Em Rangel, Morais e Araújo Lima, tem-se a sensação de que o didatismo dos narradores, embora em perspectivas marcadamente distintas, sinaliza que o narrador- autor “sabe o que se passou” e pretende representar uma fonte histórica incontornável. Porém, no caso de Araújo Lima, há mais espaços em branco na memória representada, como vazios na representação literária.
Essa ficção em primeira pessoa, como autobiografia do personagem Matias, precisar ser mais bem considerada, sob pena de exclusão de parte considerável do mecanismo estético em que se alicerça Coronel de Barranco, para entendimento do processo de reprodução do fato histórico. O narrador se põe em atitude confessional, o que estimula algumas de suas convicções históricas e memorialísticas na composição de seu relato.
No panorama dos estudos teóricos, em meados da década de 1970, Philippe Lejeune (1996) lança balizas para a compreensão das diferenças entre romance autobiográfico e autobiografia. Por mais que centre suas análises na literatura francesa, suas considerações giram em torno dos níveis de identidade ou não-identidade existente na triangulação autor-narrador-personagem.
Em Coronel de Barranco, a metaficção, a metanarrativa, ou o metanarrador, aparecem de maneira simplista, por vezes ingênua:
[125] [...] Ao tempo em que, internado no Colégio Anacleto, chegara a fazer os preparatórios. Aprendera um pouco de francês e inglês. E buscara acumular alguns conhecimentos de literatura, visto que o meu sonho maior era um dia ser escritor. Autor de um romance em que estudasse a estranha vida do Amazonas. (p. 23, grifo nosso)
De modo didático, a narrativa situa-se temporalmente, explicando a que contexto histórico pertence:
Crescente processo de valorização que culminou em 1888, quando se soube no mundo inteiro que um engenheiro escocês, John Boyd Dunlop, conseguira produzir os primeiros pneumáticos. O que representava, mais do que simples invenção, uma revolução radical da história dos transportes. (p. 38)
Dentro do gaiola, depois de sua volta da Europa e ao aceitar o desafio de conviver com o coronel Cipriano no seringal “Fé em Deus”, Matias confessa seu intento em narrar suas aventuras ao lado de Wickham, em gênero literário confessional: “[...] Espécie de confissão escrita do crime de que eu fora involuntário cúmplice, com todas as consequências que principiava a prever, sem maiores dúvidas.” (p. 62)
Lejeune (1996) define sua proposta autobiográfica como relato em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, dando particular atenção à sua vida individual e à história de sua personalidade. Emendando parte desse conceito, com a troca de pessoa real por personagem, ampliando o escopo teórico, ter-se-ia a aproximação devida com o que aqui se pode traduzir por gênero confessional memorialístico, na linha do romance autobiográfico.
A confissão em Cláudio de Araújo se faz com a matéria da memória, contudo numa mescla de memória afetiva/familiar e memória amazônica. E essa mescla configura a formação de mais um passo do que, neste estudo, vem-se chamando teoricamente de memorial amazônico. Em alguns momentos, vê-se, na verdade, se assim se pode referir, uma autobiografia da Amazônia.
A certa altura, o narrador trata mais do gênero romanesco a que se dedica: “No dia primeiro do mês seguinte – a data está fixada no esboço de diário que hoje vou relendo, à medida que avanço neste projeto de romance de minha vida – o seringal não tinha mais nenhuma estrada submersa.” (p. 112).
Reforça, além de tudo, o gênero romanesco escolhido: “[...] Tentando alinhavar estas recordações, umas que repontam espontaneamente na memória, outras que vou relendo em pequenas anotações de um projeto de diário, a que nunca chegava a dar a real continuidade [...]” (p. 178).
[126] O narrador metaficcional lembra-se do que não se viveu. “Lembrar do que não se viveu” constitui-se um distanciamento singular proporcionado pela ficção em relação ao tempo histórico. Embora Matias Albuquerque, o personagem da experiência no ciclo da borracha, insistir no gênero do diário, é certo que o escritor Cláudio de Araújo, em seu alter ego, demonstre o fato de “lembrar-se do que não viveu”, no que se argumenta aqui como marcas da pós-memória.
É curiosa a convergência entre essa perspectiva e a que, em seu ensaio Le pacte autobiographique (1975), Lejeune (1996) assume como a confissão ficcional sendo menos censurada pelo pudor, isto é, com maior possibilidade de trazer à tona verdades subsumidas em torno do que um personagem real poderia produzir. Esse pacto autobiográfico se realizaria, então, como pacto romanesco.
No capítulo 17, Albuquerque faz planos de não voltar mais ao seringal e viver com sua pequena fortuna. Pretende visitar o velho Wickham em Londres. Faz referência a outra obra do inglês: On the plantation, cultivation and curing of Pará Indian Rubber (Heveia Brasiliensis), 1908. Nesse encontro, considera a possibilidade de plantar borracha no Amazonas. Pensa, também, no trabalho literário:
Cheguei a pensar, inclusive, em dedicar-me a fazer isto que aqui estou fazendo hoje.
Pôr num livro, a um só tempo de memórias e estudos, minha experiência na história da borracha, que viesse algum dia a servir para documentar os fatos de que eu fora testemunha e personagem. (p. 194) A recorrência à memória na autobiografia de Matias Albuquerque alarga o sentido memorialístico de sua narrativa e da Amazônia do ciclo da borracha. Seja em Dalcídio, seja em Araújo Lima, o ciclo transforma-se em memória ativa, mas cada uma apontando para uma direção ou para um propósito.
O narrador tenta se dividir entre a economia e o romantismo. Seu interesse pelo ciclo da borracha não permite a consolidação dessa dialética. Durante o início do romance, algo impedia que Matias aceitasse de pronto a proposta de partir junto com Wickham: o amor de Rosinha. Entretanto, a narrativa não consegue sustentar esse dilema, como uma angústia que vai fermentando e modificando os rumos da narrativa, inclusive sem qualquer associação entre essas duas categorias (economia e romantismo).
Ao partir com Wickham, tia Raimunda confessa o amor de Rosinha por ele. Mas, então, Rosinha estava morta. Paira na recepção literária, mais uma vez, a metáfora
[127] por trás da mulher, que se confunde com a Amazônia, como em “Maibi” de Alberto Rangel ou “Corina” de Raimundo Morais. E numa ousadia maior, em Dalcídio, as mulheres gordas estão em contradição com uma vida esvaziada de sentido.
O símbolo feminino mais uma vez funciona como metáfora toponômica: Rosinha, para a tragédia da Amazônia seringalista; Mitsi, para o sonho renovado da goma elástica no Oriente. O fantasma de Mitsi permeia os pensamentos de Matias Albuquerque.
Diante de diferentes evidências, pode-se novamente verificar como Lejeune entra nessa discussão da autobiografia confessional de Cláudio de Araújo. Em Moi Aussi (1986), Lejeune propõe a vinculação da autobiografia a dois tipos de sistema: 1) o sistema referencial real, em que ela se processa como ato de compromisso; 2) o sistema literário, em que se imita as regras do primeiro. Em todas essas fronteiras traçadas pela autobiografia, chega-se mesmo a uma aporia entre o que se extravasa em memória, auto-retrato, diário íntimo.