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Nós não vamos salvar o mundo com bicicletas, mas podemos mudá-lo alterando a perspectiva de uma criança. Se pudermos mudar as coisas para ajudá-las a entender melhor o efeito de suas ações e como elas podem funcionar na sociedade, mudar o nosso principal meio de transporte é apenas o início72.

Embora no decorrer deste trabalho tenhamos apresentado o potencial transformador da bicicleta, assim como a epígrafe anterior, não somos ingênuos de acreditar que podemos salvar o mundo apenas com isso. No entanto, nos parece fundamental reconhecer que se mantivermos o atual padrão excludente e exacerbado de nosso consumo de energia e recursos naturais, certamente apressaremos o ponto final que encerra o parágrafo de nossa existência na Terra.

A epígrafe também nos traz a possibilidade de mudança na perspectiva das crianças e isso nos auxilia na apresentação das justificativas que orientaram nossa inserção em campo. A pesquisa de campo da presente tese foi realizada no contexto do projeto de extensão universitária “Vivências em Atividades Diversificadas de Lazer” (VADL), vinculado ao Programa Esporte Para Cidadania do Departamento de Educação Física e Motricidade Humana da Universidade Federal de São Carlos (DEFMH/UFSCar).

O citado projeto de extensão teve início no ano de 1999, na Universidade Federal de São Carlos, local onde se desenvolveu até que, em 2002, decorrente de transformações urbanísticas ocorridas no bairro Jardim Gonzaga e adjacências, a Prefeitura Municipal de São Carlos – PMSC entrou em contato com o coordenador e propôs uma parceria entre o VADL e o projeto por ela desenvolvido, denominado “Campeões na Rua”. A partir daí, as ações do projeto VADL desenvolveram-se unicamente na região do bairro Jardim Gonzaga (CAMPOS et al., 2003).

Essa condição se manteve até o início do ano de 2013, quando o acordo com a prefeitura sofreu com a mudança de gestão decorrente do processo eleitoral, tornando a manutenção da parceria inviável. Coincidentemente, meses antes a Associação Desportiva, Educacional e Social dos Metalúrgicos (ADESM) fez contato com o DEFMH/UFSCar em

busca de apoio para a organização de um projeto social chamado “Mais que Futebol” (MQF), o qual visava ampliar a variedade de atividades oferecidas às crianças e adolescentes no espaço do Clube do Sindicato dos Metalúrgicos de São Carlos, por eles mantido, e cuja oferta para o citado público restringia-se aos treinos de futebol. Diante dessa situação, constituiu-se um convênio com o DEFMH/UFSCar, estabelecendo-se assim uma nova parceria, agora entre os projetos VADL e o MQF, este último mantido por recursos angariados pela ADESM junto ao programa “A Chance to Play – O Direito de Brincar” (iniciativa do Comitê Mundial dos Trabalhadores da Volkswagen, em parceria com a ONG Terre des Hommes - Alemanha). Com isso, as ações do VADL deslocaram-se para o Clube do Sindicato dos Metalúrgicos e, para manter o atendimento que era oferecido às crianças e adolescentes do bairro Jardim Gonzaga, a ADSM se comprometeu a disponibilizar um transporte para que estas pessoas pudessem continuar participando das atividades do VADL no novo espaço. Essa situação organizacional se sustenta até o momento de escrita do presente texto.

Narrado esse breve histórico sobre os locais das ações do projeto, faz-se necessário indicarmos como as atividades com bicicleta se inseriram no VADL, para tanto é preciso retomar novamente a história, porém orientando nossa atenção para o contexto em que essa possibilidade se apresenta. Esse acontecimento teve influência de diversos fatores, o primeiro deles está relacionado ao grupo de cicloviagem, formado no ano de 2008 e que já mencionamos na introdução deste trabalho, pois, dentre os integrantes, estava o professor coordenador do projeto VADL e sua participação nessas viagens serviu de alicerce às situações que vieram posteriormente. Em janeiro de 2010, ao final da segunda cicloviagem do grupo, devido à sensibilização das pessoas com a questão ambiental possibilitada pelo uso da bicicleta, surgiu os primeiros traços daquilo que viria se estruturar como Projeto de Educação Ambiental e Lazer (PEDAL), organizado pelo citado professor. Pois, formado em grande parte por profissionais da área da educação, surgiram possibilidades de atuações relacionadas a temas de estudos socioculturais do lazer e à Educação Ambiental junto a estudantes de Educação Básica, Ensino Médio e Superior, bem como diversos outros espaços. Essas experiências tornaram o citado professor uma pessoa de referência sobre a temática dentro do DEFMH/UFSCar, o que o colocou em contato com duas entidades que vieram buscar apoio para suas atividades no DEFMH/UFSCar, a Associação São-Carlense de Ciclismo (ASC) e a Incubadora de Cooperativas Populares - Incoop, esta última constitui-se atualmente como Núcleo Multidisciplinar e Integrado de Estudos, Formação e Intervenção em Economia Solidária (NuMI-EcoSol). Essas aproximações ocorreram coincidentemente também no ano de 2010.

