Carlos Barba Solano, Anete Brito Leal Ivo, Enrique Valencia Lomelí and Alicia Ziccardi
6. Towards a New Generation of Studies
As primeiras universidades surgiram na Itália, com a Escola de Medicina de Salerno, e a Escola de Direito, em Bolonha. Todas elas tinham caráter religioso, como foi o caso da Universidade de Paris, que Roberto de Sorbonne criou, em 1200.
O surgimento das universidades na Espanha remete à Idade Média, quando o Rei Alfonso X182, o “Sábio”, determinou entre as leis que estabeleciam o papel da universidade na sociedade, que esta deveria, por obrigatoriedade, suprir os estudantes com bons livros.
Na Espanha, as primeiras universidades apareceram no ano de 1212, em Palencia, fundada pelo bispo Tello de Meneses, embora esta tivesse curta duração já que em suas proximidades havia a Universidade de Salamanca, criada no ano de 1215, e a de Valladolid, instituída em 1560. Os fundos bibliográficos foram aumentando a partir do século XVII, por meio da incorporação das bibliotecas dos colégios e, principalmente, dos acervos dos conventos suprimidos no século XIX.
Durante o apogeu cultural e econômico espanhol conhecido como “Século de Ouro”, que compreende o século XVI e o XVII, os reis católicos Fernando II de Aragão e Isabel de Castela unificaram os reinos ibéricos em 1479. A partir daí, a Espanha alcançou prestígio internacional e influência cultural em toda a Europa, que culminou com a tomada de Granada e o desenvolvimento de grandes conquistas, quando, em 1492, o navegador Cristovão Colombo chegou à América.
No sentido de acompanhar esta evolução, as Universidades de Salamanca e de Alcalá de Henares, passaram a ter prestígio internacional, e assim beneficiaram-se de ricas bibliotecas universitárias, e de normas detalhadas sobre o seu uso. Esta última universidade iria se desvincular e criar a Universidade Complutense de Madri, no ano de 1499, pelo Cardeal Cisneros.
A cidade de Sevilha que iria receber as riquezas das colônias da América, Madri sede da corte, e Toledo em Castilla La Mancha, onde foi criada a “Escola de Tradutores”, responsável por traduzir trabalhos acadêmicos e filosóficos originalmente produzidos em árabe e hebraico para o latim, também, criaram suas universidades. Da mesma forma, Valência e Zaragoza se tornaram importantes neste período, tendo criado suas respectivas universidades (FERNÁNDEZ- FERNÁNDEZ, 1990).
O sucesso das universidades estava no desejo de seus membros de se aprofundar nos problemas para alcançar melhor formação. Esta formação se refletiria no conteúdo das bibliotecas, cujos livros seriam a principal ferramenta de trabalho.
Após um período de decadência na Espanha, iniciado na metade do século XVII, ilustrado pela perda de independência e autonomia das universidades, o absenteísmo dos alunos e os métodos de estudos ultrapassados, o rei Carlos III levou adiante diversas reformas nos contextos educacional e universitário, que culminaram com a expulsão dos jesuítas que controlavam diversos centros docentes.
182
Alfonso X, o Sábio ou o Astrólogo (Toledo, 23 de Novembro de 1221 — Sevilha, 4 de Abril de 1284), foi rei de Castela e Leão de 1252 a 1284. Alfonso X fomentou a atividade cultural a diversos níveis. Realizou a primeira reforma ortográfica do castelhano, idioma que adotou como oficial em detrimento do latim. Sua estátua encontra-se na escadaria da entrada da Biblioteca Nacional da Espanha em Madri. Disponível em:< http://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_X_de_Leão_e_Castela>. Acesso em: 02 mai. 2013.
Logo em seguida, com a Guerra da Independência, as “Cortes de Cadiz”183 e a elaboração da Constituição de 1812, as universidades passaram por um processo de renovação quando, em 1857, as Cortes aprovaram a Lei de Instrução Pública em que estabelecia uma Universidade Central em Madri, e nove universidades nos distritos (Barcelona, Granada, Oviedo, Salamanca, Santiago de Compostela, Sevilha, Valência, Valladolid e Zaragoza).
