Augé (1994, p. 51) faz referência ao ―lugar antropológico‖ que, em contraposição aos não-lugares, são espaços fomentadores de relações interpessoais, carregados de sentido para quem o habita e plenos de inteligibilidade para quem os observa. Segundo o autor, esses lugares caracterizam-se por serem identitários, relacionais e históricos. Identitários, pois são lugares próprios, particulares daqueles que o habitam. Carregam toda uma história, encrustada no espaço. São relacionais, pois os elementos contidos nele estão numa relação de coexistência, onde num mesmo lugar podem coincidir elementos distintos e singulares. Por fim, os lugares antropológicos são históricos, pois carregam histórias de seus antepassados, correspondendo a ―lugares de memória‖. ―O habitante do lugar antropológico não faz história, vive na história‖ (AUGE, 1994, p. 53).
Segundo o mesmo autor, a relação dos lugares antropológicos com quem os habitam é forte o suficiente para os seus moradores sentirem-se como ―espectadores de si mesmos‖, protagonistas de suas histórias. Essa sensação de pertencimento em relação ao espaço estimula as pessoas que o habitam a voltarem-se para si mesmas, reconhecendo-se enquanto seres carregados de histórias e potencialidades.
Nessa perspectiva, em contraste com uma relação artificial e superficial com o espaço habitado onde ―tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados‖, Bachelard (1993, p.
45) defende o aprofundamento da relação do indivíduo com o lar, a casa. Segundo ele, a casa é uma ―força‖ que tem a potencialidade de integrar o pensamento, as lembranças e os sonhosdas pessoas. Sem ela, o homem se dispersa no mundo.
Na vida do homem, a casa afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. [...]. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. É corpo e alma. É o primeiro mundo do ser humano. Antes de ser ‗jogado no mundo‘, como professam as metafísicas apressadas, o homem é colocado no berço da casa. E sempre, nos nossos devaneios, ela é um grande berço. Uma metafísica concreta não pode deixar de lado esse fato, esse simples fato, na medida em que ele é um valor, um grande valor ao qual voltamos nossos devaneios.
O ser é imediatamente um valor. A vida começa bem, começa fechada, protegida, agasalhada no regaço da casa (BACHELARD, 1993, p. 26).
Segundo o autor, o espaço habitado transcende o espaço físico, geométrico, sendo considerado ―um estado de alma‖ de quem o habita (BACHELARD, 1993, p. 84). Nesse contexto, a casa transpõe o seu significado, de ―simplesmente‖ abrigar pessoas, em valores humanos. A casa diz muito sobre quem o habita. Segundo o autor, todo espaço habitado traz a essência da noção de casa, contendo nela valores que as pessoas carregam consigo e externalizam nesses ambientes. Harvey (2006) diz que considerar o corpo poroso em relação ao ambiente molda as relações interpessoais e com a natureza. O corpo internaliza o que existe fora e o inverso também é verdadeiro, segundo o autor.
A sociedade contemporânea vive em lugares que são, muitas vezes, desprovidos de qualquer elemento que aguça os sentidos. Voltar a atenção para si, para o corpo e, consequentemente, para o espaço onde habitamos, é um meio de oposição a toda uma rede de abstrações políticas, sociais, científicas e econômicas da sociedade moderna que nos fazem negligenciar a natureza externa e interna (HARVEY, 2006). Nessa concepção, o cuidado com o ambiente reflete no indivíduo e vice-versa. Nós, enquanto humanidade, podemos fazer uso das nossas potencialidades para criar e modificar ambientes que fomentem o fluxo das forças criativas de quem o habita, sensibilizem os sentidos humanos em direção a uma reconexão com a natureza que o cerca. Goldstein (2010) relata sua experiência de contemplação do espaço ao caminhar por um sítio em meio à natureza exuberante, que contrasta com o ambiente das grandes cidades:
Nós estávamos nos sentindo em fina sintonia com o lugar. Prazer proporcionado àqueles que cuidam para que os sentidos se agucem, exercitando o ouvir, o olhar ou o cheirar, por exemplo, ao abster de barulhos artificiais, ao procurar andar no escuro, explorando o máximo da visão e do tato, ao abrir as narinas, procurando sentir os mais variados odores, ao tentar distinguir os mais variados sons – com isso, quando retomamos dos período em que passamos na cidade, é clara a percepção de que nossos sentidos ficam embotados e temos que reeducá-lo a cada volta (GOLDSTEIN, 2010, p. 29).
