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1) A exposição [Experiência no Chuí(y)], num primeiro momento, ocorreu de modo bastante diluído através de situações de inserções sociais. Através de algumas ações, serviços e conversas, o projeto “paisagem:fronteira” (enviado para o Edital Bolsa Estímulo à Criação Artística-Fotografia, Funarte) foi apresentado a moradores das cidades do Chuí-BR e do Chuy-URU: restauro de fotografias, realização de retratos de trabalhadores, busca por arquivos fotográficos, entrevista com Carlos Ibarra, participação no programa “Sin preconceitos”, do radialista Heber Alegre, ocasião na qual o projeto foi apresentado à comunidade do Chuí-Chuy. Estas intervenções que caracterizam a

experiência [Viagem ao Chuí(y)] foram modos praticados para investigar a site inicial [Chuí-Chuy].

Num segundo momento, a exposição [Experiência no Chuí(y)], constituída de docs/registros da [Viagem ao Chuí(y)], foi inserida em outras duas exposições

do Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA]: na publicação [Relatório Funarte] e na

2) A exposição [SALA (estágio de docência)] aconteceu durante o estágio de docência realizado na disciplina “Oficina Avançada” do Curso de Graduação em Artes Visuais/Udesc, que era coordenada pela curadora/pesquisadora Regina Melim. Nesta exposição, o Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA] acumulava os docs/ registros (artigos, fotos, etc.) das experiências[Viagem ao Chuí(y)] e [Mestrado], e

também docs/registros da exposição[Experiência no Chuí(y)]. [SALA] aconteceu em três momentos: a) apresentação dos projetos19 “paisagem:fronteira” e “Paisagens

Contemporâneas”; b) disponibilização de docs/registros das experiências[Viagem ao Chuí(y)] e [Mestrado], numa espécie de depositário de imagens fotográficas, relatos,

jornais, panfletos, projetos irrealizados e outras coisas; c) apresentação de questões elaboradas no percurso do projeto que foram discutidas e trocadas com os participantes.

19 O projeto “Paisagens Contemporâneas: territorialidades artísticas intertextuais” foi enviado ao Edital de Seleção para ingresso no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGAV-Udesc), na linha de pesquisa Processos Artísticos Contemporâneos; e o projeto “paisagem:fronteira” submetido ao Edital Bolsa de Estímulo à Criação Artística-Fotografia concedido pela Funarte/Ministério da Cultura para o financiamento de pesquisas artísticas.

3) A exposição [Relatório Funarte] é: a) um relatório de prestação de contas de atividades artísticas junto à Funarte pelo recebimento de apoio financeiro através da Bolsa de Estímulo à Criação Artística-Fotografia; b) e, como informado na prestação de contas, uma exposição que apresenta e constrói o Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA].

Realizar a exposição sob a forma de um relatório cria possibilidades para o projeto ser acessado por uma audiência ampliada, e criar mecanismos de circulação e dispersão desta prática artística através de publicações on-line e impressos.

O [Relatório Funarte], constituído de docs/registros das experiências

[Viagem ao Chuí(y)] e [Mestrado], e também das exposições [Experiência no Chuí(y)] e [Sala], está organizado em cinco partes: 1) dos Projetos “paisagem:fronteira” e “paisagens contemporâneas”; 2) doc/registro que discute o Título do Projeto; 3) Sobre apresentações do projeto com docs/registros da exposição [Sala]; 4) a

4) [BANCA 1 – Qualificação] é o nome dado ao Relatório de Qualificação apresentado ao PPGAV/Udesc que apresentou um percurso da prática artística Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA] através da qual busco pensar a geração de sites discursivos.

