Entre os diferentes atendimentos da cidade, o mais popular e conhecido é o realizado pelo Caboclo Ararum, encantado da linha de cura, recebido por Mestre Bita do Barão. O Caboclo trabalha gratuitamente nas quartas-feiras, no período da tarde, no “atendimento de caridade”, no consultório que fica dentro da loja de produtos de umbanda que pertence ao pai de santo. Nas diversas vezes que eu estive presente no local, o número de consultas variava, gravitando em torno de trinta pessoas por tarde, mas se conta que existem tardes em que foram atendidas mais de cem pessoas. O grupo de “clientes” que procura Caboclo Ararum é bastante heterogêneo em termos de geração e de procedência. A maioria das pessoas atendidas é de baixa renda, muito embora este público também procure o pai de santo em outros dias da semana169.
O atendimento de caridade tem uma dinâmica diferente das outras consultas. Nas manhãs de quarta-feira são distribuídas as senhas que indicam a ordem da recepção das pessoas à tarde. Ao contrário dos outros estabelecimentos de comércio, durante o período do meio dia a loja permanece aberta e ocupada por “clientes” que vêm do interior e de outras
168 Um destes casos aconteceu com Domingas, irmã e filha de santo de Luizinha. Quando era criança, ela foi vítima de quebranto porque tinha olhos muito bonitos. Os pais de Domingas demoraram alguns dias para procurar um curador, e, em virtude da demora, seus olhos nunca melhoraram completamente.
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Apesar do preço da consulta ser considerado caro, muitas pessoas de baixa renda travam estratégias para conseguir pagá-las. Algumas guardam dinheiro durante um tempo, outras pegam dinheiro emprestado ou parcelam o pagamento.
178 cidades. Neste dia, os três homens jovens que trabalham na loja são auxiliados por Maria Bastos e Sebastiana, filhas de santo de Mestre Bita.
No interior da loja, em uma área entre o balcão e a porta que leva ao consultório do pai de santo (um espaço de cerca de 35m²), são dispostas cadeiras de plástico, com os números das senhas. No atendimento de caridade a privacidade acontece apenas dentro do consultório, mas não na espera da consulta, já que todos os “clientes” esperam no mesmo local. Teoricamente as consultas iniciam em torno de duas horas da tarde, entretanto, o horário varia de acordo com a presença de “clientes” com consultas pagas, que são atendidos antes da sessão de caridade170. Os empregados da loja e do hotel, assim como os familiares do pai de santo, recebem os visitantes de outros locais, fornecem informações sobre a cidade e sobre o transporte, apresentam a casa e a tenda. “Clientes” ‘mais importantes’ são convidados a almoçar ou jantar na casa.
Existem algumas regras nas consultas com o Caboclo Ararum: os homens não podem entrar se estiverem vestidos de bermuda (caso não possuam calça consigo, os rapazes da loja providenciam alguma emprestada); no consultório se permanece com os pés descalços e é preciso participar da reza. A reza é conduzida por Bita do Barão, no momento imediatamente anterior ao início das consultas. As duas filhas de santo, suas auxiliares, acendem uma vela em frente a cada cadeira dos “clientes” (embora a consulta seja gratuita, cada pessoa deve pagar cinco reais pela vela) e o pai de santo inicia pedindo benção a Jesus, Maria, José e a diversos santos. Em seguida, diz que todas as pessoas possuem seus problemas e que este é o motivo de elas estarem presentes naquele atendimento. Juntos, todos rezam a oração do Pai Nosso e uma oração com responsório. Por fim, antes de entrar no escritório para receber a entidade, Mestre Bita ‘puxa’ um hino cristão conhecido como “Derrama Senhor” (anexo D) e é acompanhado pelas pessoas.
