CHAPTER 1. INTRODUCTION
1.2 The TRANSFORM-Project
A análise do processo de internacionalização das empresas brasileiras tem sido feita a partir da consideração de três fases distintas, classificadas de acordo com aspectos econômicos presentes em cada período (variáveis macroeconômicas como taxas de câmbio, juros e inflação). A análise em fases está baseada nos trabalhos de COUTINHO et al (2008); IGLESIAS e MOTTA VEIGA (2002). Os autores consideram as seguintes fases: a primeira entre os anos de 1960 a 1982, a segunda entre os anos de 1982 a 2002 e a terceira a partir de 2003.
a) Primeira Fase: de 1960 a 1982
Neste período, os investimentos diretos realizados por empresas brasileiras eram pouco expressivos e setorialmente concentrados em petróleo (Petrobrás), construção civil (no Oriente Médio) e serviços financeiros (captação de empréstimos no exterior) (COUTINHO et al, 2008).
A participação do capital estatal foi determinante para o desenvolvimento das estratégias de internacionalização das empresas consideradas. Antes dos anos de 1960, as empresas multinacionais estavam presentes em setores dinâmicos de atividade.
A motivação da Petrobrás para a formalização de IDE era a busca por fontes alternativas de fornecimento de petróleo, enquanto as instituições financeiras buscavam principalmente o acesso ao mercado financeiro internacional. As empresas de construção passaram a atuar em países produtores de petróleo devido à sua expansão de obras públicas (IGLESIAS e MOTTA VEIGA, 2002).
b) Segunda Fase: de 1982 a 2002
Os primeiros anos dessa fase foram marcados pela instabilidade econômica, o que prejudicou as decisões relacionadas à exportação e formalização de investimentos no Brasil, e também no exterior, por parte de empresas brasileiras. A sucessão de planos de estabilização tiveram um papel importante na diminuição dos incentivos para as exportações, através da manutenção de taxas de câmbio apreciadas. De maneira geral, as firmas brasileiras investiram um volume baixo de recursos no mercado interno entre a década de 80 e os primeiros anos de 90, o que acabou influenciando os baixos investimentos no exterior (IGLESIAS e MOTTA VEIGA, 2002).
Durante todo o período, o IDE foi afetado, de maneira negativa, por graves crises no balanço de pagamentos, inflação persistente e ascendente, instabilidade econômica, períodos recorrentes de desvalorização cambial e elevadas taxas de juros e um cenário marcado por sérias dificuldades financeiras enfrentadas por empresas nacionais e pelo governo. Apesar de limitado, a realização de IDE por empresas brasileiras apresentou maior diversidade em relação ao porte e ao setor, enquanto os investimentos estavam concentrados na América do Sul (COUTINHO et al, 2008).
Ainda, de acordo com os mesmos autores, este longo período apresentou desde elevadas taxas de inflação com indexação financeira generalizada e crises cambiais durante a década de 80 até períodos de estabilização precária com âncora cambial, elevadas taxas de juros e alta vulnerabilidade externa durante a segunda metade dos anos 90.
ROCHA et al (2002) também destacam que o período compreendido entre os anos 80 e início da década de 90 apresentou variações consideráveis nas taxas de crescimento do PIB bem como nas taxas de inflação. Somente na década de 80, o país adotou quatro moedas diferentes e passou por muitas mudanças nas regras de câmbio. Ainda nos primeiros anos da década de 90, a abertura econômica favoreceu a entrada de produtos importados enquanto a
segunda metade dessa década foi marcada pela sobrevalorização do real frente ao dólar que durou até o ano de 1999, ano em que a taxa de câmbio passou por forte desvalorização.
Nos anos 90, a abertura econômica acabou incentivando a internacionalização das empresas brasileiras mais competitivas, devido ao cenário de alta instabilidade macroeconômica que, por sua vez, dificultava a previsão de taxas de crescimento do país, elevava o custo do capital no mercado doméstico e valorizava o câmbio. A liberalização dos mercados, marcado pela remoção de barreiras para o comércio, acirrou a concorrência em escala mundial e a internacionalização passou a representar uma maneira de fortalecer a posição competitiva das empresas (COUTINHO et al, 2008; ROCHA, et al, 2007).