Também, durante o primeiro semestre do referido ano, a equipe do VADL promoveu uma reunião com familiares dos/as participantes do projeto a fim de investigar a histórica e significativa evasão de participantes com idade superior a 12 anos. Ao tentar entender os motivos dessa evasão juntoà comunidade, houve a indicação de que, um dos fatores, consistia no assédio pelo tráfico de drogas e, dentre as sugestões para auxiliar na solução de tal questão, se destacou a necessidade da realização de atividades esportivas que possibilitassem maior atração do público jovem, sendo bastante enfatizada a oportunidade de eventual geração de renda. Essas informações geraram a necessidade de rever as ações do projeto, porém, dada a complexidade do tema, não interferiu de imediato em sua dinâmica de funcionamento.

Já em meados de 2010 a Associação São-Carlense de Ciclismo procurou o professor coordenador do VADL, Luiz Gonçalves Junior, para estabelecer uma parceria com DEFMH/UFSCar, para desenvolver nas suas dependências um projeto para atuar com jovens estudantes de escolas públicas cursando o 8º ou 9º ano do ensino fundamental, realizando atividades com bicicleta em cursos com duração de um mês, em horário de contra turno escolar. O curso era dividido em quatro módulos, a saber: Meio ambiente e pedal na terra; Mobilidade urbana e segurança no trânsito; Mecânica, peças da bicicleta e ciclismo; Ciclismo para a saúde e escolinha de ciclismo. A partir desse contato, se constituiu no DEFMH/UFSCar a atividade de extensão denominada: Projeto de Educação Ambiental e Lazer, dentro do qual se encontra a ação anteriormente citada, a qual recebeu o nome de “PEDAL Consciente” e que iniciou sua primeira turma de adolescentes em março de 2011, atuando com bicicletas, capacetes e outros equipamentos doados, angariados pela Associação São-Carlense de Ciclismo, e também deu-se continuidade às demais ações do PEDAL, como organização da cicloviagem anual e as intervenções e palestras pontuais de sensibilização em instituições educativas.

Paralelamente a isso, especificamente desde abril de 2008, a NuMI-EcoSol estava inserida no bairro Jardim Gonzaga atuando em alguns empreendimentos relacionados à economia solidária, através do projeto: “Proposição de diretrizes para políticas públicas em economia solidária como condição para desenvolvimento de território urbano: caso Jardins Gonzaga e Monte Carlo, São Carlos, SP”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Dentre as ações desse projeto, estava prevista a realização de um empreendimento de cicloentrega para atender a demanda de entrega de produtos que emergia da estruturação dos outros empreendimentos solidários que se estabeleciam no bairro. Preocupados com as questões implicadas no uso da bicicleta, em 2010, o NuMI-EcoSol procurou auxílio no DEFMH/UFSCar e, por essa via, entrou em contato com o coordenador

do VADL. Desde então se estabeleceu uma parceria entre o VADL e a NuMI-EcoSol e, ainda no ano de 2010, foram adquiridas sete bicicletas, capacetes e equipamentos custeados com recursos destinados ao projeto de pesquisa mantido pelo NuMI-EcoSol, ao qual o coordenador do VADL se integrou.