O pai de santo veste calça e blusa na cor branca ou marrom (em época de São Francisco) e uma guia amarela no pescoço. O escritório é uma sala cuidadosamente decorada, que lembra as preocupações estéticas da casa e do hotel, todos com decoração semelhante. Tem uma mesa e uma grande cruz em mármore escuro, decoradas com flores coloridas e rosários. Sobre a mesa e nas paredes estão dispostos diversos porta-retratos com fotos do pai de santo e de seus familiares, em viagens internacionais e em festejos de sua tenda. Em
170 Em um dos atendimentos de caridade do qual participei, uma mulher reclamou da demora do início dos atendimentos de caridade (em virtude dos atendimentos particulares). Ela, contudo, não reclamou da organização do serviço, mas dos “clientes” pagantes. Para ela, estas pessoas deveriam procurar as consultas em outros dias da semana, afinal, havia apenas um dia de atendimento “para os pobres”.
179 algumas delas estão ao lado de políticos conhecidos, atores globais e músicos de sucesso na região. Sempre que eu via fotos semelhantes – presentes em todos os empreendimentos da família de Bita –, ou os certificados expedidos nas visitas a Roma (para ver o Papa) ou em homenagens (como o título de Comendador da República, concedido na presidência de Sarney), os imaginava como atestados da importância do pai de santo, de suas ‘boas’ relações, de sua fama e, desta forma, de seu poder.
De dentro do escritório ouvimos o som do maracá sendo tocado, sinal da chegada do Caboclo Ararum. Quando ele está pronto, aperta uma campainha que soa no interior da loja. Sempre que tocada, um dos empregados vai ao escritório realizar algum pedido do encantado. Enquanto esperam atendimento, pessoas da cidade e visitantes conversam e confidenciam os motivos que envolvem sua procura de ajuda – afinal, como dissera o pai de santo, todos têm seus problemas. As pessoas que vêm pela primeira vez fazem perguntas a quem já conhece a dinâmica do local, especialmente às filhas de santo e aos funcionários. As filhas de santo fazem papel importante na espera pela consulta, conversando e acalmando os “clientes”. São ainda diversão garantida, através das brincadeiras jocosas com os rapazes que trabalham na loja (em relação aos quais são muito mais velhas) e histórias engraçadas que cativam a audiência.
Cada “cliente” é chamado pelo número de sua senha. Mulheres com crianças pequenas ou pessoas muito doentes têm prioridade. As consultas não tem um tempo determinado, demoram de acordo com cada caso. No final de cada uma delas, Caboclo Ararum toca a campainha e pede para um funcionário da loja escrever a ‘receita’, papel onde descreve os procedimentos e materiais necessários para o tratamento171. As receitas normalmente prescrevem produtos que podem ser comprados na própria loja, como os banhos (elemento mais vendido), garrafadas, velas, perfumes, mas também podem sugerir chás e mesmo remédios de farmácia172.
Com a receita em mãos, muitas pessoas fazem as compras sugeridas já no final da consulta. Quem está sem dinheiro ou não pretende seguir o diagnóstico sugerido pelo Caboclo, pode deixar a tenda sem levar nada. Aqueles que se engajam com o tratamento, tendem a retornar semanas depois para lhe dar continuidade, resolver novos problemas ou trazer familiares e conhecidos. Costumam ainda regressar nas festas promovidas pela tenda do
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É possível ver que existe um cuidado com as receitas, tanto por parte dos “clientes” como dos funcionários da loja. Por exemplo, se alguém esquece sua receita, os funcionários guardam-na no cofre, esperando que venham buscá-la. Lembro-me de um senhor que esteve no atendimento de caridade mais de uma vez e, para cuidar de sua receita, mandara plastificar a pequena folha, evitando que se estragasse.
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180 pai de santo, quando participam de rezas, benzimentos (ou “passes”) e rituais da programação do festejo. Estes momentos rituais são apresentados como parte do tratamento dos “clientes” e, acredito, como uma forma de fazer crescer o público do festejo e as doações necessárias para que ele se efetive.
Foto 15: Trabalho realizado pelo Caboclo Ararum durante o Festejo na Tenda de Mestre Bita (agosto/2012).
