Não é mais necessário ou útil continuar trancado em estereótipos antiquados onde a escolha se reduz a uma entre duas opções. Esses estereótipos levam apenas a alienação de si próprio. Ainda há muita coisa de valor no modelo tradicional de masculinidade, mas ele deixou de ser mortalmente limitante. Existem novos ideais de masculinidade. Masculinidade também significa cuidar, alimentar e proteger
As atitudes de um pai, por exemplo, pela sua importância na vida de uma criança, merecem uma reflexão mais atenta, já que se constituem em referências fundamentais. Como um espelho que devolve a imagem, é por meio do eco que essas atitudes têm que muitos filhos/as se vêem e revêem
424Ibidem. p.405.
425Essa questão é aludida por Walcyr Carrasco em obra aqui já referida.
426Cf. TARNOVSKI, Flávio Luiz. “Pai é tudo igual?”: significados da paternidade para homens que se autodefinem
como homossexuais. Op. cit. p. 407.
enquanto vão construindo seu protagonismo como pai e como mãe. Às vezes, estimulados pelo exemplo positivo de um pai; outras vezes, magoados por uma ausência paterna, como veremos mais a frente.
Essas imagens de situações que marcaram podem desaparecer, mas deixam rastro. Esses rastros como o de todas as experiências emocionalmente fortes, vão sendo integrados e contribuem para a construção dos modelos de referência futuros. Afinal,
[o] mundo cultural também poderia ser visto como um processo de criação contínua ou recriação, como uma espécie de canteiro de obras onde os andaimes não são retirados porque a reconstrução cultural nunca termina.428
Esse “canteiro de obras” pode ser por mim observado, no protagonismo com que exercitam a paternidade os homens jovens e pais com quem convive para a feitura dessa pesquisa. Como protagonistas desse evento, essa geração é a reconstrutora da paternidade, onde Aquiles pode ser tomado como é um exemplo disso.
Minha proximidade com ele se deu pela Universidade que, como já disse, foi por intermédio dela que formei uma de minhas redes de informantes/interlocutores para esta pesquisa. Por ser, meu aluno, na época, ficou sabendo de meu interesse em perscrutar questões subjetivas que permeiam a paternidade juvenil. Assim, em um de nossos intervalos de aula, procurou-me para dizer que tinha sido pai aos 20 anos de idade e que, se fosse possível, estaria disposto a conversar sobre o assunto. Desta forma, marcamos um primeiro encontro, na própria Universidade, para que eu pudesse lhe informar mais amiúde sobre a idéia da pesquisa. Os encontros seguintes acabaram acontecendo sempre nos espaços da Universidade. Até que, da parte dele, veio o convite para fosse conhecer sua residência. Na verdade, penso que por ser ele meu aluno, tive reticências em querer marcar nossos encontros em sua residência. Mesmo porque, fruto de nossas primeiras conversas, já sabia que ele vivia em coabitação com sua parceira e seu filho e ansiava por esta proximidade. Mas, parafraseando Clifford Geertz,429 o antropólogo só se faz no campo, aprendendo com seus erros e acertos a se movimentar numa fina corda bamba, se posso assim dizer. Mais ainda, se o objetivo final desta pesquisa era captar os “imponderáveis da vida cotidiana” destes homens jovens e pais, estar com eles nas mais diversas oportunidades do “exercício de paternagem” era condição.
428Cf. BURKE, Peter. O historiador como colunista: ensaios da Folha. Op. cit. p.158 429Cf. GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Op. cit.
Tendo aprendido a lição, posso dizer que com Aquiles, dentre outros que também vieram aqui falar, durante o período do trabalho de campo, mantive uma relação muito próxima. Tanto que, de lá prá cá, tenho com alguns destes, uma relação de amizade que está para além da experiência da pesquisa. Compartilhei com eles muitos momentos do dia-a-dia; de datas comemorativas como aniversários, dia dos Pais e Natal; de passeios de fim de semana em praças, shoppings, parques e praças; de idas a médicos etc.
