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Total debt portfolio cross-border allocation

In document GRA 19502 (sider 39-42)

5. Empirical analysis of total, debt and equity holdings

5.3 The impact of cross border portfolio allocation

5.3.2 Total debt portfolio cross-border allocation

Não é preciso entrar numa análise cuidados das palavras micro e macro, para poder asseverar que se trata de termos relativistas que, originalmente, servem para referir-se às relações parte-todo (meronímia/holonímia) em cada nível da organização social. Contudo, desde os anos sessenta do século passado, os sociólogos passaram a usar esses termos cada vez mais para fazer uma distinção entre, de um lado, os estudos com um foco na interação individual e, do outro, os com um foco no sistema social como um todo. Todavia, depois que os provocadores “valentes” da primeira e segunda geração do interacionismo simbólico e da

etnometodologia tinham ganho mais autoridade, controle e influência, dando à sociologia o caráter de uma ciência de múltiplos paradigmas, despertou entre os estudiosos o desejo de voltar aos clássicos e associar, novamente, a teorização sobre a ação e sobre a estrutura social.

Ao estabelecer esse objetivo, também, para o presente trabalho, inscrevemos-nos numa tradição teórica que, sobretudo desde os anos oitenta do século XX, elabora estratégias para reconciliar a cisão entre micro e macro ao construir conceitos teóricos que são úteis para traduzir as variáveis no nível individual em variáveis características do sistema social e vice-versa (cf. ALEXANDER et al., 1987; ARCHER, 1982, 1988, 1995 e 1996; BOURDIEU, 1977 [1972], 2008 [1979, 1984] e 1990 [1980]; BARNES, 2001; BHASKAR et al., 1998; CICOUREL, 1981; COLLINS, 1981a, 1981b, 1986 e 1988; FINE, 1991; GIDDENS, 1979 e 2003 [1984]; HABERMAS, 1981; KEMENY, 1976; KNORR-CETINA, 1981; RITZER, 1981, 1985, 1988a, 1988b e 1990; RITZER & GINDOFF, 1994; TURNER e BOYNS, 2001; WAGNER, 1964; WALLACE, 1969 e 1988). Voltados, na sua maioria, para reforçar a ideia de que a restrição imposta pelas estruturas sociais e o potencial inerente às ações individuais têm consequências recíprocas, os autores, que aspiram a fundar The Micro-Macro Link (ALEXANDER et al., 1987), afirmam que qualquer esquema conceitual proposto para abranger o vasto campo dos fenômenos sociais deve fornecer ferramentas para explicar como funciona a dinâmica dos processos sociais não apenas em cada nível do universo social, mas também no que diz respeito às relações entre esses diferentes níveis.

A estratégia talvez mais conhecida dessa tradição teórica tem origem na análise socioeconômica de Max Weber (1922), que se baseia numa escala conceitual que começa com a “ação individual” e, passando pelas “relações sociais” e as “associações”, conduz até à “ordem legitimada”. O raciocínio em que se baseiam as abordagens que adotam essa estratégia diz que, com o acréscimo de mais agentes e mais relações sociais, é preciso introduzir conceitos adicionais para poder explicar as propriedades emergentes de cada novo nível da realidade social. Todavia, o problema principal desse tipo de abordagem é, de uma maneira geral, que a série de categorias analíticas nele usada descreve, mas não explica os

processos dinâmicos que ocorrem em cada nível e/ou entre os diferentes níveis analíticos.

Diferentes tentativas de contornar esse dilema encontram-se nos trabalhos mais recentes de Alexander (1982-1984), Ritzer (1985, 1988a, 1988b e 1990), Ritzer e Gindoff (1994), Turner (2002) e Turner e Boys (2001). Todos se ocupam dos processos pelos quais a ação social é produzida, sem quererem negligenciar as intrusões das circunstâncias situacionais, socioculturais e históricas no decorrer e nas consequências das interações sociais. De uma maneira geral, esses autores apresentam a visão de uma realidade social multidimensional dirigida por diferentes forças sociais cujos nomes e propriedades podem variar de um autor para o outro mas que atuam, supostamente, na cultura e nas estruturas das microunidades e macrounidades sociais. Turner e Boyns (2001), por exemplo, sugerem analisar os seguintes fatores: “população”, “produção”, “reprodução”, “distribuição” e “regulação” no nível macro; “diferenciação e integração de unidades corporativas e categoriais” no nível intermediário e “emoção”, “necessidades transacionais”, “símbolos”, “papéis sociais” e “status”, no nível micro das interações. De um modo geral, os estudiosos dessa corrente sintetista pressupõem que as forças decisivas se manifestam cada vez que os indivíduos entram na cena social e que elas movem o comportamento, as interações e as organizações dessas pessoas em determinadas direções. Nessa perspectiva, nem os fenômenos micro nem os macro são causados diretamente, mas as forças motivadoras fluem entre os diferentes níveis da realidade simultaneamente em ambas as direções. Ainda de acordo com os mesmos autores, isso significa que – apoiando-se no conceito de forças sociais multidimensionais – deve ser possível, em princípio, explicar os processos micro e macroestruturais uns pelos outros e desenvolver um entendimento holístico do mundo social.