Este sistema universitário pretendia criar um mapa acadêmico regido por critérios diferenciados ocasionados pelas peculiaridades históricas para superar as concepções pedagógicas arcaicas e difundir conhecimentos mais úteis para as novas elites (GARCIA-LÓPEZ; LÓPEZ- ÁLVAREZ, 2005).
A importância deste período se deve ao ano seguinte, 1858, quando foram instituídas a Junta Superior Diretiva de Arquivos e Bibliotecas do Reino e o Corpo Facultativo de Arquivistas e Bibliotecários por meio de um decreto real. Esses profissionais ficaram responsáveis por colocar em ordem o caos do tesouro bibliográfico procedente da desamortização184 e, também, pela gestão das bibliotecas universitárias estabelecidas (FERNÁNDEZ-FERNÁNDEZ, 1990).
Em 1901, por meio de um decreto real, foram regulamentadas as bibliotecas públicas do Estado, incluindo as universitárias, em que se criava uma junta composta pelo Reitor, Diretor de Biblioteca e Decano da Faculdade, que ficariam responsáveis por decidir em matéria de aquisições, empréstimos, publicações de catálogos etc. (FERNÁNDEZ-FERNÁNDEZ, 1990).
Em janeiro de 1932, um decreto dedicado, exclusivamente, às bibliotecas universitárias estabelece que todos os acervos existentes na universidade seriam de propriedade do Estado. E, com isso, uma Junta do Governo, da qual dependia o Diretor da Biblioteca, iria decidir sobre sua utilização e o uso mais conveniente para fins científicos. Com a Guerra Civil Espanhola (1936- 1939), porém muitas bibliotecas tiveram os seus acervos destruídos.
Já nos anos 60 do século passado, depois de uma lenta e profunda transformação social e econômica ocasionada pelo pós-guerra, o aumento no nível de vida e, consequentemente, o crescimento da população proporcionou um aumento no número de alunos que ingressaram nas universidades.
183
As Cortes de Cádiz era o nome como era conhecida a assembleia política, da qual faziam parte representantes de diferentes facções ideológicas provenientes de todas as províncias espanholas, que se reuniram na cidade de Cádiz, na Andaluzia com a finalidade de estabelecer uma constituição e abolir a monarquia absoluta. (CORTES DE CÁDIZ. 2013). Disponível em:<http://www.infopedia.pt/$cortes-de-cadiz>. Acesso em: 3 mai. 2013.
184
A desamortização na Espanha foi um longo processo histórico-econômico iniciado no final do século XVIII por Dom Manuel de Godoy (1798) e foi concluído já entrando o século XX (16 de Dezembro de 1924). Consistia em pôr no mercado, mediante leilão público, as terras e bens não produtivos em poder das chamadas “mãos-mortas”, quase sempre da Igreja Católica ou das ordens religiosas e territórios nobiliários que estavam sob a proteção especial do monarca, que os acumularam como habituais beneficiárias de doações e testamentos. (DESAMORTIZAÇÃO NA ESPANHA, 2013). Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/Desamortiza%C3%A7%C3%A3o_na_Espanha>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Assim, em 1970, a Lei Geral da Educação e Financiamento da Reforma Educativa considerou a modernização do ensino universitário, incluindo o estabelecimento da sua autonomia. As bibliotecas, contudo, ficaram esquecidas neste contexto. Isso fez com que houvesse o incremento de pessoal docente para atender aos diversos cursos criados, sem que houvesse a contratação e a qualificação de bibliotecários para atender a essa nova demanda (FERNÁNDEZ- FERNÁNDEZ, 1990).
No entorno das bibliotecas universitárias espanholas, não se pode falar de cooperação ou consórcios bibliotecários até os anos 1980. Até essa época, as bibliotecas universitárias eram centros totalmente isolados, com serviços cujo funcionamento e organização variavam de acordo com cada instituição e assim não apresentava uma mentalidade de cooperação entre essas bibliotecas. (PÉREZ-ARRANZ, 2008, p. 6).
