A riqueza cultural do estado de Pernambuco e das disciplinas aqui tangidas fazem deste trabalho apenas um aperitivo para aqueles que pretendem compreender tanto o cinema pernambucano, como a obra de Cláudio Assis e as possíveis representações artísticas sobre as ocorrências sociais e psicológicas em uma sociedade complexa e, se restringirmos ao mote desta dissertação, violenta. Sendo assim, faremos agora um levantamento de alguns pontos que não foram tocados nesta dissertação e podem ser objetos para estudos futuros dentro deste universo.
Como os livros raramente são suficientes para entendermos todas as facetas de uma sociedade, tomamos por pretexto a 18º edição do Festival de Cinema Pernambucano, o Cine-PE, para visitar a cidade de Recife e tentar travar contato com agentes da produção cinematográfica local. A visita ocorreu, justamente, durante os dias do festival, entre 30 de abril e 06 de maio de 2014, e através dessa visita, tivemos uma noção que acreditamos ser mais precisa e elucidativa de como se dão os processos criativos e institucionais na região.
Das conversas que mantivemos durante a estadia em Recife, destacamos, a respeito do cinema pernambucano, duas: uma com o montador João Maria, técnico em edição, muito requisitado pelos cineastas locais, tendo trabalhado com praticamente todos eles (Lírio Ferreira, Marcelo Gomes, Renata Pinheiro, Adelina Pontual etc), inclusive com Cláudio Assis, com quem colaborou no curta-metragem, Texas Hotel; e a outra com o próprio Cláudio Assis, com quem encontramos brevemente durante uma das sessões do Festival.
Da parte de João Maria, realçaremos seu pedido quanto a urgência de se investigar uma tendência machista na produção pernambucana, afirmando que além da dificuldade em se aceitar mulheres à frente de projetos cinematográficos, os homossexuais e negros também deparam-se com a resistência por parte dos patrocinadores e parceiros para seus filmes. A conversa com João Maria aconteceu após uma coletiva de imprensa para o lançamento do filme Tubarão (2014), montado por ele e dirigido por Leo Tabosa. Durante a coletiva relatei minha surpresa com a
quantidade de cineastas pernambucanos que estão fora do circuito comercial, sendo Leo Tabosa um deles, e diante deste fato, perguntei se eles sentem-se representados pelo que se chama de "Cinema Pernambucano". João Maria, tomou a frente da resposta, e com certa rispidez, disse não acreditar em tal coisa como "Cinema Pernambucano"; disse que existe um cinema produzido em Pernambuco por pernambucanos, mas que não devemos tratar esta produção como se houvesse uma ligação estética, apesar de reconhecer a coletividade e contribuição entre muitos dos cineastas. Após a coletiva, continuamos nossa conversa, foi quando ele alertou para o "machismo", completando que, se existe algo como cinema pernambucano, este cinema, por mais machista que possa ser, tem uma mãe, e que esta mãe é a montadora paulistana, Vânia Debs79, que logo no início da geração do Novo Ciclo, ensinou muita coisa aos cineastas locais. Outro assunto que permeou nossa conversa foi a questão dos temas. Defendi que acredito existir uma certa cronologia no tratamento da questão da tradição e da contemporaneidade, o que ele discordou. Uma hipótese para tal juízo de João Maria a este respeito, pode ser que ele tenha pensando na produção dos últimos dois anos, que ao meu ver, ficou mais heterogênea, do que a realizada entre o período que compreende o Novo Ciclo.
A conversa com Cláudio Assis girou em torno do evento Cine PE. O cineasta, que estava ali apenas para encontrar alguns amigos e não para assistir aos filmes, confessou não creditar aquele festival como representativo da região e que muitos dos cineastas locais boicotaram o evento. Após esta conversa, pesquisei mais sobre o festival e descobri que, de fato, existe uma polêmica em torno da organização. Estando em sua 18º edição, o evento já passou por fases melhores, e ao constatar a queda quantitativa de público nos últimos anos, os diretores do festival, Sandra e Alfredo Bertini, convidaram Rodrigo Fonseca, repórter e crítico de cinema do jornal
O Globo, para fazer a curadoria, trazendo filmes mais populares. Para uma matéria, o
repórter do site UOL Carlos Minuano conversou com Rodrigo Fonseca e com o presidente do júri da crítica do 18° Cine PE, o também jornalista, André Dib, para entender a mudança de foco do festival:
O festival surgiu na década de 1990, junto a outros, com a missão de abrigar e estimular a produção audiovisual, no movimento que ficou conhecido como cinema de retomada. Para Dib, o apelo a celebridades televisivas e o
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paternalismo aos diretores nacionais foram necessários para fortalecer filmes, mas o modelo espelhado no festival de Gramado (RS) não se sustenta mais. "Gramado teve que mudar para continuar existindo. Desde 2008 tem curadoria mais criteriosa e, aos poucos, recuperou o prestígio." E completa: "O panorama dos festivais está mudando. Muitos que sobrevivem conseguiram se reformular. O Cine PE está tentando, mas ainda não conseguiu", observa o jornalista [André Dibs]. Pra piorar o cenário, neste ano, o festival ficou mais pobre, com orçamento pela metade. E, sem tantas celebridades, com programação acabando depois da meia-noite em uma região de Olinda com poucas opções de transporte, a fuga de público parecia inevitável.
