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Traversing the quadtree

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4.3 GPU light ray tracing

4.3.2 Traversing the quadtree

Após a tomada do quartel, os rebeldes preocuparam-se imediatamente em exercer total controle sobre os meios de comunicação de Óbidos com o exterior. A estação da The Amazon Telegraph Company Limited, uma das 16 repartições da empresa no Pará, localizada na área comercial da cidade, à rua Siqueira Campos, nº 2, foi tomada e ocupada por um destacamento militar, às 2 horas da madrugada de 18 de agosto. Segundo o único telegrafista da estação, João de Andrade Rego, ao amanhecer, “um tal de coronel Pompa”, acompanhado de praças armadas, esteve na agência, ameaçando-o de fuzilamento caso tentasse trair o movimento. Dali por diante, a repartição mais parecia um quartel, ocupada por soldados, disse em inquérito. Com problema de saúde, agravada pela situação inusitada, o telegrafista solicitou autorização para se ausentar da cidade, refugiando-se na vila de Oriximiná, deixando em seu lugar o sobrinho. Soube depois que o rebelde Raymundo Dinelly assumiu o posto.266

A agência postal também foi mantida sob o controle dos rebeldes com a nomeação do civil Manuel Valente do Couto para censor, com autorização para examinar todas as corespondências enquanto durasse a revolta.267 Pompa estava especialmente preocupado com a comunicação entre Óbidos, Belém e Manaus. Desejava retardar ao máximo a difusão da notícia da revolta, até que a força

265 Boletins de 18 a 20 de agosto de 1932 da Força Revolucionária no Norte da República/4º

Grupo de Artilharia de Costa. Documento juntado ao inquérito IPMPA, pp. 373-8. AHEX.

266 Auto de perguntas a João de Andrade Rego. Inquérito DPAAM, p. B 468. AHEX.

267 Decreto nº 7 do Comando das Tropas Constitucionalistas no Norte. Juntada ao inquérito DE,

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revolucionária estivesse preparada para a luta que travaria contra as forças legais. (Fig. 09):

Figura 09 – Decreto nº 7: censor para os correios.

Fonte: Inquérito DE, p. 456, AHEX

O comando rebelde, todavia, não contava com o desprendimento do guarda sanitário Leônidas Gomes que, ao tomar conhecimento da revolta, decidiu furar o bloqueio rebelde. Ao meio dia, ele partiu num pequeno bote para a vizinha cidade de Santarém, onde chegou depois de remar em torno de 18 horas. Embora muito cansado, Leônidas, imediatamente, dirigiu-se à casa do prefeito Ildefonso Almeida para comunicar-lhe o ocorrido. O prefeito, não acreditando no exausto mensageiro, deu-lhe voz de prisão, considerando-o um boateiro. O guarda sanitário só sairia da cadeia após a confirmação da notícia, feita pelo interventor, por intermédio de mensagem telegráfica ao prefeito santareno. Mas, então, a reação tinha perdido várias horas.268

No sul do país, a manipulação dos meios de comunicação pelo comando rebelde fez parte da estratégia de dominação do imaginário social, com vista à conquista de apoio à causa constitucionalista. As transmissões radiofônicas, destaque para as locuções arrebatadas de César Ladeira, e o noticiário de jornais de tendência constitucionalista, entre os quais “O Estado de São Paulo” e “Diário Nacional”269,

268 Auto de perguntas a Leônidas Gomes. Inquérito DE, pp. A33-4. AHEX.

269 Sobre o uso dos meios de comunicação na Revolução Constitucionalista, há uma ampla

bibliografia, da qual destacamos NOGUEIRA FILHO, Paulo. A guerra cívica 1932. São Paulo: 1982; DONATO, Hernâni. 1932: História da Revolução de 32. São Paulo: Ibrasa, 2002; DE PAULA, Jeziel.

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foram amplamente utilizados para incutir nos paulistas a ideia de “São Paulo terra arrasada pela Revolução de Outubro”. No Baixo Amazonas, sem emissoras de rádio e contando apenas com a circulação irregular de um pequeno jornal270, os rebeldes só podiam manipular telegramas, nos quais negavam qualquer anormalidade. Na troca de telegramas abaixo, Pompa responde mensagem de Magalhães Barata como se fosse o comandante do 4º GAC, tenente Arruda:

Aviso nº três – Tenente Comandante Grupo – Óbidos (19). Informe o que há aí. Notícias alarmantes determinaram-me fazer seguir agora mesmo couraçado Floriano. Consta aqui oficialidade e prefeito presos, cidade em desordem. Informe- me. Major Barata.

