3.3 E DUCATIONAL POLICY OVERVIEW
3.3.1 Main aspects of educational reforms (1998-2008)
de suas mais nobres é a de dar voz e alento ao oprimido, cuja vida é limitada pela ideologia dominante, e que, se quisermos nos esquivar da ação violenta, pouco se pode fazer para superar a questão de classe, além de falar, expressar-se. Porém, o cidadão comum, e mais ainda aquele das classes menos favorecidas, deparam-se, frequentemente, com a dificuldade em ser ouvido e para isso, muitas vezes, encontram na poesia o canal para sua mensagem. A poesia como fuga, como respiro, como sublimação, para qualquer afeto social ou pessoal - seja a melancolia, o romantismo, a angústia, o prazer ou desprazer, a fome, a injustiça - não é uma novidade, mas optamos por sinalizá-la neste trabalho para situar sua relação com o filme, que ao nosso ver é um dos principais pontos que os autores, principalmente Assis e Lacerda, tocam. Freud, com clareza, cita a sublimação através da arte dentre
as atividades psíquicas elaboradas pela vida civilizada para deslocar os instintos não satisfeitos.
Assim como Zizo produz "A Febre do Rato" (o fanzine) - divulgando através de intervenções urbanas (discursos, cartazes e sprays) -, ao longo dos tempos, podemos pontuar pessoas que buscaram relevância política e social por meio da arte, reivindicando suas ideias, algumas vezes até anonimamente, como no caso do grafiteiro britânico Banksy. Em São Paulo temos o escritor Ferréz, como exemplo, com sua "literatura marginal", denunciando os problemas de uma população urbana injustiçada, utilizando as gírias e estilos de expressão verbal da periferia, através da construção de personagens paradoxalmente críticos e alienados. No entanto, devemos prestar atenção para a unilateralidade, muitas vezes, presente nesses discursos de classe.
A lista de linguagens usadas para dar luz a gritos no escuro é extensa. A música, por exemplo, tem a virtude de transmitir largamente uma mensagem, como foi o caso do blues, nos Estados Unidos, que evoluiu até chegarmos ao universo linguístico do hip hop (dança, música, grafite, moda etc.) alastrando-se por quase todo o mundo. Também em períodos ditatoriais, como bem sabemos, a música constrói metáforas, cantadas por multidões, para se expressar politicamente, seja pelo samba, pelo rock, pela MPB. Desta forma, a linguagem artística foi e é motivo de desafeto entre Estado e artistas. Lembremos do ocorrido em junho de 2013, na Turquia, quando o piano de Davide Martello, usado para fazer recitais durante os protestos contra o governo local, na praça Taksin, em Istanbul, foi confiscado pelas autoridades da cidade na tentativa de cessar as manifestações. Curioso do fato é que normalmente prenderia-se o pianista e não o piano.
Parece-nos que a representação poética tem um papel cada vez mais importante nas revoluções e nas manifestações sociais. De Maiakovski ao Subcomandante Marcos, dentre os poetas que têm nas revoluções seus temas, é apenas um século, porém um século intenso de ações simbólicas, não apenas em prol daqueles que se sentem desprezados pela sociedade ou pelo sistema vigente, mas também em prol de regimes estabelecidos que buscavam apelo para massa em suas marchas totalitárias e
excludentes, como ocorreu no nazismo e no facismo, quando os governos laçaram mão de estratégias que figuravam símbolos pela música, coreografia, iconografia etc.
