Considerando a prolixidade da consciência, apontam-se, a seguir, algumas considerações sobre essa questão, colhidas de investigações contemporâneas, que se ponteiam com algumas das idéias extraídas da obra peirceana.
Crick e Koch (2003, p.13) expõem que “aquilo que conhecemos como mente está intimamente relacionada a certos aspectos do comportamento do cérebro, e não ao coração como pensava Aristóteles”. Acrescentam ainda os cientistas (op. cit.) que “o aspecto cerebral mais misterioso é a consciência, que pode assumir várias formas, da experiência de dor à consciência de si mesmo”. Vê-se pontuada, nessa explanação, a consciência como um dos aspectos comportamentais do cérebro, alcançando, por, assim ser concebida, uma dimensão mais palpável e material. Os mesmos autores ainda complementam:
No passado, freqüentemente se considerava, como em Descartes, que a mente (ou alma) seria algo imaterial, separada do cérebro, mas interagindo com ele de algum modo [...] Hoje, a maioria acredita que é possível explicar todos os aspectos da mente, inclusive seu atributo mais enigmático - a consciência - de maneira mais materialista, como o comportamento de redes neuronais agindo em concerto (2003 p. 13).
Com vistas a essa afirmação, a consciência é entendida como um dos processos mentais que se desenvolvem no cérebro, afastando, por conseguinte, dos processos de ação mental a noção de alma ou espírito, que resulta na dualidade corpo (ou carne) – espírito e na fragmentação do ser. Por esse caminho, ocorre o resgate da conjunção, da concepção de mente como matéria, assim como Peirce há muito já a qualificara, embora não tenha sido o primeiro a sugeri- lo. Segundo Damásio62 (2004), o filósofo holandês Benedictus Spinoza, ou Bento Espinosa (1632-1677), ainda que não reconhecido como tal, pode ser considerado o patrono da neurobiologia, por negar, contundentemente, a divisão entre matéria e espírito e enfatizar as estreitas relações entre corpo e mente, o que lhe valeu, na época, a excomunhão, entre outras coações interruptoras do fluxo da ciência.
Perante a concepção da materialidade da mente, a compreensão da consciência e dos demais eventos mentais, de uma forma geral, torna-se mais tangível. Como demonstrado no primeiro capítulo desta dissertação, pelos mapeamentos topográficos do cérebro e por exames que assinalam, imageticamente, seu funcionamento e ativaç ão, podem ser detectadas as áreas cerebrais onde são processadas as emoções, a memória, a imaginação, entre outros aspectos que compõem esse âmbito maior denominado consciência. A esse respeito, Damásio (op.cit) ainda expõe: “[...] sempre me pareceu que sentir uma emoção, antes de mais nada, era sentir o que se passa com o corpo quando temos essa emoção”.
62 Damásio é pesquisador do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa (E.U.A.). Ele publicou,
recentemente, um livro intitulado Em busca de Espinosa, no qual discute questões circundantes à consciência e ao uno corpo-mente.