Já no final do século passado, as bibliotecas universitárias espanholas passaram por uma revolução, motivadas pela introdução de novas matérias de estudo e sua orientação à pesquisa científica, refletindo na ampliação dos horários, na melhoria dos serviços e na inclusão das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).
Desta forma, o avanço das bibliotecas universitárias (BU) estava condicionado pelo desenvolvimento da sociedade da informação em meio a uma economia globalizada, onde as TIC possuíam um papel determinante, como indicam González-Guitián e Molina-Piñeiro (2008).
Assim, começaram a discussão no final da década de 1980 para criar uma rede de bibliotecas universitárias na Espanha que fosse o pilar para as bibliotecas universitárias modernas e eficazes. Em 1988, foi constituída a Red de Bibliotecas Universitarias (REBIUN), que pretendia desenvolver as bibliotecas para servir de apoio às universidades a fim de alcançar uma educação superior de qualidade (UNIVERSIA, 2009). Esse novo modelo de biblioteca universitária é considerado um centro, com horário amplo de funcionamento, recursos disponíveis para todo tipo de aprendizagem, que requer uma aposta tecnológica em seus serviços, que foi denominado como Centro de Recursos para a Aprendizagem e a Investigação ou CRAI.
Ainda neste contexto de consórcios ou redes de bibliotecas, Pérez-Arranz (2008) observou que o Congresso da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA), celebrado no ano de 1993 em Barcelona, indicou em suas conclusões a necessidade de se criar um fórum para discussão que compreendesse as bibliotecas universitárias espanholas a fim de possibilitar refletir sobre a cooperação e a coordenação entre os centros universitários.
Desta maneira, tomando como ponto de partida a necessidade de automatizar os sistemas da gestão, as bibliotecas universitárias espanholas estabeleceram alianças dependendo dos seus interesses e objetivos. Assim, foram surgindo planos de cooperação entre as bibliotecas
universitárias de cada região e, consequentemente, foram criados vários consórcios de bibliotecas universitárias. A tabela 9 expressa os consórcios de bibliotecas universitárias criados na Espanha.
Tabela 9– Lista de consórcios de bibliotecas universitárias espanholas
Consórcio Ano de
Criação
Qtd de Bibliotecas Membros
CBUC185 Consórcio de Bibliotecas Universitárias da Catalunha 1996 20186 BUCLE187 Consórcio de Bibliotecas de Castilla León 1996 04
MADROÑO188 Madroño de Madrid 1999 09189
CBUG190 Consórcio de Bibliotecas Universitárias da Galicia 2001 03 CBUA191 Consórcio de Bibliotecas Universitárias da Andalucía 2001 10 Fonte: Adaptado, pelo autor, de Pérez-Arranz (2008).
No contexto histórico educacional, em 1999, tendo a Europa como berço do modelo de universidade ocidental, e os europeus, ciosos da criação do processo de autonomia das universidades como instituição e da rica diversidade que as caracterizava entre os países do Velho Continente, os ministros da educação dos 29 países que, à época, pertenciam à União Europeia estabeleceram a “Declaração de Bolonha” que concretizava o “Espaço Europeu de Ensino Superior”, (EEES) que preconizava pela empregabilidade e a mobilidade dos cidadãos europeus e o aumento da competitividade internacional da educação superior europeia (GÓMEZ; LÓPEZ; ROVIRA, 2003; BIANCHETTI, 2010).
Esse espaço nasceu em 1998, mediante uma reunião em Paris para celebrar o aniversário da “Université de Sorbonne”, onde foi firmada a “Carta Magna das Universidades Europeias” pelos respectivos ministros da educação superior da França, Alemanha, Itália e Reino Unido.
Embora alguns criticassem o EEES como um processo permeado por “luzes e sombras”, formado por um discurso inovador, muitos reclamavam das regras vindas de cima para baixo sem que houvesse a participação dos professores neste processo (BIANCHETTI, 2010).