Contudo, na prática, mostra-se – como já foi dito – que esse tipo de conceitualização consegue muito bem denominar os problemas, mas dificilmente os resolve de modo satisfatório. É facilmente possível presumir que a realidade social se desdobre em várias dimensões micro e macro e que tanto a ação quanto a estrutura ou a cultura tenham suas propriedades distintivas e sejam influenciadas por forças distintas, mas a afirmação de que o potencial de ação é restringido pela ordem sociocultural, que é (re-)produzida e alterada pela agregação de ações

individuais, não fornece, por si mesma, uma explicação integrativa nem consegue reconciliar os antigos paradigmas opostos numa teoria unificada.

Em alguns dos trabalhos mais originais que se ocupam das diversas dimensões do fluxo da vida social, o foco de atenção muda das estruturas sociais para os sistemas de símbolos de uma cultura. Evidentemente, os pesquisadores dessa linha de pensamento acreditam que a teoria cultural pode oferecer as chaves para abrir as portas do labirinto dos sistemas sociais. Ao perguntar dialeticamente como os indivíduos internalizam sua cultura e como as ações desses indivíduos reproduzem e alteram essa cultura, os autores em questão conseguem ligar, com certa facilidade, a dimensão macro da “cultura” com a dimensão micro da “ação”, procurando, desse modo, transcender dialeticamente o dualismo subjetivismo- objetivismo e as fronteiras entre os dois grandes paradigmas das ciências sociais.

Bourdieu (1977a [1972]; 1990 [1980]; 1993 [1978]; 1996 [1977b]; 2001 [1989]; 2008 [1979, 1984]), por exemplo, para dar conta da relação entre individuo e sociedade, substitui, na sua teoria da prática, o conceito parsoniano (PARSONS, 1968 [1937]) das expectativas normativas ou regras sociais, que prescrevem o que se diz ou se faz, pelo conceito do habitus, que, em cada campo social diferenciado por uma topologia específica de posições sociais, determina nossas disposições subjetivas permanentes de sentir, discernir e agir de acordo com princípios corporificados. De uma maneira geral, a noção do habitus assemelha-se à antiga ideia da “visão do mundo”: os indivíduos têm visões do mundo diferentes devido a suas localizações específicas na estrutura social. No intuito de superar o determinismo social sem negar a influência das forças sociais e culturais, Bourdieu introduz o habitus como um sistema socialmente constituído de esquemas interiorizados que gera todo o conteúdo sociocultural relevante e o conjunto inteiro de percepções, pensamentos e atividades habituais que os membros de uma comunidade adquirem sob determinadas condições sócio-históricas no decorrer da sua socialização. De acordo com Bourdieu (1990 [1980]), o habitus tem a ver com o “senso prático” que nos diz como agir e reagir apropriadamente enquanto experimentamos, avaliamos e organizamos o nosso espaço social.

De fato, o autor usa o conceito do habitus para evitar tanto as aporias do subjetivismo cartesiano, cujo solipsismo metódico entende o conhecimento como um evento prelingüístico, quanto a falácia coletivista presente na teoria durkheimiana, que reifica as estruturas sociais em detrimento dos fenômenos individuais. Uma vez que o habitus, enquanto “história corporificada” (1990 [1980], p. 54), se baseia na interiorização das estruturas sociais, pode-se dizer que o conceito – sem precisar lançar mão de explicações behavioristas – acarreta necessariamente um elemento objetivo que permite levar em consideração os efeitos que a estrutura causa no agente social e através dele. Na medida em que o habitus, enquanto “postura” (BOURDIEU & WACQUANT, 1992, p. 121), representa o meio subjetivo para relacionar-se praticamente com outros indivíduos em contextos sociais específicos, o conceito – sem abolir o agente social (como o fez a filosofia estruturalista) – também acarreta necessariamente um elemento subjetivo que permite explicar como as práticas são constituídas pelas disposições estruturadas e estruturantes (BOURDIEU & WACQUANT, 1992, p. 122).

