Depois disso, Maria Ruth decidiu viajar sozinha sem a companhia de Jean Alfred. Ela pretendia fazer uma aventura ao redor do mundo. Para isso, solicitou ao Consulado de Portugal, em São Paulo, o visto de saída para seu país de naturalização, sendo o passaporte expedido sob o n. 599 em 26 de junho de 1954. Lá encontrou seu padrasto que lhe confidenciou que “quando passou a viver com [sua] mãe, ela quis [te] colocar num orfanato e ele não permitiu”86. Novamente, observa-se a faceta dúbia de sua mãe que também possuía uma “máscara” obscura, capaz de realizar atitudes contrárias àquelas que apregoava.
De Portugal, Maria Ruth decidiu percorrer alguns países da Europa. Sua primeira parada foi em Londres, local onde aconteceu uma história de amor com Yannusz87. Logo em seguida, seguiu para Paris, Itália e retornou à capital da Inglaterra para encontrá-lo. Ruth Escobar lembrou que “quando o trem que a levava ao aeroporto começou a roncar nos trilhos, ela teve a certeza de que nunca mais o veria”88. Ela retornou para o Brasil, contou de sua traição para seu marido e se separou89.
Em 1954, chegavam ao Brasil as primeiras notícias90 sobre o início do processo de independência das colônias portuguesas de Goa, Damão e Diu, territórios localizados na Índia. Ao tomar conhecimento desse fato, Maria Ruth decidiu realizar uma longa viagem com o objetivo de fazer a cobertura jornalística para sua revista, visto que a mesma tinha como propósito publicar reportagens a respeito da colônia portuguesa. Neste sentido, pode verificar- se que Maria Ruth não se restringiu apenas à realização da publicação da Revista Ala Arriba com os compatriotas portugueses no Brasil, mas ampliou sua margem de atuação ao buscar notícias internacionais sobre Portugal. Outro ponto a ser ressaltado nesta fase de Maria Ruth é
84 Durante a pesquisa não foi possível identificar quando foram os outros partos extemporâneos, nem o nome das
filhas que realizaram a mesma prática da mãe e da avó.
85 BARROS; SANTA CRUZ; SANCHES, 1997. 86 ESCOBAR, 1987, p. 51.
87 Na autobiografia de Ruth Escobar não consta seu nome completo. Era polonês e arquiteto. 88 ESCOBAR, 1987, p. 73.
89 No processo 52-Z-0-202 do APESP consta que ela separou-se em 04 de abril de 1958, retomou o nome de
solteira e cancelou Carteira Modêlo “19” (Carteira de Identidade).
90 O jornal Folha da Manhã publicou algumas reportagens a respeito desse assunto entre 07 a 20 de agosto de
a “invenção” de uma jornalista, visto que em nenhum momento de sua trajetória consta que tenha frequentado qualquer tipo de curso91 dessa natureza. No entanto, sua capacidade camaleônica lhe permitiu aventurar-se numa profissão desconhecida, aprendendo na prática a ser, pois de “jornalista eu tinha intuição e garra por que não tinha nenhum curso de jornalismo92”, recordou Ruth.
A respeito da decisão de viajar até o outro lado do mundo em busca de reportagens inéditas para sua revista, ela recorda que “não sei por qual atalho do meu raciocínio passou o projeto de correr o mundo; mas construí uma história direitinho para convencer os outros a participarem dessa importante decisão”93. Apesar de ela não apresentar o discurso que utilizou para convencer os patrocinadores a financiarem seu projeto, novamente se nota que Maria Ruth utilizou de artifícios interpretativos, visto que sua trajetória, como vendedora junto à Revista das Indústrias proporcionou-lhe uma vivência prática na arte do convencimento.
Para angariar recursos financeiros ao custeio da viagem que iniciava em São Paulo, passava pelos Estados Unidos, Havaí, Tóquio, Hong Kong, Filipinas e terminava em Saigon, no Vietnã, Maria Ruth conseguiu convencer os proprietários da Cervejaria Caracu a patrocinar uma parte do seu projeto em troca de anúncios publicitários em sua revista. É importante constatar que esta empresa tinha sua matriz na cidade de Rio Claro, local em que ela e seu marido Jean Alfred passaram a lua de mel. Há um dado interessante e que merece destaque: durante muito tempo no alto do Edifício Martinelli (sede da Revista das Indústrias e local de trabalho de Maria Ruth) ficou exposto um outdoor da empresa Caracu94, que pode ter despertado o insight em Maria Ruth para a solicitação do patrocínio da sua viagem. Após conseguir os recursos financeiros da empresa, que ainda eram insuficientes para pagar todas as despesas da viagem, deixar uma verba para dar continuidade à tiragem de seu projeto editorial de uma publicação mensal, que ficou sob a responsabilidade de seu amigo e secretário A. Barbosa, ela tomou a decisão corajosa de viajar.