Já a partir da segunda metade da década de 90, a estabilidade econômica reduziu as incertezas sobre o comportamento dos preços relativos e as empresas passaram a considerar a realização de investimentos de médio e longo prazos. Porém, a falta de mecanismos de financiamentos de longo prazo passou a representar um problema para as empresas (IGLESIAS e MOTTA VEIGA 2002).
Como resultado, os mesmos autores destacam que o foco das empresas voltou a ser o mercado interno, devido à maior estabilização econômica bem como apreciação da taxa de câmbio. Quanto à internacionalização comercial, as estratégias de exportação não foram desconsideradas.
Os aspectos negativos presentes entre 1982 e 2002 fizeram com que as empresas nacionais desenvolvessem uma notável capacidade de sobrevivência, que contou com reduções de ineficiência, adoção de estratégias para redução dos custos, introdução de padrões de qualidade e produtividade, melhorias constantes na gestão financeira e adoção de estratégias de aversão a riscos. Algumas empresas desenvolveram processos de internacionalização como forma de conquistar novos mercados (COUTINHO et al, 2008).
Neste contexto, o Brasil bem como outros países da América Latina enfrentavam um período de sérias dificuldades econômicas, o que reduziu a participação destes países neste processo de expansão dos investimentos diretos no exterior, particularmente durante os anos 80. Mesmo durante a década de 90 esses países mais receberam que formalizaram tais investimentos (COUTINHO et al, 2008).
Portanto, o período que compreende a segunda fase da internacionalização de empresas brasileiras foi marcado por importantes mudanças: as empresas enfrentaram períodos de alta instabilidade combinado com a intensificação da entrada de produtos
importados. A internacionalização das empresas mostrava-se como um caminho para o fortalecimento de posições competitivas conquistadas anteriormente.
Já na segunda metade da década de 90, o foco da ações das empresas voltou-se novamente para o mercado interno e a internacionalização caracterizou-se por investimentos de longo prazo, devido à maior estabilidade econômica. Isso não significa que a internacionalização passou a ser desconsiderada como estratégia de crescimento e atuação no mercado internacional.
c) Terceira Fase: a partir de 2003
COUTINHO et al (2008) afirmam que a partir de 2003, influenciado pelo crescimento da economia chinesa, o comércio mundial entrou em uma fase de expansão com preços muito favoráveis para alimentos e matérias-primas, beneficiando as empresas brasileiras produtoras de commodities. O conjunto formado por empresas dedicadas ao agronegócio, produção de insumos básicos e a indústria extrativa tornou-se mais lucrativo. A maioria destas empresas consolidou sua posição no mercado nacional e passou a considerar a internacionalização como uma importante estratégia.
Esta última fase foi marcada por forte crescimento do IDE, que praticamente dobrou entre os anos 2003 e 2006. Além disso, a valorização do real tornou os ativos localizados no exterior ainda mais atrativos e as empresas nacionais melhoraram significativamente suas condições financeiras.
De acordo com os autores, a partir de 2003 as empresas brasileiras passaram a contar com condições melhores de alavancagem, através de melhorias no acesso ao crédito de longo prazo no mercado internacional de capitais e no financiamento a partir de emissão primária de ações. Esses fatores tiveram forte influência no desempenho e aceleração dos investimentos diretos no exterior formalizados por empresas nacionais.
Portanto, nessa fase, as empresas brasileiras passaram a considerar novamente a atuação no mercado externo devido, principalmente, ao maior acesso a crédito e a condições internacionais que beneficiavam as empresas brasileiras produtoras de commodities em sua maioria.
Porém, as motivações para a internacionalização não podem ser generalizadas entre as empresas, já que há particularidades importantes que devem ser consideradas e analisadas com maior profundidade. A seção a seguir apresenta as motivações para internacionalização discutidas na literatura.