Del 1: Kvalitetsbegrepet og brukeroppfølgingen
2.2 Tre perspektiver på kvalitet
A indústria e a industriosidade vergam ao peso dos juros elevados, em contubérnio com o câmbio sobrevalorizado. Não é possível compreender a trajetória industrial brasileira sem mencionar os equívocos de política econômica cometidos ao longo dos últimos vinte anos. A relativa com- plexidade do fenômeno torna difícil sua compreensão e comunicação no debate público, devido à disseminação de simplificações midiáticas e da partidarização das posições em confronto.
Nos anos de 1990, um novo ciclo de liquidez internacional ensejou a almejada estabilização do nível geral de preços. As classes conserva- doras e conversadoras não aprendem e – ao contrário dos Bourbons –
1 Trata-se, na verdade, de arbitragem com taxas de juros: as subsidiárias agraciadas com os juros do Dr. Tombini contraem dívidas junto às matrizes, aborrecidas com os juros da Sra. Janet Yellen ou do Sr. Draghi.
tampouco se lembram de coisa alguma. Diante da pletora de dólares, passaram a salivar com intensidade e patrocinar as visões mais grotescas a respeito das relações entre desenvolvimento econômico, abertura da economia e relações entre política fiscal e monetária. Aproveitaram a abundância de dólares para matar a inflação, mas permitiram a valoriza- ção do câmbio, sob o pretexto de que a liberalização do comércio e dos fluxos financeiros promoveria a alocação eficiente dos recursos.
Nesta visão, os ganhos de produtividade decorrentes das mudanças no comportamento empresarial diante do câmbio valorizado seriam sufi- cientes para dinamizar as exportações, atrair investidores externos e des- lanchar um forte ciclo de acumulação. Mas na vida real, a abertura comer- cial com câmbio valorizado e juros altos suscitou o desaparecimento de elos das cadeias produtivas na indústria de transformação, com perda de valor agregado gerado no país, decorrente da elevação dos coeficientes de importação – sem ganhos nas exportações – em cada uma das cadeias de produção. Para juntar ofensa à injúria, esta forma anacrônica de aber- tura afastou o Brasil do engajamento nas cadeias produtivas globais.
Com tal estratégia, o crescimento da economia brasileira foi pífio. O investimento estrangeiro em nova capacidade deslocou-se para regiões mais atraentes, como a China, onde as políticas cambial e monetária favoreceram as iniciativas de política industrial e construíram o caminho para o rápido crescimento da exportação de manufaturados. Os dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostram que a China avançou velozmente na sua participação nas exportações mundiais. Suas vendas externas evoluíram de menos de 2%, em 1998, para 10,4%, em 2012. Figura em primeiro lugar no ranking dos grandes exportadores, superan- do a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos.
A partir de 2003, ainda à sombra de uma política monetária exces- sivamente conservadora, o país executou uma política fiscal prudente com queda das dívidas bruta e líquida como proporção do PIB. A acu- mulação de reservas construiu defesas para prevenir os efeitos de uma eventual crise de balanço de pagamentos. Isto foi proporcionado por uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável, que levou às alturas os preços das commodities.
Nesse ambiente benfazejo, a política econômica do Governo Lula não corrigiu os enganos dos anos de 1990, mantendo a taxa de juros e o câmbio fora do lugar. Criou-se uma situação do tipo “há bens que vêm para o mal”, ou seja, o câmbio valorizado era compensado pelos preços generosos dos produtos primários formados em um mercado mundial superaquecido.
Nas condições descritas acima, seria desejável buscar uma combi- nação câmbio-juro real mais estimulante para o avanço das exporta- ções e para o investimento nos setores mais dinâmicos do comércio mundial. Estes seriam passos decisivos para a integração do país nos fluxos de exportação e importação exigidos pela nova configuração da indústria global.
O Brasil encerrou os anos de 1990 e atravessou a década seguinte com uma regressão da estrutura industrial, ou seja, não acompanhou o avanço e a diferenciação setorial da manufatura global e, ademais, perdeu competitividade e elos nas cadeias que conservou.
