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policial, em um ato de pura e simples vigilância, o que, para Benjamin, referindo-se à ação policial generalizada, "constitui um incômodo brutal que acompanha os cidadãos ao longo de toda a vida regulamentada" (ibidem, 69)

Desta forma, Assis, talvez, saiba que através da nudez, como uma expressão pura e não violenta, provocará o poder e forçará o aparecimento, o desvelamento, da violência latente da repressão, que através da vigilância moral, priva a liberdade individual e consequentemente mantém o status quo. São dos pequenos atos que presenciamos os grandes acontecimentos.

Para finalizar, registramos que, na ocasião da filmagem, a polícia militar de Pernambuco interveio na ação da cena e, por pouco, atores e diretores não foram detidos por ato obsceno.

3. Poetizando a violência: a tortura da palavra 

 

“Agora vão ter que me engolir. Vocês não queriam que eu contasse as histórias de forma diferente? Estou fazendo poesia. É isso que eu sou, um poeta”, afirma Cláudio Assis, em entrevista, na ocasião do lançamento de A Febre do Rato. Notamos que a afirmação não implica ausência de violência no filme; pelo contrário. Em outra exibição do filme, desta vez no 22º Festival de Cinema do Ceará, em 2012, o diretor certifica a presença de uma temática "forte", com violência, justificando o conteúdo por sua visão da realidade: "a vida é assim"; e complementa: "eu não sei enganar".

Ao assistirmos Zizo declamar suas poesias, em meio ao caos, é plausível associá-lo ao poeta e jornalista Paulo Martins, personagem do clássico Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967). Antônio Calmon73, assistente de direção no filme de Glauber Rocha, relembra que o diretor começou a usar a poesia em Deus e o Diabo na Terra Sol para mascarar a falta de recursos e em Terra em Transe, incorporou a poesia no texto como um estilo, mostrando-nos como a linguagem artística, os poemas declamados nesse caso, pode nos fornecer algo, um artifício extra que comunica melhor do que o diálogo puro em uma narrativa. Assim, em ambos os filmes, poética e política se misturam através da força dos versos de Paulo e Zizo, em suas vontades quase insanas       

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de mudança e justiça social no País. Porém, diferente de Zizo, que jamais cogita empunhar uma arma, Paulo, vivendo na eminência de um golpe político na fictícia República do Eldorado, é relativamente mais cético que Zizo, e não crê com toda fé que palavras tenham forças para transformar uma sociedade oprimida, entregando-se ao dilema entre a luta armada e a vitória através do debate, como quer sua amante Sara.

Mar bravio que me envolve neste doce continente. A este esquecimento posso doar minha triste voz latina, mais triste que a revolta,

muito mais...

Vomito na calle o ácido dólar,

avançando nas praças entre niños, sucios, con sus ojos de pajaros ciegos. Vejo que de sangue se desenha o Atlântico,

sob uma constante ameaça de metais a jato. Guerras e guerras nos países exteriores.

Posso acrescentar que na lua, um astronauta se deu por achado. Todas as piadas são possíveis nas tragédias de cada dia. Eu, por exemplo, me dou a vão exercício da poesia. (poema proferido por Paulo Martins de Terra em Transe)

A meticulosidade com que Glauber Rocha escolheu as palavras74 ao escrever o roteiro permitiu que o conflito apresentado pelo filme fosse entendido como uma realidade universal ou, no mínimo, latina. Por exemplo, misturando o espanhol e o português e fugindo do "baianês", que era natural a ele, retratou sua percepção a respeito da sociedade, distorcendo fronteiras, então determinadas, da linguagem, criando suas reputadas alegorias.

Distorcer fronteiras da linguagem, ou a própria linguagem, é uma das funções da poética e, para atingir um de nossos objetivos - entender como a poesia serve à narrativa quando se aborda ou denuncia a violência - utilizaremos o termo "tortura da palavra", como proposto por Žižek (2013). Distorcer é fragmentar, adulterar, trocar, deturpar, distender; como se faz ao corpo quando torturado fisicamente. Neste universo da linguagem torturada que visa, entre outros fenômenos sociais, à violência, citamos o dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht, que através de metáforas e técnicas da dramaturgia, alcança resultados sensoriais os quais favorecem o juízo do espectador. É o caso do efeito de distanciamento, que por meio de determinada montagem poética, explorando recursos cenográficos (atuação, música, figurino etc.) provoca nosso senso crítico. De acordo com Anatol Rosenfeld75, a       

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Além das escolhas de movimentos de câmera, sonoplastia, atuação, enfim, toda a cinematografia glauberiana. 

