Um dos primeiros pedidos dos encantados, quando se manifestam na vida do futuro pai ou mãe de santo, é que coloquem uma “mesinha” dentro de casa, local onde devem efetuar rezas, obrigações e curas. Os trabalhos de mesa são realizados pelos encantados da linha de cura e englobam benzimentos, atos considerados simples e a cura de doenças tidas como mais sérias e que exigem tratamento longo (como indicarei no capítulo quatro). Nestas curas, muitos pais e mães de santo utilizam o maracá - tido pela literatura como uma referência direta à Pajelança, encontrada em outras regiões do Maranhão (Mota, 2009; Pacheco, 2004; Da Matta, Prado e Mourão Sá, 1975) - assim como recorrem aos seus santos de proteção e aos encantados.
Nas narrativas de pais e mães de santo, citar a mesa é falar do início das suas carreiras, enfatizando que se “começou pequenininho”, ou seja, com uma infraestrutura reduzida, normalmente com imagens de santos recebidas de herança dos familiares e irmãos de santo. Pedro, por exemplo, conta que os primeiros trabalhos que realizou foram na “mesinha” que
134 colocou após a morte do avô. Nela havia penas dois santos herdados de Seu Gili e um pires para acender velas.
É a partir dos trabalhos realizados nas “mesinhas” que muitos pais e mães de santo ficaram afamados nas localidades onde residiam e passaram a ser procurados para atendimentos. Suas casas se tornaram espaço de cura e tratamento, funcionando como uma “fonte discursiva” (Taussig, 1993, p. 325) do poder que desenvolviam trabalhando com as suas entidades. Nos diferentes relatos de casos de cura nas “mesinhas” no início de suas carreiras como pais de santo, a casa é o espaço no qual de opera uma transformação na condição dos doentes. Eles chegaram carregados em redes, desacordados, amarrados e violentos. Da casa, a partir do trabalho dos curadores e das entidades, saíram caminhando e saudáveis. Nesses relatos também é possível perceber que alguns tratamentos duram poucos minutos, enquanto outros envolvem maior dispêndio de tempo, quando o “cliente” pode permanecer visitando a casa do pai de santo durante meses ou mesmo residindo no local.
Além dos altares e das mesinhas de cura, encantados e santos podem receber um quarto dentro das casas das pessoas. Eles podem ser pequenos e ter espaço para abrigar a mesa, os santos e o devoto (quando servem para rezas e benzimentos); podem também ser os maiores da casa, quando se destinam à realização de obrigações aos encantados.
Como mencionei no capítulo anterior, Pedro destinou dois quartos, da casa onde vive, para as suas entidades. Chica Baiana é dona do quarto que fica na entrada da casa e Dona Maria Padilha trabalha no quarto dos fundos, que é acessado pela cozinha. A imagem que segue é uma proposta de planta130 da casa do pai de santo, onde é possível ver a disposição dos quartos (internos). Em setembro de 2011 a casa foi reformada e dois quartos novos foram construídos no fundo do terreno, desocupando os velhos para outras funções.
Figura 05: Casa de Pedro
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Nessa imagem e nas seguintes meu intuito é meramente ilustrativo. Busquei manter alguma proporcionalidade no desenho, mas não existe plena fidelidade às dimensões dos espaços.
135 O quarto de Chica Baiana tem um altar central. Nele, abaixo de uma imagem de Jesus Cristo, estão dispostos os santos, algumas flores, candelabros com velas brancas, vidros de perfume, uma imagem de Buda, uma sineta, vez ou outra alguma fotografia, o cachimbo de Chica Baiana e um prato com uma mistura que leva azeite de dendê. Ao pé do altar os potes de margarina com o resíduo do fumo do cachimbo e alguns potes de cerâmica. As paredes têm quadros de santos e anjos, flores, bibelôs de porcelana (casinhas, cogumelos, anjos, animais), quadros com fotografias e a reportagem da National Geographic (2010), onde consta uma entrevista cedida pela encantada. Todas as paredes são decoradas e todos os cantos do quarto recebem pequenos altares e locais para acender velas, além do desenho de pontos que remetem a entidades específicas. Em frente ao altar estão dispostas duas cadeiras, uma para Chica e outra para o “cliente”. No quarto de santo são realizadas consultas nas sessões das segundas-feiras à noite e outros trabalhos e atendimentos.
