível observar através da análise da díade entre o Abusador e o Vitimizado, que o filme “Má Educação”, entre seus muitos sentidos, demonstrou a perversa dialética de abuso de poder e violência que subjás a esta problemática
Foi possível observar neste trabalho que, através do filme (objeto de estudo), a linguagem do cinema tornou-se uma atividade social (de acordo com os teóricos já citados) e poderá contribuir para o levantamento de questões e reflexões sobre o ASI como um mediador entre a teoria e a pratica clinica, social e jurídica dessa problemática.
Sabedores de que o tema do ASI é por si só aversivo e angustiante a realização deste trabalho poderá facilitar as inserção do tema em cursos de formação para profissionais da área da infância e /ou facilitar os treinamentos para a prevenção da violência contra crianças e adolescentes, assim como proporcionar uma maior visibilidade do tema, desprovido dos véus ideológicos e morais que o circundam.
Isto posto, desejamos com este trabalho contribuir para novos estudos, debates e reflexões sobre o fenômeno do ASI, contemplados em seus aspectos clínicos e ideológicos. Esperamos que esta problemática torne-se no futuro, ao
contrário do quadro atual, um problema real e livre dos tabus que dificultam a identificação, o tratamento e a sua prevenção. Quem sabe assim, o titulo Silencio
dos Inocentes refira-se apenas a uma produção hollywoodeana e, ao se ouvir
alguém gritar a expressão “Que Má Educação”, não seja mais do que um corretivo para traquinagens e travessuras infantis.
A relação de poder que perpassa a historia de “Má Educação” nos é revelada pela linguagem do sofrimento e ressentimento que termina em tragédia. Esta trágica-trama que é recontada no “filme de Goded” dentro do filme de Almodóvar, testemunhas reais e imaginárias nos desvendam os véus por trás da dor de Ignácio/Zahara e Enrique.
Na Grécia antiga, a tragédia espelhava o sofrimento, a loucura e a morte, que encontravam seu lugar de assimilação e repúdio para catarse coletiva. O cinema, arena atual para a representação das eternas tragédias humanas, leva-nos a perguntar, na trágica-trama Almodoviana, se a marca maior que o filme nos deixa é o retrato do que tentamos negar diante da história real da vida de tantas crianças.