Kassim Kulindwa 1
11. Challenges for Future Research
No contexto atual das bibliotecas universitárias, as mudanças no perfil dos bibliotecários e a intensa crise econômica vivida na Espanha têm reflexo no futuro das atividades das bibliotecas universitárias (VARELA-PRADO; BAIGET, 2012). Os autores destacam diversos fatores causadores desta mudança no perfil do bibliotecário que trabalha em universidades espanholas: a demanda constante dos usuários por Internet; a transição do suporte impresso para o digital; a crescente adoção da internet móvel pelos usuários destes espaços; as redes sociais e outras tecnologias. Todos eles obrigam a diversificar o seu trabalho em diversas facetas, tornando-se com isso um bibliotecário multifacetado.
Em rastreamento realizado no planejamento estratégico das bibliotecas universitárias espanholas, em agosto de 2008, R. Pacios (2011) determinou uma série de temas recorrentes ou comuns, todos eles observados em uma mesma linha presente no II Plan Estratégico de Rebiun (2007/2010) como na sequência.
- Colocar em funcionamento e desenvolver os CRAI, tendo em conta que assistiam naquele momento a mudanças no modelo docente ante a adaptação ao EEES que culminaria em 2010.
- Convergência dos serviços da biblioteca e TIC, dada a necessidade de desenhar modelos de cooperação de ambos os serviços para melhorar a promoção (as ferramentas da Web 2.0 entrariam oferecendo subsídios aqui), gestão e desenvolvimento da educação superior e a pesquisa universitária.
- Desenvolvimento de habilidades de informação (ALFIN) nos estudantes e pesquisadores, intensificadas pela complexidade da informação e do entorno eletrônico, sugerindo como ferramentas para a formação do usuário as plataformas da Web 2.0, blogs, wikis, redes sociais.
- Gestão dos repositórios institucionais como alternativa sólida para difundir o conhecimento produzido na universidade.
- Aumento da visibilidade da biblioteca - vide a seção sobre planejamento e avaliação das redes sociais neste trabalho - o indicador visibilidade proposto por González Fernández- Villavivencio et al. (2013).
Já no campo econômico, com esta política austera pela qual passa o Estado Espanhol, isso influencia no corte de investimentos na educação, sobretudo no apoio aos programas de pesquisa científica desenvolvida pela academia e, também, o crescimento e cooperação entre as universidades, fazendo com que as bibliotecas diminuam os investimentos em aquisição de livros e
manutenção da assinatura de bases de dados, bem como a atualização de programas de gestão do acervo.
Gómez Hernandez (2013) destaca que a “bolha cultural” espanhola influenciou diretamente o setor onde as bibliotecas são dos elementos mais fracos desta política de cortes nos investimentos públicos. Apesar disso, Reetu Child (2012) ressalta que, em tempos de recessão econômica, as pessoas no Reino Unido procuravam mais as bibliotecas para buscar oportunidade de empregos, se atualizarem e participarem de treinamentos oferecidos por elas. Neste sentido, Gómez Hernandez (2013) observou que as bibliotecas espanholas buscam promover o maior número possível de atividades culturais, e manter, mesmo em pequeno formato, seus principais programas, empenhando-se em melhorar sua utilidade social, buscando também maximizar a eficiência e economia nos processos.
Quanto ao aspecto do aproveitamento do uso das TIC e dos conteúdos digitais, Gómez Hernandez (2013) ressalta que as bibliotecas espanholas devem canalizar os esforços na produção de conteúdo digital de interesse para os usuários espanhóis que estão conectados por meio de dispositivos móveis, procurando adaptar as interfaces de acesso e busca à informação presentes na biblioteca, como também melhorar o seu ambiente físico, permitindo o carregamento destes dispositivos, o acesso gratuito à Internet por meio de redes sem fio e ainda disponibilizando móveis confortáveis que permitam a coesão social e comunitária.
Assim, Varela-Prado e Baiget (2012) observaram que esta realidade demonstra um grau de incerteza da comunidade de profissionais bibliotecários sobre a natureza do seu trabalho e a direção futura dos serviços bibliotecários e de informação. Essa crise de identidade faz com que o bibliotecário universitário espanhol assuma posição empreendedora, que ofereça serviços com maior visibilidade perante a comunidade. Isso pode ser reforçado por meio de Ross e Sennyey (2008), que reconheciam no ambiente competitivo pelo qual passam as BU, a necessidade de experimentar novos modelos de serviço, fluxo de trabalho e redesenho do espaço físico.
Do ponto de vista da biblioteca universitária e o CRAI na Espanha, Varela-Prado e Baiget (2012) ressaltam que a conjuntura atual mostra que os cortes de investimento na área repercutem na paralisação de projetos, na remodelação de espaços, na aquisição de recursos informacionais e nas condições de trabalho. Isso afeta na interlocução dos bibliotecários e pesquisadores que buscavam nas bibliotecas universitárias material de apoio para o desenvolvimento das suas investigações, onde isso passa a ser realizado, por meio de busca na Internet, muitas vezes, sem o apoio de um profissional bibliotecário, tendência esta vivenciada, também, pelos estudantes universitários, que passam a usar a biblioteca apenas como espaço de sala de estudo, obrigando os bibliotecários a reorganizar os espaços de leitura e a diminuir cada vez mais o acervo físico em detrimento do digital, mais solicitado pelos estudantes que utilizam o próprio computador portátil.
