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Todos os indivíduos, homens e mulheres, são submetidos a um processo de socialização sexual através do qual ideias culturalmente específicas de masculinidade e feminilidade são modeladas ao longo da vida. “É através desse processo de socialização sexual que os indivíduos aprendem os desejos, sentimentos, papéis e práticas sexuais típicos de seus grupos de idade ou de status dentro da sociedade, bem como as alternativas sexuais que suas culturas lhes possibilitam” (PARKER, 2001, p. 135).

Investigar as experiências das jovens funkeiras relacionadas à sexualidade foi inicialmente um desafio para mim. Não sabia como abordar o tema, como perguntar para elas questões relacionadas a um assunto tão íntimo. No decorrer da pesquisa, percebi que a dificuldade era outra, já que as jovens funkeiras não demonstravam dificuldade para falar sobre seus relacionamentos e suas experiências afetivo/sexuais. A dificuldade, na verdade, era como analisar e compreender as experiências daquelas jovens, dadas as diversas facetas que surgiam à medida que se dava a minha inserção no campo.

Percebi, nos momentos em que estive com as jovens, que as relações afetivas, como os namoros, as paqueras, os encontros, eram temas muito frequentes entre elas. As conversas giravam muito em torno desses assuntos, dos encontros ocorridos nos finais de semana, de uma paquera ou de um novo pretendente de uma delas.

Os modos como as jovens funkeira s vivenciam suas experiências com a sexualidade estão relacionados com suas experiências nos processos de socialização dos quais participam no âmbito da família, do bairro, da mídia e principalmente do funk e do grupo de amigos/as. Inclui-se nessas diferentes instâncias o complexo processo de socialização dos gêneros que repercute nos corpos.

É justamente a inserção do indivíduo em diferentes esferas sociais que determina sua maneira de perceber o mundo. Isto significa dizer, em última instância, que as escolhas e preferências dos indivíduos são socialmente fabricadas. Tais escolhas,

baseadas na ordem de valores do grupo social no qual ele foi criado e vive, marcam fronteiras entre os indivíduos, mas também entre os grupos sociais (HEILBORN, 2002, p. 6).

Assim, na busca por compreender as experiências afetivo/sexuais das jovens funkeiras, tive que levar em consideração alguns aspectos relacionados ao contexto onde as jovens são socializadas, como as relações de gênero, as relações familiares e o contexto social do bairro onde vivem, uma vez que a diversidade de formas de entrada na vida sexual e de experiências que os/as jovens podem ter com relação à sua sexualidade é construída de acordo com as experiências vivenciadas por esses sujeitos durante suas trajetórias.

Como nos informa Pinho (2003), a sexualidade é sempre contextual. Ela ocorre em ambientes sociológicos determinados, estruturados de acordo com a história depositada nos contextos, definidos pelas características objetivas materialmente presentes.

A sexualidade é uma das dimensões do ser humano que envolve gênero, identidade sexual, orientação sexual, erotismo, envolvimento emocional, amor e reprodução. É experimentada ou expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, atividades, práticas, papéis e relacionamentos. Além do consenso de que os componentes socioculturais são críticos para a conceituação da sexualidade humana, existe uma clara tendência, em abordagens teóricas, de que a sexualidade se refere não somente às capacidades reprodutivas do ser humano, como também ao prazer. Assim, é a própria vida. Envolve, além do nosso corpo, nossa história, nossos costumes, nossas relações afetivas, nossa cultura (ABRAMOVAY; CASTRO; SILVA, 2004, p. 29).

Nesse sentido, apresento, a seguir, algumas narrativas das jovens funkeiras sobre suas experiências com as relações afetivo-sexuais, abordando questões como iniciação sexual, namoros, desejos e experiências sexuais.

Os sujeitos incorporam a cultura do grupo no qual são socializados, internalizando suas regras, comportamentos e valores. A socialização exercida pela família, primeira instância socializadora dos indivíduos, é uma experiência significativa que interfere no modo como estes se relacionam com o mundo.

O ambiente familiar de todas as jovens que participaram da pesquisa apresenta questões delicadas que afetam as suas vidas. As famílias formam os mais diversos arranjos, alguns deles bastantes conflituosos, principalmente na relação com os padrastos. Nenhuma das jovens mora com o pai e a mãe. Algumas mães são solteiras, e outras, casadas pela segunda vez. As famílias são compostas por muitas pessoas, pois novos membros são incorporados à medida que os/as filhos/as arranjam parceiros/as e/ou filhos/as.

