Em Mad Maria, a memória indianista do período do ciclo da borracha é mais uma vez recuperada, mas evolui dentro do romance para o que se tem chamado aqui de caráter global, o que sequer se cogitava em Ressuscitado de Raimundo Morais. Lá o indianismo de caráter lendário mostra, de modo ainda embaçado, os destinos do índio diante do avanço civilizatório promovido pela busca sem limites pelo ouro lácteo, centrando especificamente na relação entre um seringal e tribos indígenas. O caso de Mad Maria rompe com o caráter lendário e permite-se pensar o índio dentro da barbárie promovida pela globalização sobre os povos autóctones, resistentes à cultura e à violência do mundo capitalista.
A agonia dos índios de Mad Maria começa quando se pretende atravessar um piano de cauda pelas corredeiras do Madeira. O piano era caro aos sonhos musicais de Consuelo, sonhos esses alimentados por seu marido Alonso. A dificuldade enfrentada de maneira malograda representa, em outro nível de interpretação, a impossibilidade de implantar a ferrovia Madeira-Mamoré, numa tentativa de vencer as agudas armadilhas da selva.
A descrição do índio caripuna demonstra a situação em que se encontrava após o intenso contato com os “civilizados”, adotando até hábitos novos, em premente
[160] contradição com sua natureza indígena: “[...] Não sabia que o calção, presente dos civilizados que andavam com o Pai Rondon, podia ser lavado. E o calção já quase não era de pano, incrustado de sujeira, barro seco, urina e excrementos. [...]” (p. 67). A referência a Rondon está também anunciada em Raimundo Morais, por razões ligadas à filosofia positivista. Essa integração dos caripunas era um processo que vinha ocorrendo desde o início do século, como demonstra Darcy Ribeiro em Os índios e a civilização (1996).
O deslocamento do índio para a memória global da narrativa tem seu ponto de partida quando Finnegan batiza o índio caripuna de “Joe Caripuna”. Talvez, a explicação seja possível pela via da aculturação, em que se adotava, inclusive, a língua do novo colonizador: “[...] Já estava falando inglês melhor do que Consuelo e adorava conversar com o médico, perguntar sobre as coisas, sobre o mundo dos civilizados.” (p. 164)
A política indigenista se desenha no discurso narrativo. Farquhar, por exemplo, não vê qualquer obstáculo para estender seu monopólio sobre o Brasil: “– Mas o nosso problema não é o Ruy, é o governo. Há uma certa desconfiança em relação a nós. Meus pedidos de concessões no Paraná estão paralisados. E por um motivo ridículo, dizem que há índios ali.” (p. 89)
Diante de uma possível tragédia civilizatória, o índio era um contraponto que surpreendia Finnegan: “Perante o índio, as tragédias ficavam reduzidas às devidas proporções, não eram mais tragédias e sim um esvaziamento, um esquecimento do sagrado.” (p. 166-167)
Em seu pensamento ou memória, o personagem indígena traça estratégias para uma nova civilidade: “[...] Se ali vivessem mulheres, se os civilizados se casassem normalmente, ele ainda poderia pensar em conseguir uma mulher civilizada e também se tornar um civilizado. [...]” (p. 68)
No capítulo 5 do Livro I, o mito sobre o tuxaua Unámarai é como uma revelação da literatura indígena. É algo semelhante a uma cosmogonia indígena, que ainda não é sublevada, apesar do feroz processo civilizatório imposto pelas nações hegemônicas, responsáveis pela construção da grande obra ferroviária.
Os raros momentos de humanização do indígena cede lugar à barbárie civilizatória, porque o discurso do narrador não pode mesmo esconder as verdades
[161] históricas. O extremo da violência sofrida pelo índio caripuna subverte a lógica do que se pode chamar de “civilizado”:
[...] Os civilizados estavam excitados e batiam nele, batiam com força e ele gritava. Vomitava sangue e os beiços estavam partidos e inchados e mal podia abrir os olhos. Aconteceu então o pior. Os civilizados seguraram ele esticado no chão e colocaram os dois braços dele sobre um dormente. Um civilizado pegou um machado e decepou na altura do antebraço as suas mãos. [...] (p. 87)
Há uma crítica contundente às relações civilizatórias com os índios, especialmente filtradas pela situação do índio caripuna de mãos amputadas: “[...] Os homens tinham se vingado por uma sentença brutal, islâmica. O ladrão de pequenos objetos, de tocos de lápis, de canetas, de lenços, de canivetes, de espelhos, sentenciado, agora chorava constantemente numa emocionada passividade.” (p. 111). Mais à frente, o sentido de vingança se completa:
[...] A vingança dos homens não se limitava obviamente à decepação das mãos, queriam mais. Queriam matá-lo, fazer o machado descer outras vezes até transformá-lo em postas de carne. As mãos decepadas a machadadas tinham sido apenas um prelúdio de novos golpes, interrompido pela chegada do engenheiro com a guarda de segurança. Finnegan nem esperava salvá-lo. (p. 111)
As contradições criadas não param por aí. Têm-se notícias de outros índios que sofreram a mesma “vingança”, mas com uma solução inesperada para suas dores: “[...] Índios que haviam sofrido amputações no Hospital, uma perna que gangrenara por algum motivo e que fora substituída por uma prótese de látex vinda dos Estados Unidos.” (p. 112).