Todavia, vários críticos competentes (BOUVERESSE, 1995; BRUBAKER, 1985; DIMAGGIO, 1979; FARNELL, 2000; JENKINS, 1982; KING, 2000a; LAMONT & LAREAU, 1988; LAU, 2004; MOUZELIS, 2000; SCHATZKI, 1997) reprovam a teoria de Bourdieu ressaltando que o conhecimento tácito internalizado do habitus se apresenta quase como um imperativo já que seria a causa imediata da formação da identidade do individuo. Ao entender o agente social como produto da internalização quase automática e inconsciente de certas disposições, em última análise, reduzidas à posição ocupada por este no meio social, Bourdieu – dizem seus críticos – credita ao meio social um poder irresistível de moldagem de perspectivas e disposições. Além disso, alegam esses autores que a orientação da prática pelo habitus pressuporia, como nexo causal entre a cognição e os fatos sociais, um mecanismo oculto quase tão etéreo como o res cogitans cartesiano. O que Bourdieu tem para oferecer – ainda de acordo com os mesmos críticos – são “fatos sociais durkheimianos” corporificados nos indivíduos. Esse cartesianismo residual cria um dualismo entre disposições e práticas, que não é convincente do ponto de vista teórico. Seria patente, então, que o conceito do habitus não pode dar conta da dimensão interacional-situacional do agir humano, na qual se desenvolve a dinâmica das estratégias racional-intencionais e discursivas que, dependendo do jogo social

em questão, são decisivas – em grau maior ou menor – pelo fluxo de interação recíproca. Uma explicação completa das práticas teria que incluir, além da lógica normativa imposta pela posição social e pelas disposições dos agentes, também a lógica das estratégias racional-intencionais e discursivas aplicadas na situação interacional concreta. Conclui-se, portanto, que o habitus sozinho não basta para explicar as atividades humanas; logo, o projeto bourdieuiano de transcender o antagonismo entre sujeito e objeto ou autonomia e determinismo falhou.

Outra tentativa de transcender o dualismo ação-estrutura e de vincular uma sofisticada teoria do sujeito a análises de um tipo mais institucional encontra-se na teoria da estruturação de Anthony Giddens (1979 e 2003 [1984]). Numa parte essencial da obra dele, as atividades interativas e discursivas em que se engajam as pessoas para conduzir seus assuntos diários têm um papel central: o autor considera as ações individuais como uma parte da prática social pela qual o sistema social é reproduzido em determinadas circunstâncias organizacionais, institucionais e socioculturais. A seu ver, o ser humano caracteriza-se, sobretudo, pela faculdade de adquirir e aplicar conhecimentos para saber ir com “o fluxo ativo da vida social” (GIDDENS e PIERSON, 1998, p. 76) e/ou poder intervir no curso dos acontecimentos ou no estado de coisas (GIDDENS, 2003 [1984], p. 17 seg.). Ampliando os seus conhecimentos teóricos e práticos, os indivíduos adaptam-se ao mundo enquanto tecem e destecem as identidades e alteridades sociais, (re)produzem e transformam as relações de poder e (re)constroem e alteram os modos de conceituar o mundo (FAIRCLOUGH, 2001 [1992], p. 91 seg.). Sendo assim, o conhecimento e o agir humanos formam, por assim dizer, um ponto de conexão entre o sujeito e as estruturas sociais objetivas.

Para explicar, então, como esses agentes sociais dotados de capacidades cognoscitivas reproduzem a sociedade, Giddens põe em cena o conceito da estrutura que, na sua visão, não é um conjunto de “fatos sociais”, mas um conjunto virtual de regras e recursos estruturantes que são instanciados cada vez que um sujeito-agente se apoia neles para agir numa situação social concreta. É preciso ressaltar aqui: as estruturas não são as práticas sociais padronizadas que constituem o sistema social, mas são os princípios abstratos que padronizam as práticas constituintes do sistema social. Assim sendo, pode-se concluir que as

propriedades estruturais de um sistema social são reais, mas não têm forma física; ou seja, elas não existem concretamente a não ser em suas exemplificações nas práticas sociais e como traços mnêmicos, isto é, como ideias ou esquemas estampados na mente humana.