Por esse ângulo, aclara-se a interação, na mente, das experiências sensoriais vivenciadas pelo corpo, na qual se prevê uma difusão espaço-temporal do sentir. Essa questão se conecta com a idéia peirceana da continuidade intensiva das sensações (CP 6. 132), que, como explicitada no tópico 4.4., aborda a presentificação das idéias e das sensações nelas viventes, mediante o princ ípio da continuidade, vigente na doutrina sinequista. A mesma questão dialoga, ainda, com a idéia da extensão espacial das sensações (CP 6. 133), em que Peirce explana sobre a capacidade de propagação, expansão e afecção das sensações. Para defender esse ponto de vista, o autor explicita que uma porção qualquer de protoplasma63 não difere radicalmente dos conteúdos de uma célula nervosa, já que em tudo há a capacidade de sentir, em situação de excitação. Acrescenta ele que quando um determinado conjunto, em repouso e rígido, recebe um movimento ativo, este, gradualmente, difunde-se a outras partes. Nessa ação difusora, não se pode discernir nenhuma unidade, nem em relação a um núcleo ou outro órgão unitário, pois se trata de um contínuo amorfo de protoplasma, com o sentir se propagando de um lugar a outro, infinitesimalmente. O autor ressalta que essa atividade não avança às novas partes com a mesma rapidez com que abandona as anteriores, pois essa velocidade decresce se comparada à do início da expansão, mas, mesmo, em um ritmo mais vagaroso, a sensação continua a se espalhar. Com essas observações, Peirce demonstra que, ainda que de diferenciadas formas, em todos os fenômenos, existe o sentir, comprovando a idéia de que as sensações têm extensão espacial. O autor propõe, enfim, que, por ser contínuo o espaço, ocorre uma “comunidade imediata do sentir” entre as partes da mente que se encontram, infinitesimalmente, próximas umas das outras. Tendo em vista a imbricação corpo-mente, é
63 Protoplasma: substância primordial dos organismos vivos, capaz de sentir e a reagir a estímulos vivos
válido, então, propor que a idéia de “comunidade imediata do sentir” reflete, de certa maneira, no fenômeno da sinestesia, que, como sublinhado anteriormente, é gerado pela intersecção ou diálogo de duas ou mais modalidades sensoriais. Por exemplo, se, diante de um estímulo auditivo, que, pelo condicionamento cult ural e pelo hábito, estaria dirigido à audição, ocorrer o despertar subversivo e concomitante de outra modalidade sensorial, como a visão, a olfação, entre outras, realizar-se-á uma percepção sinestésica. Logo, pondo em pauta as manifestações sinestésicas, comprova-se a potencialidade dialógica das modalidades sensoriais e se verifica a sustentação da idéia peirceana sobre a extensão espacial das sensações ao longo do espaço e do tempo, pelo princípio da afecção, entre toda e qualquer porção de matéria, reiterando-se, aqui, a conexão corpo- mente.
Complementado essa articulação entre a idéia da extensão espacial das sensações e o fenômeno da sinestesia, cabe apontar que, quando se pontua, na lei da ação mental, a propagação de idéias, nela já se prevê o estender das sensações e das impressões. Peirce explicita que “ao haver uma conexão contínua entre as idéias, estas se associam, infalivelmente, a uma idéia geral vivente, sensível e perceptível” (CP 6. 143). Ele ainda salienta que sempre que as idéias se conectam, são as idéias gerais as que governam a conexão, e essas idéias gerais são sensações viventes desdobradas (idem § acima). A esse respeito, transcreve-se, abaixo, uma pontuação de Calvin (1998 p. 54):
Todas as nossas sensações são padrões disseminados no tempo e no espaço, tal como a sensação que se origina em seus dedos quando você se prepara para passar, para virar a página. Da mesma forma, todos os nossos movimentos são padrões espaço - temporais, envolvendo os diferentes músculos e os momentos em que são ativados.
Torna-se admissível, portanto, dizer que as idéias carregam sensações, às vezes mais disseminadas, anestesiadas e longínquas, devido ao distanciamento espaço-temporal da idéia primeira, que guarda a sensação mais intensa; às vezes mais vívidas, por se acercarem mais da idéia fundante (no espaço e no tempo) e, conseqüentemente, do teor de sensação primeira, fresca e imediata, de imprevisibilidade, de incitação. A palavra “padrão”, contida na citação acima, retrata, de certa forma, esse afastamento do momento sensorial pleno, pois, à medida que um comportamento se torna “padronizado”, “convenciona l”, destitui-se do imediatismo e passa a ser previsível e mediado racionalmente. As sensações, no entanto, mais aguçadas ou tênues, têm continuidade, extensão espaço-temporal, iniciando-se em uma parte e espalhando pelo todo, excitando várias porções dessa totalidade, em momentos diferentes.
