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Para fechar este capítulo incorreremos, mais uma vez, sobre a questão do tempo nos filmes, fazendo um elo deste como o conceito de anti-humanismo que está por trás da citação de Foucault acima. Esperamos, assim, transcorrer entre o contexto de Cláudio Assis, mais técnico e descritivo, para a análise da poética da violência em a Febre do

Rato, que procurará ser mais teórica e reflexiva.

A cena de abertura de Amarelo Manga mostra a tendência para imutabilidade da condição na qual os personagens estão inseridos. Cena esta que é repetida no final do filme, passando a ideia de estagnação, perpetuidade e até mesmo uma espécie de "feitiço do tempo" que acomete a vida daquelas pessoas, como no filme clássico com       

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Extraído do debate de Michael Foucault e Noam Chomsky, "Sobre a Natureza Humana". 1971. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=3wfNl2L0Gf8>. Acesso: 10 de junho, 2014

Bill Murray, O dia da Marmota (Harold Ramis, 1993), onde os dias se repetem ad

infinitum. Na primeira cena de Amarelo Manga somos apresentados a Lígia, que mora

em seu boteco, e está acordando. A câmera a persegue saindo da cama, se vestindo, abrindo as portas60 e arrumando o salão do bar para mais um dia de trabalho, enquanto, letárgica, fala sozinha (para o espectador), quase como que recitando um poema sobre a frustração de viver uma vida prostrada.

"Ás vezes eu fico pensando de que forma as coisas acontecem.

Primeiro vem o dia. Tudo acontece naquele dia. Até chegar a noite que é a melhor parte. Mas logo depois vem o dia outra vez. E vai vai vai... E é sem parar....

A única coisa que não muda é o Santa Cruz que não ganha nada! Mas nem título de honra! E eu não ter encontrado alguém que me mereça. Só se ama errado.

Eu quero é que todo mundo vai tomar no cu." (Lígia)

Sabemos que o filme se passa no dia 16 de junho - data em que Leopold Bloom vive sua odisseia no romance Ulysses (James Joyce, 1922) - pois a segunda cena do filme, que mostra Issac, um necrófilo, dirigindo o seu carro, um Camaro antigo de cor amarela61, enquanto escuta um programa de rádio, o "Sopa da Cidade", no qual o locutor anuncia a data seguida das notícias sensacionalistas do dia. A história contada pelo locutor, nesta cena, é outro indício da imutabilidade do cotidiano das pessoas. Ele fala sobre uma mulher "respeitosa e evangélica" que, no dia anterior, flagrou o marido com a amante. "Resultado: a amante no hospital ferida e a corna, ninguém sabe, ninguém viu" (locutor da rádio). Uma situação exatamente igual se repetirá mais tarde no dia 16, com a personagem Kika.

Podemos ler o problema da estagnação em Baixio das Bestas também. Nele o tempo é mostrado como um ciclo, como dito anteriormente, através do cultivo da cana, que, por si só, já é sinônimo de permanência, através dos séculos, eternizando a exploração e os maus-tratos, tanto do solo como das pessoas que nele trabalham, seja para ser exportado para Portugal, como no século XVI, seja para os Estados Unidos produzirem etanol diante a crise do petróleo, como acontece no século XXI62. Assim,       

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Quando Lígia abre a primeira porta, vemos um homem dormindo, deitado do lado de fora, na calçada da entrada do bar, o qual Lígia ignora, sem, nem ao menos, olhar para ele, nos remetendo à banalização da miséria.  

61 Cláudio Assis conta que o título do filme vem de um carro antigo que ele possuía, cujo documento constava a cor

do como amarelo manga.