Nesse momento, as atividades com bicicleta começaram a fazer parte do horizonte do projeto VADL, pois representava uma possibilidade de atividade de lazer que, devido à compreensão possibilitada pelas experiências decorrentes da convivência no grupo de cicloviagem e dos diálogos travados no transcorrer da estruturação do PEDAL, trazia consigo uma grande carga educacional que se alinhava à intencionalidade de promoção da cidadania, um dos objetivos das ações do VADL. Assim, as atividades com bicicleta no projeto se revelavam como uma possibilidade de fruição do lazer, com potencial de promover processos educativos relacionados ao uso seguro da bicicleta, mobilidade urbana e educação ambiental, além de servir como ponto de articulação com a demanda de geração de emprego e renda sinalizado pela população e a proposta de empreendimento solidário que se estruturava a partir das ações do NuMI-EcoSol.

Apesar desse movimento inicial, a inserção da bicicleta nas ações do VADL não se materializou nessa ocasião, a falta de espaço adequado para o armazenamento dos equipamentos no bairro diante da inviabilidade de carregá-los diariamente e a quantidade reduzida de educadores/as, além de outros contratempos, adiaram essa intervenção até o ano de 2014. No decorrer desse período, as bicicletas adquiridas foram utilizadas nas ações do PEDAL Consciente até 2014, quando, por dificuldades em custear o transporte que levava os/as adolescentes participantes até o DEFMH/UFSCar, essa atividade do PEDAL foi interrompida nesse espaço e, de modo distinto, passou a ser realizada em associação com as que começavam a ser desenvolvidas no contexto do VADL, inclusive transferindo parte dos equipamentos para esse novo local.

Portanto, quando o VADL estabeleceu a parceria com o projeto MQF da ADESM inicialmente citada, as atividades com bicicletas já estavam previstas para serem oferecidas, por isso, no decorrer de 2013, a ADESM procedeu com o processo de compra de materiais, dentre os quais estavam previstas cinco bicicletas, capacetes e equipamentos, e, no mesmo período, se constituiu a equipe multidisciplinar de educadores/as, os/as quais seriam responsáveis pelas diversas atividades oferecidas na parceria VADL-MQF. Essa parceria iniciou suas ações no Clube do Sindicato dos Metalúrgicos de São Carlos em outubro de 2013.

Apresentado esse breve histórico, que nos permite compreender a atual estruturação do projeto, trataremos agora dos objetivos e referenciais que orientam o desenvolvimento de suas ações. Enquanto objetivo geral o VADL busca: desenvolver educação para e pelo lazer com a comunidade na qual se insere, atualmente, com participantes oriundos dos bairros Jardim Gonzaga, Cidade Aracy, Antenor Garcia, Eduardo Abdelnur e Santa Felícia.

O conceito de educação para e pelo lazer presente no VADL possui suas bases em Marcellino (2004), para quem o lazer é entendido como “[...] a cultura – compreendida em seu sentido mais amplo – vivenciada (praticada ou fruída) no ‘tempo disponível’” (p.31), e possui um duplo aspecto educativo, podendo ser tanto um meio de educação, como também objeto de uma determinada ação pedagógica, uma vez que, para uma vivência positiva das atividades de lazer é necessário o aprendizado que possibilite um espírito crítico na fruição ou contemplação desses momentos. Ampliando essa compreensão, Werneck (2000) apresenta a prática social do lazer sob duas perspectivas, sendo a primeira um direito social proveniente das conquistas dos trabalhadores por um tempo institucionalizado e, a segunda, como uma possibilidade de produção de cultura em vivências lúdicas de distintos conteúdos.

Gonçalves Junior e Santos (2006), observam que historicamente os estudos no campo do lazer têm dado maior atenção para quatro aspectos: tempo, espaço, atividade e atitude. Porém, no VADL compartilhamos com Gonçalves Junior e Santos (2006) a compreensão que contrapõe a vivência do lazer como algo fragmentado em tempo livre/disponível x tempo de trabalho, ou delimitada a espaços específicos como equipamentos de lazer x outro tipos de espaço, tampouco como atrelado a determinadas atividades como as lúdicas x não lúdicas, mas entendemos o lazer prioritariamente enquanto intencionalidade. Isso não significa que não consideramos as categorias tempo, espaço e atividade no VADL, porém temos como pressuposto o referencial fenomenológico-existencial no qual temos como fundamental a categoria intencionalidade para compreender o fenômeno lazer.