As jovens convivem frequentemente com casos de gravidez na juventude. Nas minhas andanças pelo bairro, presenciei muitas jovens grávidas ou com bebê. Durante a pesquisa, a irmã de Katyn, que é apenas um pouco mais velha que ela, teve um bebê. A irmã de Karol, que aparenta ter no máximo 20 anos, teve o segundo filho e já tem um de aproximadamente 6 anos. Por sua vez, a cunhada de Karol, que não aparenta ter mais que 16 anos, tem um bebê de colo.

Nas observações no bairro, em algumas conversas que tive com as mães e em determinadas conversas com as jovens funkeiras, percebi que o comportamento das mães é bastante permissivo, em alguns momentos, no que se refere aos aspectos ligados à sexualidade.

No encontro anterior, havia combinado com as jovens para encontrá-las no CUCA no final do ensaio para irmos à lanchonete do bairro conversar e lanchar. Cheguei ao CUCA atrasada por conta da demora da Topic e as meninas já haviam ido embora. Pensei um pouco sobre o que fazer e decidi ir mesmo sozinha ao bairro, já que eu sabia onde era a casa de Katyn. Chegando lá, encontrei Thayssa e ela me levou para encontrar as outras meninas que estavam na casa de Karol. A mãe de Karol havia viajado e Katyn e Renatinha haviam ficado lá com ela para fazer companhia. Estavam Karol, Katyn, Renatinha, o namorado de Katyn e um amigo dele. O namorado de Karol estava para chegar também. Uma das jovens estava fazendo massagem nas costas de um dos rapazes que estava deitado na cama. Reunimo-nos na cozinha, uma sentada na mesa, outra na janela, as outras ficaram em pé. Conversamos um pouco sobre o ensaio e as expectativas para as próximas apresentações. Em seguida, convidei-as para irmos à lanchonete para que pudéssemos conversar mais à vontade, sem a presença dos rapazes. As casas das demais jovens são vizinhas à casa de Karol. Fiquei intrigada com o fato de as mães permitirem que as filhas ficassem em uma casa sozinhas com os rapazes. (Diário de campo, 01/09/2013).

Em outro momento, durante a entrevista com Thayssa, perguntei se sua mãe não se incomodava com o fato de ela ter vários namorados, ela respondeu que não. Como apontam algumas autoras (HEILBORN, 2006b; ABRAMOVAY, CASTRO, SILVA, 2004), a família, principalmente as mães, buscam proteger as filhas no sentido de retardar a entrada na vida sexual e de preservar a reputação. Nesse sentido, algumas das mães das jovens funkeiras apresentam um comportamento pouco rígido com as filhas.

Em alguns momentos da pesquisa, pareceu-me haver uma outra moralidade familiar naquele contexto social, pois algumas questões que são permeadas por contornos bastante tradicionais na nossa sociedade, como a gravidez na adolescência e a iniciação sexual precoce feminina, eram tratadas com naturalidade no contexto das famílias das jovens, dada a grande frequência com que ocorrem.

A família não é uma entidade estanque à qual se aplique uma única moralidade. “As famílias mudam; portanto, é muito difícil associar uma única moralidade a elas”. À medida que as famílias mudam, as noções de moralidade na família vão mudando também (SCOTT, 2011, p. 6).

Acredito que o modo como as jovens vivenciam suas experiências está atrelado também aos costumes e valores familiares, que por usa vez dialogam com os saberes construídos nos espaços de sociabilidades informais, nos grupos de pares e no “mundo funk”.

O aprendizado da sexualidade, contudo, não se restringe àquele da genitalidade, tampouco ao acontecimento da primeira relação sexual. Trata-se de um processo de experimentação pessoal e de impregnação da cultura pela cultura sexual do grupo, que se acelera na adolescência e na juventude. O aprendizado constitui-se na familiarização de representações, valores, papéis de gênero, rituais de interação e de práticas, presentes na noção de cultura sexual (HEILBORN, 2006b, p. 35).

No que se refere à entrada na vida sexual, as jovens funkeiras, com exceção de uma — a mais jovem delas, que afirmou ainda ser virgem —, tiveram sua primeira relação sexual muito jovens, numa faixa de 13 a 14 anos de idade.