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Lembrando que na ocasião em que o presidente norte-americano, George W. Bush, visitou o Brasil, em 2007, uma das pautas centrais discutidas com o presidente Lula era o etanol.

no desenvolvimento do filme, são inseridas as cenas das principais etapas do cultivo da cana, mostrando a precariedade do trabalho: na plantação, na queimada e na colheita. Procedimentos estes conservados, no Brasil, mesmo debaixo de críticas ferrenhas. Assim a cana-de-açúcar serve de paralelo com a situação da mulher, problema central do filme, que é sumariamente abusada, como é o caso de Auxiliadora, que apesar de assumir uma semiautonomia de vida no final do filme, continua se permitindo ser explorada no posto63. Encontramos a projeção do futuro da menina em outra personagem, Bela (Dira Paes), uma prostituta mais velha e experiente, mas nem por isso menos abatida pela crueldade machista, acabando espancada e estuprada pelos agroboys, que por sua vez perpetuam a questão da impunidade de classe. Ou seja, um futuro que, como em uma espiral do tempo, nos da face junto ao presente. A história se repetirá, no cultivo da cana, na condição feminina, na impunidade: a História dá voltas em vão.

O filme é como um quadro, como poesia: ou você pinta, ou declama ou reage. No filme, é claro que existem várias referências e há uma referência universal, que é o respeito pelo ser humano. Então não passa necessariamente por uma história pontual. É pontual no sentido de a violência contra a mulher ser grande, a impunidade, que é outra coisa gritante no filme, é nacional, seja no legislativo, no judiciário, nas condições socioeconômicas. Do que se está falando é de uma violência e de uma impunidade que se tornou normal. E o que a gente vai fazer? No filme, porque os agroboys não morrem (garotos ricos e criminosos da história), é errado. Mas, por que eu tenho que matar? Eles estão impunes hoje, a verdade é essa! A impunidade reina no Brasil. (ASSIS, 2011)

Ao prender seus personagens no tempo, Assis nos mostra uma certa predisposição ao anti-humanismo, como aquela apresentada por Althusser e Foucault dentro da tradição marxista pós 1845, quando Marx "rompe radicalmente com todas as teorias que são alicerçadas na história e na política como uma essência do homem" (ALTHUSSER, 1964). Como já anuncia o prólogo do filme, o tempo - como metáfora da História, que por sua vez é submissa às instituições - sempre vence.

O tempo é a morada e o túmulo da "alma": o tempo, como história e política conduzidas não apenas por instituições públicas e privadas, sejam elas culturais, religiosas, educacionais, médicas, jurídicas, mas por "complexas relações de poder, corpos e forças submetidos por múltiplos dispositivos de 'encarceiramento'"; e a alma, diferente da cristã e de uma essência humana64, "nasce antes de procedimentos de punição, vigilância, de castigo e de coação (...) A alma, efeito e instrumento de uma       

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Assim como o Brasil está livre de seu colonizador, Portugal, mas segue sendo explorado. 

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anatomia política; a alma prisão do corpo." (FOUCAULT, 2011, p. 30) Construída e, portanto, alma inumana.

Utilizar o "feitiço do tempo" como gancho para falar em anti-humanismo e em seguida o entrelar à nossa estética da violência, sabemos, é arriscado. Mas, podemos explicar o nó emprestando a tese de Foucault, citando Vigiar e Punir, (2011) em que fazer a história das prisões francesas não significa "fazer a história do passado em termos do presente [mas,] fazer a história do presente." (ibidem, p. 33), como se o passado estivesse ecoando hoje; assim como Bela é o hoje e Auxiliadora é o ontem. Como se o tempo fosse apenas o palco onde o espetáculo da história, alternando o discurso, repete sua estrutura. No caso da história das punições, passando do discurso do suplício, com penas corporais, dolorosas e bárbaras, para o discurso da disciplina, "momento em que nasce uma arte do corpo humano", "fabricando assim, corpos submissos e exercitados, corpos 'dóceis'", "obedientes" e "úteis" (ibidem, p.133).

A violência em Febre do Rato quando posta em um nível mais subjetivo, como uma áurea não tão aparente, mas, sentida nas entrelinhas da poesia declamada por Zizo, pode ser analisada através dos dois discursos citados acima: o do suplício, representado pela paixão de Zizo, por seu assassinato, pela morte do rio Capibaribe; e o da disciplina, representado pelo ativismo de Zizo tanto na esfera comportamental, da psicologia, de suas relações amorais com droga e sexo, tanto na esfera política, onde, anacronicamente (temos mais uma vez uma referência ao tempo), Zizo defende o anarquismo.

CAPÍTULO 3