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Após a consolidação do pós-fordismo, novas formas de se pensar as dinâmicas do capitalismo começaram a despontar. O conceito de cultura organizacional, por exemplo, é um dos novos elementos constitutivos do pensamento empresarial e dos cursos de Administração. O entendimento da cultura de uma empresa ou organização passou a ser enfatizado enquanto fator que permite a adequação das expectativas da instituição aos dos seus colaboradores/funcionários. Neste sentido é que percebo haver uma crescente preocupação com a definição de ementas institucionais que possibilitem a caracterização das instituições, como é o caso das políticas de missão, visão e valores.

Ao utilizarmos o conceito de cultura organizacional, entretanto, não o penso enquanto um conceito da área administrativa, mas entendo que a cultura de uma organização, como empresas ou instituições escolares, opera enquanto seu modo de ser interno e externo e, concomitantemente, constitui-se como uma esfera de poder (TAVARES, 1996): ao mesmo tempo em que se negociam significados também se impõem normas, valores e disciplina, os indivíduos passam por um processo de subjetivação, ou seja, os interesses individuais se

34 Neste contexto é que se atenta ao longo do trabalho para a importância de se entender as dinâmicas suscitadas

pelo networking (rede de contatos profissionais) para a constituição deste modelo de produção capitalista pós- fordista.

encontram com os interesses organizacionais, podendo gerar consensos ou disputas entre os agentes e a organização e vice-versa, de modo que tal processo seria capaz de suscitar novas disposições individuais e mesmo processos cognitivos atrelados à cultura das organizações (DIMMAGIO, 1997).

Assim sendo, a cultura organizacional da FGV-EAESP pode ser entendida como as práticas enfatizadas pela instituição incorporadas por seus membros (alunos, professores etc.), assim como pode se constituir também pela influência da ação dos profissionais formados por ela. As assertivas institucionais que orientam a cultura organizacional da Escola podem ser encontradas em sua política de missão, visão e valores e o sentido prático dessa cultura pode ser visualizado nas falas e ações de seus membros.

É importante frisar que a cultura organizacional da FGV-EAESP, apesar de ser uma dimensão das práticas institucionais definidas internamente, é construída sempre em relação às demais instituições concorrentes. A cultura desta instituição, a qual chamo de cultura organizacional, define-se na relação entre os indivíduos que são parte constitutiva dela e indivíduos de outras instituições afins. No mais, a cultura da EAESP se constitui também a partir do que se diz sobre suas características ou do que se veicula sobre ela na mídia.

Em síntese, penso que a cultura organizacional, enquanto conceito analítico, pode ser interessante na medida em que suscita reflexões sobre como se dá a construção de uma cultura no âmbito das organizações, quais dinâmicas e conflitos perpassam sua constituição e orientam a ação de seus membros.

Neste sentido, ao considerar o papel desempenhado pelos estudantes e demais membros de uma organização e instituição escolar, é necessário refletir sobre os processos de subjetivação envolvidos em suas atividades. Como aponta Carvalho (2012): “[...] as organizações têm imprimido em sua cultura normas e valores que orientam a conduta de seus membros, pois informam o papel de cada um dentro do coletivo. Este papel, muitas vezes, implica a renúncia aos valores individuais de seus membros”. (p.26).

De acordo com Geertz (1989), inspirado em Max Weber, “[...] o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu” (p. 15), sendo a cultura a junção desses significados. Segundo Jaime Júnior (2002), a cultura organizacional deve ser vista como um texto polissêmico, um palco de disputas, um complexo jogo político entre atores sociais portadores de diferentes capitais econômicos, culturais e simbólicos. A proposta do autor é de que a possibilidade de consenso acerca dos significados compartilhados entre os membros de uma organização é remota: “o complexo jogo de interações, no qual estão inseridos os atores

sociais, pode nos mostrar como a realidade organizacional é permanentemente negociada”. (JAIME JÚNIOR, 2002, p. 82).

À luz destas proposições, entendo que as instituições escolares, enquanto organizações, são também espaços de dominação e hierarquização. Para se entender a cultura proposta e disseminada pela FGV-EAESP, por exemplo, é necessário entender os processos cognitivos que pautam tal instituição e seu método educacional. Conforme Douglas (2007), entendo que os membros de uma organização, no caso da EAESP, ao orientarem suas crenças, valores e individualidades para um determinado modelo organizacional e institucional, apropriam-se de muitos valores compartilhados no ambiente da Escola e, na medida em que se inserem em outras organizações (empresas, ONG’s etc.), disseminam, consciente e/ou inconscientemente, a cultura responsável por sua formação, no caso, a cultura profissional e acadêmica adquiridas tanto no âmbito do ambiente escolar quanto no âmbito familiar.

