O narrador da memória global em Mad Maria não se conserva com a perspectiva unidirecional sobre a região da Madeira-Mamoré. A mudança de núcleos narrativos, ora considerando a luta campal para construção da ferrovia, ora observando os lances de política nacional no Rio de Janeiro, consubstancia no romance uma visão pouco comum na abordagem do ciclo da borracha.
[165] Trata-se, de fato, de um fenômeno integrativo de memórias nacionais pela via literária. Em Mad Maria, Márcio Souza trabalha com essa integração do memorialismo nacional, mais do que em suas obras antecedentes. É isso que põe Mad Maria como um romance de interpretação do Brasil. Entretanto, mais uma vez, não se pode desconsiderar o lugar de onde se olha, ou seja, do ciclo da borracha amazônica ou dos fantasmagóricos trilhos da estrada de ferro. É da Amazônia que se observa o Brasil. Outras memórias surgem sobre a nacionalidade brasileira a partir desse olhar.
A Madeira-Mamoré, como um dos capítulos do ciclo, possui esse tom globalizante, mas que não se enraíza no centro político brasileiro àquela época, ou seja, no Rio de Janeiro. A comédia do romance de Souza se adensa com a política capitalista de Percival Farquhar, empresário responsável por ganhar a concessão do governo para a construção da ferrovia, em confronto com o governo de Hermes da Fonseca, representado especialmente pelo Ministro da Viação, o J.J. Seabra.
E a diversidade dos investimentos capitalistas de Farquhar pode parecer risível pela quantidade, mas escondem uma triste realidade. Quem dá conta desse assunto em célebre ensaio é Paul Singer (1977), entrando em minúcias da biografia de Farquhar. E acrescenta subsídios fundamentais sobre as razões que levaram Farquhar a investir na Madeira-Mamoré.
Em plena década de 1890, em Nova York, Percival já se entregava a investimentos em bondes elétricos. Depois, no raiar do novo século, investiu na construção da ferrovia Santa Clara-Havana em Cuba.
Singer mostra os passos dados por Farquhar para dominar a cena das concessões dos serviços públicos da cidade do Rio de Janeiro. Primeiramente, em maio de 1904, incorporou a Rio de Janeiro Light & Power Co. em Nova Jersey, sem jamais ter vindo ao Brasil. Rodrigues Alves e o ministro Lauro Müller, com a intervenção do embaixador Thompson, foram os responsáveis por entregar a concessão ao grupo de Farquhar.
Em Mad Maria, Farquhar reconstrói um de seus primeiros contatos com Lauro Müller, ministro da Indústria, em 1902. Esses primeiros contatos resultariam, por exemplo, na estratégia de Mackenzie em comprar o prefeito do Rio, Sr. Passos, para conseguir o monopólio da energia elétrica na Capital Federal em 1907.
Lendo essa súmula biográfica, via Paul Singer (1977), verifica-se a existência de Alexander Mackenzie um dos braços fortes de Percival. E os negócios de Farquhar se
[166] desenvolviam numa espécie de conglomerado americano-canadense, ao lado do sócio Pearson.
Com as primeiras concessões no Rio de Janeiro, o grupo expandiu suas ações para Bahia, apesar do fracasso da Bahia Light (1903). Em 1905, venceu a concessão para as obras do Porto de Belém. Esse fato ocorrera no auge do ciclo da borracha. Em 1907, é que adquiriu a concessão das obras da E.F. Madeira-Mamoré: “[...] Farquhar participou dela apenas de longe, escolhendo os principais responsáveis e participando das decisões mais importantes, enquanto tomava parte em mil outros negócios. [...]” (SINGER, 1977, p. 381). Outro projeto se deslindava para ele: a construção de um sistema ferroviário unificado na América do Sul.
Para ficar só com outros investimentos de Percival Farquhar no Brasil amazônico, já se teria uma lista considerável. Ainda no auge do ciclo, o capitalista deteve os direitos da Companhia de Navegação do Amazonas (1909). Outro lance de grande monta no Norte foi o fato de a Amazon Development Co. e a Amazon Land & Colonization Co. receber uma doação surpreendente em 1911: 60.000 km2 de terras, que hoje constituem o território do Amapá. A promessa de Farquhar era plantar seringueiras por ali, o que não chegou a ocorrer.