A exposição [Banca 1 – Qualificação] configurou-se pela apresentação de docs/registros da experiência [Mestrado]: projeto “Paisagens Contemporâneas:

territorialidades artísticas intertextuais”, relatos de créditos cursados e trabalhos realizados nas disciplinas e seminários no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV/ Udesc); e quatro textos que procuraram, através da análise de práticas artísticas site-

specific, pensar sobre as experiências [Viagem ao Chuí(y)] e [Mestrado], bem como

sobre a configuração do site discursivo [PAISAGEM:FRONTEIRA]. Os quatro escritos foram: 00 “Sobre Paisagens Contemporâneas”, 01 “Sobre a Mobilidade Discursiva do

Site”, 02 “Sobre Sites do site-specific”, e 03 “Sobre o que você tem feito – introdução”.

Houve a ativação desta exposição através do diálogo com os membros da “BANCA”.

Também foram disponibilizados docs/registros de exposições anteriores:

[Experiência no Chuí(y)], [Sala] e [Relatório Funarte]; e três projetos irrealizados de exposições: [Campo Neutral], [Quintal] e [Oficina].

5) A exposição[No los conozco pero los quiero igual] ocorreu como uma conversa realizada no evento “Relações de Fronteira”, que fez parte do projeto “Trânsito à margem do lago”, coordenado pelos artistas Lúcio de Araújo e Claudia Washington. [Nos los conozco pero los quiero igual] é um relato/ensaio situado entre o comentário real (ou) ficcional. Diante da impossibilidade de apreensão mimética da experiência, cria-se uma possibilidade para que o relato da experiência seja uma nova experiência construída na relação com o público. Ao invés de jogar o público para trás do tempo, voltando à experiência passada, a exposição de docs/registros procura articular um espaço novo, ainda não vivido.

2. [PAISAGEM:FRONTEIRA]

[PAISAGEM:

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Quando este projeto se iniciou, a denominação [PAISAGEM:FRONTEIRA] não

era riscada. O percurso do trabalho levou a caminhos em que a ideia da [PAISAGEM:

na prática artística se distanciou de trabalhos nos quais a terra, a natureza ou o meio ambiente são matérias20.

20 A paisagem, apesar de ser construída por processos culturais, por muito tempo foi apreendida visualmente sob o aspecto objetivo/descritivo que permitiu que muitos acabassem associando-a à ideia de natureza. As práticas artísticas de Land Art e site-specific, entre os anos 1960 e 70, passaram a realizar trabalhos que intervinham diretamente na paisagem. Vários projetos de artistas daquele período (Michel Heizer, Carl Andre, Denis Oppenheim, Robert Smithson e outros) pensaram a paisagem através da ideia da transitoriedade e transformação, e também como uma matéria para seus procedimentos artísticos. Michel Heizer, por exemplo, dizia que um dos seus interesses era “deslocar massas”.

Entretanto, existiram artistas, como Robert Smithson, que participaram do movimento da Land Art e que entenderam a paisagem não apenas como matéria para o trabalho de arte, mas também como um procedimento artístico. Assim podem ser entendidos projetos como “Monumentos para Passaic” e “Hotel Palenque”, nos quais a seleção de sites se faz com o intuito de produzir reflexões sobre “modos como o mundo é construído e visto”. Deste mesmo período, há outros projetos como: da Lucy Lippard (557,087 Seatle Art Museum, sep-oct 1969; 955,000 The Vancouver Gallery, jan-feb 1970; 2,972,453 CAYC Buenos Aires, 1970), do Douglas

Lucy Lippard21 destaca que a palavra “paisagem” (landscape), além de ser “usada

indistintamente para uma cena enquadrada diretamente pelo olhar (uma narrativa), ou uma cena enquadrada/imaginada para ser olhada (um quadro)”, é, também, um conceito ocidental utilizado para a recepção do mundo ideologicamente enquadrado.

O que resta da paisagem na [PAISAGEM: é a ideia de “uma cena enquadrada,

um recorte”, porém, produzida “não apenas por um olhar contemplativo, mas a partir da infiltração ou do percurso do próprio corpo”22 nos espaços. Poderia, desde já, apontar a

concepção da [PAISAGEM: como um procedimento através do qual o homem enquadra,

revela, modifica e produz “modos como o mundo é construído e visto”23.