Sua primeira parada foi em Nova Iorque. Decidiu ir até a sede das Nações Unidas para entrevistar o indiano Ramaswamy Venkataraman que, na época, era um dos membros do Tribunal Administrativo das Nações Unidas. Posteriormente, ele foi presidente da Índia no período de 1987 a 1992 quando Goa, Damão e Diu se encontrava sob posse do governo indiano. Após esse encontro, a entrevista ou matéria jornalista lhe rendeu uma publicação no Jornal de Notícias de Lisboa. No entanto, como não dominava a língua inglesa, a tradução grosseira desse material ocasionou problemas com as embaixadas de Portugal e da Índia, que solicitaram explicações às Nações Unidas.
Neste meio tempo, entre o processo de transcrição, tradução e publicação da reportagem, Ruth se encontrava em Tóquio no Japão. Lá, a embaixada portuguesa solicitou sua presença para esclarecimentos sobre a matéria jornalística publicada em Lisboa. Ruth recordou que um funcionário lhe entregou um envelope, solicitando-lhe um pedido de retratação: “Estes assuntos não [são] brincadeira pra menina se meter e muito menos política [que] é uma arma que as mulheres possam esgrimir95. Apesar da represália do funcionário da embaixada portuguesa e a discriminação à sua posição enquanto mulher envolvida com “assuntos masculinos”, o fato é que Ruth cada vez mais se envolvia com a política. A respeito desse assunto, Ruth escreveu em sua autobiografia:
91 A primeira escola voltada para esse assunto foi Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero fundada em
1947, mas somente na década de 1960 se tornou curso superior.
92 ESCOBAR, Entrevista concedida a Aramis Millarch. 93 ESCOBAR, 1987, p. 49.
94 Ver imagem 26 do dossiê de fotos. 95 ESCOBAR, 1987, p. 59.
Essa coisa do homem, do homem adulto, era um pedaço do mundo que lhe escapava. Os homens tinham poder como se fossem uma raça superior. Queria saber como era o olhar deles, desses homens do poder. Mulher era tão desprezada em Portugal que o Salazar nem era casado, embora todos dissessem que dormia às escondidas com a velha governanta e até lhe tinha feito uma filha. Pois até para ele, Salazar, ela ia mostrar do que é capaz uma rapariga portuguesa com sangue nas guelras!96.
Como forma de manter um status perante as autoridades da região em virtude da confusão causada pela publicação da reportagem, Ruth decidiu hospedar-se num hotel de primeira classe, estratégia adotada com o objetivo de não parecer uma aventureira qualquer em solo asiático. Nota-se aqui, novamente, uma atitude política de Ruth ao desejar mostrar uma posição ainda não adquirida, mas que ela sabia ser aquele o caminho a seguir.
Ruth também decidiu ir às Filipinas para entrevistar o presidente Ramon Magsaysay. No entanto, na visão de Ruth ele “nada disse de interessante [...] apenas os lugares comuns da diplomacia”97. Para ela, a neutralidade das palavras não interessava. Ruth desejava um discurso que provocasse fricção, principalmente se as autoridades se posicionassem a favor de Portugal. Neste sentido, pode perceber-se que a posição adotada por Ruth dizia respeito a um jogo, cujo interesse era o de publicar em jornais portugueses e na Revista Ala Arriba reportagens que colocassem seu país no centro das atenções, caso contrário, não alavancaria a venda da revista, nem conseguiria espaço para publicação nos periódicos diários em Portugal, muito menos a projeção de seu nome.