Como fruto dessa proximidade e compartilhamento, que me permitiu entrar em suas casas e em suas vidas, numa das entrevistas/encontro, com Aquiles – que por coincidência aconteceu num segundo domingo de agosto, data em que no Brasil se comemora o dia dos Pais –,430 em que fui convidado para o almoço de família, em sua residência, veio à tona a questão da relação tão afetuosa e perceptível que este tem com seu filho, fato que já me chama atenção desde que dele me falou em nossos primeiros encontros na Universidade.
Nesse dia, por sinal, aprendi na prática a aplicabilidade daquilo que nos ensina William Foote Whyth,431 quando o buscado numa pesquisa é a densidade (o que já foi comentado no Capítulo II). Assim, após ter sido aceito, foi parado, olhando e sem ter que fazer perguntas que soube respostas às perguntas que talvez nem tivesse feito. Desta maneira, neste domingo de dia dos Pais, foi parado e olhando a forma carinhosa de cuidar do seu filho, que Aquiles me respondeu a pergunta que não foi necessária ser feita: “[n]ão faço isso por obrigação, mas porque gosto. Pai que só troca fralda é coisa do passado”. Fruto desse exercício metodológico de parar, olhar e ouvir a resposta do que se deseja saber sem ter sido necessária a pergunta, nasceu um diálogo sobre como se designa um pai.
Nesse sentido, há um texto escrito a duas mãos, onde em forma de diálogo, o filósofo francês Jaques Derrida discute com a historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, alguns dos
430Segundo a Nova Enciclopédia Barsa, há duas versões para a origem do dia dos Pais. Uma delas afirma que a
comemoração é muito anterior a nossa era atual, que o dia já era comemorado na antiga Babilônia. Já a versão mais
recente, conta que a idéia surgiu em 1909, nos Estados Unidos.
A iniciativa teria partido da filha de um veterano da guerra civil que, ao ouvir um sermão dedicado às mães, teve a idéia de celebrar o dia dos Pais. Em 1966, o presidente americano, Lyndon Johnson, assinou uma proclamação presidencial declarando o terceiro domingo de junho como dia dos Pais. No Brasil, a idéia de comemorar esta data partiu de um publicitário, Sylvio Bhering. A data foi festejada pela primeira vez no dia 14 de agosto de 1953, dia de São Joaquim, patriarca da família. Sua data foi alterada para o 2º domingo de agosto por motivos comerciais, ficando diferente da americana e da maioria dos países europeus, que em sua maioria comemoram a data no dia 19 de março, dia de São José. Cf. Nova Enciclopédia Barsa. São Paulo: Barsa, 2006. 1 CD.
431Cf. WHYTE, William Foote. Sociedade de Esquina: A estrutura social de uma área urbana pobre e degradada.
principais temas deste início de terceiro milênio. Entre os assuntos abordados, neste diálogo caloroso, o filósofo é instigado pela historiadora e psicanalista a discorrer sobre as questões contemporâneas da identificação do pai biológico graças a testes genéticos. Que de pronto dá seu entendimento sobre a identificação de um pai.
Identificar um genitor não é a mesma coisa que designar um pai. O genitor não é o pai! O pai é alguém que reconhece seu filho...E de forma não apenas legal. Toda obscuridade se concentra nessa „experiência‟ que precipitadamente chamamos „reconhecimento‟. Para além ou para aquém do direito, suas modalidades podem ser diversas, complexas, torcidas; podem se estender, estabilizar ou desestabilizar no curso de uma história cujo final nunca será determinável. É essa experiência que dará lugar a um tecido bastante complexo de possibilidades simbólicas – e criar um laço (sempre mais ou menos estável e frágil, nunca garantido) entre o „momento genitor‟ e „momento simbólico‟.432
Esse tecido de possibilidades simbólicas com capacidade de criar laços, entre pai e filho/a, aludido pelo filósofo, é traduzido por Aquiles como sentimento de união. Sobre esse sentimento de união, ou melhor, dá falta dele, comentou citando seu pai: “[e]le acreditava que o papel dele como pai, era o de homem provedor. Isso era ótimo, não faltava nada lá em casa. Mas, pra mim, ficou faltando sim, e muito : amor, paciência, sensibilidade, compreensão. Penso que coisas desse tipo fazem o sentimento de união (...)” (Registro de campo).
