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O meio a partir do qual pulsa o agenciamento da dança é o plano dos corpos, que é imanente e primeiro em relação aos esquemas de representação. Vejamos agora mais precisamente em que consiste esse plano dos corpos.

2.3.1. Movimento e relações de forças

A dança é essencialmente salto, corrida, impulso e suspensão, volta e inversão do corpo. Ela se manifesta concretamente pelos músculos tencionados, peso solto, massas corporais tônicas ou ao contrário descontraídas. As articulações se dobram, se esticam, a coluna vertebral serpenteia. Para o filósofo José Gil, a dança é sobretudo questão “de tensions, de brisures, de lenteurs, de vitesses, d’accroissements et de modulations d’intensités, de déploiements, de chocs et de conjonctions

d’espaces32”. (1989, p. 72). Daí conceber uma coreografia como uma

“dramaturgia de forças”. Para que haja movimento é necessário forças em presença. O plano dos corpos da dança é um plano intenso e essencialmente dinâmico: é um “campo de forças”, de relações de força33. Essas forças em relação entram em “composição”34. Esse plano imanente, de composição, é a base de uma ontologia materialista e intensiva na qual toda forma se manifesta a partir de uma relação, de uma composição de forças. Com efeito, o plano de composição se constitui de relações de movimento e de repouso, de velocidade e de lentidão, produzindo-se nas formas do corpo e da dança.

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Tradução nossa: “de tensões, de rupturas, de lentidões, de velocidades, de multiplicações e de modulações de intensidades, de desdobramentos, de choques e de conjunções de espaços”.

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Na ontologia deleuziana, uma força só pode existir dentro de uma relação de forças. “A força não está nunca no singular, ela tem como característica essencial estar em relação com outras forças, de forma que toda força já é relação, isto é, poder: a força não tem objeto nem sujeito a não ser a força”. (1991, p. 78).

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2.3.2. Tornar visível e apresentar o visível

Dado que todo movimento dançado se constitui e se dar a ver através de um campo dinâmico de forças corporais, a dança contemporânea, mas também toda dança, apresenta (e não re-presenta) essas forças. Nesse sentido, Michel Bernard, em sua análise sobre a sensação em dança contemporânea35, diz: “Le mouvement éxecuté du danseur est toujours le prolongement ou la force visible, la partie émergée de celui qui produit et

“travaille” le processus immanent du sentir36”. (2001, p. 120). Pelo movimento

dançado, o trabalho das sensações dá visibilidade ao jogo de forças, subjacente e imanente ao corpo dançante. Para Laurence Louppe, a dança contemporânea realiza o trabalho inconcebível de “donner existence à l’invisible, au réseau impalpable de relations entre les corps37”. (1998, p. 5). Criar, na ótica do agenciamento de dança contemporânea, é, pois, tornar visíveis as forças do corpo em corpo: não é apresentar o visível, mas tornar visível, segundo a fórmula de Paul Klee; apresentar e não representar.

Se a dança contemporânea tem a particularidade de explicitar o trabalho das forças, podemos generalizar essa característica a todo agenciamento de dança. É, em todo caso, o que podemos compreender da afirmação de Deleuze: “Em arte, tanto em pintura quanto em música, não se trata de reproduzir ou inventar formas, mas de captar forças. É por isso que nenhuma arte é figurativa”. (2007, p. 62). Retomando as palavras de José Gil, a dança “ne nous présente pas une narrative ou une allégorie dansée38”. (1989, p. 72). É isso que é precisamente o plano de representação, ou ainda um esquema figurativo. Toda dança, portanto, como toda arte, torna antes de

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Michel Bernard faz uma análise detalhada da sensação na dança contemporânea em seu livro “De la création chorégraphique”, no capitulo 6, intitulado: “Esquisse d’une nouvelle

problématique du concept de sensation et de son exploitation chorégraphique”. Tradução

nossa: “Esboço de uma nova problemática do conceito de sensação e de sua exploração coreográfica”.

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Tradução nossa: “O movimento executado do dançarino é sempre o prolongamento ou a força visível, a parte emergida do que produz e trabalha o processo imanente de sentir”.

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Tradução nossa: “dar existência ao invisível, a rede impalpável de relações entre os corpos”.

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tudo visível “um campo de forças”. Nessa perspectiva, toda dança “apresenta” ou “torna visíveis” as forças corporais.

2.3.3. Agenciamento e território

Tais forças são ditas corporais porque atravessam os corpos39. Essas forças corporais, essas intensidades, preexistem de certa maneira à dança que as agencia. O campo de forças corporais apresentado pelo agenciamento da dança não é, nessa perspectiva, senão uma extremidade de um plano de imanência maior: o campo imanente do mundo. Daí que “tudo é questão de linha, não há diferença considerável entre a pintura, a música e a escritura. Essas atividades se distinguem por suas substâncias, seus códigos e suas territorialidades respectivas”. (Deleuze e Parnet, 1998, p. 88). Um agenciamento, nessa ótica, é uma caracterização de forças que o constituem; estas sendo, então, preexistentes a todo agenciamento.

Todo agenciamento situa-se num território. Como afirma Deleuze e Guattari, os agenciamentos “primeiro extraem dos meios um território. Todo agenciamento é, em primeiro lugar, territorial. A primeira regra concreta dos agenciamentos é descobrir a territorialidade que envolvem, pois sempre há alguma”. (1997, p. 218). O território é uma extração afetiva de um meio; ele se constrói; é uma territorialização. Dito de outra maneira, um território se traça (com o dentro e o fora) sobre o plano de imanência do cosmos. Qual é, então, a territorialidade do agenciamento da dança contemporânea?

Tentamos dizer que o território da dança contemporânea, como de toda dança, é o corpo. O corporal não é exclusivamente o corpo, no sentido estrito do termo, mas uma junção mais vasta e distendida de forças ligadas ao corpo. Melhor dizendo, o agenciamento da dança contemporânea se passa no “terreno corporal”.

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Ou antes, como veremos em detalhe na segunda parte, essas forças são corporais porque é a prática da dança contemporânea que as capta nos corpos.

3. A dança produtiva de corpos-dançantes

Chegamos ao nosso terceiro elemento de definição da dança. Depois de termos mostrado que a dança pode ser pensada como um agenciamento de práticas heterogêneas se encontrando em torno do corpo-dançante, situado na imanência de forças corporais, iremos agora ver a especificidade da relação da dança com o corpo-dançante: uma relação de produção.