Hoje, a [PAISAGEM: pode ser pensada pela mobilidade, transitoriedade e

fluxos que caracterizam a contemporaneidade. Se a [PAISAGEM: é entendida como um procedimento que enquadra ou recorta um espaço que é móvel, transitório e fluido, o procedimento provavelmente também será. Pensar a [PAISAGEM: como um

procedimento é pensar um instante (enquadrado/recortado) de um fluxo.

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A [PAISAGEM: como um procedimento que enquadra ou recorta, um espaço

através da infiltração ou do percurso do corpo no espaço é bastante próxima das práticas

contemporâneas site-specific. Estas, uma vez que não são compreendidas como uma

categoria artística, são entendidas como um procedimento de investigação, “um modo de

agir e pensar” que se estabelece a partir da seleção de um site de investigação artística. O

site, abordado como um processo ou itinerário, uma sequência fragmentária de eventos e

ações através dele, é uma espécie de narrativa nômade cujo percurso é articulado pela

passagem do artista. Este tipo de prática artística enfatiza as possibilidades discursivas do site, pois este encontra sua âncora localizacional no âmbito do discurso, e não numa

noção meramente física, topográfica. É possível dizer que, da referência física, literal do

site, o que resta é a passagem do artista por um contexto que se inscreve na sua prática.

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A crítica Miwon Kwon, ao escrever uma possível genealogia das práticas site-

Huebler (“Site Sculpture Project”), do Grupo Rosário (“Tucumán Arde”), e ainda os projetos de Seth Sieglaub (July, August, September, 1969, e outros).

A partir dos anos 1980, percebe-se o aparecimento de muitos projetos artísticos que entendem a [PAISAGEM: como um procedimento: “If you lived here...”, 1989, – Martha Rosler; “unitednationsplaza”, 2007-8 e “New York Conversation”, 2010 – Anton Vidokle; “Projeto Matéria”, 2004 – Jorge Menna Barreto.

specific, aponta, através da compreensão do site gerador do trabalho, três paradigmas

– fenomenológico24, institucional/social25 e discursivo – que não são estágios de

um desenvolvimento histórico linear, mas definições concorrentes, que podem ser sobrepostas ou operarem simultaneamente26. Com suas diferenças que dizem respeito ao

site selecionado, e ao modo de pensar e operar a partir deste site, em todos os momentos

está presente a ideia de uma prática contextual.

Estas três formas de compreensão do site demonstram uma transformação interessante na sua definição ao não ser observado apenas como uma localização física (fenomenológica, ou literal), fixa e enraizada, mas num sentido discursivo, fluido e desenraizado. O site de investigação artística determinado discursivamente pode ser delineado como um campo de conhecimento, troca intelectual ou debate cultural27.

A ideia de site discursivo pode ser entendida como uma atualização ou desdobramento das primeiras práticas site-specific. As práticas contemporâneas site-

specific, nomeadas de site-oriented por Miwon Kwon e de functional-site por James

Meyer, são processos artísticos que reconhecem a mobilidade discursiva do site e o operam como territórios compreendidos como redes de discursos que estabelecem diferentes conversas com o sistema de arte. Os sites “acabam achando sua âncora localizacional no âmbito do discurso”28.

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24 Double Negativo, 1969 (Michel Heizer). The Lighting Field, 1977 (Walter de Maria). Desert Cross, 1969 (Walter de Maria). Spiral Jetty, 1970 (Robert Smithson). Amarillo Ramp, 1973 (Robert Smithson).

Os trabalhos de Land Art assumiram a paisagem como sua morada. As intervenções construídas pelos artistas deixavam de ser esculturas e confundiam-se com a própria paisagem que recebia os trabalhos. Conforme Michel Heizer, “o trabalho não era posto em um lugar: ele é o lugar”. Os interesses desses projetos eram diversos: “deslocar massas” e “a eliminação completa do status de mercadoria do trabalho de arte”, até a experiência física direta do nosso corpo (espectador) na paisagem-trabalho. Cf. HEIZER, Michael; OPPENHEIM, Dennis; SMITHSON, Robert. Discussões com Heizer, Oppenheim, Smithson. In: FERREIRA, Gloria, COTRIN, Cecilia (Orgs). Escritos de Artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006, p.275, 279- 281.

