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Em dezembro de 2010, Luiza me convidou para um terecô. Quando cheguei, ela estava acompanhada de suas filhas de santo e vizinhas, sentada nos bancos em frente à casa. Junto às pessoas conhecidas, havia uma mulher e uma menina de doze anos, que não frequentavam a tenda. Durante a noite eu soube que eram mãe e filha, moravam em Codó e tinham parentesco com Dona Bendita, vizinha de Luiza, que foi casada com o falecido irmão da mãe de santo. O “tambor” daquela noite era parte de um grande tratamento, que vinha sendo realizado por Dona Luizinha, para curar a menina.

Há dois anos a vida da adolescente mudara completamente quando ela começou a apresentar dificuldades para falar. Em momentos de espasmos dizia alguns palavrões de forma repetida, voltando a se calar em seguida. Saiu da escola por causa dos maus tratos dos colegas e vivia em casa com os pais. Eles a levaram a diferentes médicos e também a pais e mães de santo, mas nada melhorava a saúde da filha. Esse tempo transcorrido até chegarem à

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Como sinto que esta história poderia expor negativamente o pai de santo em questão, optei por alterar seu nome e utilizar, desta forma, um nome fictício. Busquei também não fazer referências concretas aos outros sujeitos envolvidos, para preservar sua identidade.

173 casa de Luiza não era um bom sinal, pois quanto mais tempo se demora para buscar uma ajuda eficaz, mais forte a doença se torna, fazendo a sua cura mais difícil164.

Luiza, quando consultada, passou algumas semanas acendendo velas e fazendo rezas, até que pediu que a mãe trouxesse a filha para sua tenda. A gira teve início com alguns pontos cantados, convocando a vinda das correntes dos encantados. A menina foi sentada em uma cadeira, no centro da tenda. Luiza trabalhava com Seu João da Cruz165, encantado da linha de cura. As filhas de santo também receberam seus encantados, que se reuniram em torno da menina, colocando suas mãos, cabeças e costas em contato com seu corpo. Às vezes riam em alto tom e pendiam com o corpo para frente, como se estivessem canalizando algum espírito próximo à doente. Diante da dificuldade da cura – já que o tempo tornara a doença mais forte – os encantados das filhas de santo também foram chamados para ajudar. Entre rezas, velas e giras, havia uma colaboração dos santos e encantados, para a cura.

Depois de alguns pontos, a menina foi retirada do centro da tenda. Seu João da Cruz terminou a gira se despedindo cuidadosamente das outras entidades, pedindo que subissem deixando seus “cavalos” fortes e que não se esquecessem de cumprir o seu acordo, para que a cura acontecesse. Em seguida ele também se despediu e Luiza terminou com uma oração, se desculpando por qualquer erro que acontecesse durante o tratamento. Suplicou que os encantados lhe dessem “força” no prosseguimento da cura.

Antes da gira, a mãe de santo me explicou que alguém fez um trabalho contra a menina ou sua família (e “pegou nela”). Não podia me contar muito sobre o caso, mas disse que o problema de fala era causado por “espíritos ruins”166, que deveriam ser persuadidos a ir embora. A gira era um trabalho em que os encantados negociavam com os espíritos, para que eles se afastassem da adolescente. Velas, banhos, garrafadas e as conversas com os espíritos, neste e em outros casos, tentam fazer uma conexão com quem causa a aflição, para que se chegue a um acordo. Após o ritual, quando a casa foi esvaziando, percebi a tristeza de Luizinha. Estava impressionada com a coragem dos “espíritos ruins” em causar tamanho mal

164 Como sinto que esta história poderia expor negativamente o pai de santo em questão, optei por alterar seu nome e utilizar, desta forma, um nome fictício. Busquei também não fazer referências concretas aos outros sujeitos envolvidos, para preservar sua identidade.

165 No levantamento realizado por Mundicarmo Ferretti (2000) sobre as entidades recebidas nas tendas de São Luís, João da Cruz aparece como jovem, citado na lista de voduns, orixás e gentis da Casa de Nagô (Nagon Abioton), uma das casas de religião mais antigas da cidade, fundada em meados do século XIX (ibid., p. 292). Na Casa Fanti-Ashanti, também em São Luís, é mencionado como da família do Rei da Turquia (ibid., 307).