Ao contrário do esqueleto humano ou das vigas de um edifício, as estruturas envolvidas na organização e na reprodução sociais têm uma existência apenas virtual (2003 [1984], p. 20): elas não são alojadas na biologia humana nem representam um sistema de ideias ou manifestações mentais livremente circulando. Antes pelo contrário, as estruturas são (re)produzidas e transformadas ativamente pelas capacidades cognoscitiva e operativa dos agentes sociais. Na explicação desse processo, é preciso ressaltar que os agentes sociais, para poderem participar das práticas sociais, desempenham papéis sociais prescritos de acordo com as suas posições sociais e a sua identidade específica. Essa concepção da estrutura como um processo que dá forma à vida social e, ao mesmo tempo, confere aos agentes certo grau de liberdade na sua conduta condiz com a experiência cotidiana de que os recursos disponíveis numa sociedade e as regras impostas por ela não restringem apenas a ação humana, mas também a capacitam.

De acordo com o autor, os indivíduos, ao recorrer a uma estrutura, simultaneamente reproduzem-na; do mesmo modo como um falante reproduz a língua que usa quando enuncia uma frase nela. A analogia com os conceitos saussureanos de langue e parole elucida um ponto essencial da estruturação: as estruturas são constituídas pela agentividade humana, mas, ao mesmo tempo, são o próprio instrumento dessa constituição; ou seja, elas são, simultaneamente, o meio e o fim da conduta cotidiana assumida pelos agentes sociais cognoscíveis (GIDDENS, 1979, p. 4). Em busca de uma expressão sugestiva para a ideia de que as estruturas (as regras e os recursos) servem como meios de reprodução social mas também são reproduzidas como resultado desse processo, Giddens (2003 [1984], p. 29-33 e 351-358) propõe substituir a noção do dualismo sujeito-objeto pela noção da dualidade da estrutura (e da ação), o que – de acordo com o autor – realça o fato de que tanto as estruturas quanto as ações não existem por si mesmas, mas são relacionadas intimamente umas com as outras de tal modo que não há estrutura sem ação nem ação sem estrutura.

O que, além disso, é de uma importância fundamental para a teoria da estruturação é a noção do poder necessário para lidar oportunamente com as coações sociais e materiais. De acordo com Giddens (2003 [1984], p. 17), é de se pressupor que o poder represente uma propriedade imediata da ação: cada vez que uma pessoa age num conjunto de circunstâncias qualquer, ela exerce necessariamente o poder; pois, em caso contrário, ela não poderia agir. Para praticar o poder, isto é, para poder “fazer a diferença” e transformar algum aspecto de um processo ou evento, precisa-se de recursos alocativos (que procedem do controle sobre produtos materiais ou aspectos do mundo material) e/ou de recursos autoritativos (que procedem do comando sobre as oportunidades da vida, a organização do espaço social e as relações entre as pessoas). Quanto maior é o domínio sobre os recursos (humanos e não humanos), melhor são as chances de ampliar seus efeitos causais sobre um mundo que, naturalmente, inclui também as ações dos outros e os efeitos causais do seu agir. Evidentemente, para Giddens, a luta entre os poderes é a força motora principal da história humana.

Voltando à faculdade cognoscitiva das pessoas, convém mencionar ainda que os indivíduos adquirem conhecimentos primeiramente para aplicá-los, de uma maneira regular e institucionalizada, nas suas ações cotidianas. As ações, então, são influenciadas pelo conhecimento e tendem a mudar com uma alteração do conhecimento. Conclui-se, então, que a motivação básica do agir humano é determinada pelos motivos do sujeito-agente e pelos conhecimentos que o orientam, mas isso não significa que os agentes sociais possuem total consciência das consequências dos seus atos, pois a base motivacional inclui também todas as formas de percepção e impulsos que nascem na subconsciência ou que aparecem na consciência apenas numa forma distorcida.

