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Em relação ao uso da água, os moradores da Ecovila Piracanga escolheram ficar fora do tratamento e abastecimento convencional de esgoto e água. O assentamento é abastecido pelas suas águas subterrâneas que, segundo Maíra Ortiz75, é uma água pura que pode ser tomada direto da torneira. Piracanga honra essa dádiva divina, considerada por eles, de ter uma água pura, pronta para o consumo humano a 4 metros de profundidade do solo, através do biotratamento dos seus efluentes.

Segundo Bruno, a ideia de terem seus meios de tratamento e reuso das águas vem da intenção de se responsabilizarem por tudo aquilo que é gerado por eles. A Ecovila possui sistemas de tratamento e reuso de águas cinza e negras, como o círculo de bananeiras, o tanque de evapotranspiração e banheiro compostável (ou banheiro seco). Grande parte dos banheiros da Ecovila não utilizam água na descarga, o que proporciona uma enorme economia desse recurso e não gera nenhuma contaminação na água ou no solo. Apenas alguns banheiros utilizam água, como algumas casas da ecovila. Nesses banheiros, a água é tratada e reutilizada para nutrir bananeiras, através do tanque de evapotranspiração.

Maíra me assegurou que num futuro próximo, nenhum banheiro do assentamento utilizará água nas descargas sanitárias. Segundo ela, os banheiros que não utilizam água nos sanitários possuem mais vantagens, pois não há gasto de água e as fezes são posteriormente, após desinfecção, aproveitadas na adubação do solo.

As águas cinza possuem técnicas de tratamento diferenciadas das águas negras. No círculo de bananeiras, as águas cinza, provenientes de cozinhas, lavanderias, chuveiros e

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Maíra é permacultora, integrante da Comunidade Inkiri e facilitadora de cursos do projeto Escola da Natureza. É uma das mais antigas moradoras da Inkiri Piracanga.

torneiras são direcionadas para uma vala que, segundo Bruno, deve ser preenchida com barro para dificultar a lixiviação pela água da chuva, já que o solo de Piracanga é muito arenoso. Dentro do barro são depositadas camadas de madeira e palha ou pedra para criar uma micro- vida e tratar a água, que é encaminhada para as bananeiras plantadas acima da vala. No final do processo, ainda há produção de bananas para a comunidade. Segundo Pierre Leroux, citado por Silva (2013, p. 226), ―o indivíduo é tanto consumidor como produtor e o resíduo gerado por ele pode ser usado para produzir o alimento que o mantém vivo.‖

Há, portanto, uma preocupação por parte das pessoas que vivem em Inkiri Piracanga, e até mesmo participantes de cursos e turistas, com a forma de utilização da água, pois a comunidade sabe exatamente o destino dessa água que é utilizada. Zaida relata bem essa preocupação em uma conversa informal:

O que eu posso fazer com isso sem intervir no ambiente? Então a gente sabe que usando produtos químicos que são jogados na água... lavando roupa, por exemplo, a gente sabe que essa é a mesma água que vamos tomar depois. O que a gente pode fazer para não tomar esse produto químico que estou usando, para não lavar minha louça. Então a gente vai buscando alternativas de vida sustentáveis para termos esse estilo de vida que queremos ter. [...] Então, o que podemos fazer com isso? Usar produtos sem químicos... a roupa não vai ficar igual, sabe? Mas eu escolhi morar na natureza. Não temos aquele conforto, né, que temos na cidade.

Já o banheiro seco, é ―baseado no princípio do fechamento do ciclo entre o tratamento de esgoto doméstico e agricultura‖ (SILVA, 2013, p. 226). Nesse tipo de tecnologia, não há uso de água na descarga, dando lugar à forragens e/ou cinzas, que tem a função de retirar o excesso de umidade e proporcionar o equilíbrio entre carbono e nitrogênio, necessário para o processo de decomposição (SABINO et al., 2008). Todo o material coletado no banheiro, após aproximadamente seis meses, transforma-se – com a ajuda de microrganismos – em compostos para fertilizar o solo da Ecovila.

A maioria dos banheiros secos do assentamento possuem duas câmaras, com duas bacias sanitárias, ambas com dois reservatórios (com alguns metros de profundidade) onde o

resíduo sólido humano, junto com as ferragens e papel higiênico, fica depositado. ―No modelo com duas câmaras a cabine com os vasos sanitários está acima das câmaras de compostagem‖ (SÁ, 2011, p. 24). Apenas um dos reservatórios é disponível para uso. Após o período de 6 a 8 meses, ou quando o reservatório estiver cheio, uma das bacias sanitárias é fechada durante aproximadamente 6 meses e, só então, inicia-se o uso do outro reservatório.

FIGURA 16 – Banheiro seco com dois compartimentos.

Autoria própria - Registro fotográfico de setembro de 2016.

Segundo Silva (2013), se bem manejado, o banheiro seco traz algumas vantagens como: economia de água, redução dos riscos de doenças associadas à falta de tratamento de dejetos, a não contaminação das águas subterrâneas, rios e mares e a incorporação das fezes humanas aos processos produtivos, fertilizando o solo.

O tanque de evapotranspiração, ou ―TEVap‖, é uma tecnologia de tratamento e reuso de águas negras, provenientes dos vasos sanitários que consiste em um taque impermeabilizado e dimensionado de acordo com o número de indivíduos na casa. O tanque é preenchido com diferentes camadas de substratos – que são para a eliminação de patógenos presentes nas fezes – que podem ser pneus, brita, areia, tijolo e/ou barro. De acordo com Galbiati (2009) baseando-se em Mandai (2006) e Pamplona e Venturi (2004), o efluente, primeiramente, entra pela câmara de recepção que constitui uma série de pneus alinhados

formando um tubo, permeando, em seguida, pelas diferentes camadas de material cerâmico e pedras. A digestão anaeróbia do esgoto acontece na câmara de recepção e nas camadas de material cerâmico, colonizadas por bactérias. À medida que o volume de esgoto aumenta no tanque, o resíduo líquido preenche, também, as camadas superiores de areia e brita, até, por fim atingir a camada de solo, onde se move por ascensão capilar até a superfície e serve de alimento para as bananeiras.

FIGURA 17 – Corte esquemático do Tanque de Evapotranspiração

FONTE: Galbiati, 2009

Vale lembrar que é proibido o uso de material de limpeza e de higiene pessoal convencionais em Piracanga, pois polui o solo e torna os sistemas de tratamento e reuso de águas ineficientes, pois essas águas negras e cinzas serão posteriormente utilizadas. É permitido apenas o uso de produtos biodegradáveis, e isso inclui protetor solar, perfumes e hidratantes.

Percebe-se que os moradores da Inkiri Piracanga estão fora dos padrões de consumo e produção hegemônicos, atuando numa lógica diferenciada do modo capitalista, pois eles sabem o destino que terá a água e o lixo descartado por eles, por exemplo. Nessa mesma perspectiva é feito o gerenciamento de resíduos sólidos na Ecovila.

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