Posteriormente, Ruth se deslocou até a cidade de Karachi, na Índia, local onde diversas autoridades participaram da conferência da Organização do Tratado do Sudeste Asiático (OTASE). Na ocasião, conseguiu entrevistar o secretário de estado norte-americano Foster Dulles e ministros turcos. Nessas primeiras entrevistas98 realizadas por Ruth, destaco o seu senso na criação de oportunidades, bem como a capacidade de se envolver com assuntos/temáticas e agentes políticos tão relevantes numa idade tão jovem. A sua percepção/insights das pessoas que deveriam ser contatadas a tornou, sem dúvida alguma, uma jornalista empreendedora.
Na região da Indochina, em Camboja, na cidade de Phnom Penh, Maria Ruth realizou diversas façanhas em prol de sua projeção pessoal, ao mesmo tempo em que esse lugar lhe proporcionou reflexões sobre a sua própria essência. Hospedou-se no único hotel da cidade, onde estava presente o príncipe Norodom Sihanouk, político cambojano que participou ativamente da independência do Camboja99. Conseguiu, na ocasião, uma foto que o próprio príncipe dedicara a Salazar, documento que ela utilizou em outras circunstâncias em benefício próprio. A primeira vez foi no aeroporto da cidade de Phnom Penh: ao seguir destino à Tailândia, Maria Ruth não possuía visto no passaporte. Como forma de resolver o problema, mostrou aos responsáveis a fotografia autografada e, com isso, demonstrou boa relação com as autoridades locais. A segunda foi a entrega dessa fotografia a António Oliveira Salazar, situação em que, novamente, tirou proveito para realizar entrevista inédita com o ditador português. Contudo, a respeito dessa estratégia utilizada por Ruth Escobar, em entrevista ao jornalista Aramis Millarch, ela confessou que “isso que eu chamo de malandragem, picaretagem. Você
96 ESCOBAR, 1987, p. 59-60. 97 ESCOBAR, 1987, p. 62.
98 Durante a pesquisa, não foram localizadas nenhuma dessas entrevistas.
não quer dar uma foto dedicada a Salazar? No fundo era uma arma para conseguir entrevistar Salazar”100.
Terminada sua jornada no continente asiático, Maria Ruth decidiu retornar ao Brasil, mas, antes disso fez uma parada em Portugal para realizar mais uma aventura jornalística com o intuito de angariar mais repercussão de sua volta ao mundo. Foi com a fotografia do príncipe de Camboja que nasceu a oportunidade de se aproximar do ditador português. Usando como pretexto a necessidade de entregar em mãos a foto ao ditador português, a jornalista conseguiu um encontro exclusivo com Salazar. Maria Ruth recordou de suas palavras proferidas a Salazar em tom amistoso: “Antes de mais nada quero entregar-lhe uma encomenda do príncipe do Camboja, é o retrato dele autografado, amassou um pouquinho, desculpe, foi uma viagem longa, cheia de aventuras, quase fiquei presa”101.
A justificativa dada por Maria Ruth foi determinante para ter acesso a Salazar, colocando-se como intermediária no jogo de relações diplomáticas entre Portugal e Camboja. Isso lhe permitiu proferir palavras simpáticas e atraentes, relacionando aspectos que articulavam ligações entre os países. Ao se defrontar com o ditador, Maria Ruth fez um jogo de relações amigáveis, no qual buscava estabelecer uma mediação entre os chefes de estados, uma proximidade que possibilitou ser um canal para futuras negociações internacionais: “O senhor precisa providenciar relações com o Camboja, é uma maldade os portugueses que correram terras e mares não poderem visitar uma das maravilhas do mundo – o Dr. Salazar precisa ir lá, não imagina que colosso, desafiando os humanos – aqueles templos dos Deuses”102. Neste sentido, infere-se que Maria Ruth realizava um jogo político despreocupado, referendando um regime autoritário, o qual conduzia Portugal sob a constante vigilância e retrocesso na época.
Nas despedidas, Salazar indagou-lhe: “Tem alguma coisa que possa fazer pela menina portuguesa?”103, recordou Ruth. Sem titubear, respondeu que “gostaria, se fosse possível, de acompanhar o Presidente da República, Dr. Craveiro Lopes, na viagem a Moçambique, como attachée de presse”.
