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As motivações para a adoção de processos de internacionalização consideradas em estudos desenvolvidos sobre empresas brasileiras não se esgotam nem são excludentes, uma vez que um conjunto delas pode explicar a internacionalização de uma única empresa bem como há motivações que explicam os casos de várias empresas.

RICUPERO e BARRETO (2007) destacam que a adoção da internacionalização como meio de ultrapassar barreiras comerciais é uma das motivações mais antigas considerada pelas grandes empresas de manufatura européias e norte-americanas. Destacam, inclusive, que esta foi a motivação para o estabelecimento de empresas no Brasil e em outros países da América Latina no século XIX.

Com relação às motivações para a adoção da internacionalização entre empresas brasileiras, TANURE et al (2007) analisam um conjunto de empresas (Vale, Datasul, Gerdau, Natura, Petrobras, Sadia, Tigre, Votorantim Cimentos e WEG) e concluem que a principal motivação foi a manutenção das taxas de crescimento já alcançadas internamente, principalmente a partir da década de 90. Nesse sentido, as empresas analisadas passaram a considerar a internacionalização a partir da redução das possibilidades de crescimento no mercado doméstico para seus produtos e serviços, conforme descrito na sequência:

a) Busca por Liderança Global: nesta categoria estão empresas que formalizaram

investimentos no exterior e operações de fusão e aquisição que possibilitaram o posicionamento das mesmas como global players em seus setores. Tais aspectos contribuem, de maneira positiva, para a valorização das empresas nos mercados acionários e na capacidade de alavancagem em mercados financeiros no exterior. Neste primeiro grupo destacam-se empresas altamente eficientes: Vale, JBS Friboi, Petrobrás e Embraer (COUTINHO et al, 2008).

A busca pela liderança global também é entendida como uma maneira de acompanhar as tendências setoriais globais. Como exemplos, são consideradas Gerdau, Usiminas, CSN, Votorantim, Camargo Corrêa, Random, Tigre e São Paulo Alpargatas (ROCHA et al, 2007).

b) Manutenção do crescimento: ROCHA et al (2007) consideram que há empresas que já

dominam uma parcela importante do mercado brasileiro e reconhecem na internacionalização um caminho para a continuidade de crescimento. Os principais exemplos são WEG e Marcopolo. Os mesmos autores destacam adicionalmente que a internacionalização contribui para a manutenção de taxas históricas de crescimento, a partir da redução de contratos governamentais para a construção de grandes obras. Como exemplos são consideradas as empresas Oderbrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão.

c) Acesso a Recursos Estratégicos: as empresas aqui consideradas buscaram a

internacionalização como meio de garantir o acesso ao capital internacional (Votorantim Cimentos), matérias-primas (Petrobrás e Vale), tecnologia e know how (Petrobrás e Oxford Cerâmica) (ROCHA et al, 2007). A aprendizagem para atuação no mercado internacional foi considerada como motivação para a Natura (TANURE et al, 2007).

d) Superação de Barreiras Alfandegárias (Tariff Jumping): as empresas que consideram

essa motivação reconhecem o investimento direto no exterior como uma maneira de superar as barreiras tarifárias e não tarifárias, o que não poderia ser realizado somente através das exportações de seus produtos. A Gerdau e a CSN são os principais exemplos (COUTINHO et al, 2008).

Assim, a internacionalização das atividades também é entendida como um caminho para acessar mercados protegidos, como é o caso de da Andrade Gutierrez, CSN e Oderbrecht (ROCHA et al, 2007).

e) Acompanhamento e Proximidade de Clientes: nessa categoria estão as empresas

exportadoras que reconheceram a necessidade de estar próximas de seus principais clientes no exterior, como meio de estreitar os laços com estes mercados através do estabelecimento de

unidades produtivas ou mesmo unidades de montagem de seus produtos. Como exemplos, destacam-se a Marcopolo, a Sabó, a WEG, a Votorantim e a Tigre (COUTINHO et al, 2008).

