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Har havbruk ei framtid i matforsyninga i verda?

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As construções foram o que mais me chamou atenção ao chegar na Ecovila de Piracanga, pelas suas belezas e singularidades. Algumas são circulares, outras feitas de barro, outras de madeira ou de tijolos ecológicos. São construções que exalam criatividade. São coloridas, ventiladas, próprias para dias de descanso e harmonia com a natureza daquele lugar. O meu deslumbramento inicial se deu porque vim de um centro urbano no qual a arquitetura é muito uniforme, pobre de cores e que não nos aguça os sentidos. David Harvey diz que o projeto urbano é dominado pela ―ficção, fragmentação, colagem e ecletismo, todos num sentido de efemeridade e caos‖ (HARVEY, 1992, p. 96). O meio urbano e suas construções sem vida reforçam a visão simplista e uniforme com suas ―formas superpostas‖, como diz Harvey (1992).

As construções no assentamento redirecionam, como diz Pallasmaa (2011), nossa consciência para o mundo, fazendo com que nos sintamos como seres espiritualizados e corpóreos. O autor lembra que é essa a grande missão da arte.

Em algumas casas, são resgatadas técnicas ancestrais de construção, como quando a terra era amassada com os pés para preparar tijolos, segundo Lengen (2008), autor do livro Manual do Arquiteto Descalço. Em todas as estruturas são utilizados materiais naturais, como madeira, tinta feita de terra, barro, pedras e outros.

A superficialidade da construção padrão de hoje é reforçada por um senso enfraquecido de materialidade. Os materiais naturais – pedra, tijolo e madeira – deixam que nossa visão penetre em suas superfícies e permitem que nos convençamos da veracidade da matéria. Os matérias naturais expressam sua idade e história, além de nos contar suas origens e seu histórico de uso pelos humanos (PALLASMAA, 2011, p. 30).

Construções feitas de terra fazem parte da cultura popular pela facilidade de construir, pelo baixo custo e por utilizar os recursos do próprio ambiente, como madeira e

terra (SILVA & CARVALHO, 2007). Segundo os mesmos autores, muitas edificações desse tipo foram executadas até o final do século passado, porém, perderam espaço para materiais de construção industrializados como ferro, vidro e cimento que demostram serem insustentáveis ecologicamente. Na Inkiri Piracanga, a maioria das construções ainda são feitas de tijolos e cimento oriundos da indústria da construção civil. Sobre essa realidade, Bruno Tambellini argumentou:

Não, o que aconteceu foi que... muita coisa foi construída no início porque... Foi assim: primeiro, foi formada uma equipe aqui que trabalhava com construção convencional. Tijolo, eucalipto, toda essa coisa. E durante esses doze anos e até há pouco tempo atrás, essa equipe teve construindo grande parte das coisas aqui em Piracanga. E a parte disso, chegaram algumas equipes de bioconstrução pra trabalhar aqui. Essa equipe de bioconstrução que tá agora é a terceira equipe de bioconstrução que tá passando por Piracanga. Então, sempre teve vários trabalhos em conjunto, assim, de certa forma, sabe? Tipo, uns trabalhando com bioconstrução, uns com construção convencional. Então, teve sempre muita diversidade em nível de construção aqui.

O eucalipto é uma madeira bastante utilizada nas construções da Inkiri Piracanga, apesar de ser uma espécie exótica, e de estar em meio a grandes controvérsias quanto ao seu uso e seus impactos no meio ambiente (VITAL, 2007). O autor diz que, de modo geral, os efeitos sobre o solo (empobrecimento e erosão), a água (impacto sobre a umidade do solo, aquíferos e lençóis freáticos) e a baixa biodiversidade observada em monoculturas são alguns dos aspectos mais criticados entre os ambientalistas. Sendo um dos princípios da permacultura a observação atenta do espaço e o planejamento do sistema permacultural visando a autossuficiência (HOLMGREEN, 2007), Bruno esclareceu que, atualmente, o uso de madeiras locais para as construções da Inkiri Piracanga é impossível.