Assim, Ángel Marzal (2008) destaca que, em virtude da pressão para o calendário de implantação do EEES, que exigia um centro de recursos baseado no modelo dos Learning
Resources Centres (LRC) britânicos, esse processo foi dirigido na Espanha pela REBIUN (Red de
185
CBUC – Sítio Web – Disponível em:<http://www.cbuc.cat/>. Acesso em: 17 jul. 2013.
186
O Consórcio CBUC da Catalunha têm entre seus membros o Museu Nacional de Arte da Catalunha, o Departamento de Cultura do Governo da Catalunha, o Sistema de Bibliotecas Públicas e as Bibliotecas de Universidades Públicas e Privadas desta região espanhola.
187
BUCLE – Sítio Web - Disponível em:<http://www.ubu.es/bucle/en>. Acesso em: 17 jul. 2013.
188
MADROÑO – Sítio Web - Disponível em:<http://www.consorciomadrono.es/>. Acesso em: 17 jul. 2013.
189
O Consórcio Madroño tem entre seus membros associados a Biblioteca Nacional de España.
190
CBUG ou BUGALICIA – Sítio Web - Disponível em:<http://www.bugalicia.org/>. Acesso em: 17 jul. 2013.
191
Bibliotecas Universitarias) que tinha representação na Conferência de Reitores das Universidades
Espanholas (Conferencia de Rectores de las Universidades de España – CRUE). Desta forma, em 2003, a REBIUN aprovou o Planejamento Estratégico para o período de 2003-2006, cuja primeira linha estratégica consistia em “impulsionar a construção de um novo modelo de biblioteca universitária, concebida como parte ativa e essencial de um sistema de recursos para a aprendizagem e a investigação”, que foi logo depois discutido em Jornadas CRAI, nos anos seguintes (ÁNGEL-MARZAL, 2008, p. 86).
A estatística, proveniente de dados colhidos pela REBIUN em 2012, mostra pelo total de docentes (indicador Rebiun 1.2.), estudantes de graduação (indicador Rebiun 1.1.1.) e pós- graduação (indicador Rebiun 1.1.2.) que estão presentes nas 25 maiores universidades públicas espanholas a realidade nestas instituições, como pode ser observado na tabela 10. Para melhor visualizar a situação daquelas que participaram deste estudo, incluiu-se as últimas duas posições, a saber, 21º e 25º colocação no ranking geral.
Tabela 10– Ranking de ensino das universidades públicas espanholas
Ranking SIGLA Universidade EstudantesGraduação Ind. Rebiun 1.1.1. Estudantes de pósgrad. Ind. Rebiun 1.1.2. Total de docentes Ind. Rebiun 1.2.
1 UCM Univ. Complutense 61.427 12.099 7.034
2 EHU País Vasco-EHU 40.708 5.951 5.676
3 UB Barcelona 46.920 20.330 5.306
4 US Sevilha 58.112 4.872 4.476
5 UZ Zaragoza 31.885 4.031 4.002
6 UAB Aut. Barcelona 29.018 3.578 3.615
7 UGR Granada 54.220 4.738 3.603
8 UV Valencia 45.283 8.156 3.598
9 UPM Politecnica Madrid 36.572 5.730 3.433
10 UAM Autônoma Madrid 24.433 2.390 2.854
11 UPV Polit. Valencia 31.610 1.692 2.719
12 UPC Polit. Catalunya 29.407 5.413 2.634
13 UA Alicante 27.576 2.998 2.624
14 UM Murcia 30.991 4.135 2.398
15 USAL Salamanca 27.755 2.352 2.263
16 USC Santiago de Compostela 24.722 4.405 2.262
17 UCLM Castilla-La Mancha 28.115 1.828 2.203
18 UVA Valladolid 24.724 991 2.141
19 UEX Extremadura 22.476 2.435 1.904
20 UCA Cádiz 18.379 1.615 1.885
21 UAH Alcalá de Henares 18.026 3.284 1.808
25 UC3M Carlos III 15.006 2.198 1.607
Neste cenário europeu de ensino superior, com o surgimento desse novo modelo de biblioteca universitária, o Centro de Recursos para a Aprendizagem e a Investigação (CRAI), é importante definir o que é considerado como biblioteca universitária.