No “festejo de agosto” (que descrevo do capítulo anterior), na segunda noite, Caboclo Ararum faz um trabalho de cura. Em 2011, durante seu trabalho, todas as luzes da tenda e do pátio foram apagadas. Velas foram acessas em frente às cadeiras e à ‘arquibancada’ onde estávamos sentados. No centro do salão, Caboclo Ararum falava ao microfone, dizendo que aquele ritual era um momento para pensar na saúde, nos familiares, na paz e na luz. Junto com filhos de santo da casa, cantou alguns pontos invocando a presença de outros caboclos, como Seu Sete Flechas e ‘Caboquinho’ da Eira173
. Entre os pontos, colocou fogo em um trilho de pólvora que levava a uma bacia com material inflamável. A tenda, iluminada apenas pelas velas, se acendeu. Em suas palavras, Caboclo Ararum pediu felicidade e saúde, intercedeu para que as preces de todos fossem respondidas e se dirigiu a Deus, pedindo que “nos dê proteção nessa vida que é muito difícil”.
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Cito alguns dos pontos cantados durante o ritual. Para Ararum: “Ele é Ararum, da Barra do Canindé”. Para Caboclo Sete Flechas “São Sete Flechas, são Sete Estrelas, ele é quem pode, ele é quem manda”. Para ‘Caboquinho’ da Eira: “Eu sou cego e aleijado, eu não tenho eira. Caboclinho da Eira, da mata da solidão”.
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Itinerários
O atendimento de caridade realizado por Mestre Bita do Barão e pelo Caboclo Ararum é um dos mais frequentados e conhecidos da cidade. Além dele, existem consultas nas tendas, nos quartos de santo e nas “mesinhas” das casas de “brincantes” (pais, mães e alguns filhos de santo). A realização de uma consulta não implica presença física do “cliente”, que pode ser atendido pelo telefone ou por intermédio de uma terceira pessoa. Este intermediário, ao se encontrar com o pai de santo, deve levar consigo um objeto que pertença ao “cliente”, como por exemplo, um documento de identificação ou uma peça de roupa. Com estes objetos é possível identificar o que se passa com a pessoa. Caboclo Ararum era conhecido por sua capacidade de diagnosticar doenças a partir de peças de roupa trazidas para suas consultas, como vi acontecer com um caso de pneumonia, em um dos seus atendimentos de caridade.
O pai de santo João Tavares teve um diagnóstico feito a partir de uma camisa sua. Quando morava em São Luís, em período próximo à morte de sua mãe de criação, Seu João começou a se sentir mal e enviou uma camisa sua, do Flamengo – time para o qual torce - para uma mãe de santo. O diagnóstico a partir da camisa do Flamengo não deu certo, segundo eu soube, porque não era possível fazê-lo com uma camisa de time de futebol. Seu João então enviou, por intermédio da mesma pessoa, outra camisa que lhe pertencia. Nesta segunda tentativa, a senhora consultada mandou lhe avisar que o motivo de sua doença era sua “mediunidade” e havia chegado a hora de se tornar pai de santo.
A contiguidade entre o objeto e o “cliente” é aparente nestes exemplos. Para se aproximarem ainda mais de seus filhos de santo e “clientes”, pais de santo e encantados utilizam também de tecnologia, atendendo por telefone. O conhecimento da tecnologia por parte das entidades – que sabem usar campainhas, relógios, aparelhos de DVD – é criticado por algumas pessoas, especialmente aquelas que convivem pouco nas tendas, e visto como sinal de descrédito da “mediunidade”. No âmbito da religião, não vi a apropriação de tecnologias ser vista como um problema. Como os encantados são também contemporâneos – porque, como enfatizei nos capítulos anteriores, continuam acumulando eventos em sua trajetória –, prosseguem aprendendo novas coisas e se atualizando.
Independente de serem ou não realizadas na presença do “cliente”, são as consultas que proporcionam conhecer a origem da aflição. Nos tratamentos de saúde, as doenças nunca são totalmente entendidas como um acidente ou ação do acaso (uma doença como câncer, por
182 exemplo) ou hereditariedade (como casos de loucura poderiam ser explicados). Elas são antes resultado da ação de alguma configuração particular de forças, que envolve diferentes atores, pessoas, encantados e “espíritos ruins”. É sobre essa configuração de forças que o curador e seu encantado devem agir, seja negociando o distanciamento de “espíritos ruins” ou desfazendo o trabalho feito para prejudicar o “cliente”.