Meu primeiro namorado foi o Nícolas, irmão de uma amiga minha. Só que nós só namorava normalmente mesmo, não tinha negócio de sexo, não. Aí depois eu passei pra outro. Tentei tirar a virgindade com ele, mas não deu certo. Aí foi o irmão da Karol que tirou. [...] Foi estranho, sei lá, a gente não é acostumada, fica meio envergonhado. [...] Eu tinha 13. (Thayssa, 14 anos).

Minha primeira relação foi com 14. Acho que foi com 14. [...] Ah, foi uma coisa estranha, né? Mas foi legal (Karol, 16 anos).

De acordo com os relatos das jovens, não parece haver uma preparação para a primeira relação sexual, o que supostamente inclui negociações mais prolongadas com os parceiros. Desse modo, as jovens funkeiras iniciam sua vida sexual sem muito esclarecimento sobre a primeira relação sexual. O “aprendizado da sexualidade” se dá na troca de experiências com as amigas e na experimentação da própria relação sexual. As jovens afirmaram também que não há diálogo sobre sexo em casa e que nunca conversam com as mães sobre essas questões. As dúvidas e experiências sobre sexo e relacionamentos são compartilhadas com as amigas do grupo.

Portanto, as relações sociais tecidas no âmbito do grupo de funk, que também é o grupo de amigas, são formativas no sentido de construirem e compartilharem saberes a partir das próprias práticas dos sujeitos. Além dos saberes sobre o corpo e a sexualidade, as jovens

constroem, nos seus espaços de sociabilidades grupais, estratégias para usar nos relacionamentos e para escapar de estereótipos, além do cuidado com o outro e do valor das amizades.

No grupo de discussão, ao analisarem um trecho de música com referência à sensualidade feminina, as jovens entraram em uma discussão sobre “mulher depravada”, que segundo elas “é a mulher que fica se oferecendo” e citaram o exemplo de uma integrante do grupo que seria “depravada” e não estava presente. “Ela gosta muito de ficar com ma cho casado... Fica ‘dando em cima’... Ela é imoral” (Renatinha, 16 anos, grupo de discussão). Em seguida, Renatinha acrescentou “mas nós já estamos tentando...”. “Estamos tentando” significa que o grupo estava empenhado em ajudar a integrante a mudar o seu comportamento e deixar de ser “depravada”. Isso mostra como, no grupo, as jovens estão preocupadas umas com as outras e procuram uma dimensão solidária, de companheirismo. O grupo é um espaço no qual as jovens funkeiras podem aperfeiçoar sua capacidade individual de tecer relações, exercitar a arte da convivência coletiva, com suas regras básicas, como a confiança, o respeito e a solidariedade. Considero, assim como Dayrell (2005), que há na sociabilidade uma dimensão educativa central na formação humana dos indivíduos.

Eu acho assim, que quando você tem um grupo, né?, todas as meninas desse aqui você nunca deve rebaixar elas e é, tá melhorando Karol, é, Thayssa, tá melhorando, não sei o quê... (Karol, 15 anos).

Pertencer a um grupo significa “fixar similitudes e diferenças em relação aos outros” (PAIS, 2003, p. 115); “descobrir-se como indivíduo, buscando sentido para a existência individual” (DAYRELL, 2005, p.15). É com os amigos do grupo que os jovens podem falar de si, “trocar ideias”, se divertir e construir relações de confiança.

Com relação às interações afetivo/sexuais das jovens funkeiras, há ainda algumas questões que merecem ser destacadas, como o caráter mais ou menos eventual em que ocorre a primeira relação sexual e a frequência com que as jovens trocam de namorados.

Dados de duas pesquisas32 realizadas com jovens de algumas capitais brasileiras apontam que, para as mulheres, a iniciação sexual ocorre mais tardiamente do que para os homens e geralmente se dá no âmbito de um namoro ou de uma relação mais duradoura. Já para os homens, apresenta um caráter de experimentação e afirmação da masculinidade, o que não envolve uma relação de compromisso.

32

CASTRO; ABRAMOVAY; SILVA. Juventude e Sexualidade. Brasília: UNESCO Brasil, 2004.

HEILBORN et al. O Aprendizado da Sexualidade: Reprodução e Trajetórias Sexuais de Jovens Brasileiros. Rio de Janeiro: Garamond e Fiocruz, 2006.