A adoção da internacionalização como forma de acompanhar os clientes também é considerada para a análise de empresas como Petrobrás (nos segmentos de exploração e produção), Vale e Sadia. As unidades comerciais estabelecidas por essas empresas contribuem para o melhor atendimento e entendimento das necessidades e expectativas dos clientes (TANURE et al, 2007). Outras empresas que consideram a mesma motivação são: Embraco, Sabó e Banco Itaú (ROCHA et al, 2007).

f) Estabelecimento de Canais de Distribuição como apoio para Exportações: essa

categoria envolve empresas que encontraram limites à expansão de suas vendas no exterior e/ou aumento da rentabilidade de suas vendas principalmente devido à falta de canais de distribuição mais adequados, como a Cutrale, Sadia e Perdigão (COUTINHO et al, 2008).

Além da contribuição para as atividades de distribuição, a internacionalização pode também contribuir para a armazenagem dos produtos no exterior. Como exemplos de empresas que adotam essa estratégia, destacam-se: Vale, Sadia, Perdigão, Duratex, Eucatex, Hering, São Paulo Alpargatas, Schuler, WEG, Portobello e Tramontina (ROCHA et al, 2007). A redução de prazos de entrega para clientes no exterior foi a motivação considerada pela WEG (TANURE et al, 2007).

g) Globalização e Valorização da Marca no Exterior: as empresas aqui classificadas

consideram os ativos intangíveis como vantagem competitiva. A valorização da marca no exterior através de ações de marketing, promoção e vendas representa o maior custo do investimento externo. Os principais exemplos são: Natura, Boticário e São Paulo Alpargatas (COUTINHO et al, 2008).

h) Valorização da Marca no Mercado Interno: para empresas como a Natura, a

internacionalização também é motivada pela possibilidade de contribuir para o fortalecimento da marca no mercado brasileiro (TANURE et al, 2007), aspecto também considerado na análise do processo de internacionalização de empresas como Florense e Marisol (ROCHA et al, 2007).

i) Internacionalização como Estratégia para a Redução de Custos: nessa categoria estão

empresas que adotaram a internacionalização das suas operações como uma estratégia de defesa frente à maior competitividade a que estão expostas no mercado doméstico. A partir da valorização da taxa de câmbio e da redução dos preços dos produtos importados, as empresas nacionais passaram a replicar as estratégias adotadas por seus concorrentes externos. Um exemplo é a subcontratação da produção no exterior como uma estratégia de redução dos custos de produção. Entre as empresas que adotam estas estratégias, COUTINHO et al (2008) destacam a Coteminas e a Azaléia.

j) Internacionalização como Desejo dos dirigentes: o desejo dos dirigentes é a motivação

considerada por alguns autores como ROCHA et al (2007) na análise de processos de internacionalização de empresas como Amil, Rede Globo e Habib’s.

k) Oportunidades no Exterior: ROCHA et al (2007) consideram que a Bematech e O

Boticário, por exemplo, passaram a adotar a internacionalização como forma de aproveitar oportunidades surgidas para a comercialização de seus produtos no exterior.

A análise das principais motivações para internacionalização demonstra a possibilidade de uma empresa ter mais de uma motivação para a internacionalização, as quais interagem diferenciadamente. A classificação das empresas entre as categorias de motivação não apresentam fronteiras claramente definidas. Dessa maneira, em alguns casos, cada autor classifica de acordo com uma perspectiva diferente. Como resultado, uma mesma empresa aparece como exemplo em mais de uma categoria de motivação.

Como salienta COUTINHO et al (2008), apesar da identificação e classificação das principais motivações para a internacionalização, é importante destacar que as motivações para internacionalização podem interagir simultaneamente de acordo com o grau de internacionalização da empresa considerada.

Além disso, os autores destacam que os fatores motivacionais para a formalização de IDE têm como cenário as mudanças nas condições de concorrência que marcam o período recente. Neste contexto, a competição entre empresas passou a transcender as fronteiras nacionais, como resultado dos processos de liberalização política e desenvolvimento de novas

tecnologias de informação. As grandes empresas transnacionais passaram a dar maior relevância à capacidade de atuação em vários mercados para a conquista da competitividade. Considera-se ainda a incorporação de empresas por outras mais fortes e competitivas, como forma de sobrevivência e ou crescimento.

3.3 - Considerações sobre Investimentos Diretos Externos no Período