Não há, certamente, qualquer ufanismo na descrição pormenorizada dos negócios de Farquhar que Paul Singer apresenta. O professor pretende trazer objetivamente o poder devastador do capital externo em territórios nacionais. Trata-se de uma memória esquecida.
Revitalizando ficcionalmente esse figurão de Wall Street, Márcio Souza reativa essa memória presente na análise histórico-econômica de Singer, demonstrando quem era o vigarista Farquhar em suas tramoias por dentro da política de Estado.
A principal estratégia de Farquhar era levantar fundos nos principais mercados de capitais europeus. Em 1910, convida Francis Cole para dirigir o departamento de terras e colonização do Brasil Railway. Por sinal, o nome soa parecido com a do engenheiro Collier de Mad Maria. Possivelmente, essa seja mais uma estratégia da moderna paródia de Márcio Souza.
Somente em 1912, ocorreu uma campanha maciça pela imprensa contra o Sindicato Farquhar. Entre outros que encabeçaram os protestos, estão Alberto Torres e Alberto Faria. Paul Singer colhe uma observação de Hanson (1937) de que:
[... ] as atividades de Farquhar „deram ímpeto ao movimento em prol da propriedade estatal das ferrovias e apressou a legislação antitruste.
[167] Elas causaram uma eclosão extraordinária de medo da expansão territorial americana no Brasil e incrementou a crescente ansiedade latino-americana a respeito do imperialismo ianque. (SINGER, 1977, p. 385)
Essa memória da política daquela época não se desliga daquela memória do núcleo narrativo pertencente aos trabalhos de construção da Madeira-Mamoré. No final do romance, esses dois núcleos sofrerão uma aproximação evidente.
Em Mad Maria, o narrador situa o escritório do empresário Farquhar na Avenida Central, no Rio de Janeiro. Dali, Farquhar criticava e louvava a situação do país: “[...] Mas não se queixava, a desordem brasileira também era de certo modo providencial e a melhor aliada do seu sucesso empresarial.” (p. 35). Empregava mulheres brasileiras, dando-lhe um salário compatível. E confiava sua secretaria a Adams, um americano legítimo.
O narrador situa historicamente a narrativa, citando, por exemplo, o presidente Hermes da Fonseca. Como contraponto político, surgem as relações entre Farquhar e um dos principais oposicionista do governo Hermes, o jurista Ruy Barbosa. No romance, a amizade de Farquhar e Ruy era profícua. Basta ver como Farquhar procura os conselhos de Ruy. Mas não é difícil entrever os interesses de Farquhar, dando pouca importância à figura de Barbosa: “Ruy olhava para ele com orgulho, Farquhar não se importava de parecer um pateta perante aquele homem minúsculo que parecia um verme falante.” (p. 183)
Não há limites para a sanha do capitalista norte-americano. Para alcançar seus objetivos, seduz a amante do ministro J. J. Seabra, principal inimigo de Ruy. Por tudo isso, é que não se pode descrer de que os interesses comerciais ditam os futuros da política de Estado. As críticas e a indignação de Ruy Barbosa nada mudavam a história das propinas. É por essas e outras críticas da voz narrativa de Mad que se percebe a decadência da figura pública de Ruy.
Farquhar não vê qualquer obstáculo para estender seu monopólio sobre o Brasil. Seus investimentos econômicos não dispensam uma boa jogada política. Por atos políticos, pode-se ver embargada pretensões de um bom negócio: “[...] Não sei quem pode ter criado esta estória de que nós financiamos a campanha da oposição. Podem ter sido os ingleses, ou aquele grupo francês que perdeu a concorrência para a Madeira- Mamoré e nunca nos perdoou.” (p. 90). Dentro do romance de Márcio Souza, o jogo sujo dos norte-americanos, para influenciar o destino de grandes concessões estatais,
[168] tem como ponta de lança de seus interesses no Catete o braço direito do Marechal Hermes: o Coronel Agostinho.
