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Ao final do romance, a melancolia toma conta de Matias Albuquerque, após duras tragédias em sua vida: a morte de Rosinha e Mitsi, bem como a iniciativa homicida de Cipriano. Em alguns momentos, a narrativa ataca pela estética da narrativa histórica:

Notícias da crise crescente da borracha, que alcançara no Oriente o montante de setenta mil toneladas, enquanto a nossa caíra para trinta e sete mil, admitindo a exatidão dos cálculos previstos no mês de novembro.

Pânico na praça da capital, pelas numerosas e sucessivas falências, com graves repercussões na sociedade, onde famílias tomavam consciência da ruína iminente. (p. 222)

Após pedidos de Cipriano e do Comendador Flores, Albuquerque decide tocar os destinos do seringal “Fé em Deus”. Os seringueiros decidem lhe ajudar no novo momento de luta.

Permanece no seringal até 1917. Não perseguia os seringueiros que fugiram deixando seus débitos para trás. O discurso narrativo não esconde a comparação numérica entre a borracha amazônica e a asiática; esta superior àquela. Matias Albuquerque libera a pesca, a caça e a agricultura para os seringueiros, em face da escassez de outros gêneros. No entanto, em face desses avanços, Joca, aquele seringueiro que prometeu sair do seringal nem que fosse morto, morria à míngua, tomado pelo beribéri. No capítulo 20, narram-se, em detalhes, os instantes de agonia de Joca, símbolo do grupo de seringueiros.

Aos sessenta anos, Albuquerque mantinha dúvidas sobre como sair da situação terrível do seringal. Parte para Manaus. Assiste à condenação de Cipriano e Zeca. Em

[138] visita ao antigo potentado, Albuquerque recebe a propriedade do “Fé em Deus”. A produção do seringal se diversifica, com as várias roças, a extração de madeiras, a pesca do peixe-boi. Cortavam caucho e bastante balata (outra espécie de látex que despertava interesse no mercado americano).

O seringueiro Paraíba consulta Albuquerque sobre a possibilidade de viver com mulher viúva no seringal. Um outro seringueiro, o Zé da Silva, se meteu com uma “indiazona bonita”. Ocorrem mudanças de hábitos nos antigos seringais, inclusive sob os hábitos alimentares dos seringueiros. Daí, vem uma crítica ao artificialismo de uma época:

Da paradoxal grandeza de uma época em que o artificialismo da existência quotidiana, do patrão ao último aviado, a todos nós obrigava a esquecer qualquer espécie de alimento fresco. Para não comprometer o movimento do armazém. E para não roubar, ao trabalho nas estradas de seringa, um mínimo minuto de vida. Um segundo, ao menos, daquela gana de lucro que iria terminar, no inesperado dia em que a borracha plantada na Ásia reduziria a zero, como valor comercial, o mundo de seringueiras que a natureza fizera nascer, sozinhas, no seio da floresta enorme. (p. 243)

Ao lado disso, torna-se bastante repetitiva a sinalização da decadência por estatísticas:

Um declínio que levaria a produção, naquele ano de 1918, a baixar até o extremo de menos de trinta mil toneladas. Ao passo que a oriental iria alcançar o recorde de duzentas e sessenta mil. E a remanufatuação na América, em constante aperfeiçoamento do processo, chegaria a perto de setenta mil. Mais de duas vezes a tonelagem da nossa seringa extraída na selva. (p. 244)

A gripe espanhola acaba por derrubar novamente o seringal: “Com um atraso de muitos meses, chegava por ali a gripe espanhola, que em pouco dizimava outra grande parte dos seringueiros que me haviam restado.” (p. 244). O narrador localiza temporalmente o momento em que começa a escrever suas memórias: 1926. Relata como se recuperou da gripe espanhola, em tratamento na Beneficência Portuguesa (Manaus). O médico sugeriu que se transferisse para uma montanha da Suíça, por conta de seu quadro de tuberculose.

Em 1921, desembarcou em Paris, pretendendo viver seus últimos dias. Ao contrário dos tempos de Mitsi, encontra uma atmosfera de amargura e ressentimento: “De fato, a guerra tudo transmudara ali.” (p. 248). Logo vem o desejo de retornar ao seringal:

[139] Um desejo surdo de reencontrar, antes de morrer, o recanto de mundo onde vivera, praticamente em solidão, a maior experiência de minha vida. Talvez a mais rica, na sua variedade e ineditismo, de tudo quanto me penetrara a consciência na fase do mais estreito contacto com a civilização. (p. 249)

Sentia que nem mesmo a experiência ao lado de Wickham superava aquela que tivera no seringal. A idade avançada faz Matias ter “uma necessidade subterrânea, mas incontível, de reviver o já vivido.” (p. 250). E volta para “repetir a aventura da existência.”

Depois de 8 anos fora, retorna para o “Fé em Deus”. Reencontra o seringueiro Quiquim, com mulher e seis filhos, um dos quais com nome de Matias. Quinquim tornara-se o gerente do novo seringal, agora denominado “Matias Albuquerque”. O seringueiro aprendera a ler com os padres, os quais tinham uma missão em terras indígenas. Em Manaus, havia notícias desencontradas sobre o destino de Cipriano.

Matias traçava planos de transferir a propriedade do seringal para os novos donos da terra. Pretendia subir o rio. Entrar pela Bolívia, passar pelo Peru, até alcançar o Pacífico. Rumaria para Cingapura, onde lançaria as cinzas de Mitsi. Contudo, muda de planos. Enterra as cinzas de Mitsi, juntamente com sementes de seringueiras, num buraco aberto por suas mãos septuagenárias.

Segundo Flora Sussekind (1984, p. 70), Freud estuda o fenômeno da repetição como ato de compulsão. O sofrimento e as queixas são vivenciadas duas vezes pelo personagem Matias Albuquerque. É um ciclo permanente de recordações que passa inevitavelmente pelo ciclo da borracha. Essa compulsão do narrador pela recordação do papel que experimentou nos enlouquecidos anos da economia da borracha empurram ainda mais a discussão para uma linha psicológica, se é que poderia existir essa dimensão em Matias. Seu objetivismo, apesar da narrativa em primeira pessoa, parece produzir uma autonarrativa naturalista.

Matias Albuquerque mostra esse lado recalcado de um ciclo inacabado ou que promove ruínas a todo momento, principalmente após da conclusão do seu período áureo. Antes de Matias, em Belém do Grão-Pará, a família Alcântara possui esse recalque em relação às vantagens obtidas ao longo do período ascensional da borracha. Depois, a compulsão pela repetição volta, mas a realidade social não permite a realização de qualquer das benesses do antigo período, o que mostra a ascensão do suburbano. Pela memória afetiva, Matias Albuquerque vive uma compulsão por uma

[140] experiência que defende como das mais ricas de sua vida, apesar de todo o martírio e o drama humano.