A crise de 2008 acirrou a concorrência mundial na proporção em que os mercados se contraíam, o que deixou ainda mais patente a fragili- dade da inserção externa da economia brasileira. Não por acaso, as medi- das de incentivo tributário perdem eficácia, neutralizadas pelo pecado original da valorização da moeda. Isso, além de comprometer o cresci- mento, o equilíbrio fiscal e a conta corrente do balanço de pagamentos, coloca pressão sobre a taxa de juro. Para quem tem um conhecimento elementar dos processos de industrialização e expansão industrial das economias emergentes, a manutenção do câmbio sobrevalorizado ao longo de muitos anos é um erro crasso de política econômica que afeta negativamente a política fiscal e a política monetária.
A última moda nos círculos bem falantes e bem informados é pregar a integração da indústria nativa às cadeias globais de valor e clamar pelo aumento da produtividade. Essas recomendações equivalem às campa- nhas em defesa da saúde contra a doença.
Em nossa opinião, a redistribuição espacial da manufatura foi impul- sionada por duas forças complementares: 1) o movimento competitivo da grande empresa transnacional para ocupar espaços demográficos de
mão de obra abundante; e 2) as políticas nacionais dos Estados sobera- nos nas áreas receptoras. Não é possível compreender a reestruturação e a dinâmica da produção e do comércio globais sem considerar essa concomitância entre os movimentos da grande empresa e as políticas nacionais, particularmente as da China e de seus vizinhos asiáticos.
A participação da indústria brasileira no PIB caiu de 35,8%, em 1984, para 15,3%, em 2011. Em 2014, escorregou para 13%. O leitor poderá comparar o índice brasileiro com os indicadores de alguns países (dados da ONU de 2010): China (43,1%), Coreia (30,4%), Alemanha (20,8%).
Essa queda seria natural se decorresse dos ganhos de produtivida- de obtidos ou difundidos pelo crescimento da própria indústria, como ocorreu em países de industrialização madura, como os Estados Unidos (13,4%). Mas não foi isso que se observou no Brasil.
Desde o crepúsculo dos anos de 1970, no momento em que ocorria a revolução tecnológica da informática, dos contêineres e da automa- ção – companheiras da intensa redistribuição da capacidade produtiva manufatureira entre o centro e os emergentes – a indústria brasileira ficou para trás.
A perda de dinamismo da industrialização brasileira provocou, no início dos anos de 1990, uma reação extremada nas hostes liberais: abrir a economia e expor os empresários letárgicos aos ares benfazejos da glo- balização. O silogismo em que se desdobra a premissa é grotesco em sua simplicidade: se a indústria brasileira perdeu a capacidade de investir ou de se modernizar, a solução é submeter a incompetente à disciplina da concorrência externa.
Quase todos concordam que se esgotaram as formas de financia- mento, de incentivos e de proteção, responsáveis pela sustentação do desenvolvimento industrial brasileiro ao longo de mais de cinco déca- das. Custa muito trabalho, além de imaginação, construir novas institui- ções financeiras, pensar na reforma fiscal, enfim, dar tratos à bola para estabelecer uma nova relação entre o Estado e o setor privado.
Um estudo encomendado pela União Europeia revela aspectos importantes do processo de internacionalização dos anos de 1990 e 2000: 1) nos países em desenvolvimento, os benefícios do investimento
estrangeiro – tais como absorção de tecnologia, adensamento de cadeias industriais, crescimento das exportações – dependeram das políticas nacionais; 3) os países em desenvolvimento que cresceram mais e expor- taram melhor foram os que conseguiram administrar uma combinação favorável entre câmbio desvalorizado e juros baixos.
Na era da arrancada chinesa, é superstição acreditar que a aber- tura financeira e a exposição pura e simples do setor industrial à concorrência externa são capazes de promover a modernização tec- nológica e os ganhos de competitividade. Os estudos mais especiali- zados e aprofundados sobre o tema mostram que a concorrência nos mercados contemporâneos está marcada por características que não guardam qualquer semelhança com as crendices simplificadoras das vantagens comparativas.