É possível a mudança de ambientes insalubres em direção a espaços que proporcionem uma melhor qualidade de vida. Mas, como sugere Harvey (2006), a mídia consumista molda o nosso contexto imaginativo, sem que praticamente ninguém dê conta, de forma que as possibilidades de mudanças na forma de habitar – e, inclusive mudanças societárias – sejam vistas como inalcançáveis, verdadeiras utopias. O contexto de vida da sociedade contemporânea muitas vezes nos mostra que não há alternativas, nos tornando impotentes diante de alterações que precisam ser feitas no ambiente onde vivemos. Mas,
como indaga Harvey (2006), como e por que nos convencemos que inexistem meios de modificar o espaço visando uma melhor qualidade de vida? Por que nos faltam coragem e perspicácia para propor alternativas libertadoras e buscar pô-las em prática? Resistir ao encrudescimento de uma forma de viver desprovida de sentido e ―[...] enfrentar a relação entre o livre fluxo da imaginação e o autoritarismo é a tarefa que tem de estar no cerne de toda política regeneradora que tente ressuscitar ideais utópicos‖ (HARVEY, 2006, p. 214).
Na perspectiva de pôr em prática alternativas (que mais parecem ser inalcançáveis) que possibilitem melhorias no habitat humano, no começo do século XX, num cenário de crescimento industrial e alterações radicais na conjuntura econômica mundial (OTTONI, 1996), Ebenezer Howard12 propôs um novo modelo de agrupamento humano denominado ―Cidade-Jardim‖. O autor diz que a ideia principal é criar um novo sistema industrial e melhores condições de moradia num mesmo assentamento. Nesse modelo, Howard (1996, p.114) sugere a elevação dos padrões de conforto e saúde dos trabalhadores moradores desses assentamentos, numa ―combinação saudável, natural e econômica de vida urbana e rural‖. Segundo Howard (1996), a ―Cidade-Jardim‖ é projetada de modo que os atrativos encontrados nas cidades - como empregos bem remunerados, efervescência cultural/religiosa, desenvolvimento técnico e científico – e as vantagens encontradas na vida no campo – como a proximidade com os recursos naturais – sejam encontradas em um só lugar. O autor assegura que não há somente duas alternativas para a sociedade: vida urbana ou rural.
O campo é a fonte de toda saúde, de toda riqueza, de todo conhecimento. Mas ao homem não foi revelado conhece-lo na plenitude de sua alegria e sabedoria, e isso nunca poderá ocorrer enquanto perdurar essa infeliz e antinatural separação entre sociedade e natureza. Cidade e campo devem estar casados, e dessa feliz união nascerá uma nova esperança, uma nova vida, uma nova civilização (HOWARD, 1996, p. 110, grifo do autor)
Howard (1996) propõe a criação de uma cidade circular que acomoda 30.000 habitantes e ocupa 400 hectares dos 2400 no total. Os 2000 hectares restantes constituem-se terrenos agrícolas (que seria o campo). A cidade é dividida em seis grandes vias arborizadas que irradiam do centro da circunferência até o limite do terreno. No núcleo da circunferência localiza-se um jardim e, ao seu redor, edifícios públicos, teatro, hospital, galeria de arte, biblioteca e museu. A ideia de Ebenezer Howard é que, ao redor dessas ―facilidades urbanas‖,
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Ebenerzer Howard, filho de comerciantes, nasceu em Londres e era especialista em etnografia. Apesar de não possuir nenhuma formação em arquitetura ou engenharia, tornou-se conhecido pela publicação do livro ―Tomorrow: A Peaceful Path to Real Reform‖, em 1898, no qual propôs a criação de uma cidade ―utópica‖ que tinha o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas (OTTONI, 1996).
qualquer indivíduo da cidade possa, numa caminhada de poucos minutos, desfrutar do ar fresco e da calmaria encontrada no campo. O assentamento é repleto de praças arborizadas e espaços comunitários que integram os moradores. No anel externo da cidade, localizam-se fábricas, mercados, armazéns e serrarias. A arquitetura da cidade é desenhada para que o tráfego de veículos seja drasticamente reduzido em relação às cidades ―convencionais‖. O lixo produzido pela população é destinado à fertilização do solo para a agricultura.