Desta forma, ao pensar nas empresas como sistemas sociais, na dimensão político- econômica suscitada pela globalização, nas novas condições trabalhistas e nas profissões surgidas a partir das dinâmicas do capitalismo durante o século XX, é possível entender também a configuração de instituições de ensino superior como a FGV-EAESP que, ao procurarem formar líderes empresariais, adaptam-se constantemente às demandas do mercado, assemelhando-se ao papel desempenhado por uma empresa privada. Neste sentido, tal como Kirschner (2003), considero

a empresa um fato social, possuidora de uma dimensão institucional própria, uma vez que influi sobre as representações e as estruturas sociais, e não é somente um lugar onde os conflitos sociais se estabelecem. Há uma necessidade de se estudar a produção do social no âmbito da produção, ou seja, discutir com mais afinco a formação de representações, a construção de interesses e as negociações. Nessa conjuntura de mudanças muito rápidas, os atores sociais precisam ter mais conhecimento sobre si próprios e sobre as empresas. No que diz respeito a suas representações, relações de poder, cultura e estruturas sociais nas empresas, o olhar sociológico é capaz de ter um alcance bem maior do que o dos atores, os quais não dispõem dos instrumentos, nem, por vezes, do distanciamento necessário para compreender as situações críticas de seu cotidiano. (p. 113-114; grifo meu)

A ideia de considerar a empresa como um fato social, relaciona-se de modo direto como as assertivas de Douglas (2007), para quem é preciso entender as instituições enquanto um conjunto de assertivas cognitivas que, ao serem consolidadas no plano físico, são capazes de produzir e transmitir valores, conhecimento, crenças etc. Segundo a autora, em situações de crise, os indivíduos não são capazes de tomar decisões sozinhos acerca de questões sobre vida e morte. Por isso, ao fazerem suas escolhas, recorrem ao pensamento institucional já

presente nas mentes de cada um, possivelmente formado tanto pela família quanto pela escola. Ao propor isto, Douglas pretende, além de encorajar as investigações em torno da relação entre a formação cognitiva das mentalidades e das instituições, demonstrar que a apropriação de uma ideia/crença/valor constitui um processo cognitivo e moral, responsável por fundamentar a ordem social, sendo que o processo cognitivo mais elementar do indivíduo depende das instituições sociais responsáveis por sua formação.

O estudo realizado por Sartore (2011), por exemplo, ao versar sobre a importância que o conceito de Sustentabilidade e Responsabilidade Social adquiriram no mundo empresarial ao longo dos anos 1990 e até estes primeiros anos do século XXI, mostra que “a criação do Conselho Deliberativo do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) gerou uma convergência entre as elites, ao mesmo tempo em que criou uma distinção entre aqueles que atuam na esfera da Sustentabilidade, dialogando com o mercado financeiro, e os que não o fazem.” (p. 227; grifos meus).

Isto posto, percebe-se que um determinado estilo de cultura organizacional está sendo construído na sociedade e, no início do século XXI, de grande efervescência nos debates acerca das questões ambientais, a noção de sustentabilidade também passa a ser apropriada pelas empresas. Ainda segundo Sartore (2011), a incorporação dos conceitos de Responsabilidade Social Empresarial e de Investimento Socialmente Responsável, como forma de inserção da noção de sustentabilidade nas empresas, só foram aceitos pelo mundo das finanças quando se cristalizou a “ideia de que empresas sustentáveis dão melhor retorno econômico-financeiro (...)” (p. 226). E, a partir disso, a imagem de Responsabilidade Social Empresarial construída pelas empresas que dominam o mercado, passou a orientar o comportamento das demais.

Analogamente a este estudo, observa-se como instituições de ensino, como a FGV- EAESP, também buscam se diferenciar das demais a partir da criação e manutenção de valores e crenças já colocados na “missão” e na “visão” da faculdade. Neste sentido, os valores defendidos por essa instituição de ensino passam a constituir sua própria cultura, capaz de direcionar, através de mecanismos tanto coercitivos, como o método de ensino, quanto subjetivos, como a incorporação de um determinado ethos profissional e pessoal, as decisões tomadas pelos/as profissionais que forma, no caso desta reflexão, dos líderes empresariais em seus campos de atuação.

A interação entre os/as agentes sociais e o seu ambiente de estudo/trabalho, tal como proposto por Douglas (2007), para quem as instituições (neste caso, orientações cognitivas e

normativas postas por escolas, empresas etc.) consolidam esquemas de pensamento coletivo, são compartilhados pelos indivíduos, de modo a criarem vínculos identitários entre si. Outrossim, considero que as instituições escolares tanto como instituições no sentido de Douglas (2007), por serem criadoras de disposições cognitivas, coercitivas e morais (DURKHEIM, 2007), quanto como organizações sociais (com ou sem fins lucrativos), por serem espaços organizados por pessoas com uma finalidade objetiva (transmitir conteúdos, formar profissionais, disseminar um método educacional, vender produtos etc.).

A partir de um contexto de globalização, flexibilização crescente do mercado de trabalho, desenvolvimento tecnológico e difusão de um método educacional pautado pela pedagogia das competências, é que se compreende a atuação e valores sustentados tanto pela FGV-EAESP quanto pelos grupos de indivíduos formados em Administração de Empresas. Este curso foi bastante difundido durante o século XX até o XXI, podendo ser considerado como um dos que nasceram em função de um novo momento vivenciado pelo capitalismo em meados do século XX.

Entender o papel incorporado pela figura do/a líder empresarial pode ser considerado, neste aspecto, relevante para a compreensão do capitalismo contemporâneo e das formas de representação que ele suscita através da exaltação de crenças e valores subjetivos como sucesso, eficiência, riqueza e fama.

3. UM OLHAR SOBRE OS EVENTOS DIRECIONADOS AO PÚBLICO DE

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