Por outro lado, marcando uma possível resistência às investidas de Farquhar, está o Ministro Seabra, pertencente a uma “geração de citadinos senhores de engenhos”. No Rio de Janeiro, em meio à modernização promovida por Pereira Passos, a belle époque aninhava os personagens. A mulher de Seabra se distraía com “romances franceses” e fumava escondida cigarros americanos. Sob tanta presença norte- americana, a belle époque se transmuda em beautiful time. Como contraponto à passividade de sua mulher, embora não fosse afeito à moda dos salões belle époque, menos ainda aos salões literários, o Ministro Seabra envolvia-se facilmente com amantes. E dissimulava suas traições ou sua prevaricação para Marechal Hermes, que em seu moralismo não tolerava tais condutas em homens públicos.
A formação de Seabra vem de gerações históricas ligadas a capítulos da história do Nordeste brasileiro. Apesar de o narrador dar um caráter contemporâneo à narrativa, os lances com o passado nacional reforçam o caráter globalizante do enredo:
Ele era um reservado, um político profissional que assumira duas vezes o cargo de ministro, um homem realmente rico, com uma fortuna sólida que vinha de gerações de Seabras que haviam tirado toda aquela opulência dos agrestes sertões de Pernambuco, enfrentando indiadas ferozes, negros revoltados, jagunços, holandeses, piratas de nacionalidades diversas, para que um dia o jovem Seabra estudasse direito em Recife, tornando-se ali mesmo professor, pensador republicano exaltado com a Revolução Americana e inimigo dos oligarcas passadistas que teimavam em permanecer no poder [...] (p. 120)
Mesmo em capítulo da história do Brasil antecedentes à Primeira República, exemplos de vendilhões políticos não faltam. A lógica do entreguismo e do locupletamento não se esvai facilmente. A crítica bate o martelo, quando Seabra preocupa-se com um processo volumoso relacionado à construção de escolas no Nordeste:
[...] O processo se referia a um nebuloso contrato com diversas empreiteiras para construção de escolas públicas em três Estados nordestinos. [...] A construção das escolas não significa o aprimoramento do ensino no país [...] significava um determinado número de votos e era esta matemática eleitoral que lhes [os políticos] movia [...] (p. 116)
A crítica à política nacional é atemporal e, muitas vezes, toca a pauta contemporânea, como quando Seabra explica essa concessão para construção de escolas ao idealista presidente Hermes:
[169] [...] Mas não contou que a contratação dos professores seria outro maná para os políticos locais que ocupariam os novos cargos com cabos eleitorais e correligionários que certamente jamais poderiam ensinar crianças se vivessem num país decente que realmente se preocupasse com o futuro. Mas o Brasil era assim e seria difícil, perigoso e pouco lucrativo tentar mudar alguma coisa. (p. 125)
A memória política do país não se altera se comparada com a contemporaneidade. Com os despachos favoráveis, Seabra vislumbrava a eleição para o governo da Bahia.
Mesmo diante dessa amplitude de temas nacionais nos trilhos de Mad Maria, não se pode perder de vista o que o narrador pretende sinalizar como memórias que o tempo insiste em apagar, especialmente no que se sabe sobre a construção da Madeira- Mamoré e suas relações com a política nacional. É certo que, apesar de pretextar um possível esquecimento da ferrovia amazônica, o ministro não esconde os processos para construção da Madeira-Mamoré: “[...] Ninguém mais ouvira falar daquela ferrovia, os jornais tinham silenciado a peso de subornos como o próprio contrato de construção da obra, ele sabia, tinha sido conseguido através de subornos e negociatas.” (p. 118)
No jogo envolvendo a ferrovia amazônica, Seabra não queria cair na armadilha das notícias plantadas por Farquhar. Rapidamente, agiu tirando as concessões do Paraná relativas ao conglomerado de Farquhar, mas apenas anunciando isso ao subalterno Adams Mackenzie. Tais concessões se referiam a ferrovias no Sul. Tudo isso fazia parte de um jogo político-econômico:
[...] Então tudo não passava de manobras sórdidas daqueles americanos. Ele iria mostrar quem estava precisando de ajuda. Os americanos pensam que tinham descoberto uma fenda em sua administração, em seu caráter. Mas não se considerava um homem vulnerável porque nenhuma mulher iria atravessar o seu caminho com caprichos infantis. Ele sabia que os americanos estavam tentando de alguma maneira penetrar no novo governo. [...] (p. 124)
As movimentações políticas no centro do país, pouco ou muito pouco, tocam diretamente nas questões da Madeira-Mamoré. Esse vazio da memória no romance não significa necessariamente uma falha do ficcionista. Na verdade, revela um pouco da memória nacional em relação à omissão política do governo brasileiro diante de problemas ligados à Amazônia.