25 Within and Beyond the Frame, 1973 (Daniel Buren). Measurement: Room, 1969 (Mel Bochner). Project for Claire Copley Gallery, Los Angeles, 1974 (Michael Asher). Shapolsky et al. Manhattan Real Estate Holdings, A Real Time Social System, as of May 1, 1971(Hans Haacke). Musée d’Art Moderne, Départment des Aigles, 1968 (Marcel Broodthaers).

A Crítica Institucional, ao pensar o espaço de apresentação e circulação dos trabalhos artísticos, desloca a ideia dominante de um espaço puro, idealista e não contaminado. A ideologia do “cubo branco” é posta em questão através de projetos que dão visibilidades a relações até então pouco evidenciadas. Os trabalhos artísticos não apresentam apenas as dimensões físicas do “cubo branco”, mas também suas dimensões políticas, econômicas, culturais. A partir de então, as várias camadas de discursos e práticas que permeiam e constituem o sistema da arte se fizeram visíveis.

26 KWON, Miwon. One place after another: site-specific art and locational identity. Cambrigde, Massachussets: MIT Press, 2004, p. 30.

27 Ibid., p. 26. 28 Ibid., p. 28.

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O sentido do site é relativo, pois o [...] território só vale se se põe em relação, se remete a uma outra coisa ou outros lugares, e aos valores ligados a esses lugares. Assim é que é preciso compreender o relativismo: é o entrar em relação. Neste sentido é que o espaço é um espaço que pode ser uma base de exploração. Aquilo que em compensação o torna flutuante, nebuloso, quase imaterial29. A mobilidade permite e exige outras maneiras

de pensar os territórios.

Nas práticas contemporâneas site-specific, a especificidade do site não é pensada pela sua topografia, mas através de suas possibilidades discursivas, pois são entendidos como cadeias de significados elaborados por experiências e práticas discursivas superpostas.

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[PAISAGEM:FRONTEIRA] é um site discursivo de investigação artística

entendido como um projeto (ir)realizado, cuja prática são o processo e a experiência que articulam uma rede de discursos que em sua trama criam sentidos. O processo, apresentado no Diagrama 1, configura-se através de estratégias de inserções em redes de relações sociais. Dois campos de relações sociais são identificados como Sites Iniciais:

[Chuí-Chuy], uma localização física, e [Mestrado-Programa], um Programa de Pós-

Graduação em Artes Visuais – Udesc. Todavia, estes são partes dos Sites Geradores, assim como a Experiência no Site. A prática artística Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA],

articulada pela passagem do artista pelos Sites Geradores, não está obrigatoriamente vinculada à construção de objetos, intervenções ou algo parecido, mas a algum tipo de reflexão30 que pode ocorrer por qualquer gesto que pense o site de investigação artística.

Selecionar um site não é cristalizar um fluxo, mas um instante experienciado. Por sua vez, o instante experienciado é apresentado como Site Gerado, um desdobramento da própria proposição artística. Os Sites GeradosDocs/Registros e Exposição

podem ser uma conversa, um café, uma publicação ou outra situação que de alguma

29 MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 88.

30 A “desmaterialização da arte” pensada por Lucy Lippard e John Chandler, entre os anos 1960 e 70 no contexto artístico norte-americano e anglo-saxão, é entendida como uma desmaterialização do objeto marcada pela ênfase não visual dos trabalhos. Em 1968, ano da publicação do artigo “A desmaterialização da arte”, Lippard e Chandler diziam que o objeto se tornava obsoleto e que “qualquer dia, num futuro próximo, será necessário o escritor ser um artista, assim como, um artista ser um escritor”. Num artigo intitulado “Escape Attempts”, 1973, a mesma Lucy Lippard diz que: “a arte conceitual, para mim, significa o trabalho em

maneira pense a experiência do Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA].