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“Espíritos ruins” é uma categoria costumeiramente usada na cidade para falar da presença dos espíritos que causam mal as pessoas. Não se fala muito sobre eles, mas é possível entender que são agenciados para os trabalhos. Eles não são referidos como eguns – palavra que raramente ouvi durante o campo.

174 a uma “inocente”, e muito preocupada com o tempo transcorrido entre o início das manifestações e a chegada da menina na tenda.

“Clientes” e seus problemas

A gira para a cura da menina na casa de Luiza traz questões que considero importantes para pensar o movimento dos “clientes”, a “força” e os limites da ação de pais de santo e encantados. No caso, a menina era parente da vizinha da mãe de santo e por essas relações de parentesco, ficou sabendo de Dona Luizinha. Sua mãe ouviu sobre a “força” da mãe de santo e veio com a filha à sua tenda. O tempo transcorrido entre a manifestação da doença e a chegada, entretanto, tornou a doença mais forte e trouxe dúvidas quanto à possibilidade de cura. O trabalho foi conduzido pelo encantado da mãe de santo, auxiliado pelos encantados das filhas da casa, que negociaram o afastamento dos “espíritos ruins” que causavam a doença.

Os “clientes” que chegam às tendas de pais e mães de santo são um ‘grupo’ extremamente variado de pessoas. Distanciam-se dos filhos de santo de uma casa, que recebem um tratamento diferenciado dos pais e mães de santo, tanto em relação ao cuidado quanto aos custos de uma consulta ou trabalho. Nada impede, contudo, que um “cliente” se torne filho de santo (Baptista, 2007) ou, pelo menos, participe constantemente das atividades na tenda, conhecendo os encantados, visitando e contribuindo com as festas, compartilhando do dia-a-dia dos pais e mães de santo – se tornando familiar, como escrevi anteriormente.

Sejam os “clientes” familiares ou visitantes desconhecidos, todos chegam à Codó por intermédio de alguma relação: vêm à cidade porque algum parente já consultou antes ou por causa de indicação de amigos e vizinhos que já estiveram no local em busca destes serviços rituais. Os relatos de parentes e amigos amparam e compõem o sentido da experiência, estejam eles relacionados a eventos recentes ou memórias antigas. Lembro, por exemplo, de uma mulher de meia idade, proveniente de uma cidade próxima, que se deslocou para Codó a fim de realizar uma consulta com Mestre Bita do Barão. Ela procurou o atendimento porque recordou que sua avó tinha feito o mesmo deslocamento, para curar a loucura de um de seus filhos. Ela era ainda criança, mas registrou em sua memória a mudança de comportamento do tio. Anos depois percebeu que poderia procurar ajuda, com o mesmo pai de santo, para resolver um conflito com sua vizinha.

175 A menina que chega à casa de Luiza, junto com sua mãe, é trazida por essa rede de relações de parentesco e amizade. Bendita, sua tia, é cunhada da mãe de santo e fez a indicação dos seus serviços. Buscar a cura – a resolução dos problemas e o enfrentamento do mal – é, nesse sentido, um fenômeno coletivo. Há uma dimensão relacional que marca a procura e que conecta as pessoas no presente e no passado. Há também uma dimensão relacional no trabalho, onde colaboram pais e filhos de santo, encantados e “clientes”. Apesar de toda a colaboração, o tempo também tem agência sobre a doença, a deixando mais forte.

Para falar sobre a influência do tempo no agravamento dos problemas dos “clientes”, faço alusão a uma ideia mencionada no início deste capítulo: a existência de trabalhos mais simples e trabalhos mais complexos. Trabalhos considerados simples são realizados corriqueiramente por pais e mães de santo. Eles dificilmente são cobrados e estão associados à esfera da caridade e da medicina popular (Opipari, 2009). Consistem, basicamente, em “benzer inocente” e curar doenças comuns que atingem especialmente as crianças.