Aviso nº um – Major Barata – Belém (19). Informações infundadas. Reina completa calma na cidade. Grupo firme ao seu lado. J. Arruda e Silva. Cmt. Int. 4º GAC.

Aviso nº quatro – Tenente Arruda – Óbidos (19). Como reina calma aí se guarda sanitário Leônidas chegou a Santarém fugido noticiando prisão de prefeito e oficiais e soldadesca revoltada? Ante dubiedade de informações, sou forçado a mandar Floriano até aí e, ao mesmo tempo, seguirá força policial que organizo para baixar o Sul, obrigada agora a alterar destino. Major Barata.271

Tão logo assumiram o comando da situação, os rebeldes procuraram acalmar os moradores por meio de manifesto distribuídos nas ruas da cidade. No boletim “Ao povo de Óbidos”, escrito e assinado pelo coronel Pompa, revisto por Demócrito Noronha e impresso na gráfica do jornal “Cinco de Julho”, o comandante expôs o objetivo da revolta:

Ao povo de Óbidos

O Coronel Pompa, comandante das tropas reevolucionárias de Óbidos, comissionado e enviado especial do Sr. general Bertholdo Klinger, comandante-em- chefe do Exército Brasileiro Constitucionalista, lançando o presente boletim ao povo desta cidade, com a franqueza e a lealdade própria do soldado que coloca honrarias e postos sob os pés para olhar a encarar a defesa e integridade das Pátria, sente-se

1932: Imagens construindo a história. Campinas: Unicamp, 1998; DEL PICCHIA, Menotti. A revolução

paulista. São Paulo: 1932; ELLIS JUNIOR, Alfredo. A nossa guerra. São Paulo: Piratininga, 1932; VILLA, Marco Antonio. 1932: imagens de uma revolução. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010; SANTOS, Marcos C., MOTA, André. São Paulo 1932: memória, mito e identidade. São Paulo: Alameda, 2010; SOUZA, José Inácio M. O estado contra os meios de comunicação (1889-1945). São Paulo: Fapesp, 2003; LADEIRA, César. Acabaram de ouvir... São Paulo: Nacional, 1933; BEZERRA, Holien Gonçalves. O jogo do poder: revolução paulista de 32. São Paulo: Moderna, 1989.

270 O jornal chamava-se “Cinco de Julho”, tinha gráfica própria e pertencia ao professor José

Tostes, autor de todo material redacional publicado. Lamentavelmente não foi encontrado, durante a realização da pesquisa documental, nenhum exemplar deste periódico.

271 Documentação do Arquivo da Amazon Telegraph juntada ao Inquérito Policial-militar. DE, p.

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orgulhoso em dizer que o movimento ora levantado neste rincão belíssimo do Amazonas, está vitorioso porque não só conta com a adesão incondicional de toda a maioria da armada Nacional e Exército Brasileiro, como também, não se trata de um movimento político, porquanto, mais alto que a política, mais alto que o interesse do mando, mais alto que o desejo de perpetuidade nos cargos públicos – fala pela boca do são patriotismo a necessidade do País voltar ao REGIME DA LEI.

E voltará!Apenas, calma, reflexão e ponderação pedimos e aconselhamos ao povo desta boa e hospitaleira terra.

Esteja o povo tranquilo que tudo há de ser resolvido dentro das melhoras maneiras, sem estrépitos inúteis e sem fuzilaria desnecessária.

O povo que se congregue, o povo que se levante e o povo que venha lutar pela constitucionalização do País para salvar a honra deste Brasil amado e desta Pátria querida!

Avante, Brasileiros, que à frente desta luta sacrossanta e digna, estão brasileiros civis e militares, de envergadura moral invejável, de caráter impoluto e de honra intangível!.

Pra frente!

CEL. POMPA.272

Distribuídas pelos soldados nas ruas e domicílios, as trezentas cópias impressas do boletim certamente não chegaram à casa de muitos, mas, pode-se imaginar, a ampla circulação em função do alcance que a questão suscitava para a vida dos moradores, afinal, ainda estavam bastante vivos na memória deles os acontecimentos da revolução de 1924 com seu bombardeio aéreo.