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Acompanhando o movimento de desmaterialização do site, é possível constatar outra desmaterialização, a do trabalho de arte, bem como uma progressiva desestetização (recuo do prazer visual)31, sendo mais verbo/processo que substantivo/objeto. Percebe-se

uma prática impregnada de estratégias conceitualistas como a configuração de proposições antivisuais (informacional, textual, didática) e imateriais (gestos, eventos, performances).

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O conceito de nonsite propõe e pratica uma forma desterritorializada da noção de

site-specific. O nonsite criou-se na prática artística de Smithson a partir da necessidade

de transpor seus projetos de terra (Land Art) para espaços fechados (galerias). Em princípio, o nonsite em um espaço “artístico” (galeria, museu, publicação, etc.) remeteria ao site de um espaço “não artístico” (estradas abandonadas, minas de carvão e outros lugares percorridos pelo artista). Através desta operação, Smithson rachou o site em dois: um Site Gerador do trabalho e outro Site Gerado pelo trabalho do artista. Ele dá consequência a algo que já ocorria de fato, pois, ao criar um trabalho de intervenção na paisagem, os artistas da Land Art estavam, sobre um mesmo site que gerava o trabalho, criando outro site. Smithson transporta consigo este outro site criado pela prática artística.

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Figura 9 - Robert Smithson e Nancy Holt caminhando pelo site Mono Lake, frame do vídeo Mono Lake, 1968-2004

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A prática site-specific é marcadamente contextual porque se orienta pelas experiências nos sites32. O Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA] é uma prática artística não

autônoma ao seu contexto, o qual é absorvido (pensado) pela prática. O contexto pensado no projeto é o do site discursivo de investigação artística [PAISAGEM:FRONTEIRA], o

qual se articula desde os contextos dos Sites Geradores, dos Sites Gerados e também do sistema de arte, pois este é um site implícito numa prática artística.

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O site, como “um lugar único, um lugar demarcado e disponível para uma solitária experiência perceptual”, no movimento do site ao nonsite “torna-se uma rede (network) de sites que remetem a outro site”33. Através de documentos e registros (vídeos, escritos,

fotografias, mapas, pedras, areia e outras coisas) trazidos ou produzidos da experiência pelo Site Gerador, Robert Smithson estabelece novos pontos situados fora dos limites iniciais do site.

A produção de novos encontros, arranjos e funções “aumenta o território por desterritorialização”34. A desterritorialização35 é o movimento pelo qual se

abandona o território (este é agitado por dentro por vetores de desterritorialização), e a reterritorialização é o movimento de construção do território (pode ser feita sobre um ser, um objeto, um livro, um aparelho, um sistema, uma propriedade da terra, etc.). “Pensar é desterritorializar. Isto quer dizer que o pensamento só é possível na criação, e para criar algo é necessário romper com o território existente, criando outro”36. A reterritorialização que acompanha a desterritorialização é o novo conceito, o trabalho

criado. O território não é fechado, pois se constrói sobre um espaço aberto e infinito.

32 A prática artística e o modo como Smithson pensava esta prática eram contextuais, como ele evidencia em “Spiral Jetty”, quando percebe a necessidade de deixar o site falar, ou, em suas palavras “deixar o site determinar o que iria construir”. Cf. SMITHSON, Robert. Spiral Jetty (1972). In: FLAM, Jack (Org.). Robert Smithson: The collected Writings. University of California Press, 1996, p. 145.

33 MEYER, James. The functional site; or, the transformation of site specificity. In: SUDERBURG, Erika. Space, Site, Intervention: situating installation art. 2000, p.30.