Até mesmo os estudiosos conservadores reconhecem a existência de economias de escala e de escopo, economias externas, estratégias de ocupação e diversificação dos mercados, conglomeração e acordos de cooperação. Neste jogo só entra quem tem cacife tecnológico, poder financeiro e amparo político dos Estados Nacionais. O resto está na arquibancada batendo palmas.
Estas características essenciais da concorrência e do comportamento das empresas, sobretudo na área industrial, estão completamente ausen- tes das elucubrações dos que pretendem nos ensinar as virtudes mila- grosas do curandeirismo que aspira a foros de ciência.
Algumas correntes de opinião cultivam com esmero o hábito de ignorar a experiência alheia e, pior, tratam de desqualificar e desfigurar o próprio passado, quando não se empenham com denodo em promover seu completo esquecimento.
Não há exemplo nos países periféricos – aí incluídos o Chile, os “Tigres Asiáticos” e a China, de renúncia a políticas deliberadas de rees- truturação produtiva ou de estímulo à modernização e à conquista de mercados. Seja qual for a estratégia adotada – liderança das exporta- ções ou preeminência do mercado interno – os casos bem-sucedidos de avanço industrial e produtivo na dita “era da globalização” têm um traço comum: intencionalidade e coordenação pública.
É insensato subestimar os efeitos causados pelas mudanças da geo- economia mundial. As políticas asiáticas de promoção e integração indus- trial estão alicerçadas em ganhos expressivos nas relações produtividade/ salário e salário/câmbio na manufatura. Esse processo é amparado por um sistema de crédito voltado para o investimento manufatureiro priva- do e a sustentação dos programas públicos de gastos em infraestrutura.
A despeito da crise global e da inevitável desaceleração chinesa, o estilo de desenvolvimento sino-asiático vai prosseguir visando ganhar a dianteira na porfia competitiva global. Não é por desvio ideológico ou coisa parecida que as medidas protecionistas se espalham e se aprofun- dam silenciosamente no mundo inteiro, enquanto os adeptos das teorias das vantagens comparativas se lamentam, entre gemidos e murmúrios. Nessas circunstâncias, a valorização cambial é um erro grave, assim como a hesitação em promover políticas adequadas de defesa comercial e de estímulo às exportações.
Com já foi dito, o Brasil encerrou os anos de 1990 com uma regres- são da estrutura industrial, ou seja, não acompanhou o avanço e a dife- renciação setorial da indústria manufatureira global e, ademais, perdeu competitividade e elos nas cadeias que conservou. Nos anos 2000, bafe- jado pelas energias da expansão sino-americana, o país foi abalroado não só pela demanda chinesa de commodities, mas também pelo crescimento elástico do comércio global de manufaturas.
No auge da bolha de crédito universal, nossa indústria “pegou uma beirada” na festança global. A balança comercial brasileira ilustra os altos e baixos da indústria de transformação: em 2006, na culminân- cia do crescimento sino-americano, o saldo do setor era positivo em 29,8 bilhões de dólares. Em 2011, cinco anos depois, o resultado foi negativo: US$ 48,7 bilhões. Já em 2014, o déficit da indústria de trans- formação subiria a 63 bilhões de dólares. Chamam a atenção os déficits em produtos químicos, bens de capital mecânicos, equipamentos de rádio, tevê e comunicação e veículos automotores. O resultado global do comércio exterior foi superavitário em 29,8 bilhões de dólares em 2011 (40 bilhões em 2006), graças ao extraordinário saldo em commodities agrícolas e minerais de 78,5 bilhões de dólares (46,4 bilhões em 2006).
Mas, o superávit seria transformado em déficit de US$ 4 bilhões de dóla- res em 2014, quando o saldo de commodities recuou para 59,5 bilhões.
Gráfico 1