O jogo de relações diplomáticas realizado por Maria Ruth junto ao ditador português surtiu efeito: “dois dias depois, ligava para o gabinete do Dr. Marcelo Caetano e, para seu espanto, sabiam de tudo, já tinham marcado audiência [...] disse-lhe que diante da recomendação do Dr. Salazar, abririam uma exceção [...] receberia em São Paulo sua passagem até Lourenço Marques para se juntar-se à comitiva”104. Antes de retornar a São Paulo, decidiu visitar sua cidade natal, Porto, a fim de “gozar as glórias de sua recente notoriedade como jornalista”105, visto que Maria Ruth havia publicado reportagens nos principais jornais portugueses que circulavam em Lisboa. Com isso ela voltava a sua origem, não mais como alguém que fugiu da vergonha e culpa junto com a mãe. Mas como uma jovem que conquistou projeção social e política, que se destacou ao entrar em contato com dirigentes políticos, entrevistando Salazar. Era uma reviravolta na sua história.
Antes de seguir rumo à cidade de Lourenço Marques106, em Moçambique, na África, colônia portuguesa de 1898 a 1975, Maria Ruth retornou ao Brasil e fez uma breve passagem pela capital paulista para ver familiares e amigos, arrumar coisas pessoais e profissionais da Revista Ala Arriba. Ao chegar à cidade moçambicana de Lourenço Marques, Maria Ruth foi
100 ESCOBAR, Entrevista concedida a Aramis Millarch. 101 ESCOBAR, 1987, p.75.
102 ESCOBAR, 1987, p. 75. 103 ESCOBAR, 1987, p. 76. 104 ESCOBAR, 1987, p. 77. 105 ESCOBAR, 1987, p. 77.
106 A cidade recebeu esse nome em homenagem ao explorador português Lourenço Marques e, em 13 de março de
até Quelimane, capital de Zambézia, município que fica cerca de dois mil quilômetros de distância, local onde se encontrava a comitiva do presidente Salazar. Ela se deslocou num pequeno avião monomotor.
Ao chegar a Quelimane, Maria Ruth foi convidada a fazer parte do segundo escalão da comitiva que rumou à Ilha de Moçambique. No entanto, essa troca de aeronave foi salvadora, já que o avião do primeiro escalão desapareceu: “Ela [Maria Ruth] entrou em estado de choque ao pensar que poderia ter continuado naquele avião”107. Dias depois o avião foi localizado, mas não foi encontrado nenhum sobrevivente. Indignada com o posicionamento assumido pelo governador de Moçambique, que encobria a notícia sobre o desastre da queda do avião e o desaparecimento dos passageiros para não ofuscar a visita presidencial de Craveiro Lopes, Maria Ruth decidiu tomar providências.
Uma das atividades de Craveiro Lopes na viagem presidencial era a inauguração da Praça de Touros Monumental de Lourenço Marques. Para a solenidade de abertura, que contava com a presença do Chefe do Estado, foi organizada uma tourada real para fazer as honrarias dos anfitriões. De acordo com enviado especial do jornal Diário de Lisboa, que acompanhava diariamente a comitiva presidencial, este evento ocorreu em 31 de agosto de 1956108.
Nessa oportunidade, ao adentrar a praça onde havia cerca de três mil pessoas, Craveiro Lopes foi surpreendido pela manifestação de Ruth. Ela recordou que “levantou-se e, na sua voz esganiçada, pediu um minuto de silêncio em homenagem aos companheiros mortos estupidamente durante a viagem presidencial”109. No entanto, rapidamente houve reação: “a Praça dos Touros ficou de pé e eu fui rodeada por dois agentes de segurança. Craveiro Lopes se retirou, porque eu havia rompido o protocolo. Fui levada ao palácio e convidada para se colocar na fronteira em vinte e quatro horas”110, afirmou Ruth. Porém, observo que esse ocorrido não foi mencionado nas edições do Diário de Lisboa, tampouco a queda do avião, pois todos os jornais eram “visado pela Comissão de Censura”.
Esse fato pode ser considerado decisivo111 e essencial na trajetória de Ruth, visto que foi o primeiro pronunciamento público na qual defendia a “verdade”. Além do mais, sua ação de enfrentamento às autoridades portuguesas pode ser vista como um ato político, seja contra a censura da informação, seja contra a forma de tratamento dado à população de Quelimane, foi o “primeiro episódio de consciência política”112, afirmou Ruth.
Surgia a partir daquele momento uma estrategista aliada à posição de enfrentamento aos políticos, à política. Essa situação criada por Ruth também demonstrou sua coragem ao se posicionar a favor da minoria, impondo-se em prol da causa das pessoas desaparecidas. Assim, tal fato pode ser entendido como um pontapé inicial das futuras ações político-sociais e seu engajamento em causas humanitárias.