Para descobrir o que acontece com um cliente, como indiquei no início do capítulo, é possível lançar mão da “experiência” e do jogo de búzios – ou seja, de formas de indagar às entidades. Caboclo Ararum, nos atendimentos de caridade, “faz experiência” com seus “clientes”, utilizando a leitura do pulso (como Seu Raimundinho) e tocando seu maracá. As pessoas que o procuram – assim como as que procuram outros encantados e pais de santo – não rara vezes também se utilizam de outros serviços, procurando rezadores, médicos etc. Mãe Beata, contou-me que, além de “fazer experiência” e jogar búzios, existem casos em que ela indica a procura de um médico:
Daí a pessoa vai dizer, no começo, como é que sente. E você vai observar o búzio para saber se é certo ou se não. Aí se tiver um problema de médico, se a pessoa está doente, o orixá mostra aquele problema que ele trata, aí ele mostra aquele problema que é o médico que trata, o doutor. Aí se faz o trabalho para a pessoa, para limpar o corpo e o médico poder encontrar a doença (Beata, 07/09/2011).
A medicina oficial e a consulta com pais de santo, como sugere Beata, não são duas formas de atendimento contraditórias, podendo funcionar de forma conjunta, como uma colaboração – na medida em que o curador limpa o corpo do doente para que o médico encontre a doença. Existe ainda a possibilidade da indicação de um médico, por parte do pai de santo, para a confirmação do diagnóstico oferecido pelos encantados. Luiza, na consulta de uma adolescente, filha única de uma das suas filhas de santo, descobriu que o mal que a atingia era tuberculose. Não me disse quem ou o quê tinha causado a doença e quando começou seu tratamento sugeriu que a menina fosse levada ao médico para ratificar o diagnóstico e tomar, paralelamente, os remédios.
Os médicos aparecem nas memórias de pais e mães de santo, sendo procurados por seus familiares, quando eles apresentaram os primeiros sinais de “mediunidade”. Foram os médicos que perceberam que não era “problema de médico” o que acontecia com a saúde dos seus pacientes. Alguns, inclusive, indicaram tendas de pais e mães de santo, como aconteceu com Teresinha (ver capítulo dois).
183 Os “brincantes” frequentam os consultórios médicos, os postos de saúde e hospitais da região de forma paralela aos tratamentos realizados nas tendas. Os pais e mães de santo que estão com idade avançada falam constantemente da importância dos médicos. Bita do Barão, quando falava sobre alguns problemas que passou durante o período em que estive em campo, reforçava às suas filhas que cuidassem das suas condições de saúde e que não deixassem de frequentar serviços médicos. Tanto os “clientes” quanto os pais de santo acionam diferentes formas de atendimento e cuidado, desenhando trajetos de um “itinerário terapêutico” (Langdon, 1994). A busca de tratamento de uma doença ou aflição revela um “percurso complexo entre diferentes serviços terapêuticos” (Rabelo, 1993, p.316) que relaciona tendas, hospitais, igrejas e casas.
A ideia de um itinerário terapêutico chama atenção para o movimento que é feito no tempo de duração de uma aflição. A relação entre pais de santo e “clientes” é continuamente perpassada por preocupações diferentes em relação ao tempo. As pessoas interpelam, recorrentemente, sobre quanto tempo é necessário para perceber o resultado do trabalho por eles encomendado. Embora alguns pais de santo façam estimativas sobre o período de tempo que possivelmente irá transcorrer entre a primeira consulta e o resultado, muitos deles reconhecem ser impossível precisar essa informação. A incerteza em relação ao tempo de tratamento ou de feitura de um trabalho está relacionada, provavelmente entre outros elementos, com a imprevisibilidade das negociações mediadas pelo pai de santo com outros seres – humanos e não humanos. Durante a realização do tratamento, podem aparecer outros sintomas, pois as consultas e conselhos servem menos como “resposta a uma questão do que [como] uma aposta para a continuação de uma estória que está se abrindo” (Cardoso, 2009, p. 38) e que pode apresentar desdobramentos múltiplos – fazendo as pessoas voltarem para novas questões e indagações ou acompanharem familiares e conhecidos até as tendas.