(...) em todos os lugares que eu passei, em que eu tive, a bioconstrução, ela nada mais era que voltar às origens da construção do próprio lugar, né? E aqui em Piracanga, hoje, no momento em que a gente vive, isso é impossível. Porque, o que acontece é que, apesar da gente utilizar alguma dessa matéria, a bioconstrução aqui era feita com madeira e piaçava, né? A piaçava a gente continuou utilizando e a gente continuou utilizando a madeira, mas é eucalipto, que é uma madeira natural da Austrália, não é natural daqui. Porque toda madeira que é natural daqui ela foi devastada. E é proibido você tirar essa madeira, hoje em dia, pra construção, né? Ninguém vai lá na mata cortar uma árvore como os índios faziam porque tudo isso aqui era uma grande mata e eles não tinham... o manejo da floresta deles era bem diferente do da sociedade que a gente vive agora. Então, essa bioconstrução antiga, essa origem da bioconstrução aqui, nesse lugar de praia, ela não existe mais.

Numa tentativa de reestruturar o local, resgatando esse recurso natural que fora perdido, os permacultores engajados no projeto Escola da Natureza estão se organizando para

criar sistemas agroflorestais de grandes proporções para a produção de madeira de construção, que será utilizada na Ecovila. Segundo Bruno, há cerca de 200 mudas de bambu plantadas, visando a utilização desse recurso, também, para a bioconstrução. Além disso, os permacultores intercalam as construções convencionais do assentamento com técnicas de bioconstrução. Sobre essa prática:

Baseadas nestas ―formas ancestrais‖ de habitar o espaço, a bioconstrução não se reduz a uma simples imitação. Trata-se de um saber-fazer contemporâneo híbrido que busca absorver as técnicas e práticas habitacionais tradicionais e incrementá-las com o conhecimento, tecnologia e materiais que se têm à disposição hoje em dia, criando uma nova forma de expressão arquitetônica, cuja estética característica distingue a paisagem criada no atual momento da geografia histórica das contraculturas espaciais (SILVA, 2013, p. 236).

Apesar do uso de materiais do modelo industrial de construção hegemônico, atualmente, os ecovilenses procuram adotar bioconstrução como forma principal - e artesanal

- de fazer arquitetura. Algumas habitações e estruturas, como os banheiros secos, são construídas a partir dessa perspectiva. Adobe, superadobe, taipa e tijolos de garrafa PET, são alguns tipos de materiais da bioconstrução que a Ecovila adotou.

FIGURA 23 – Banheiro seco construído com taipa e tijolos de garrafas PET

Autoria própria - Registro fotográfico de setembro de 2016.

O adobe consiste em um tijolo feito de barro e palha (fibra vegetal). Para a produção desse tipo de tijolo, é necessário amassar a mistura (barro, água e palha) com os pés, até formar uma massa homogênea. Depois que é feita a mistura, o material é posto em formas de madeira, que devem ser umedecidas para que a terra não grude na madeira (CARNEIRO, 2013). Não é necessário queimar com fogo os tijolos, como é feito com o tijolo cerâmico.

Nessa técnica, os tijolos são secados ao sol durante 10 dias (Ibidem, 2013). Segundo a autora, esse material tem uma boa capacidade de regulação térmica, permeabilidade, com grandes potencialidades para o conforto ambiental.

O superadobe, técnica criada pelo iraniano Nader Khalili, utiliza sacos contendo terra de qualquer qualidade – para a produção dos tijolos ecológicos. Nessa técnica, a terra, contida nos sacos, é comprimida por pilões – com a finalidade de não deixar espaços com ar dentro dos sacos – formando grandes e resistentes tijolos. As construções com superadobe costumam ter formato arredondado.

A taipa ou pau-a-pique, bastante utilizada nas construções da Comunidade Inkiri, é uma técnica ancestral de construção, muito usada no meio rural. Consiste em uma ―ossatura‖ de madeira, bambu, galhos de árvores ou garrafas PET (no caso da Inkiri Piracanga), com seus espaços preenchidos com uma mistura de barro, palha, esterco e água (CARNEIRO, 2013). Nas construções da Inkiri Piracanga, o acabamento dessa e outras técnicas de bioconstrução é feito com tinta de terra crua.

FIGURA 24 – Construção sendo realizada com taipa

Autoria própria - Registro fotográfico de setembro de 2016.

Muitas estruturas também são feitas de tijolos de garrafas PET. Dentro das garrafas, que também podem ser de vidro (garrafas de azeite, por exemplo), são depositados resíduos inorgânicos gerados por eles, como plástico duro ou vidro quebrado. Os vãos entre as garrafas são preenchidos com a taipa, como descrito acima.

A bioconstrução permite uma autonomia no modo de construir que incentiva a retomada de formas coletivas de construção, além de ser um poderoso estímulo à criatividade, pois cada construção exige um olhar holístico e ecológico profundo (CAPELLO, 2013).

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