O que pude perceber nesse acento que Aquiles dá ao sentimento de união, é que ele está para além da quantidade e da qualidade de tempo envolvido numa relação pai e filho/a. O que importa, fazendo uso da idéia de Jaques Derrida, são as “possibilidades simbólicas” criadas para cimentar o sentimento de união pai e filho/a.
Percebi em Aquiles e em outros interlocutores, no “canteiro de obras”, que acima mencionei, uma erosão de antigos papéis masculinos e, da mesma forma, a presença de um novo modelo em construção – o “homem pós-patriarcal” de que nos fala a jornalista americana Gail Sheehy.433
Como era dia dos Pais, “os imponderáveis da vida real” vieram nos visitar e foram prenhes de significados. Falo aqui de sentimentos em gotas bastante reveladores. E, já que a situação é parte integrante do conhecimento, dito de outra maneira, a produção do sentido se dá em situação –
432Cf. DERRIDA, Jaques; ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã: diálogo. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p.59. 433Cf. SHEEHY, Gail. As novas passagens masculinas: descobrindo o mapa da vida dos homens atuais. Rio de
bastando para isso lembrar de como fugir foi fundamental para Clifford Geertz, no momento da chegada da polícia em Bali –,434 as lágrimas de emoção como exclusividade da espécie humana, também costumam revelar aquilo que a linguagem verbal não alcançou.
Por morar longe de sua família, que está no sul do Pará, Aquiles ligou para seu pai parabenizando-o pelo dia dos Pais. Ligação rápida e fria. Como ele trabalha na empresa da família em Belém, deu para perceber que o assunto da conversa deslizou quase que instantaneamente das felicitações pela data, para o mundo dos negócios. Novamente, como eu estava lá parado, olhando e ouvindo, mais uma vez obtive respostas às perguntas que não precisei fazer. Terminada a ligação, segurando seu filho no colo, de forma afetuosa como sempre, com a voz embargada e olhos marejados, disse: "[c]rio esse aqui não como herdeiro, mas como filho. Sabe! Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um passeio, pra uma brincadeira, pro futebol, pra um cineminha, nem para tomar um sorvete... Eu quero ser promovido de pai a melhor pai do mundo, não quero ser uma figura fria e sem muita importância na vida do meu filho” (Aquiles - Registro de campo).
Penso que esses homens jovens e pais que se dispõem a avaliar a falta que sentem de um pai conseguem rapidamente se curar, quando se ligam a um filho/a. E quando isso acontece, eles se tornam os encantados beneficiários de uma recompensa a que as mulheres, na maioria das vezes, já estão acostumadas: ser visto por um filho/a como objeto de amor incondicional. Creio que eles estão conseguindo reformular o modelo que tiveram, e não apenas reproduzindo fielmente.
Assim, vejo em Aquiles um exemplo desses “homens pós-patriarcais”. Homens que não deixam que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da “janela”. Homens que não se esquecem, que as “vírgulas” significam pausas na vida. E essas “janelas” e essas “vírgulas”, são usadas aqui como metáforas para filhos/as e para momentos simbólicos.
Momentos de significação não foram raros nesta pesquisa. Acompanhei muitos destes homens jovens e pais, por exemplo, levando seus/as filhos/as ao colégio no primeiro dia de aula. Ressalto aqui, que assim como eu, existem outros homens, que embora não tendo filhos/as biológicos/as, também já vivenciamos “exercícios de paternagem”. Já fomos, entre outras coisas, à escola, por exemplo, deixar nossos/as “afilhados/as” ou “sobrinhos/as” (legítimos/as ou não).
434
Como a paternidade não é um dado, paternidade se faz. Na verdade, paternidade é uma função exercida, ou um lugar ocupado por alguém, não necessariamente o pai biológico. Nesse sentido, o lugar do pai pode ser ocupado por outra pessoa (até mesmo uma mulher) como um irmão mais velho, um tio, um avô etc. Assim, um pai, mesmo biológico, se não adotar seu/a filho/a, jamais será o pai. Daí ser possível dizer que a verdadeira paternidade é adotiva e está ligada a função, a escolha, enfim ao desejo.435
Esse desejo estava expresso, por exemplo, no rosto de Adonis, um destes homens jovens e pais, que logo após entregar sua “princesinha” nas mãos de uma das “tias” do colégio, comentou: “(...) é muita emoção vê minha princesinha, andando sozinha, puxando sua mochila rumo à escola. Parece que foi ontem que ela nasceu” (Registro de campo).