O quarto de Maria Padilha fica na parte de trás da casa, depois de se passar pela sala e pela cozinha. Os objetos de Padilha ficam no chão ou em bancos pequenos: garrafas de bebida, estátuas de pombagira, tridentes e exus. Tecidos com imagens de rostos femininos, recebidos como presente de um “cliente”, estão dispostos nas paredes. O colorido do quarto de Chica dá lugar ao vermelho e preto, cores associadas à pombagira. Dona Maria Padilha costuma atender depois dos outros encantados do pai de santo, porque prefere o horário mais próximo da meia noite e não gosta de encontrar crianças na casa ou ouvir os animais no pátio. Nesse sentido, as duas entidades estão separadas no espaço da casa, cada uma possui seu território. Distanciam-se também no tempo, pois têm preferências diferentes em relação aos horários de atendimento. Esses dois afastamentos são sintomas de outras várias divergências, relacionadas aos seus gostos particulares e a forma com que entendem os procedimentos e encaminhamentos no atendimento aos clientes131.
Nos dias de consulta, os “clientes” que chegam à casa de Pedro aguardam o atendimento na garagem, na entrada da casa, ou na sala, assistindo televisão com sua família. Enquanto esperam podem, portanto, assistir a novela com as crianças, ver a irmã do pai de santo consolando algum “cliente” nervoso, circular pela casa para usar o banheiro, pedir copos de água, telefonar para outras pessoas demandando que tragam dinheiro para um trabalho, ajudar alguma criança a fazer tarefa de escola, indagar sobre as fotos da parede e
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Entre diversas rivalidades, as duas entidades se desentenderam no atendimento a uma pessoa da diretoria da casa de Pedro. Depois disso, Chica Baiana proibiu a vinda de Maria Padilha, durante meses. Fora esse desentendimento mais sério, as duas se provocam com apelidos e presentes, como indico no próximo capítulo.
136 sobre a vida do pai de santo. Ao ingressarem na casa, os “clientes” se achegam e pesquisam sobre a intimidade e a carreira do pai de santo, sobre seus trabalhos anteriores e sua eficácia.
Os trabalhos, curas e atendimentos realizados dentro das casas ilustram como a separação entre espaços sagrados e espaços profanos não opera como uma divisão absoluta. Isto porque os ambientes da casa são permeáveis132 aos acontecimentos nos diferentes cômodos. Sons, cheiros, animais e também as crianças, ultrapassam paredes e portas. Em uma arriada para Preto Velho, realizada em um dos quartos da casa de Pedro, as doutrinas cantadas no âmbito do ritual se misturavam a um programa musical de calouros chamado “Ídolos”, que era assistido, pelas crianças da família, na sala. Se as casas também se constituem como moradias passageiras aos encantados - que estão em constante movimentação entre outras casas e também entre este plano dos “pecadores” e a Encantaria - a permeabilidade dos espaços me parece os retirar de uma existência puramente sobrenatural, porque eles mesmos compartilham do doméstico quando são recebidos por seus cavalos nas casas.
Além de receberem espaço dentro das casas, os santos e os encantados não são esquecidos nos momentos de reforma. Uma das filhas de santo de Luiza, quando transformou a casa de taipa em uma construção de alvenaria, construiu, ao lado da cozinha, um pequeno quarto para abrigar seus santos, onde realizava rezas diárias. Dona Chica Baiana e Maria Padilha pediram a Pedro quartos novos, que, como mostrei na imagem acima, foram construídos no fundo do terreno onde morava o pai de santo. Cada um deles foi feito a partir dos desejos de cada uma das encantadas – Chica queria com forro e com janelas, Maria queria sem forro e apenas com uma pequena basculante.
Sugiro que os altares, mesas e quartos funcionam como signos de uma relação íntima entre santos, entidades e pessoas, que se constitui efetivamente no âmbito dos serviços, funções e rotinas da casa. Os encantados ocupam o espaço doméstico não apenas com sua presença, mas também com suas fotos na parede – entre os familiares –, com suas muitas roupas de festa que ocupam caixas e guarda-roupas, com louças particulares, mas guardadas nos espaços de uso comum nas cozinhas. É a partir dos encantados que a casa se abre aos desconhecidos que procuram curas, trabalhos e cuidados dos pais e mães de santo. Depois de atender em “mesinhas” e quartos, as entidades pedem aos seus “médiuns”, que construam as tendas.
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“Colocar barracão”
“Colocar barracão” é construir uma tenda, momento rememorado constantemente pelos pais e mães de santo de Codó que já o fizeram e projeção constante daqueles que ainda não possuem seu espaço ritual. Como mencionei no capítulo anterior, erigir um salão não é uma decisão pessoal ou particular, mas um desígnio dos encantados (tal como o trabalho com as “mesinhas”). Também é um assunto compartilhado com a família e com os amigos, que são fundamentais na construção e na manutenção desses espaços.
A construção de uma tenda transcende o ato de edificação de um espaço para trabalhos, rezas e festejos. Com ela, se institui um novo status: o “brincante” que possui uma tenda se torna um pai ou mãe de santo133. “Colocar barracão” é também uma ação direta sobre as aflições que afetam a saúde dos terecozeiros e que são percebidas como resultado da ação dos encantados. A mãe de santo Dona Jesus de João Marabaia percebeu uma melhora de sua saúde no momento que construiu sua tenda, do contrário: “Eu iria ficar doida do meu juízo. Eu sonhava sempre e construir aqui foi como tirar um peso das minhas costas”. Teresinha acena que foi com seu salão que “eu tive as condições de arrumar a minha própria casa”.