Reconquistar o público era parte da missão do curador da edição deste ano do Cine PE, o jornalista Rodrigo Fonseca, crítico de cinema do jornal "O Globo" e analista de teledramaturgia da TV Globo. "A ideia foi trazer filmes populares, mas com pegada autoral em evidência, sem apelar para o cinema varejão."
Outra tarefa foi ajudar na questão da identidade do Cine PE. Isso explica mudanças na estrutura e no conceito. "Dos grandes festivais, esse é o que não tem cara definida", observa Fonseca. Perguntado sobre a ausência de nomes de relevo do cinema pernambucano, como Cláudio Assis ("Febre do Rato") e Kleber Mendonça Filho ("O Som ao Redor"), entre outros, ele se esquiva. "Há uma briga interna entre eles e a direção do festival, mas fiz um festival para receber todos." E se defende: "A grande produção local não quis, por afirmação política. Fiz com o que eu tinha".
Ele conta que tentou falar com alguns dos envolvidos na questão, para tentar uma trégua, mas sem sucesso. "Acho o Kleber Mendonça um pensador do cinema brasileiro e o Cláudio Assis uma força da natureza, quero essa galera aqui." O jornalista reclamou também do pouco tempo que teve para trabalhar: "Fui chamado em janeiro para concluir o trabalho em março". (MINUANO, 2014)
Hoje, além do Cine PE, o estado conta com um outro grande festival de cinema, o Janela Internacional de Cinema do Recife, em sua 6ª edição (2014). Organizado pelo cineasta e crítico Kleber Mendonça Filho, o Janela pretende manter seu foco curatorial no cinema autoral e criar espaço para a nova geração de cineastas do Recife, propondo um diálogo desta produção com a produção internacional.
“O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho, tornou-se o estandarte de uma nova linhagem de realizadores pernambucanos. Linhagem essa empenhada em expandir os domínios autorais do polo que, desde a Retomada, é considerado o maior canteiro de transgressão narrativa do cinema brasileiro: Recife. Ao receber o Kikito de melhor diretor (além do prêmio de crítica e do júri popular) no encerramento do Festival de Gramado, no último sábado, Mendonça afirmou que Pernambuco vive numa linha ascendente de renovação nas telas. Ele se refere a uma safra de novos diretores recém-chegados aos longas, como Gabriel Mascaro, Daniel Aragão, Leonardo Sette, Renata Pinheiro, Camilo Cavalcante, Juliano Dornelles, Marcelo Pedroso, Leonardo Lacca, Daniel Bandeira, Marcelo Lordello e Tião, empenhados em explorar linguagens mais ambiciosas do que a dos responsáveis pela consagração audiovisual do estado nos anos 2000. (FONSECA, 2012)
Mudando o foco do cinema para a violência, outra vivência trazida desta viagem merecendo um registro é quanto ao relato que tivemos de um morador da comunidade do Coque, conhecida por ser a região mais violenta da cidade, situada no coração da capital. Ao visitar o Cinema Fundação Joaquim Nabuco, no bairro nobre do Derby, podia-se assistir a uma pequena exposição, contando com pouco mais além do mapa delimitando o Coque dentro do Recife Antigo, algumas fotografias e vídeos com depoimentos dos moradores da comunidade. Sentado em uma mesa, onde papéis e fotografias antigas das margens do Capibaribe estavam dispostos desorganizadamente, Rildo, representante do Coque, recebia os visitantes para contar a história da sua comunidade, ameaçada pela especulação imobiliária. A ideia da exposição nasceu do movimento Coque Re-Existe, convocando os moradores a resistir às investidas do poder público e privado em construir prédios que não beneficiam a comunidade. Rildo explica que muitas famílias já foram retiradas de lá, sem receber o suficiente para comprarem outra casa, terminando, muitas vezes, na rua. A complexidade da situação tem recebido atenção do governo e da população, mas o problema, infelizmente, identificado como mais um exemplo de vida nua, de espaço anômico, persiste. Coincidentemente no mesmo dia da visita ao Cinema da Fundação, foi projetado, no CINE-PE, o curta-metragem Severo (Danilo Baracho, 2014), que trata, através da ficção, especificamente deste assunto, filmado no próprio Coque e utilizando atores locais.
Fechamos aqui esta dissertação, deixando diversos pontos, temas e discussões em aberto, e confessando o risco de termos colocado, por vezes, lado a lado, teorias e teóricos que não se conversam e assim, permitindo barbeiragens epistemológicas, levando às consequências acadêmicas o lema de Zizo, e último grito do filme, "Direito de errar!", sem que isso suponha autocondescendência, e, menos ainda, a sua concessão.
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