Francisco Foot Hardman (1988, p. 17) considera que a imagem do caripuna mutilado é a “mais fiel, agônica, do índio naquela ferrovia”. Foot Hardman estende essa percepção para os índios submetidos à economia amazônica, especialmente do ciclo gomífero: “[...] Muitos deles, sem dúvida, terão se engajado nos acampamentos de obras, no corte da madeira de lei, sem falar das populações já incorporadas na indústria da borracha – fantasmas entre fantasmas.” (HARDMAN, 1988, p. 17).
A situação do índio caripuna retratada ficcionalmente por Márcio Souza estende- se por uma ligação histórica de massacre a essa tribo, impetrada não somente por brasileiros, mas também por bolivianos, como o barão da borracha Nicolás Suárez:
[...] One of his brothers was murdered by savages, and it is said that Nicolás Suárez practically exterminated the [Karipuna] tribe to which his murderers belonged. Suárez contacted the tribes of the Beni,
[162] Mamoré and Madre de Dios rivers, „savages whom no white man had ever dared to approach.10 (HEMMING, 1987, p. 276)
Pelo relato histórico de Hemming, não há dúvidas de que os índios Caripunas foram os mais afetados pela construção da Madeira-Mamoré, principalmente pela quantidade de doenças disseminadas pelos trabalhadores responsáveis pela construção da ferrovia.
O índio caripuna ficara internado na “enfermaria dos indigentes” em Mad Maria:
[...] Embora limpa, a enfermaria vivia lotada de trabalhadores em diversos graus de decomposição física e mental. Não era um ambiente especialmente confortador para o seu amigo caripuna, mas ele nem parecia notar, continuava sorridente e carinhoso, acendendo cigarros com fósforos que ele riscava com os pés, para divertimento dos enfermeiros e alguns doentes em estado menos deplorável. (p. 233) O índio Joe Caripuna valia-se de uma nova língua-geral, “língua que era a síntese todas as línguas, faladas em Porto Velho”. Embora sua tragédia humana, era a figura mais brincalhona do Hospital da Candelária, o que parece destituir o peso de sua condição étnica.
O drama dos índios recebe novo enfoque, quando, em Santo Antônio, Finnegan encontra índias se prostituindo. No prostíbulo, Collier comenta que as índias são caripunas. Mas a situação dessas prostitutas guarda relação com as novas formas de colonização. É o que pensa Collier: “– Fomos nós, Finnegan. Nós que colocamos elas aí, é para o que servimos. Para transformar em putas as mulheres nativas.” (p. 270). E depois compara a situação deles com a prostituição: “– Nós não somos diferentes delas não, rapaz. Nós também somos putas como elas. [...]” (p. 270)
De modo comparativo, a prostituição figura como uma das faces da globalização. A mãe de Günter, o líder da horda de alemães fugitivos, era prostituta no porto de Hamburgo. A vontade de fugir do Abunã se confundia com a mesma vontade de fugir do reformatório. Essa prostituição globalizada adquire outro nível semântico na narrativa: “[...] No Abunã o clima de bordel era perceptível, eles estavam ali que nem prostitutas, com a agravante de nunca treparem, só gastarem as forças em troca de um dinheirinho imundo.” (p. 186)
10 “[...] Um de seus irmãos foi assassinado por selvagens, e diz-se que Nicolás Suárez praticamente
exterminou a tribo [Karipuna] a que seus assassinos pertenciam. Suárez entrou em contato com as tribos dos rios Beni, Mamoré e Madre de Dios, „selvagens que nenhum homem branco jamais se atreveu a chegar perto‟”.