Por falar em tempo, ficar contando-o, e contá-lo em semanas, é bem típico do universo da gravidez. No entanto, contá-lo no pós-nascimento, tem sido cada vez mais comum, pelo menos no universo das camadas médias urbanas. Conforme constatei, cresce o número de pequenas comemorações, feitas mês a mês, para festejar o “mesversário” de nascimento da criança, pelo menos até o primeiro ano, quando este pequeno ritual se encerra com a grande comemoração do primeiro aniversário.
Assim, além de alguns aniversários, estive presente também em comemorações de “mesversário”. Foi o caso do filho caçula de Hermes e da filha caçula de Dionísio. Mas, de todos os aniversários que participei, gostaria de destacar os 15 anos da filha de Paris.
Como disse antes, Paris, seu parceiro e sua filha moram em um condomínio de classe média, recém-construído em Belém/PA. Entre outros serviços, o condomínio oferece um confortável salão de festas. Foi neste espaço que se realizou a comemoração dos 15 anos da filha de Paris. De certa forma, posso dizer que acompanhei não só a tão sonhada festa como também acompanhei os preparativos para a tal. Como estava retomando minha relação de amizade com Paris e seu parceiro, não raras foram, no período do trabalho de campo, as idas ao condomínio para churrascos e piscina. Da mesma forma, na medida do possível, saímos na noite para conversar e rever amigos em comum. Afinal, sabia que não podia perder momentos em que Paris pudesse falar sobre aquilo que na verdade, como pesquisador, eu deseja saber. Ou seja, detalhes mais subjetivos de sua experiência
435Um referencial texto sobre a desnaturalização da paternidade pode ser conferido em: VILLELA, João Baptista. A
paternal. Mesmo porque, como já mencionei, ele não estava tão à vontade para falar sobre o assunto temendo uma possível exposição. Portanto, precisava dispor de tempo para esperar que espontaneamente muitas de minhas perguntas tivessem respostas.
Assim, estive presente em momentos de escolha do convite, da seleção de fotos para composição do vídeo clip dos 15 anos, da decisão sobre a decoração, buffet etc. Como a ex-parceira de Paris, por motivos de trabalho, não mora em Belém, muitas das sugestões da mãe chegavam via internet e acabavam sendo a pauta de muitas das entrevistas/encontro com Paris, que bem diferente do que se apregoa por ai, esteve presente, como testemunhei, nas principais decisões sobre a tão sonhada festa de 15 anos de sua filha. Na verdade, não só Paris, como seu parceiro, estiveram envolvidos do projeto à execução deste evento.
Chagado o tão almejado dia, decoração impecável, buffet de muito bom gosto, DJ e músicas previamente selecionadas, familiares do pai, da mãe e do “tio” da aniversariante, amigos e muitos coleguinhas da dona da festa, que por sinal estava lindíssima.
Junto com seu pai e sua mãe receberam na entrada do salão seus convidados. Fez sua entrada triunfal para a esperada valsa, trazida pelas mãos do “tio”. Na verdade, para o entendimento de todos (ou quase todos), ele é o dono do apartamento onde ela e seu pai moram, com um amigo de longa data. Como me disse Paris em uma de nossas entrevistas/encontro: “[é] claro que a minha família e a dele sabem, mas ninguém toca nesse assunto, faz pergunta, ou coisa assim. Quanto aos outros, somos amigos e moramos juntos. O fato da minha filha morar com a gente talvez ajude a não ficarem querendo saber das coisas. Acabam nos vendo como uma família qualquer” (Registro de campo).
Essa possibilidade plural de ser família é comentada pela antropóloga Miriam Pillar Gross, citando a também antropóloga Martine Segalen, para quem:
[f]inalmente, a família tem hoje uma geometria variável, conjugal, “clássica”, monoparental, recomposta, homossexual. Seus contornos são múltiplos e eventualmente se movem por alianças eletivas. O que permanece é a força das relações de parentesco na sociedade moderna.436
436Cf. GROSSI, Miriam Pillar. Gênero e parentesco: famílias gays e lésbicas no Brasil. In Cadernos Pagu. Nº. 21.