Assim, como Gonçalves Junior e Santos (2006), observamos que ocorrem interferências do trabalho e outras práticas sociais no lazer e vice-versa, que existe a necessidade de politicas públicas que se ocupem da construção e manutenção de equipamentos de lazer, bem como as atividades devem ser significativas e cheias de sentido para a pessoa que dela participa, não seja compelida, alienada ou oprimida, não desconectada do contexto sociopolítico que envolve considerar a existencia de situações de opressão e desigualdade.

Desde esta perspectiva, o VADL atua compreendendo que o lazer, assim como as demais manifestações humanas, possui em si processos que envolvem ensinar e aprender, e

por isso suas dimensões educativas se manifestam em todos os momentos de fruição e não apenas naqueles em que este é instrumentalizado em nome da educação, concordando com Souza (2010) quando afirma que:

As poéticas culturais no lazer manifestam-se a partir da extasia encontrada por homens e mulheres em seu contato subjetivo e intersubjetivo sendo-uns-com-os-

outros-no-mundo. Não é um chamado externo que as motiva existir, mas sim, o desejo de criação do próprio ser humano na interface das práticas sociais que realiza e que atravessam e são atravessadas por processos educativos (p.52).

Por isso o VADL tem como princípio que, a fruição nos momentos em que são realizadas práticas sociais no campo do lazer, bem como os processos educativos gerados a partir de tais vivências, podem contribuir significativamente com o reencontro do ser humano consigo mesmo.

No entanto, mesmo sendo um campo aberto ao processo de humanização, o lazer também tem sido utilizado como um tempo-espaço para o ajustamento da população à realidade social capitalista e isso tem se justificado principalmente por meio de discursos tidos como “educativos”, que se utilizam do duplo aspecto educativo do lazer.

Nesse contexto, torna-se imprescindível considerar o processo de marginalização vivenciado pelas crianças e adolescentes que moram nas zonas empobrecidas das cidades, pois são poucas as ofertas de equipamentos públicos de lazer, bem como a promoção de atividades culturais, concordando com Melo (2003) quando afirma que, ao se atuar no campo do lazer, “[...] temos que estar bastante atentos aos que não podem dispor e ter acesso aos muitos bens culturais de que se pode desfrutar nos momentos de lazer” (p.16).

Por isso, dentre os objetivos específicos do VADL está o de “Promover processos educativos voltados à cidadania, principalmente às crianças e adolescentes de comunidades carentes do ponto de vista econômico ou com insuficiente apoio governamental, tendo como eixo comum a prática social do lazer” (GONÇALVES JUNIOR et al., 2009, p.1).

Cabe aqui ressaltar que o projeto VADL possui ponto de vista distinto de outros projetos aparentemente semelhantes, isso pode ser especialmente observado quando a questão “educação” é abordada nos diversos projetos relacionados ao lazer que visam atender crianças e adolescentes nas comunidades empobrecidas das cidades. Por trás das ações da maior parte desses projetos, desvela-se a compreensão de educação do poder público que, conforme afirma Mascarenhas (2004), remete à própria população a culpa por não terem condições de viver frente ao modo de produção vigente e, por isso, segmenta a adolescência das populações empobrecidas rotulando-as como menor carente, infrator, abandonado.

Desse modo, as ações realizadas pela via das políticas públicas de lazer em resposta à demanda apresentada pelos filhos e filhas das classes populares, revelam uma concepção funcionalista em que o “menor” é tido como um desvio e as ações estatais se desenvolvem com caráter compensatório e controlador, preocupadas apenas em minimizar as possíveis consequências do comportamento dessas crianças e adolescentes. Segundo afirma Mascarenhas (2004), grande parte dos projetos preventivos, governamentais e não governamentais com atuações no campo do lazer, baseiam-se em princípios de ocupação do tempo, desvinculando-se assim de qualquer possibilidade de vivência crítica, produção cultural e conscientização durante as práticas de lazer.

