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4.   RESULTS

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Em A Lei da Mente, de Peirce, tem-se: “o hábito é aquela especialização da lei da mente pela qual uma idéia geral obtém o poder de suscitar reações” (CP 6. 145). Pode-se, então, propor que uma sensação imediata suscita uma reação, naquele dado momento imprevisível, no entanto, quando uma sensação similar se manifesta, é provável que a ação mental proponha uma reação semelhante àquela. Criam-se, então, tendências de reação, ou seja, manifestações similares diante de sensações recorrentes, o que passa a caracterizar uma especialização da mente. Complementando essa idéia, no citado artigo, acrescenta o autor que “[...] a cada uma de certas sensações, implicando todas uma idéia geral, segue - lhes a mesma reação, estabelecendo-se uma associação sempre que aquela idéia geral consegue que lhe siga uniformemente esta reação” (CP 6. 145). Dessa maneira, percebe-se que a especialização denota uma tendência adquirida, assim como o mecanismo associativo regente nos processos mentais. Esse percurso demonstra que, a partir de fatos ou princípios que se repetem, a mente infere, conclui e atua, ainda que automaticamente, enviando comandos ao corpo para reagir de forma já conhecida, podendo-se, desse modo, apontar, na trajetória descrita, um procedimento dedutivo, o qual vem de encontro com a seguinte afirmação: “Na dedução, a mente se encontra sob o domínio de um hábito” (CP 6. 144). Entretanto, Peirce divisa, além da dedução, que promove a perpetuação e a latência do hábito, a indução, quando da instauração do mesmo: “um hábito se estabelece mediante a

indução” (CP 6. 145). Note que determinadas sensações, por estarem presas a uma mesma idéia-base (então generalizada pelas infinitesimais associações), incitam, sugerem, conduzem, enfim, induzem a uma mesma reação ou a uma reação semelhante. Mas, sobre isso, o semioticista acresce que para que essa idéia geral alcance toda sua funcionalidade deve ser sugerida também ou, quem sabe, principalmente pelas sensações, o que se efetua por um processo inferencial e hipotético, ou seja, por uma indução a partir das qualidades (CP. 6 145). Um exemplo disso, no campo da publicidade, é a preocupação de muitas empresas em construir e manter uma identidade singular. A identidade de uma marca de sucesso é complexa, podendo transcender a esfera visual, além das cores, tipografia, logomarca, símbolo, entre outros signos visuais denotativos da instituição, são construídas, por vezes, ainda outras facetas identificadoras, apoiadas em aspectos olfativos, táteis, auditivos e gustativos próprios. Observa-se, portanto, que quanto mais qualidades sensíveis e singulares uma marca vincular à sua identidade, maiores são as possibilidades de ser reconhecida entre as concorrentes. O consumidor- intérprete é induzido à marca e a seus produtos por suas qualidades sensíveis e diferenciais , que, em geral, prendem-se a uma temática, conceito de unidade ou idéia-base, que é propagada em suas mais diversas roupagens. Em um determinado segmento de mercado, como o de bebidas (cerveja), percebe-se, por exemplo, que a Skol mantém uma identidade voltada para a idéia do “descer redondo”, enquanto que a Skin persegue, em suas campanhas publicitárias atuais, a idéia do “novo ”. Dessa forma, o intérprete é levado a inferir, a partir das qualidades sugeridas, que tudo o que está relacionado ao conceito de rotundidade se refere à Skol e ao de “novidade”, à Skin. Veja que, mediante a tenacidade das campanhas publicitárias, o intérprete é exercitado, preparado para, a partir das qualidades sens íveis assimiladas, proceder à

percepção, seleção, comparação e análise de um certo número de características que identificam tais marcas e produtos.

Ainda no tocante à assimilação de hábitos, expõe-se, abaixo, um exemplo cotidiano , extraído da obra de Peirce, que demonstra como a mente atua perante qualquer situação em que tenha de executar um ato que requeira habilidade:

A maioria das pessoas tem dificuldade em mover as duas mãos simultaneamente e em direções opostas, traçando círculos paralelos, próximos ao plano médio do corpo. Para aprender a fazê-lo, é necessário atender, primeiro, às diferentes ações em diferentes partes do corpo, até que, de repente, brota uma concepção geral da ação, resultando em algo perfeitamente fácil. Pensamos que o movimento que estamos tentando fazer implica esta ação, e esta, e esta. Surge, então, a idéia geral que une todas essas ações, e, por conseguinte, o desejo de executar o movimento evoca a idéia geral. Esse mesmo processo mental se emprega muitas vezes, quando aprendemos a falar uma língua ou adquirir qualquer tipo de habilidade (CP 6. 145).

Reitera-se, a partir dessas explanações, que, quando a sensação é primeira, o impacto é maior e há, conseqüentemente, um índice maior de imprevisibilidade, no entanto, quando se depara novamente com a mesma sensação, ou uma similar, tende-se a reagir de maneira semelhante. Porém, nas primeiras vezes, pelo caráter ainda novo da situação, a trajetória de resposta a uma sensação, ou seja, o ato da reação tende a ser tateado, executado passo a passo, sem muita destreza; contudo, diante de uma certa constância da necessidade dessa mesma resposta de ação, gera-se um automatismo entre sensação-reação, de modo a instaurar um hábito. Quando se alcança a habituação, não se atenta mais a cada ação em particular, mas se adquire, em contrapartida, uma concepção geral dessa ação, o que a torna, se assim se pode pontuar, mais mecânica e global, como amarrar o cadarço do sapato ou alternar os pés entre os pedais da embreagem, do freio e do acelerador ao dirigir.

Se houver reflexão sobre cada ação contida nessa ação geral, tem-se uma sensação de inabilidade, de complexidade, podendo-se até acreditar que não se sabe mais amarrar um cadarço ou cond uzir um veículo, ainda que se tenha feito isso a vida toda. A mesma dificuldade pode ser encontrada quando não se tem que executar a tarefa habitual, mas apenas descrevê-la para que outra pessoa a ponha em prática; diferentemente, quando se efetua uma ação habitual, sem se refletir sobre ela, emerge uma sensação de facilidade e eficiência.

Existe, no processo de habituação, fundamentos que, depois de assimilados, são mantidos, na maioria das vezes, irrefletidamente, até que uma dúvida surja para desequilibrar crenças e hábitos. Atente-se para o fato de que, em um ponto-de-venda, os produtos que se oferecem ao consumo demonstram singularidades que os personalizam, mas, ao mesmo tempo, contêm características comuns da categoria em que se enquadram. Os traços pertinentes entre os produtos de uma dada categoria são assimilados, ao longo de um período, pelo consumidor, tornando-se habituais e automatizados. No entanto, por exemplo, se uma determinada marca de massa de tomate ousar diferir-se muito da linguagem visual prevista para esse tipo de produto, usando uma embalagem ou uma cor não convencional (uma long neck, ou mesmo uma lata comum, mas preta ou branca), o consumidor pode ter dificuldades em reconhecer o produto ou até recus á-lo por não lhe parecer habitual.

A partir, portanto, das exemplificações e considerações acima, pode-se vislumbrar como a mente atua em circunstâncias de coordenação de impressões e sensações e, por conseguinte, de reações, estando suscetível à aquisição de hábitos, mas demonstrando-se, também, por sua arbitrariedade, capaz de escolher.