No boletim, Pompa comunica que o objetivo do movimento é o retorno do país ao regime da lei. Apresenta-se como emissário de um general constitucionalista, Bertholdo Klinger, cujo nome certamente soou estranho à maioria dos moradores. Diz que tudo vai ser resolvido sem fuzilaria desnecessária, deixando implícita a possibilidade de haver, numa leitura a contrapelo, alguma fuzilaria, digamos, “necessária”. A leitura deste primeiro boletim resultou não em apoio que Pompa esperava, mas na fuga em massa dos moradores.

Quase oitenta anos depois, o memorialista Ademar do Amaral narrou o episódio da fuga de sua família. Seu avô, José Cardoso Ayres, proprietário da farmácia Esculápio, aproveitando a presença de Pompa no estabelecimento, onde requisitava remédios, negociou a retirada da família, alegando que a esposa estava muito nervosa temendo algum bombardeio da cidade por parte das tropas legalistas, como ocorrera em 1924. Pretendia atravessar o Amazonas e levá-la para a fazenda do compadre Álvaro Pinto, na chamada costa fronteira de Óbidos. Pompa aquiesceu e recomendou que

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atravessassem o Amazonas levando um pano vermelho na popa da canoa, evitando ser alvo dos canhões da Serra da Escama.273

Muitas famílias obidenses embrenharam-se em sítios e fazendas do interior de Óbidos e de localidades vizinhas, mas a maioria buscou refúgio na vila de Oriximiná, então um grande empório comercial, localizado à margem esquerda do rio Trombetas, a 85 quilômetros da cidade rebelada. Os padres franciscanos registraram, no Livro de Crônicas, que um grande número de famílias, antes da fuga apressada, confiou seus bens à Igreja, enchendo o porão da casa dos padres de gêneros como máquina de escrever, bicicletas, malas, baús, roupas, livros etc. Eram famílias que tinham como certa a inviolabilidade da igreja, podendo partir tranquilos porque seus bens estariam garantidos até que tudo voltasse à normalidade. No entanto, os próprios franciscanos não tinham esta certeza. Uma curiosa observação mostra que o desespero também se instalou entre eles:

No dia 19 de agosto, reverendíssimo frei Eustáchio, medroso como é, embarcou numa canoa, com cinco irmãs religiosas, quatro alunos internos e duas empregadas do Colégio São José e mais um menino, nosso interno, para refugiar-se na fazenda da Matriz, no Paraná de Cima, aonde chegaram à madrugada do dia seguinte. Os padres frei Victor e frei Ricardo ficaram na cidade, passando os dias entre fome e estrondos de canhões, preparando eles mesmos as refeições, que constavam, nos primeiros dias, de café, bolacha, arroz e mingau. Só!274

As autoridades locais, depostas de seus cargos, também rumaram em direção ao interior. O primeiro a partir foi o delegado Hermínio Dinelly. No dia seguinte, partiu o prefeito Ignácio Freire. Restaram o promotor e o juiz, mais somente por algumas horas. Assim que foi informado sobre a revolta, o promotor Climério Machado de Mendonça foi à casa do juiz Abdias de Arruda discutir que atitude tomar. Decidiram suspender os trabalhos no Fórum por falta de segurança. Logo em seguida, Abdias de Arruda recebeu cópia do decreto nº 4, assinado por Pompa, suspendendo os trabalhos forenses, reconhecendo a ausência de clientela e de funcionários forenses.275

No final da manhã do dia 18, o promotor público foi preso pelo dentista Egydio Penalber, já investido no cargo de delegado de polícia, e por duas praças, todos portando fuzis a tiracolo, no mercado da cidade. Conduzido ao quartel, ele testemunhou a prisão do comissário de polícia, Antonio Rodrigues das Neves. Climério ficou detido

273 AMARAL, Ademar Ayres. Catalinas e casarões. Belém, 2009, p. 156. 274 Livro de Crônicas do Convento de Óbidos, ano 1932, pp. 53-4.

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por duas horas até receber ordem para manter-se em prisão domiciliar. No dia 19, à noite, fugiu com a família em lancha lotada para Oriximiná.276, mesmo destino do juiz Abdias de Arruda, que justificou a saída da cidade como uma forma de defender a integridade da família.277

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