A ideia é que todo o assentamento seja patrimônio coletivo dos moradores. Dessa forma, o lucro de algum empresário, dono de estabelecimento, é revertido para a comunidade. Ninguém é proprietário de casa ou comércio. Cada morador paga uma cota mensal que dá direito a usufruir do espaço (comércio, indústria ou casa, por exemplo) por um determinado tempo. Além disso, esse valor é usado para contribuir a amortizar o empréstimo realizado para a compra do terreno, financiar novas construções e a manutenção dos espaços. Uma característica importante da Cidade-Jardim é que há um ―governo central‖ que é responsável pelas leis e tributações, mas a ele não é dado o poder de gerir o assentamento. Segundo Ottoni (1996), Howard não acreditava no poder do Estado inglês e também não contava com o controle do Estado socialista. Sua motivação foi a criação de uma nova forma de governar em ambientes de baixo custo, com uma ―alta qualidade ambiental‖ (OTTONI, 1996, p. 41).
A primeira Cidade-Jardim, até então utópica, foi construída em 1903, alcançando em 1962, 26.000 moradores, como conta Ottoni (1996). Após a Primeira Guerra Mundial, políticas habitacionais de cunho imediatista, sem um maior planejamento, previam a construção de várias Cidades-Jardins, o que descaracterizou a proposta de Howard. Com o tempo, houve queda da qualidade das construções, porém, novas experiências foram efetivadas, evitando os erros cometidos na primeira experiência (OTTONI, 1996).
Apesar da proposta de Howard ser desprovida de uma preocupação contundente em relação a preservação dos recursos naturais, visto que seu projeto estimulava o desenvolvimento de indústrias em meio ao ambiente rural (anseio este que não era característico da época na qual o projeto foi arquitetado)13 ela demonstra que é possível o uso da criatividade inerente do ser humano para a criação de ambientes humanos mais saudáveis. Como diz Harvey (2006), cada um de nós tem algo a oferecer no sentido de produzir coletivamente projetos que desejamos que sejam nossas cidades, espaços estes referentes às
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Segundo Silva (2013), a preocupação com a preservação dos recursos naturais só se tornou evidente na segunda metade do século XX, em meio à profundas crises ambientais, consequência do crescimento industrial exacerbado e a total urbanização das cidades.
possibilidades humanas, a quem queremos vir a ser. Enfrentar o utopismo e ressuscitá-lo, a fim de ―agir como arquitetos de nosso próprio destino‖, está no cerne da criação de um novo sentido societário (HARVEY, 2006, p. 211).
Apesar de David Harvey defender alternativas que propõem uma mudança societária mais radical do que a proposta por Ebenezer Howard, o autor reconhece a importância que esses movimentos têm de empoderar os cidadãos para a construção de uma nova realidade. De acordo com o autor, uma transformação social mais profunda inclui pensar o habitat a partir de mudanças em diversas escalas, como no planejamento urbano, na manutenção da cultura local, conservação de micro-habitats e de qualquer forma de vida. Todos esses aspectos precisam ser unidos e transformados, visando a criação de alternativas político-econômicas a partir das contradições do sistema em que vivemos (HARVEY, 2006).
Propostas de mudanças mais profundas na sociedade, como defende David Harvey, surgiram apenas na segunda metade do século XX e envolveram alternativas que incluíam o cuidado com a natureza interna e externa, preocupações até então quase totalmente negligenciadas. Muitas dessas propostas foram postas em prática, assim como aconteceu no exemplo das Cidades-Jardim, e culminaram no surgimento de comunidades ecológicas. Nesse sentido, o próximo capítulo vai tratar analiticamente sobre movimentos contestatórios que, mais tarde, resultaram no surgimento das ecovilas, como hoje são conhecidas.