[163] Os derradeiros lances da conversão de Joe Caripuna em moeda da economia do entretenimento global surgem como narrativa aparentemente inverossímil, pelas próprias ações a que Joe Caripuna é submetido. O exótico faz as delícias de um mundo globalizado.
Há uma situação quase surreal na cena em que Consuelo se transforma em professora de piano do índio Joe. Como daria aula para um índio maneta? Joe Caripuna começa a dedilhar o piano com os dedos dos pés, de modo hábil. O dono do cassino de Porto Velho torcia para que Joe se tornasse uma atração musical.
Ao apresentar o pianista Joe para Finnegan, Consuelo faz um comentário: “– [...] Joe agora não é mais um simples inválido, é um exemplo para a humanidade.” (p. 313). Diante de sua habilidade musical, Joe é contratado para tocar à comitiva de políticos conduzida por Farquhar a Porto Velho, no final do romance. Os interesses escusos falseiam a verdadeira causa do drama humano vivenciado por Joe. E Dr. Lovelace é que se encarrega de explicar aos presentes o que havia acontecido com esse índio da nação caripuna.
Farquhar não acredita na apresentação musical de Joe. Pergunta a Lovelace qual é o truque para realizar aquele espetáculo. Consuelo se abala com a nova situação de Joe Caripuna. Sente que o perdera. Reclama com Finnegan, que pouco caso faz. Consuelo e Joe Caripuna partem para o Rio de Janeiro, uma vez que Farquhar havia contratado Joe para fazer apresentações na capital do Brasil.
No final do romance, em sua fúria étnica, Collier assassina um índio caripuna que rondava sua tenda. Finnegan verifica que o índio estava desarmado. Collier apenas diz: “– É, estava desarmado, mas levou chumbo. O mundo não suportaria outro índio pianista.” (p. 343)
Em seguida, comenta-se a primeira apresentação de Joe Caripuna no Rio de Janeiro: “Sob protestos da Igreja Positivista Brasileira e com a recusa de Rondon a comparecer no evento, Joe Caripuna deu o seu primeiro e único concerto no Rio de Janeiro.” (p. 343). Foi desastrosa a temporada de Caripuna no Rio, gerando prejuízos a Farquhar. Poucos haviam gostado da apresentação.
Um certo Lawrence se propõe a levar Caripuna e Consuelo para Nova York. E isso acontece em dezembro de 1911. Além de tocar o Hino nacional americano, tocava Valsa do minuto (Chopin). É de um exotismo extremado e parece inaugurar a indústria
[164] capitalista do entretenimento a qualquer custo. O fim de Joe Caripuna é melancólico: “Joe Caripuna morreu de sífilis em 1927” (p. 345).
O exotismo indígena torna-se globalizado. Não há qualquer lastro de política indigenista de proteção a Joe Caripuna. Essa memória não foge dos planos de Márcio Souza. A quebra de uma ação mais incisiva de luta, de vingança, não é possível mais para um índio que, passado o romantismo de Alencar, não retorna mais aos mitos, totens e tabus, enfim, de toda a sua cultura genuína. Joe Caripuna não possui força, porque não tem braços. A história encarregou-se de retirar os braços dos índios, ou de exterminá- los, ainda mais quando se opõem a um colosso capitalista como a Mad Maria.
O genocídio das tribos indígenas possui seus efeitos na memória indígena desses povos. Não se tem qualquer interesse em que a memória do índio participe da composição da memória global, caracteriza-se como uma submemória, sem qualquer interesse por sua preservação. A literatura do ciclo da borracha não parece revelar tanta resistência contra esse desinteresse, desfalcando, em parte, o memorial amazônico, com ênfase no genocídio da memória. As ruínas do ciclo parecem pesar mais sobre esses povos.
A inauguração da modernidade amazônica, advinda do período do ciclo da borracha, fez desfalecer povos milenares da etnografia amazônica, não esquecidos por Márcio Souza. Esses índios chegam a um estágio de bastante tensão com a integração com os chamados civilizados, sofrendo, mais uma vez, um etnocídio. É por isso que índio caripuna de Mad Maria não pode ser mais uma lenda como na acepção, mesmo que de feições realistas, de Raimundo Morais. Porém, no impasse criado por esse confronto de indianismos, fica-se com a impressão de que a memória lendária é o que sobrará diante de tantas atrocidades sofridas pelas diversas etnias dos índios amazônicos, com ênfase na suposta modernidade que atravessa a Amazônia gomífera.