Para as jovens funkeiras, contudo, a primeira relação sexual não deriva necessariamente de um namoro — relacionamento mais tradicional —, mas pode ocorrer de uma relação mais eventual como um “fica”, sem necessariamente estar atrelada a um compromisso. A iniciação sexual pode ocorrer sem planejamento, casualmente, como relatado por Katyn:

Nós tava [...] foi assim, as meninas me chamaram pra ir lá pra casa dele. Aí eu disse:

“mas, a gente vai dormir lá?” Aí elas disse: “É”. “E eu vou dizer o que pra mamãe?”. Aí nós inventamos que ia dormir na casa da Renatinha, lá do outro lado,

aí minha mãe deixou, aí nós fomos pra casa dele, aí foi, nós fomos pra casa de outro amigo dele, aí nós ficamos lá e eles ficaram bebendo lá. É que nesse dia teve até um coisa de luta e nós ficamos tudo assistindo. Depois nós fomos pra casa, aí na hora de dormir todo mundo escolheu um pra dormir e aí sobrou só nós dois, aí nós dormimos juntos e aconteceu (Katyn, 16 anos).

Katyn, que namorava um rapaz do colégio em que estuda, teve sua primeira relação sexual com outro rapaz do grupo de amigos/as. Continuou sem manter relações sexuais com o namorado, que acreditava que ela ainda era virgem. Além de não ter como explicar ao namorado o fato de ter se relacionado sexualmente com outro rapaz, acredito que a atitude de Katyn esteja relacionada com outro aspecto já citado anteriormente, o receio por parte das jovens funkeiras de ficarem mal faladas no bairro onde moram, já que o namorado era do mesmo bairro que ela e o outro não.

Nesse caso, o referencial tomado como critério para a prática sexual seria a vigilância social, e não aqueles relacionados à afetividade, à confiança. O intuito é minimizar as possibilidades de ver a honra manchada, daí a tática das relações sexuais com garotos de outros bairros, de fora dos domínios da convivência cotidiana.

Os/as jovens estão submetidos a expectativas sociais em torno da sua sexualidade reguladas por um sistema presente na cultura brasileira, “marcada por uma categorização de gênero que reserva contrastivamente atitudes e qualidades para cada um dos sexos. Desse modo, masculinidade e atividade estão associadas, por oposição a feminilidade e passividade” (HEILBORN, 2006b, p. 36). É bastante disseminada a ideia de que os homens podem ter muitas parceiras, uma vez que isso prova a sua masculinidade; enquanto é esperada das mulheres certa prudência na esfera sexual.

Se, para os homens, a masculinidade precisa ser provada pela atividade sexual, para as mulheres, conservar uma reputação de “moça de família” requer que estas administrem os “avanços” masculinos. Há ainda hoje certa exigência de uma “virgindade moral” representada sob a forma de um comportamento passivo e ingênuo por parte das

jovens quando se trata de sexo. Tal ideologia considera que homens e mulheres podem lidar diferentemente com os desejos sexuais, e que as jovens, “naturalmente” dominam a vontade sexual, podendo retardar sua iniciação (HEILBORN, 2006b).

Determinados comportamentos das jovens funkeiras contrariam essa lógica. As jovens não são passivas em se tratando de relações afetivo-sexuais. Algumas delas levam uma história bastante intensa de relacionamentos se considerarmos a pouca idade que possuem.

T: É... sou gulosa mesmo, eu acho. L: Você é gulosa?

T: Sou.

L: Você sempre tem dois namorados?

T: Sempre. Antes eu num tinha, não, agora sim. Antes eu era santinha. Agora, danada.

L: Você se considera danada? T: Sim.

Thayssa, ao afirmar “acho que eu sou gulosa”, referindo-se ao fato de nunca ter apenas um namorado, desconstrói o padrão socialmente estabelecido que naturaliza as representações que historicamente colocam as mulheres no território da passividade, da fragilidade, como passivas em relação à sexualidade. Embora isso se passe no âmbito do segredo, do não revelado.

L: E quando vocês vão para as festas, você fica com alguém? K: Só as vezes. Quando vejo que a pessoa é bonita e tal. L: Mas o que rola nas festas?

K: Só o fica normal.

L: Você já transou com alguém numa festa? K: Já.

L: Me conta aí como foi...

K: Foi, sei lá... Foi esquisito, eu tava bêbada, tava dançando, quando dava fé já tava lá no quarto. Mas com camisinha e tal.