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palavra original utilizada por Brecht para designar tal efeito é Verfremdungseffekt, podendo ser traduzida também para "efeito de alienação", "estranhamento", "desfamiliarização" (ROSENFELD, 2009, p. 315). Um efeito tem por natureza forçar algo; sendo artifício sinônimo de efeito, ele produz algo que naturalmente não existe, artificial. No caso da dramaturgia tradicional, procura-se forçar uma emoção, às vezes pelo exagero, outras, pela identificação ou mesmo pela beleza. Diferente deste caso, o distanciamento brechtiano procura justamente o contrário: é através de uma dramaticidade menor, pouco emotiva 76, onde é produzido o resultado do distanciamento, que ele acredita fazer com que o "público permaneça lúcido, crítico, diante das situações" (ibidem). Assim, o forçar - já implicando certa violência, nos remetendo ao ato de coagir, impelir, mas também, no caso de uma interpretação, como sinônimo de simulação - na dramaturgia de Brecht é sutil, porém, pelo cinismo aplicado às cenas, revela-se algo de estranho ao espectador.

Brecht acha que estamos tão habituados com nossa vida que não a enxergamos mais; é preciso afastarmo-nos dela para vê-la objetivamente. É preciso desfamiliarizar o familiar. Nessa forma objetiva e estranha veríamos nossa própria situação. (ibidem, p. 316)

Recordamo-nos, então, o depoimento de Hilton Lacerda77 a respeito da dificuldade do brasileiro em se reconhecer naquela realidade visceral e trágica, considerada polêmica por muitas pessoas. O fato de A Febre do Rato trazer um poeta anacrônico, que poderia bem ser um personagem dos anos 1970, um editor de panfletos subversivos, reforçado ainda pelo uso de imagens preto e branco, já causa um certo distanciamento temporal, mesmo que o filme retrate o presente. A explicação de Rosenfeld a respeito de Brecht, pode, assim, se aplicar também ao filme em questão.

No início, estranhamos, depois, ficamos surpresos, reconhecendo situações que também poderiam nos envolver. É nossa causa que está em jogo, embora se fale da China do século XVII. Curiosamente, verificamos que o que está no palco é nossa própria situação. (ibidem)

Os criadores de A Febre do Rato lançam mão de diferentes artifícios poéticos os quais provocam estranhamento por se colocarem fora do paradigma do cinema popular. Artifícios tais quais como poemas, fotografia, atuação que em determinado momento se volta ao público, referências a dados factuais, choques de realidade, fragmentação de montagem na edição, para retratar a violência de forma sutil - ainda que ao final ela se escancare em hipocrisia e injustiça envolvendo na morte do protagonista -       

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Nota-se que é pouco emotiva, portanto ainda há emoção, ainda que menos do que no teatro tradicional. 

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tentando representar o que seus criadores acreditam ser o mais próximo da realidade, com a finalidade de produzir um cinema engajado ou, no mínimo, fazendo o espectador refletir sobre a sociedade.

[...] para fazer a verdade falar, não basta suspender a intervenção ativa do sujeito e deixar a linguagem falar por si - como disse Elfriede Jelinek com extraordinária clareza: "A linguagem deve ser torturada para dizer a verdade". A linguagem deve ser torcida, desnaturalizada, estendida, condensada, cortada e reunificada, posta para funcionar contra si própria. A linguagem, enquanto "grande Outro" não é um agente de sabedoria com cuja mensagem devemos concordar, mas um meio de estupidez e indiferença cruéis. A forma mais elementar de tortura da linguagem de alguém, se chama poesia - pensemos em que uma forma complexa como um soneto faz com a linguagem: ela submete o fluxo livre da fala a uma camada feita de formas fixas de ritmos e rimas (ŽIŽEK, 2013, p. 502)

Assis então prova fazer um filme de poesia, ainda que tratando de violência: violência contra a liberdade, como resumiu Mateus Natchergaele, ou pelo direito de errar, como propõe o próprio diretor, que em última análise também pode ser interpretado como uma liberdade em errar. E, justamente, pela poesia, a linguagem libertadora, que se mostra a violência de maneira crítica, cravando a liberdade no âmago do problema. E tendo a poesia como função e elemento narrativo, assistimos a um filme contra a hipótese de estarmos restringidos a um pequeno leque de opções, determinado historicamente, para que façamos sempre a escolha certa. Leque este que denominamos democracia.

4. Poesia como subterfúgio da vida nua e a estética do protesto