Em diversas situações, quando nos sentávamos com Luizinha em frente à sua casa (onde ela costumeiramente está), pessoas que passavam pela rua exigiam que seus filhos lhe pedissem a benção e solicitavam que ela benzesse as crianças. Permanecendo sentada, Luiza estendia o braço, pegava um pequeno ramo verde de árvore, com o qual fazia o sinal da cruz sobre a criança, rezando algumas palavras incompreensíveis para nós que assistíamos. As frases em tom baixo e de forma “enrolada”, melodicamente pronunciadas, mantinham seu caráter eficaz (Tambiah, 1985). Luiza executava os movimentos como se fossem corriqueiros e simples, coisa que na verdade, não deixavam de ser. Encerrava com “Vai com Deus”, e a mãe e a criança seguiam seu caminho. Também pessoas adultas lhe pediam benzimento, porque não se sentiam bem ou porque passavam na frente da casa da mãe de santo a caminho de algum compromisso importante. Ir ao banco buscar uma quantia significativa de dinheiro ou estar a caminho do hospital para visitar algum familiar eram motivos para pedir proteção.

A simplicidade do ato esboça também uma hierarquia das curas/atividades desempenhadas pelos pais e mães de santo. Tanto Luizinha quanto alguns de seus encantados, quando queriam repreender suas filhas de santo, diziam que elas não sabiam “nem benzer inocente” e com isso afirmavam que não aprenderam nem o mais básico para se tornarem curadoras. Benzer, assim como outras curas relacionadas às crianças, é considerado ‘de baixa

176 complexidade’, como os casos de quebranto e vento virado167

, que são atendidos tanto por pais de santo quanto por benzedeiras que não são “médiuns”.

Foto 14: Rua da casa de Luiza.

Na foto a árvore que fica em frente à casa (setembro, 2012).

Tratamentos complexos costumam ser mais longos e são compostos de diferentes trabalhos e sessões de cura, quando o “cliente” pode permanecer em tempo integral na casa do pai de santo. Exemplos de tratamentos difíceis incluem pessoas que não conseguem levantar-se, mas saem caminhando; pessoas agressivas que chegam amarradas e são liberadas das contenções; pessoas que não conseguem defecar por dias e até meses; pessoas que caminham pelas ruas sem roupa e gritando, e deixam de comportar-se dessa forma. Trabalhos complexos são aqueles onde a transformação na situação do “cliente” é visível.

Ainda que seja possível pensar em uma maior simplicidade ou complexidade dos casos e motivos de atendimento, a aparente banalidade de alguma doença e a simplicidade dos procedimentos ganha outra perspectiva quando relacionadas com a dimensão do tempo. Problemas simples podem, com a passagem do tempo, se transformar em complexos, tornando-se crônicos e mesmo fatais (o que não parecia ser o caso da menina da casa de Luiza, pois seu problema nunca chegou a ser simples, só teve sua complexidade intensificada). Existe um timing que pode deixar a eficácia do pai de santo inoperante ou mais

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Quebranto é uma forma de se referir ao mau olhado. Vento virado é quando a criança fica com o ventre inchado, com cólicas. Ambos são produzidos, normalmente, pela inveja de pessoas conhecidas, seja por causa da beleza ou saúde da criança, seja para atingir sua família.

177 fraca – a ponto de uma doença simples, como quebranto168, nunca ser totalmente curada; ou de vento virado levar uma criança à morte.

Luiza estava seriamente preocupada com o problema da menina, especialmente em virtude da passagem do tempo que potencializou, no seu entendimento, a ação malévola e fez com que a doença crescesse exponencialmente. A demora, neste e em outros casos, pode tornar a ação de pais de santo e encantados insignificante. Para os pais de santo estas situações são muito tristes, pois eles não conseguem cuidar daqueles que os procuram pedindo ajuda – por maior que seja seu esforço para a cura e o tempo que dedicam abençoando e cuidando das pessoas. Estas situações também mostram que a agência dos “clientes”, na busca de solução para seus problemas, é fundamental para sua cura.