:FRONTEIRA]

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A :FRONTEIRA] também acabou riscada no percurso do trabalho. Se fronteira

pode ser entendida como um contorno, um limite que separa um dentro e um fora,

:FRONTEIRA] é onde há o contato que possibilita pensar o procedimento artístico de

modo contextual, e não autônomo.

:FRONTEIRA] não é a fronteira rígida que circunda um território e que, de

certa forma, aponta para uma essência do ser como sendo o contorno de uma figura37. :FRONTEIRA] está onde se estabelece o contato: no “entre”, na “soleira de uma porta”,

numa “passagem”, isto é, onde a divisão “dentro/fora” não faz sentido. Estar no meio, estar “entre”, pode configurar uma condição de ausência do dentro/fora e, ao mesmo tempo, criar uma situação para pensar a :FRONTEIRA] como algo que pode desfazer o

“ou” e fazer o “e”. Deleuze diz que “há nesta conjunção ‘e’ força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ‘ser’”38.

É possível, portanto, pensar a :FRONTEIRA] não como um limite inequívoco ou o

contorno que circunda uma forma ideal, mas como uma instância limiar, isto é, a soleira, a passagem, o penúltimo ou aquilo que permite reabrir a série39. :FRONTEIRA] é um

site determinado pelo contato de dois ou mais domínios no qual não imperam ideias

compactas do modernismo (autonomia, subjetividade, soberania), mas de onde emergem novas ideias ausentes, fruto de contato e fricção.

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É possível pensar de várias maneiras a passagem entre o fora e o dentro no sistema de arte, afinal o dentro não é percebido como algo formado por paredes de concreto, mas fundamentalmente pelo discurso Isto é Arte!(?). O fato de, por muitos anos, o sistema de arte ter sido delimitado e contornado pelo museu produziu uma ficção: a da autonomia da arte em relação ao mundo exterior. Douglas Crimp, em Sobre as ruínas do museu, também percebe o papel das instituições artísticas (galerias e museus) no estabelecimento da ideia

Isto é Arte!(?): “a originalidade e a autenticidade são produto do discurso do museu”40. A

autonomia do dentro em relação ao fora se processou através da descontextualização do

37 A ideia de fronteira como contorno é contraposta à ideia de fronteira como quantidades de potências que se desenvolvem: a fronteira é dinâmica e só “tiene el límite de su potencia o de su acción”. Cf. DUPLUS. La práctica artística más allá del dispositivo de exhibición. In: NAVARRO, Santiago Garcia, [et.al.]. El pez, la bicicleta y la máquina de escribir. Buenos Aires: Fundación

trabalho de arte.

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Não tratar o site meramente como uma topografia sedimentada e deixar que suas fissuras se façam presentes possibilitam que o contexto do site se espalhe sobre as práticas

artísticas. As pressões, que muitas vezes causam as fissuras e se espalham, são culturais,

sociais, econômicas, políticas. O site discursivo Projeto [PAISAGEM:FRONTEIRA],

constituído tanto pelos Sites Geradores do trabalho quanto pelos Sites Gerados pelo trabalho, possui uma escala de mensuração, não restrita à topografia, mas ampliada por

outros campos de conhecimento.

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As práticas contemporâneas site-specific, ao se configurarem como práticas contextuais, transcorrem na :FRONTEIRA], isto é, na intersecção do campo artístico com

outros campos, onde não há normas preestabelecidas41. O contexto não apenas orienta

as práticas artísticas, como acaba incorporado por elas. Os trabalhos orientados pelos contextos dos seus Sites Geradores e Gerados infiltram-se fora do sistema de arte

(hotéis, ruas, escolas, supermercados, jornais, internet, rádio), participam de redes sociais e se articulam com campos diversos (antropologia, urbanismo, filosofia, crítica literária, história cultural, teoria política, etc.).

O sistema de arte, constitutivo do site de investigação artística, não é abordado desde si mesmo, mas desde suas intersecções com outros campos. Esta intersecção pode ocorrer desde os pontos referenciados no parágrafo anterior como também através da