DEITANDO ÂNCORA E PREPARANDO A PRÓXIMA VIAGEM: CONSIDERAÇÕES PARA NÃO CONCLUIR
Baby! Olha o perdeu A criança cresceu Bem feito pra você Agora eu sou mais eu Isso é só pra você aprender A nunca mais me esnobar... Baba baby, baba... E pra não dizer que eu sou ruim Vou deixar você me olhar Só olhar, só olhar, baby! (Baba – Kelly Key) Preparando-me para deitar âncora e já pensando na próxima viagem, retomo inspiração nos textos de Homero,437 onde seus finais não são conclusões. Aliás, o conceito de texto final, como já disse Jorge Luis Borges, pertence à religião ou à exaustão.438 Mesmo porque, penso que quando você acha que tem todas as respostas, você se fossiliza.
Ainda mais quando sabemos que a vocação essencial da antropologia é colocar a nossa disposição, como nos ensina Clifford Geertz, as respostas que outros deram apascentando outros carneiros em outros vales.439 Nesse sentindo, já no início do século XVI, o poeta espanhol Juan de Mena,440 comentando sobre seu trabalho como interprete da obra de Homero, dizendo que alguns estudiosos trabalham como os bichos-da-seda, tecem seus textos a partir das entranhas, outros (aqui estou incluindo os etnógrafos) trabalham como as abelhas, tecem seus textos roubando a substância das flores melífluas dos pomares de outros homens. No entanto, este saque não é maléfico, é um dom: o de traduzir e interpretar. Afinal, retomando Clifford Geertz, “(...) o objetivo da antropologia é o alargamento do universo do discurso humano”.441
Para seguir ainda com este autor, ou melhor, aplicando seus ensinamentos, o alargamento do discurso sobre o evento da paternidade juvenil, só será possível, entre outras coisas, se sua
437Cf. HOMERO. Ilíada. Op. cit. e HOMERO, Odisséia. Op. cit.
438Cf. BORGES, Jorge Luis. Discussão. São Paulo: Companhia das Letras, [1932]1997. 439Cf. GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Op. cit.
440Cf. MENA, Juan de. La Ilíada de Homero. Madri: Ediciones Clásicas, 1996. 441Cf. GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Op. cit. p.24.
anamnese for realizada, em contexto, como busco aqui mostrar. Para tanto, o exame das dimensões socioculturais da sexualidade juvenil deve ser evidenciado, quando se coloca em escrutínio o evento da gravidez juvenil, por exemplo: a subjetividade dos atores sociais, as relações de gênero, as redes sociais, etc.
A acepção da gravidez juvenil como problema social e com forte teor normativo, ainda impregna a literatura, acadêmica inclusive. Estudos epidemiológicos e psicossociais têm considerado, no Brasil e fora dele, a gravidez juvenil por um viés patológico. No entanto, outra perspectiva vem sendo erigida, principalmente por estudos que têm valorizado o discurso juvenil sobre o evento da gravidez. É nessa literatura mais recente sobre a gravidez juvenil, que têm surgido, ainda que de forma discreta, estudos dedicados a sexualidade masculina e sobre o evento da paternidade nessa etapa da vida. Dessa forma:
[a]o romper com uma visão unilateral e estreita da questão, centrada exclusivamente na perspectiva feminina da reprodução na adolescência, a inclusão dos rapazes como atores sociais determinantes no contexto da relação efetivo- sexual que engendrou a gravidez amplia a compreensão do tema e contribui para problematizar as questões de gênero no universo adolescente juvenil.442
Porém, quer quantitativas ou qualitativas, pesquisas enfocando o evento da gravidez e nela a paternidade juvenil entre os segmentos das camadas médias brasileiras, ainda são em número bastante reduzidos, quando comparadas com as pesquisas realizadas junto aos segmentos das camadas mais populares.
Há especificidades em cada um dos contextos que necessitam ser observadas, sob pena de