O romance não vislumbra qualquer possibilidade da força imperial do conglomerado de Farquhar não ter seus interesses atendidos pelo governo. Afinal, a equipe política do governo Hermes não possui qualquer preparação para resistir e vencer o imperialismo de Farquhar. Para tanto, parece suficiente a releitura da discussão
[170] de Seabra com o Coronel Agostinho, em que o Ministro da Viação não sabe o que dizer sobre os interesses nacionais diante do grupo econômico de Farquhar:
– O senhor quer saber de uma verdade crua, coronel? Eu estou cagando solenemente para o fato dos interesses dos gringos serem lesivos ou não aos chamados interesses nacionais. O que eu acho é que esses gringos foram petulantes e tentaram fazer uma grossa sacanagem comigo, e inspirados eu sei exatamente por quem. [...] (p. 217)
Hermes da Fonseca considera o sindicato Farquhar como um dos grupos econômicos mais importantes do país. Marechal Hermes sugere que Seabra deve se dobrar ao Sindicato Farquhar, para não sair desmoralizado do governo.
Diante da vitrine da confeitaria Colombo, Farquhar comemora e rememora os passos de sua última vitória. Relembra o fato de ter nascido em berço de quáqueres. O narrador, diante de Farquhar, não perde o tom político:
[...] No triunfo e na brevidade, na estridente e estranha canção de rodas de madeira e pneus rolando no calçamento, era o que Farquhar amava: dinheiro, vida, o Sindicato Farquhar, o calor, este pedaço de vida no verão. Um vigarista feliz na maré mansa nacional. (p. 245) Ao final do romance, diante das barbaridades encontradas nos gabinetes do poder, o narrador permite pequenas passagens memoriais da polêmica envolvendo a construção da ferrovia do diabo. As atrocidades relativas à construção da Madeira- Mamoré são noticiadas na imprensa carioca, por Alberto Torres no Correio da Manhã. Torres contestava a concorrência pública para construção da ferrovia, além de mostrar a realidade sobre o índice de mortandade entre trabalhadores.
Essas notícias prejudicavam os negócios de Farquhar, principalmente seus projetos na divisa do Paraná e Santa Catarina. Farquhar se consulta com Ruy Barbosa, que declina da causa. Porém, Ruy tem uma solução para o caso: levar Seabra, senadores e deputados para uma visita a Porto Velho. Os homens do governo veriam somente o que interessasse a Farquhar, depois fariam discursos e escreveriam artigos em defesa da Madeira-Mamoré. Ao contrário de Alberto Torres, todos seriam testemunhas oculares. Em pouco tempo, Farquhar monta uma comitiva de mais de 50 pessoas.
É nesse tom que a trama política se inclina para a Madeira-Mamoré. A política brasileira pouca importância dá para a construção da ferrovia. Trata-se apenas de mais um capítulo pequeno dentro das diversas ingerências de grupos econômicos dentro do governo brasileiro. Revela a imagem e o discurso empolado de grupos políticos e econômicos interessados tão somente nos destinos do capital e muito pouco nos destinos nacionais.
[171] Por esse núcleo narrativo, referente à tensão da política de estado com os sabores da política do capital estrangeiro, Márcio Souza adensa a visão de que, por um largo período, o que Brasil produziu em matéria de memória política deve considerar as interferências de forças econômicas e políticas internacionais, porque nossa memória nacional é apenas parte da memória global. E o que se sabe sobre a Amazônia do ciclo da borracha carece de uma vinculação com a ausência da política nacional naquela região do país.