Segundo Calvin (1998, p. 54), “muitas vezes, tentamos entender os eventos mentais tratando-os como se eles, na verdade, tivessem ocorrido em um único lugar e acontecido em um único instante”. A partir dessa consideração, pode-se pressupor não apenas uma extensão espacial, mas espaço-temporal das sensações. Extensão essa que evoca a condição sinestésica, posto que, em uma simples ação, como, por exemplo, “virar uma página”, percebe-se o envolvimento de áreas dos córtices motor, visual e até auditivo. Sem descartar, ainda, que podem ser levados os dedos à boca e, em seguida, à página, em um ato de degustação impensado, em que se vise, conscientemente, apenas a facilitar a virada da página ou que, pelo hábito, nem isso se tenha em conta; e se, ao virar das páginas, aspira-se um odor de livro novo, ou um ranço de guardado, em um misto de naftalina, pó e ácaro, tem-se, então, a convocação da olfação e, nessa costumeira ação, os sentidos se põem, instintivamente, em conjunção. Objetivando explicitar a mesma trajetória sensorial de forma mais científica, cita-se outra explanação de Calvin (op. cit., p.54):
As descargas elétricas dos neurônios não são canalizadas para um único ponto no espaço (por exemplo, um neurônio específico) e a decisão não é tomada em um único instante no tempo (por exemplo, o momento em que um determinado neurônio emite um impulso). A percepção ou pensamento não consiste em tocar em uma única nota, apenas uma vez [...] As funções superiores sempre envolvem grandes conjuntos de células que se sobrepõem, cujas ações estão dispersas no tempo [...] Para entender a função intelectual superior é necessário que examinemos os padrões espaço -temporais do cérebro, essas melodias do córtex cerebral.
Em suma, a partir dessas explicitações, pode-se apontar uma comunicação conjunta e sensorial, a qual se expande pelo organismo em foco, quando do processamento de uma simples e cotidiana ação até uma de maior complexidade. Os mecanismos de um determinado organismo dão mostras da comunicação por afecção, que, macro ou microscopicamente, atua entre outros diversos organismos, em uma ação sensorial misturadora, que resulta em uma materialidade híbrida e sinestésica.
Quanto às sensações e à tomada de consciência das mesmas, o semioticista expõe que elas se centram em nossa atenção apenas até certo grau, pois as nossas idéias não evocam uma unidade absoluta por se terem alijado da idéia primeira e original. As idéias, por meio dos desdobramentos dos conteúdos da consciência, encarrilham-se analogicamente, e, nesse percurso, vêem-se, por vezes, delegadas a um estágio genérico. Assim sendo, a atenção perambula, vagueia entre as sensações (CP 6. 133).
Cabe, também, ressaltar que, uma idéia, mesmo tendo em vista os conceitos de sinequismo e de afecção, não se pode reproduzir, transpor, transferir, integralmente, a outra mente, pois, ao se propagar, depara-se com outra configuração de tempo, espaço e estado de consciência, onde ocorrem várias outras associações, mediante sucessivos e incessantes alinhavos analógicos, estabelecidos metonímica ou metaforicamente, como já pontuado. No entanto, ressalta-se que, embora não havendo a reprodução literal das idéias, ocorre a
“partilha”, a “difusão” de sua essencialidade, o que alicerça a comunicação por afecção, que, por sua vez, impulsiona o processo de evolução cosmológica.
A amplitude do processo de comunicação por afecção, em que ocorre a partilha da essencialidade das idéias e das sensações nelas viventes, mas não sua transmissão plena e literal, reflete sobre a questão da consciência, sublinhando um paradoxo :
O paradoxo da consciência, ou seja, que quanto mais consciência temos, mais camadas de processamento nos separam do mundo - é, como tantas outras coisas na natureza, uma barganha. O distanciamento progressivo do mundo externo é simplesmente o preço pago por saber qualquer coisa a respeito do mundo. Quanto mais profunda e ampla nossa consciência do mundo se torna, mais complexas são as camadas de processamento necessárias para obter essa mesma consciência (BICKERTON, 1990 apud CALVIN 1998, p. 55).