Diferentemente desses projetos, o VADL busca romper com essa perspectiva de ocupação do tempo que se esconde por detrás do slogan “tirar as crianças da rua”, na qual, segundo Graciani (1996), o tempo livre73 das crianças e adolescentes das classes empobrecidas é visto pelas classes dominantes como algo potencialmente ameaçador e, para estas, passou a ser importante controlar esse contingente humano que cresce no espaço “perigoso” e “imoral” das ruas e lares pertencentes à parcela “inculta” da população, para ajustá-la à vida em uma sociedade de classes. Nesse sentido, apartar-se dessa perspectiva é fundamental ao VADL, pois conforme afirma Marcelino (1996), ele reflete o mesmo discurso moralista perpetrado pelas classes dominantes que justificou o uso do trabalho infantil durante período de implementação dos parques industriais.

Porém tal discurso reverbera fortemente na sociedade, tanto que no estudo de Santos (2008) que se desenvolveu no contexto do VADL, encontrou sua reprodução na fala dos/as participantes e de seus familiares. Segundo ele:

A rua, na contemporaneidade, passou a ser encarada como um espaço em que se faz presente a violência, os perigos, os enganos, as drogas, as tentações, as deformações sociais. Tal imagem negativa é destacada pela mídia e pela forte interferência do Estado, que através de políticas públicas oferecem atividades de lazer para crianças e adolescentes enquanto estratégias para “tirá-las da rua” (SANTOS, 2008, p.132). Porém, ele enfatiza que, no dia a dia de sua convivência na comunidade, pôde observar que no Jardim Gonzaga o espaço da rua era carregado de:

[...] várias relações sociais entre pessoas de idades e gêneros diferentes, e poucas vezes, estas foram conflituosas. Em vários momentos presenciei adultos sentados, na

73 A expressão tempo livre é utilizada para se referir ao tempo de lazer, no entanto Marcellino (2004) defende a

expressão tempo disponível, já que, segundo ele, “tempo algum pode ser considerado livre de coações ou normas de conduta social” (p.29). Nesse estudo as duas expressões são utilizadas respeitando durante a discussão os termos originalmente utilizados nas obras dos autores e autora citados.

calçada ou na frente de bares e outros comércios, conversando; senhoras e senhores com seus filhos, sobrinhos ou netos, brincando ou confeccionando algum brinquedo ou observando-os brincar em grupos. Nos mais diversos espaços do bairro, sempre que as crianças estavam brincando na rua, havia adultos observando ou tomando conta delas. Portanto, as ruas [...] estiveram sempre cheias de pessoas e, consequentemente, cheias de vida (SANTOS, 2008, p.132).

Obviamente, o espaço da rua compreende alguns riscos, porém é necessário que as práticas que os fazem presentes deixem de estar nas ruas e não as pessoas, sejam elas adultas, crianças ou jovens, que nela convivem e se divertem. Nas perspectivas de lazer e educação assumidas pelo VADL, o mais coerente é levar as crianças para as ruas, devolver a rua, que atualmente se encontra sobre o domínio dos carros e da violência às pessoas, para que sejam espaços de convivência e aprendizados. Falar em educação nesse contexto significa considerar o aprendizado do direito à cidade, de modo que, se não podem estar nas ruas, as pessoas possam, ao menos, questionarem criticamente os motivos que as fazem esvaziar-se. Por isso que, outro objetivo específico do VADL dedica-se a “Conhecer, refletir e dialogar sobre as transformações dos espaços públicos” (GONÇALVES JUNIOR et al., 2009, p.1).

Sendo o campo do lazer também carregado de disputas de interesses que representam diversos grupos sociais, é preciso reconhecer a existência das classes dominantes que promovem o lazer em sua vertente funcionalista, que visa contribuir com a ordem social capitalista, recuperando as energias e compensando as frustrações oriundas da exploração do trabalho. Porém, as ações do VADL orientam-se em sentido oposto, corroborando com a compreensão de Marcellino (2004), para quem:

Contrapõe-se a essa visão do lazer como instrumento de dominação, aquela que o entende como um fenômeno gerado historicamente e do qual emergem valores questionadores da sociedade como um todo, e sobre o qual são exercidas influências da estrutura social vigente. Assim a admissão da importância do lazer na vida moderna significa considerá-lo como um tempo privilegiado para a vivência de valores que contribuam para mudanças de ordem moral e cultural. Mudanças necessárias para a implantação de uma nova ordem social (p.40-41).

No VADL o tempo de lazer é vislumbrado como campo de intervenção pedagógica contra-hegemônica, concordando com ideais de Marcellino (2004), para quem “[...] só tem