Diante dos diversos instrumentos metodológicos utilizados durante a pesquisa, enfatizo que, ao escolher abordar uma mesma realidade a partir de diversos olhares, também procuro salientar o caráter qualitativo que desenvolvo ao longo do trabalho. A pesquisa seguiu critérios qualitativos, mas é importante frisar que esta escolha não se deu fortuitamente: quando elaborei o projeto de pesquisa inicial, havia apontado para a possibilidade de combinar metodologias de caráter tanto qualitativo quanto quantitativo. No entanto, diante da impossibilidade de aplicar questionários a alunos/as dentro da FGV-EAESP e da Chicago
Booth, o desenvolvimento da pesquisa quantitativa ficou impossibilitado, por isso, optei por
realizar uma pesquisa apenas qualitativa.
A abordagem qualitativa aqui desenvolvida busca enfatizar as relações micro, captadas através do olhar da pesquisadora sobre a realidade observada, além de atentar para uma análise sociológica dos discursos coletados no campo. Tais discursos são de extrema relevância para esta pesquisa à medida em que difundem ideias e valores associados à vivências dos/as alunos/as e professores/as no ambiente institucional da FGV-EAESP e da
Chicago Booth.
Ao participar de eventos voltados ao público pré-vestibulando que almejava ingressar, via vestibular, no espaço da EAESP, pude ouvir as falas tanto dos alunos/as que estavam ali na condição de aspirantes, quanto dos/ alunos/as e professores/as que organizaram os eventos e também de ex-alunos/as convidados/as a darem seus depoimentos sobre o impacto que ter estudado na FGV-EAESP teve em suas vidas profissionais.
Desta mesma forma foi que optei por realizar observações de eventos voltados para futuros ingressantes na Chicago Booth. Assim, participar deste tipo de evento foi crucial para a pesquisa, na medida em que num só espaço, pude captar percepções de todos aqueles que de
alguma forma se engajam no discurso da instituição e que, por isso mesmo, contribuem para a reprodução social desta cultura.
Isto posto, considerei na formulação desta pesquisa a premissa de que tanto as opções teóricas, quanto metodológicas utilizadas pelo/a pesquisador/a, devem se adequar à problemática empírica explicitada:
Com efeito, as opções técnicas mais "empíricas" são inseparáveis das opções mais "teóricas" de construção do objecto. É em função de uma certa construção do objeto que tal método de amostragem, tal técnica de recolha ou de análise dos dados, etc. se impõe. (BOURDIEU, 1989b: 24).
Outrossim, é importante considerar que a relação travada entre a pesquisadora e os/as agentes analisados/as, foi dificultada diante da impossibilidade de se adentrar o espaço da FGV-EAESP sem um crachá específico ou autorização prévia. Embora tenha conseguido realizar uma entrevista com um professor da instituição, tentei entrevistar outros, mas todos se recusaram e a maioria disse que não tinha permissão da instituição para conceder tal tipo de entrevista77.
É importante observar também que os agentes pesquisados são majoritariamente provenientes de famílias ricas, pertencentes à elite paulista e, portanto, ao analisar os dados aqui retratados, não se pode esquecer do lugar social do qual estes agentes falam. Neste sentido, Pinçon e Pinçon-Charlot (2007), estudiosos da sociologia de elites, expõem as dificuldades metodológicas e de acesso enfrentadas pelo/a pesquisador/a das classes dominantes. Segundo eles:
Os obstáculos metodológicos encontrados na abordagem sociológica da alta burguesia são de duas ordens. Por um lado, na relação com os próprios entrevistados na situação de pesquisa e, por outro, na acessibilidade dos dados que lhes dizem respeito. Esses obstáculos pressentidos podem levar os sociólogos a recuar diante de tal objeto. (p. 26).
Já em relação à Chicago Booth, apesar de também não ter sido possível aplicar questionários no interior da instituição, o contato com a Escola foi mais fácil, visto que não foi necessário portar crachá para entrar no espaço físico da instituição. Tive fácil acesso ao espaço de convivência dos/as alunos/as e ao seu restaurante.
Entre outras coisas, o termo “elite” utilizado nesta pesquisa deve ser entendido de duas maneiras: primeiramente cabe considerar que os/as agentes pesquisados são, devido seus
77 De acordo com interlocutores da FGV-EAESP, os/as professores/as teriam sido orientados/as a não conceder
capitais econômico, cultural e social, pertencentes a uma classe dominante, a qual aqui chamamos de elite, ou seja, tanto as instituições quanto os indivíduos que compõem o foco de análise desta dissertação, são difusores e detentores de capitais sociais que os situam num lugar social que podemos considerar como sendo dominante em relação às demais esferas da sociedade, uma vez que, através de suas ações, estes são capazes de difundir crenças hegemônicas para o restante da sociedade.
Em segundo lugar, o termo “elite” também diz respeito aqui ao que podemos considerar como sendo uma categoria nativa, ou melhor, ao analisar as falas dos agentes pesquisados, é possível notar a forma com estes mesmos se autoatribuem características de um grupo social de elite. Isto fica explícito principalmente nas falas dos/as alunos/as da EAESP, sobre as quais me deterei mais adiante.
Por fim, cabe dizer que este estudo não tem a pretensão de esboçar uma análise a partir da “Teoria das Elites” consagrada na Ciência Política, mas busca trazer uma interpretação acerca de como um grupo social advindo da elite é capaz de produzir e difundir crenças hegemônicas a partir de um campo específico, no caso o da Administração e Negócios. Tendo isso em vista é que a inspiração conceitual deste trabalho parte da sociologia relacional de Pierre Bourdieu, a qual perpassa de modo direto todas as seções deste estudo.