Construir um barracão é também “aceitar a responsabilidade” de tornar-se mãe ou pai de santo. Com ele surgem as atividades com os filhos de santo (“que dão muito trabalho”), o incômodo com os vizinhos em virtude do som dos tambores e das festas, e a possibilidade de ser visto negativamente como “macumbeiro” por aqueles que não participam das religiões afro-brasileiras. Com as festas, filhos de santo e trabalhos, a feitura das tendas também implica um aumento nas despesas e contas da casa. Nesta perspectiva, “colocar barracão” opera em uma dupla referencialidade – por um lado acrescenta à identidade dos pais de santo, confere-lhes status e melhora suas vidas; por outro lado, estabelece limitações dentro das já difíceis condições financeiras e “pesam” sobre os pais e mães de santo porque “dá trabalho” (como indicarei nos próximos capítulos).
Como escrevi em momento anterior do texto, a maioria dos pais de santo com os quais conversei e convivi moravam no perímetro urbano de Codó, com exceção de seu Bigobar e de seu Zé Willan. Na cidade havia aqueles que tiveram seus primeiros salões na zona urbana
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Não existem salões que não tenham seu pai de santo, mas, existem pais de santo que ainda não possuem salão, como o caso de Pedro, que recebe e trabalha com seus filhos de santo nos quartos de sua casa e faz o festejo para Chica Baiana na tenda de Maria dos Santos. Segundo o pai de santo, seus encantados ainda não pediram a construção de sua tenda porque “dá muito trabalho” e dificultaria as viagens que faz para atender “clientes” em outras cidades do Brasil.
138 (entre eles se encontravam os que não tinham residido no campo, mas também migrantes, como Luiza) e também existiam aqueles que tiveram seus primeiros barracões em povoados do interior Seu Raimundinho, em uma entrevista, contou sobre seus barracões:
Comecei, comecei, comecei, o povo vinha pouco. Aí tinha quatro, cinco pessoas. Aí eu tinha um quartinho lá na mãe. Fui aumentando, aumentado. Até que eu coloquei um barracão. Quando eu botei barracão eu estava com vinte e dois anos. Eu morava no interior, só no interior eu fiz cinco barracões (...) primeiro eu queria fazer barracão, mas eu não tinha terra. Aí, eu fazia, alguém vendia o terreno. Aí perdia. Aí perdia... (Raimundinho,
06/09/2011).
Antes de viver na cidade, O pai de santo Raimundinho construiu cinco barracões na zona rural. Foram cinco tendas localizadas em terras diferentes, que não pertenciam a sua família. Quando ‘alguém’ vendia o terreno no qual morava, ele precisava deixar a terra. Situações semelhantes a do pai de santo são muito comuns no interior, onde a maioria dos trabalhadores não tem documento de propriedade das terras e, por isso, fica a mercê da ação de grileiros e de ‘proprietários’ (ver o primeiro capítulo da tese). Essa situação de insegurança fundiária se traduz também em uma insegurança ontológica, na medida em que os despejos, remoções e deslocamentos atingem os vivos, mas também os ancestrais e os encantados (Borges, 2010).
A insegurança fundiária não termina com a vinda para a cidade. Seu Raimundinho, na mesma conversa, me disse que tinha muito “medo” de construir um salão no perímetro urbano de Codó, porque não sabia se tomariam o terreno onde passou a residir com a família. Segundo o que ouvi em campo, a grande maioria das propriedades urbanas também carece de regularização.
O medo de perder a casa, somado ao fato de ser migrante recente, ter poucos conhecidos e passar por dificuldades financeiras, levou o pai de santo a construir sua moradia e colocar barracão “devagarzinho”. Como me disse: “Essa casa aqui também é minha, ela era coberta de palha. Não era de tijolo não. Ai eu fui fazendo ela, fui fazendo ela, e quando eu acabei ela aí, aí eu fiz esse salão aqui”. Tal como indiquei para o processo de decoração das paredes das casas no início do capítulo, Seu Raimundinho mostra que as construções vão sendo feitas com o passar do tempo. Quando estive em sua casa, em 2012, para uma visita, esse caráter de ‘não acabamento’ ficou evidente. Naquele momento ele tinha acabado de subir o muro do pátio e de fazer um telhado em uma lateral da tenda. Justificava dizendo que na cidade, diferentemente dos salões que teve na roça, era preciso tentar diminuir a profusão de
139 sons do tambor, para não importunar os vizinhos e que sob o telhado, os visitantes dos festejos ficariam protegidos do sol e da chuva.