Se a revolução francesa teve como insígnia um simples mote, "Liberté, Egalité,
Fraternité", hoje vemos as manifestações sociais inteiramente estetizadas, permeadas
por símbolos; e ainda, símbolos com apelo para a classe dominante. Não importa se os atributos, emblemas, signos, marcas ou ícones são construídos por este ou aquele grupo, mas devem comunicar e agradar a ideologia imperante, seja pelo exótico ou pela identificação; apenas desta forma, as manifestações sairão de suas matrizes para receberem a atenção demandada. Um protesto feito na periferia, sem este apelo, não recebe a mesma cobertura da mídia e atenção da sociedade, como recebe um protesto, por exemplo, feito aos moldes da Europa ou dos Estados Unidos, com nomes em outros idiomas, tais como, Black Bloc ou Femen, ou, pelo menos, poético e simbólico, como os panelaços inspirados nas Mães da Praça de Maio, na Argentina, ou as centenas de cruzes iluminadas por velas brancas na praia de Copacabana, contra a violência no Rio de Janeiro. Esses conceitos, esse comportamento é extenso aos participantes: em uma manifestação em massa, eles devem estar vestidos e pintados a caráter, seja de preto, como aconteceu nos protestos que levaram ao impeachment do então presidente Collor, ou de verde e amarelo, como nas "Diretas Já", ou de branco, quando a saída às ruas é pela paz, ou mesmo nus, como os ciclistas, ilustrando a aliteração de seu mote, "Pedalada Pelada". Além da questão simbólica, os protestos tendem a ser mobilizados virtualmente, com grande número de adeptos nas redes sociais, mesmo que esse número seja virtual, e que o número de participantes reais que acabam comparecendo em tais eventos é muito menos, como no “Churrasco da Gente Diferenciada” com apoio e confirmação de mais de 50 mil pessoas e no dia do protesto real, apenas uma pequena parcela compareceu (menos de mil pessoas).
Zizo nos parece indiferente a esta nova ética-estética - mesmo supondo que suas demandas sejam universais e contemporâneas do século XXI, permeadas pela marca do rato, reconhecemos nele características regionais e anacrônicas. Talvez, por isso, seu grito alcance pouco além do seu pequeno círculo de amizade. Enquanto a sociedade se comunica por blogs e em massa, Zizo atem-se, no máximo, ao seu megafone, pregando o direito de errar, enquanto o mundo busca o acerto.
Vejamos um outro exemplo do que podemos chamar de movimento social estético. Citamos anteriormente o Black Bloc e o Femen, vindos de outros países. Traremos agora, o movimento com repercussão no último ano que não tem relação com movimentos de fora do País: o rolezinho. Desta vez ainda mais travestido do sensacionalismo, os rolezinhos mostraram, por um outro viés estético daquele traçado pelo escritor Ferréz, a população urbana da periferia de São Paulo. Os rolezinhos escancaram o desapego político dos jovens da periferia, que participam dessas manifestações. O desinteresse político deles é tão impressionante que se torna político em si. Os rolezinhos reivindicam, pela superficialidade, direta ou indiretamente, e muitas vezes, podemos arriscar, inconscientemente, o seu direito de circular nos templos do consumo, onde até então, veladamente, eles não eram bem-vindos. Estas manifestações quase que espontâneas, tornaram-se tema de rodas intelectuais, revelaram uma série de hostilidades entre classes e, consequentemente, deslocaram o epicentro da questão da exclusão nos shoppings, até então restrita nas periferias para outras camadas da sociedade, atravessando, inclusive, as fronteiras do Brasil. Mesmo que os rolezinhos não estejam vinculados a nenhum movimento artístico, podemos levar ao âmbito do conceitual, e relativizar ao ponto de transformá-los em uma espécie de performance engajada às avessas. Interpretados pela elite intelectual, os rolezinhos, ao nosso ver, produziram um fenômeno social a partir daquilo que Žižek chamou de "tortura da linguagem"78, transformando sua exclusão em ação estética, expressando uma realidade, que diante do contexto desses jovens, talvez eles não conseguiram, antes, colocar em palavras.
No mais, podemos destacar também a função da poesia como meio de sobrevivência simbólica daquele que, além de sofrer, morre biologicamente, diante do seu destino social. Zizo usa a poesia não apenas para fins políticos, mas é também através dela que ele deixa escoar seu desejo por Eneida. O filme não nos apresenta nenhuma certeza da morte de Zizo e o seu desaparecimento subtrai o direito a um ritual de morte, um sepultamento, deixando sua vida em suspenso, e ainda vivo simbolicamente. É a poesia que o possibilita de permanecer vivo, mesmo que simbolicamente. Sua vida é prolongada, não apenas porque sua morte não pode ser reconhecida (afinal ele foi violentado pela polícia, agindo fora da lei, portanto, em um espaço anômico), mas também por que suas palavras permanecem, póstumas.
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