Ao saber do ocorrido, seu amigo Manuel113, um experiente caçador de elefantes, deixou um bilhete no hotel em que estava hospedada, convidando-a a se aventurar numa caçada e depois a deixaria num local seguro para seguir sua viagem rumo ao Cairo. Durante essa incursão na selva moçambicana, Maria Ruth aprendeu “a guiar o jipe, a atirar com uma Mauser, a andar feito bicho e trepar em árvore”114. Presenciou a morte de um elefante e, logo em seguida,
107 ESCOBAR, 1987, p. 79.
108 A VIAGEM, Diário de Lisboa, 31 ago. 1956, p. 3. 109 ESCOBAR, 1987, p. 79.
110 ESCOBAR, Entrevista concedida a Aramis Millarch. 111 Frase estampada no canto inferior direito na capa dos jornais. 112 ESCOBAR, Entrevista concedida a Aramis Millarch.
113 Não consta em sua autobiografia mais informações a respeito de Manuel, nem mesmo o sobrenome. 114 ESCOBAR, 1987, p. 81.
partiram rumo ao Cairo, numa viagem de mais de cinco mil quilômetros a um local que a consagraria como uma jovem jornalista.
A priori, seu desejo era o de retornar para São Paulo, mas antes decidiu visitar as famosas pirâmides egípcias, comentadas por Manuel, como simples turista, no entanto chegou ao Cairo nas vésperas da Conferência do Conselho de Segurança da ONU, onde seria resolvido o impasse sobre a utilização do Canal de Suez115.
O general Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito, foi um dos responsáveis por libertar o país do domínio das forças israelenses, francesas e britânicas. Declarou, em 1956, a nacionalização do canal que estava sob o domínio do Egito, criando atritos com a França, Israel, Inglaterra, EUA e a URSS. Ao ver a situação em que se encontravam os cidadãos daquele país, o impulso jornalístico novamente veio à tona e Ruth se perguntou: “será que o povo era consultado se queria alugar seu país e fazer um canal? – depois eram aquelas encrencas e eles é que pagavam o pato, indo para a guerra brincar de soldado e dar tiro”116. Maria Ruth tem um olhar para seu tempo histórico e o questiona. Seu olhar começava a buscar outras respostas para o que via. Ruth começava a aprofundar sua visão crítica do mundo e iniciava uma conscientização política que a dominaria pelas próximas décadas.
Não se contentando em ser apenas uma turista que apreciava os monumentos faraônicos, Maria Ruth decidiu exerceu sua veia jornalística, pois o assunto do Canal de Suez era de caráter internacional, havia cerca de quinhentos jornalistas no Cairo para cobrir a reportagem. Ela seria apenas uma desconhecida entre tantos jornalistas, mas “se era interessante ver o homem [Nasser], ia tentar”117, recordou Ruth. Em meio a essa situação, Maria Ruth se deu conta de que poderia conseguir de alguma forma “esse furo de reportagem [e que] podia colocá-la de novo no centro dos acontecimentos em Portugal”118, pois o ocorrido, anteriormente, em Moçambique prejudicou sua imagem e reputação junto às autoridades portuguesas. Como poderia ela realizar uma entrevista exclusiva com o temido Nasser? Quais as vias que poderia percorrer para chegar ao seu objetivo? Os episódios a seguir descrevem um pouco do espírito empreendedor de Maria Ruth nessas viagens.
Em menos de vinte e quatro horas de sua chegada ao país, Maria Ruth conseguiu reunir informações sobre a história do Canal de Suez. De posse de informações básicas, percebeu que ela era apenas mais uma entre todos os jornalistas que desejavam se aproximar de Nasser. A partir dessa constatação, ela teve uma ideia audaciosa para conseguir uma entrevista com o ditador. Escreveu uma carta ao general, entregue por um conhecido que trabalhava com um ministro, como ela mesma afirmou “a carta foi muito malandra”119. Maria Ruth recordou em sua autobiografia que:
Disse-lhe que era revoltante ver a forma como a imprensa imperialista tratava a questão do Suez que era importante que o Terceiro Mundo e o Brasil tivessem acesso às razões reais que levaram ao fechamento do Canal, que ela era uma jornalista jovem, sem notoriedade, mas cheia de entusiasmo pela causa do povo egípcio e que