4. RESULTS
4.2 F INDINGS IN THE DYNAMIC MODEL
O hábito pode estar relacionado ou não a uma crença. O hábito, como arrolado no item acima, é uma tendência adquirida que impulsiona a atuar similarmente em circunstânc ias parecidas. Porém, se, sempre irrefletidamente, age-se da mesma forma, ocorre uma habituação que não se ponteia com crença. Segundo Peirce, “uma crença é um hábito inteligente, segundo o qual agimos quando a ocasião apropriada se apresenta” (CP 2. 435). Assim sendo, estabelece-se uma distinção entre o simples e automático hábito e o hábito de crença. No primeiro, supõe-se um caráter mecanicista mais aguçado, no segundo, há a perspectiva de um caráter seletivo, ou seja, de escolha.
O novo, o imprevisto pode impelir, de alguma forma, a uma nova reação, a um padrão-teste de atuação. Note que um organismo, vendo-se em uma situação inusitada, pode ser acometido por sensações novas, que o conduzam a reações distintas. Os padrões de reações conhecidos e previstos por tal organismo podem não corresponder à nova sensação, fazendo com ele que se lance a uma diversificação reacional, mecanicamente ou por crença. Supõe-se que, em um primeiro momento, de modo geral, a nova reação seja automática, porém, se admitida a recorrência da mesma circunstância, ela deixará de ser inaudita e impulsionará o desenvolvimento de uma reação similar a cada vez que se repetir. Portanto, com a reiteração reacional, ao longo de um período, pressupõe-se a aquisição de um novo hábito, o qual pode prosseguir ocorrendo irrefletidamente, por automatismo, ou ser fixado por uma determinada crença. A mente, entendida como matéria, induz, deduz, habitua-se, mas também se abre, por seu caráter arbitrário, para novas hipóteses e variações.
Entretanto, há, ainda, que se considerar que, para a desestabilização de uma dada crença, faz-se necessária a instauração da dúvida, que, por sua vez, carrega o germe do novo, propondo um questionamento sobre o estabelecido, o habitual, o convencional, o reiterado. A dúvida põe em xeque a crença e a petrificação do pensamento, que com ela se edificou. Sobre isso, Peirce explana:
A crença não é um modo momentâneo da consciência; é um hábito da mente que, essencialmente, dura por algum tempo [...]; e tal como outros hábitos (até que se depare com alguma surpresa que principie sua dissolução) é auto-satisfatório. A dúvida é de um gênero totalmente contrário. Não é um hábito, mas privação de um hábito (1977, p. 289, § 417).
A crença, como se pontuou acima, estabelece-se em longo prazo, efetivando-se na habituação, na reiteração da experiência, enquanto a dúvida, na contramão da crença, propõe a desestabilização, a crise, o tremular do preestabelecido e das postulações, abrindo, por conseguinte, espaço para as mudanças e para a variabilidade.
4.3. Mudança de hábito e aquisição de novos hábitos
Quando se trata do conceito de hábito, tem-se, também, de conceber as possibilidades de mudança de hábito e de aquisição de novos hábitos, respaldadas pela diversificação prevista na ação mental. Do mesmo modo que as forças modais da civilização ou do meio natural podem conduzir à instauração de um hábito, elas são capazes de incitar a uma mudança ou à aquisição de novos hábitos. Nesse particular, Farias (2004, p. 2), tendo como fundamentação os estudos de Peirce, explicita:
A matéria deve ser considerada uma especialização da mente (CP 6. 268), de tal modo que, embora a matéria seja vista como nada além de mente sob o domínio de hábitos fortemente estabelecidos, algumas propriedades da mente (tais como uma certa capacidade para adquirir e modificar seus hábitos) ainda se apliquem a ela.
Como já proposto anteriormente, “mente é concebida como matéria”, mas permeada de uma dose de arbitrariedade e flexibilidade que lhe dota de uma fenda que propicia mudanças ou acolhimento de novos paradigmas. Ao se pensar em mudança, sugere-se que outro hábito tome o lugar daquele primeiro, o qual, por uma determinada razão, deixa de se apresentar como vantajoso ou adequado; por outro lado, ao se evocar a aquisição de novos hábitos, propõe-se que possa haver a coexistência entre o padrão habitual estabelecido anteriormente e novos padrões, pressupondo o não desaparecimento do primeiro para a ocupação desses últimos. Essa coexistência daria, então, democraticamente, espaço à manifestação de todos os padrões armazenados quando de sua convocação, demonstrando um processo mental inteligente e até criativo de lidar com hábitos. Cabe enfatizar, como feito alhures, que alguns desses padrões, pelo uso em menor escala, estariam como que adormecidos sob os mais requisitados. Ainda sobre essa questão, Farias (op.cit.) explana:
[...] ‘pura matéria’ poderia ser descrita como pura escravidão ao hábito, enquanto que ‘pura mente’ poderia ser descrita como pura mudança. Ambos fenômenos seriam, claramente, meras abstrações ou possibilidade, uma vez que qualquer atualização (física ou mental) destes se caracterizaria em uma mudança no hábito inveterado da ‘matéria pura’, ou uma regularidade na mudança sem fim da ‘mente pura’. De fato, para Peirce ‘a mais alta qualidade da mente envolve uma grande prontidão para adquirir hábitos, e uma grande prontidão para perdê-los (CP 6. 613). Teríamos, assim, em um extremo do espectro, mentes quase incapazes de mudança devido à rigidez de seus hábitos; do outro, mentes absolutamente plásticas, praticamente incapazes de manter qualquer hábito; e entre uma e outra uma infinidade de gradações.
Tendo, contudo, em vista as considerações tecidas sobre hábito, crença, dúvida, mente, matéria, mudança e aquisição de hábitos, cabe, mediante um processo inferencial- lógico, tecer algumas proposições sobre a aplicabilidade desses conceitos em relação ao fenômeno da sinestesia, o que, na seqüência, far-se-á.