Remete-se, aqui, à concepção peirceana do desdobramento da consciência e de seus conteúdos, destacada anteriormente, vindo, imageticamente, à tona uma consciência de aspecto sanfonado, a qual adquire dobraduras à medida que se desenvolve analogicamente, mas que, por essas mesmas pregas, alija-se das dobras iniciais da associação, perdendo de vista o “fio da meada”, o ponto de partida. Essa situação paradoxal, imbricada na consciência, reforça a vigência da “lei da mente”, pois , na propagação contínua de idéias e sensações, cada vez mais célere devido à fluidez da evolução mental, reside o afastamento do ontológico. Sobre essa questão, Calvin complementa:
A consciência e a inteligência estão no nível superior da nossa vida mental, mas elas são freqüentemente confundidas com processos mentais mais elementares - com os quais costumamos reconhecer um amigo ou amarrar os cordões do sapato. Tais mecanismos neurais mais simples representam, é claro, as bases prováveis a partir das quais nossa capacidade de manipular a lógica e a metáfora evoluiu (1998 p.58).
O autor, tratando de aspectos mentais como a consciência e a inteligência, alude, no trecho acima, à habilidade de utilização de metáforas. Ele aponta a capacidade de expressão metafórica, assim como a manipulação da lógica, como um indício da evolução mental, ponto em que tangencia as considerações de Mithen (2002, p.344-346), expostas no tópico
3.3., desta dissertação. Ao enfocar a evolução da mente humana, Mithen (2002) aponta a
capacidade de criação de metáforas e analogias e a destreza em seu manejo como um dos traços que sublinham a atividade de uma mente cognitivamente fluida. Ele assinala que as associações, de um modo geral, requisitam a comunicação e a flexibilidade entre os diferentes domínios perceptivos e cognitivos. Então, sobressaltam-se, novamente, pontos paradoxais: primeiro, os diversos domínios apontam rumo a uma mente especializada, compartimentada, modulada, em contrapartida, as analogias traduzem a possibilidade de comunicação entre os âmbitos mentais supostamente segregados; e segundo, as mesmas analogias que atesta m a fluidez mental, mediam a percepção e a comunicação, alterando o sentir e o pensar, criando crostas sígnicas sobre o ontológico.
Logo, pode-se indicar que é esse potencial de fiação analógica, que desembocará, à luz da doutrina sinequista, na continuidade intensiva e na extensão espaço-temporal das sensações, assinaladas por Peirce, e, conseqüentemente, considerando-se a flexibilidade comunicativa entre os diversos domínios da mente, fará emergir as manifestações sinestésicas. Por outro lado, como uma força antitética, essa mesma corrente analógica promove o distanciamento da idéia primeira e não mediada racionalmente, que retém, em si, sensações vívidas, sobre a qual se constrói uma decoupage labiríntica pelo trajeto de generalização e mediações relacionais. Tendo em vista esse lado opositor, é cabível sugerir que a percepção sensorial dialógica e sinestésica, vislumbre, também nesse fator, a base de sua dormência.
Para corroborar essas proposições, expõe-se, a seguir, outra explanação de Calvin (1997 p. 22): “novas funções, muitas vezes, aparecem, pela primeira vez, pela utilização do tempo ocioso de alguma parte preexistente do cérebro. As regiões do cérebro são, até certo ponto, multifuncionais, resistindo às nossas tentativas de rotulá- las”. Percebe-se, portanto, que a idéia de parte preexistente e ociosa remete à continuidade sinequista e ao estado anestésico de algumas regiões ou conexões pelo uso eventual ou até pelo desuso, enquanto que rotulação evoca a questão da especialização e dos compartimentos que, por sua vez, encapsulam as modalidades sensoriais. Essas considerações vêm, contudo, elucidar a idéia do continuum da consciência e atestar a possibilidade de que se pode ouvir sem o sentido da audição (como no caso relatado por Peirce, CP 7. 577) . Pode-se ouvir através das sensações armazenadas nas pregas da consciência e, ainda, receber os estímulos auditivos por outras entradas da percepção: o corpo todo pode ouvir, sem rotulações fracionárias do sentir.