Neste sentido, para abordar estas questões estratégicas ante a crise de identidade pela qual passam as bibliotecas universitárias e os bibliotecários, Sennyey, Ross e Mills (2009) consideraram três significados relacionados com a palavra “biblioteca”: a) biblioteca como espaço; b) biblioteca relacionada com coleção de livros; c) biblioteca relacionada com o profissional bibliotecário. Com isso, as implicações decorrentes do planejamento observando estes três significados, mostram que os gestores devem se preocupar, primeiro: em aperfeiçoar o espaço físico como uma sala de estudo e centro de serviços ao estudante; segundo: focar na construção de uma coleção digital e permitir o acesso a mesma; terceiro: fazer o reposicionamento dos profissionais bibliotecários para o fornecimento de serviços dentro deste contexto digital que envolvem a requisição de um know-how tecnológico para fazer acesso, curadoria de conteúdo digital, manipulação e uso da informação digital.
Ainda sob a óptica prospectiva, estudo desenvolvido pelo Arts Council England (2013) procura compreender inovações e tendências relacionadas com o futuro das bibliotecas e como estas podem ser desenvolvidas. Além disso, o estudo aborda a opinião de especialistas de assuntos que envolvem as bibliotecas para discutir sobre o impacto destas mudanças, bem como a visão de usuários de bibliotecas. A conclusão do estudo destaca quatro prioridades para dar sustentação e desenvolver os serviços voltados para as bibliotecas no século XXI, que compreendem: 1) inserir a biblioteca como centro da comunidade; 2) fazer o máximo proveito das tecnologias digitais e das mídias criadoras de conhecimento (e aqui entrariam, entre outras ferramentas, as redes sociais); 3) assegurar que as bibliotecas são resistentes às mudanças e sustentáveis; 4) fornecer conhecimentos adequados com esta nova realidade aos profissionais que trabalham em bibliotecas. Assim, estas prioridades permitirão aos usuários de bibliotecas usufruírem dos espaços físicos e virtuais oferecidos por elas, para criar conteúdos, estabelecer conversações e usar das tecnologias em benefício próprio, para a sua comunidade ou ainda para o seu negócio.
Desta forma, as bibliotecas universitárias espanholas estão procurando direcionar os seus serviços para aproveitar o potencial das TIC, incorporando o uso das redes sociais para interagir com os usuários e adaptar-se a uma nova postura orientada na busca da qualidade e excelência internacional.
Síntese da seção
Ao observarmos os antecedentes históricos das bibliotecas universitárias na Espanha é possível destacar o isolamento que estas bibliotecas possuíam em relação às outras universidades onde a cooperação interbibliotecária não existia até início do anos 1980 (FERNÁNDEZ- FERNÁNDEZ, 1990; GARCIA-LÓPEZ; LÓPEZ-ÁLVAREZ, 2005; PÉREZ-ARRANZ, 2008, p.
6). A revolução ocorrida durante este período fez com que fosse criada a REBIUN para fazer frente ao novo modelo estabelecido pelo EEES, no qual a biblioteca seria um centro de aprendizagem com recursos tecnológicos disponíveis para apoiar o ensino e a investigação dos docentes e estudantes universitários. Este novo modelo, conhecido como Centro de Recursos para Aprendizagem e a Investigação – CRAI iria oferecer diversas inovações em seus serviços no ambiente físico e virtual.
Ainda neste contexto universitário, foi possível observar, ao longo deste capítulo, o emprego de conteúdos digitais nas atividades de formação dos usuários que permitiriam uma aprendizagem colaborativa, resultando na necessidade de as bibliotecas espanholas se adaptarem a esta realidade, empregando com isso ferramentas 2.0 para que a comunicação científica com os usuários fosse incrementada. Neste sentido, o projeto CI2 sugere a incorporação de competências informáticas e informacionais para atender ao modelo do EEES.
Por último, a recessão econômica espanhola fez com que as bibliotecas universitárias procurassem se reinventar, reposicionando os bibliotecários para atender às necessidades dos usuários no contexto digital.
Isto posto, pode-se destacar como contribuições deste capítulo sobre biblioteca universitária no contexto espanhol o que está seguinte.
- A definição da missão, objetivos e serviços oferecidos pelos CRAI. (DOMÍNGUEZ AROCA, 2005; MACKEE DE MAURIAL, 2005; ANGEL MARZAL, 2008).
- A contribuição do modelo CI2 para o desenvolvimento das competências informáticas e informacionais observando o uso das ferramentas 2.0 neste contexto. (CRUE-TIC; REBIUN, 2012).
- As convergências e divergências dos CRAI espanhóis e as bibliotecas universitárias brasileiras. (CASTRO FILHO; VERGUEIRO, 2011).
- Uma perspectiva das bibliotecas universitárias na Espanha destacando questões relacionadas com medidas para enfrentar a recessão econômica e dar sustentação para atender ao modelo EEES. (SENNYEY; ROSS; MILLS, 2009; R. PACIOS, 2011; REETU CHILD, 2012; VARELA-PRADO; BAIGET, 2012; GÓMEZ HERNANDEZ, 2013).
Dessa forma, para entender o contexto no qual está apoiado o referencial teórico- metodológico desta pesquisa, o próximo capítulo relata os modelos gerais de abordagem das redes sociais nas organizações, os modelos de biblioteca universitária 2.0, e o modelo de adoção das redes sociais em BU para descrever como se desenvolveu a metodologia da pesquisa.