Se as pessoas se movimentam entre diferentes ofertas de serviços – e os pais e mães de santo aparecem como importantes neste itinerário – é possível que os atendimentos e trabalhos coloquem também os encantados e os pais de santo em movimento. Até o momento mencionei a possibilidade de atendimentos por telefone e por intermédio de uma terceira pessoa, que acontecem a partir da casa ou da tenda dos pais de santo. Contudo, dependendo da necessidade do “cliente” e de suas possibilidades financeiras, o pai de santo pode se deslocar até sua casa em outras cidades ou estados. Os encantados, por sua vez, podem atender em locais variados, tanto através do deslocamento dos pais de santo quanto pelo seu próprio movimento, enquanto “espírito” – ou seja, sendo recebidos em outras cidades, por outros
184 “médiuns”. Em uma conversa com a pombagira de Pedro, Dona Maria Padilha, ela contou que ainda atenderia, naquela mesma noite, através de um pai de santo de Teresina e por isso estava com muita pressa. O deslocamento dos encantados para os atendimentos retoma, novamente, variadas formas de entender espacialidades e temporalidades.
Quando o deslocamento é feito pelos pais de santo, os custos são de responsabilidade dos “clientes”, seja o combustível para motos e carros, passagens de ônibus ou mesmo de avião174. Durante certo tempo, por indicação de um conhecido em comum, Pedro acompanhou uma mulher que residia em São Luís. O trabalho consistiu em duas etapas diferentes e foi acordado entre ambos por telefone. Inicialmente, o pai de santo foi à cidade de São Luís, com as passagens previamente pagas pela cliente, para realizar o atendimento em sua residência. Ela estava muito doente, vítima de um trabalho encomendado para prejudicar sua saúde. Depois da primeira consulta e de uma melhora da cliente, ela foi atendida na casa de Pedro, por Chica Baiana.
O movimento de pessoas em busca das consultas e dos pais de santo para cuidar dos seus “clientes” tem visibilidade na cidade. Todos têm uma opinião sobre os atendimentos, tendo ou não participado deles. Por ser o pai de santo mais conhecido de Codó e em virtude da propaganda em torno do atendimento de caridade (feita nos alto-falantes que ficam presos aos postes do centro), Mestre Bita é figura central nestes comentários. Duas concepções bem distintas se desenham a partir do seu trabalho: por um lado, se enfatiza sua enorme generosidade, em atender de forma gratuita tamanho número de pessoas necessitadas; por outro, se acusa o atendimento de caridade de ser apenas uma ‘falsa propaganda’, pois embora gratuito, sempre demanda na compra de algum material para o tratamento.
Essas concepções sobre o atendimento de Bita ignoram questões que me parecem fundamentais para entender a dinâmica das consultas. No segundo capítulo discorri sobre a “força” dos pais e mães de santo como tendo sua origem nos encantados. A possibilidade de ser um chefe de tenda forte é dada pelo cumprimento das “obrigações” e acordos com as entidades. As “obrigações” remetem os pais de santo ao trabalho com seus encantados, seja nas rezas, nas giras e toques de tambor, nas curas realizadas nas “mesinhas”, no auxílio que prestam àqueles que têm seus problemas e aflições. Quanto mais trabalham, mais fortes eles
174 A maior propaganda dos pais e mães de santo sobre seus trabalhos acontece por contatos informais entre pessoas. Existem alguns casos, como os de Pedro e Mestre Bita, em que foram feitos cartões pessoais, informando seus contatos. O segundo ainda possui um site pessoal (www.mestrebitadobarao.com.br) e faz propaganda constante de seu atendimento na rádio que toca nos alto-falantes do centro da cidade.
185 se tornam (Taussig, 1993)175. Em Codó a caridade, enquanto princípio da umbanda, não parece ser apenas uma resposta à generosidade das entidades, mas também uma forma de