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4.4 Diskusjon

4.4.2 Tredjepersonsautentisitet - kontakten med fortiden

A heterogeneidade da dança contemporânea se encontra igualmente em suas trocas incessantes junto ao campo artístico. Longe de ter saído do estrito terreno povoado na história da dança, ela se construiu desde o cruzamento de outras abordagens sobre o corpo – é nesse sentido que está em perpétua reconfiguração. As outras artes, as pesquisas científicas sobre o corpo, as novas tecnologias atravessam a dança contemporânea e a atualiza num gesto inventivo, numa experimentação arriscada, afirmando que o que é primeiro na dança são suas linhas de fuga, suas pontas e fluxos de desterritorialização, assim como os devires que essas linhas, pontas e fluxos traçam por entre os movimentos. Porque é exatamente aí que o real é traçado, que ele é marcado pela diferença, transmutando-se e reinventando- se.

Assim, por exemplo, a arquitetura faz parte da dança, como em Man

walking down the side of a building, de Trisha Brown12, no qual a fachada de

um prédio se agencia de maneira determinante com o corpo que dança. Pendurado, descendo do alto do edifício, de frente ao solo, o bailarino explora, de um lado, os elementos fundamentais do movimento, o peso, sua distribuição na construção da verticalidade subjetiva e, ao mesmo tempo, desvia-os, fazendo-os implodir no limite extremo das leis que no entanto os

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Trisha Brown preocupou-se em estudar a ação da força de gravidade sobre o corpo. Explorou movimentos elementares, como a marcha/caminhada, porém sobre suportes não-horizontais, o que lhe permitiu examinar os efeitos do peso sobre o corpo posicionado em condições gravitacionais diferentes das habituais: em Man Walking down the Side of a

Building (Homem descendo pela lateral do prédio), de 1970, um bailarino caminha pela

parede de um edifício. Realiza um movimento cotidiano, caminhar, porém em um contexto completamente diferenciado do contexto usual, numa situação que provoca uma readequação em sua postura e no modo de executar os movimentos. A perspectiva do público é alterada. Ocorre uma inversão do corpo e da percepção.

sustentam – como que para deixar surgir a força sensível pelo próprio excesso transgressor. Trisha Brown faz dançar o corpo pela arquitetura, que sai do registro “decorativo” para confluir em dança.

Da mesma maneira, Biped, trabalho de Merce Cunningham criado em 1999, combina na cena bailarinos atuais e virtuais, projetados em tela. A criação coreográfica elaborada a partir de um computador, a captura dos movimentos e o tratamento tecnológico, a projeção dos bailarinos virtuais, tudo isso compõem a “dança contemporânea” – constituída a partir de uma série de pesquisas sobre o corpo-dançante e sobre o movimento13.

Arquitetura, artes tecnológicas, performance e, ainda, música. A criação em dança, ao longo do século XX, esteve intimamente ligada às pesquisas de músicos contemporâneos. A relação e o trabalho de John Cage e de Merce Cunningham são exemplos dessa ligação. O compositor e o coreógrafo, em colaboração, paradoxalmente contribuíram para afirmar a total independência da música e da dança, de tal maneira que a música e a dança podem, em um mesmo espetáculo, serem compostas separadamente. Este é o caso de Antic Meet, de Cunningham, em 1958. Cage compôs a música, Concert for piano and orchestra, tendo como único acordo com Cunningham somente a duração total da composição (26 min). Dança e música não possuem aí qualquer relação de influência: elas apenas estão ligadas em um mesmo espaço e tempo. Ou seja, são sempre interiores e exteriores à composição, o que certamente possibilita saídas para outros mundos, reinvenções singulares de espaço-tempo.

Esses são alguns dos exemplos, entre tantos outros, que nos fazem afirmar que a dança contemporânea não apenas é estreitamente engrenada às outras artes, mais ainda: ela se entende em função de diversos elementos envolvidos14. O campo da dança contemporânea é indefinido e variável – o

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Sobre esse propósito, ver “Danse et nouvelles Technologies”, na Nouvelles de Danse n° 40/41, Contredanse, Bruxelas, 1999.

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Alguns textos da revista Nouvelles de Danse (NDD) explicitam esse propósito: textos consagrados ao encontro da dança com a música (NDD n° 10, 1992), com o teatro (NDD n° 18, 1994), com as artes plásticas (NDD n° 19, 1994), com a arquitetura (NDD n° 42/43, 2000).

que nos parece possível de apreender somente enquanto agenciamento de práticas diversas em conjunção no corpo dançante.

Dans les années 70, la parole, le chant, la vidéo, cinéma, l’image pénètrent scène et se mêlent à la danse. Pina Baush introduit le théâtre, la narration. Elle bouleverse la scène en introduisant de la terre, de l’eau, des paysages, etc. Dans Walking on the Wall, Trisha Brown rappelle que la danse est aussi un jeu avec la gravité. Elle fait évoluer ses danseurs sur les murs d’une galerie avec un équipement d’alpinisme. L’horizon de la danse ne se donne plus seulement sur le sol, mais aussi dans la verticalité et le jeu avec la pesanteur. La danse contemporaine construit d’œuvre en œuvre un savoir en marche, une boîte à outils qui permet une lecture des spectacles, une analyse de leur apport, de leur fidélité à un style d’auteur, de leur rupture, de leur métissage, ou de leur conservatisme. Contrairement au théâtre, elle manifeste une gestuelle éloignée en principe des codes culturels qui aliment la vie quotidienne, elle met en œuvre un corps libéré de la symbolique corporelle qui fonde des échanges de sens entre les individus dans la vie courante. C’est pourquoi elle touche, fascine, émerveille ou inquiète. Dans la danse, le sens n’est pas dans une transparence normative du corps (à image du langage des signes des sourdes-muets, si l’on en connaît des codes), il se donne toujours comme un horizon d’attente, il ne cesse de se dérober au fur et à mesure que l’on croit se rapprocher de lui15. (LE BRETON, David. 2002, p. 40).

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Tradução nossa: “Nos anos 70, a palavra, o canto, o vídeo, cinema, a imagem penetra a cena e mistura-se à dança. Pina Baush introduz o teatro, a narração. Ela desconstrói a cena introduzindo terra, a água, paisagens, etc. Em Walking on the Wall, Trisha Brown lembra que a dança é também um jogo com a gravidade. Ela faz mover seus dançarinos sobre os muros de uma galeria com um equipamento de alpinismo. O horizonte da dança não se dá mais apenas sobre o solo, mas também na verticalidade e o jogo com a gravidade. A dança contemporânea constrói de obra em obra um saber em marcha, uma caixa de instrumentos que permite uma leitura dos espetáculos, uma análise de seus bens, de sua fidelidade a um estilo de autor, de sua ruptura, de sua mestiçagem, ou de seu conservantismo. Contrariamente ao teatro, ela manifesta um gestual longe de princípios dos códigos culturais que alimentam a vida diária, ela põe em obra um corpo liberado da simbologia corporal que estabelece as trocas de sentidos entre os indivíduos na vida corrente. É por isso que ela toca, fascina, encanta ou inquieta. Na dança, o sentido não está numa transparência normativa do corpo (à imagem da linguagem dos sinais dos surdos-mudos, como se conhece os códigos), ele dá-se sempre como um horizonte de expectativa, ele não cessa de roubar-se a medida que se crer aproximar-se dele”.