Também Karol tem uma vida afetivo-sexual bastante agitada. Além dos paqueras eventuais quando sai para “curtir”, ela teve dois relacionamentos mais sérios e refere-se aos parceiros como “maridos” pelo fato de terem morado juntos. Nos depoimentos a seguir, Karol fala um pouco sobre esses dois relacionamentos, explicando como conheceu seu segundo “marido”, quando ainda estava “junta” com o primeiro.

A primeira vez eu que eu vi ele foi quando eu tava com meu ex-marido que morreu, ele chegou lá na minha vó e eu tava... eu chegou, né?, eu tava esperando esse menino que morreu, né?, chegar lá pra me buscar. Aí esse menino que eu tava mesmo agora na última vez, aí ele chegou lá, ele tava conversando com meu irmão,

aí quando ele saiu ele olhou pra minha cara assim, aí ele: “E aí, lorinha, vai dar certo?” Aí eu: “Não. Não vai dar, não”. Ele: “Por quê?”. “Porque não, porque eu

tenho marido, tenho namorado”. Ele: “Vixe, é?”. Eu: “É”. Aí ele foi e disse: “Mas se quiser, viu?”. Eu: “Não, mas eu não quero, não”. Eu dispensava muito ele. Aí teve

uma vez que ele veio pra cá pra minha casa, porque ele era amigo do meu irmão, aí meu irmão mora com a gente, aí ele veio aqui em casa, aí eu e as meninas fizemos uma aposta — ele tava lindo, né?, e eu tava sem namorar—, aí eu e as meninas

fizemos uma aposta: “Bora vê quem fica com ele primeiro?” Aí as meninas: “Bora”.

Aí quando der fé, eu fiquei com ele primeiro, aí pronto, fiquei ficando com ele (Karol, 16 anos).

K: Ah, os outro foram só fica mesmo, só de beijinho. Aí o outro cara que eu amei mesmo, pra valer mesmo, foi ano passado, foi o que morreu. Com ele foi que eu tive, foi tipo primeira vez, né? Foi um cara que eu quase me ajuntava com ele, foi o cara da minha vida.

L: Você chegou a morar junto com ele?

K: Não. Nós dormia junto, mas nós não moramos junto, porque morar junto é quando aluga uma casa, né? Mas nós tava quase junto.

L: E vocês ficavam na casa de quem?

K: Na casa da tia dele. Lá no interior (Karol, 16 anos).

Depois dele, eu tive outro. Esse ano agora, que eu vim levar a sério também. Aí eu ficava com ele normal. Conheci ele através do meu irmão. Aí esse foi meu primeiro marido que eu posso dizer que foi marido mesmo, que eu me ajuntei com ele, só que não deu certo, né? Não deu certo (Karol, 16 anos).

As narrativas das jovens funkeiras anunciam que as suas práticas afetivo/sexuais são acionadas pelos mecanismos da experimentação, do prazer, da atração sexual, muitas vezes com um caráter de quase brincadeira, sem perspectivas de laços duradouros. As relações são muito esporádicas e muitas vezes paralelas. Dada a frequência com que iniciam e terminam relações, um namoro de dois meses é considerado pelas jovens funkeiras como um namoro longo. O diálogo a seguir é ilustrativo nesse sentido.

L: E você se previne com esse namorado que disse que tem mais intimidade? T: Nunca.

[...]

T: Mas ele é porque eu já tava acostumada. No começo eu usava camisinha. L: Faz quanto tempo que vocês namoram?

T: Já faz mais de dois meses.

As jovens apresentam uma moralidade sexual liberal quando vivenciam uma diversidade de experiências e de práticas afetivo/sexuais consideradas desviantes pela sociedade, como a iniciação precoce, a intensificação de trocas afetivas e práticas sexuais paralelas. No entanto, a sexualidade é um campo arriscado para as jovens. Certas representações sociais permanecem sólidas, principalmente no tocante às relações de gênero. As jovens estão sujeitas a um processo de estigmatização em decorrência do seu comportamento considerado desviante. A nomeação das jovens funkeiras como “mulheres fáceis” ou “putas” dialoga com uma visão sexista a partir da qual são percebidas as práticas

sexuais femininas. Essa mesma lógica parece presumir que, enquanto ao masculino cabe a constante disposição para o sexo, ao feminino caberia o papel de refrear o anseio masculino.