O que, no nível básico, se faz por rotina pode, num nível superior ser sujeito à racionalização. Racionalizar, nesse caso, significa que a própria ação torna- se objeto da consciência de tal modo que podemos falar de uma consciência prática das habilidades sociais e das atividades do cotidiano. Para as pessoas terem uma consciência prática do desempenho apropriado de uma atividade, basta elas estarem tacitamente cônscias dos procedimentos e das habilidades que é

preciso pôr em ação. O conhecimento prático (o conhecimento de como se faz alguma coisa), que proporciona a consciência prática, inclui todo o conteúdo experiencial que ajuda na solução dos problemas que podem aparecer durante o agir. A consciência prática, então, pode expandir na medida em que uma pessoa toma conhecimento do conhecimento de outra pessoa e vice-versa. Desse modo, constrói-se um conhecimento mútuo essencial para as atividades comuns na prática social: um conhecimento, aliás, que determina as estratégias e táticas que decidem sobre o êxito das interações.

Quanto mais se discute sobre as ações e as práticas sociais que constituem a realidade social, tanto mais cresce a consciência discursiva, ou seja, a habilidade de pôr as coisas em palavras, a qual orienta as ações reflexivamente, fornecendo motivos, significações e legitimações para as condutas desempenhadas. Para terminar, convém mencionar ainda que certos tipos de ações e interações dos agentes reflexivos e cognoscíveis estão sujeitos à padronização e, com o decorrer do tempo, podem passar a ser institucionalizados, formando, desse modo, as propriedades estruturais que caracterizam um sistema social.

Apesar da importância da consciência, nem tudo está sob controle dos conhecimentos dos agentes sociais. Sempre existem motivos inconscientes e condições estruturais não identificadas que influenciam o resultado das ações. Além disso, é impossível conhecer todos os efeitos que uma ação pode provocar; o que, inevitavelmente, produz consequências não intencionadas. Na espiral formada por condições não identificadas, práticas sociais realizadas e consequências não intencionadas, o conhecimento dos agentes sociais funciona como um eixo central em torno do qual e pelo qual passa a reprodução das estruturas sociais. Em suma: os motivos inconscientes e o estoque de conhecimentos (implícitos e explícitos) têm papéis essenciais na ligação entre a estrutura e a prática social.

Certamente, o interesse que a teoria da estruturação desperta entre os estudiosos tem sua razão na ênfase que se dá à agentividade humana, às pessoas reais, “de carne e osso” e às ações e realizações delas. Constate-se, aqui, que Giddens, quando focaliza o monitoramento reflexivo das ações em situações

locais e rotineiras de copresença, evita as posições extremas da etnometodologia, que tende a negar a realidade ontológica das estruturas sociais, e da escola fenomenológica com sua supervalorização do subjetivismo. Também é notável que, no seu tratamento da questão de como a coprodução de interações verbais e não verbais e de uma rede de influências mútuas é ligada à estrutura mais ampla do sistema social, ele rejeita qualquer explicação que envolva os fatos sociais reificados de Durkheim ou as superestruturas de Marx, os quais fazem dos indivíduos bonecos sem vontade própria, negando-lhes o status de agentes capazes de uma “penetração discursiva” da realidade social.

Contudo, o que Giddens apresenta não é uma síntese revolucionária do subjetivismo e do objetivismo, mas uma reformulação de esforços tradicionais de superar esse cisma. Como demonstra Münch (2004, p. 501 seg.), os clássicos – tais como Durkheim (1970 [1914]), Mead (1968 [1934]), Parsons e Platt (1973), Simmel (1968 [1908]), Weber (1999 [1922]) – já tinham, de uma maneira ou outra, uma noção clara daquilo que Giddens chama, hoje, de “dualidade da estrutura”. Ao contrário dos seus predecessores, no entanto, a doutrina da dualidade da estrutura tem o defeito, como acusa Münch (2004, p. 501), de ressaltar demasiadamente o poder como primum mobile dos giros do mundo social. Assim sendo, Giddens é obrigado a observar a relação entre a estrutura objetiva e a consciência subjetiva sempre do ponto de vista estratégico, o que diminui bastante as possibilidades de explicar teoricamente práticas sociais e fenômenos discursivos nos quais os interactantes percebem as coações estruturais como amenizadas, em comparação com os jogos de poder nos quais cada participante tenta maximizar o lucro tirado dos recursos estruturais à sua disposição.

Apesar dos pontos fortes mencionados acima, Giddens – naturalmente – atrai críticos oriundos de várias escolas de pensamento social, cultural e filosófico; os questionamentos mais radiais, no entanto, costumam sair, de um lado, do campo do antirrealismo (BERARD, 2005; KING, 2000b), que pretende reabilitar as tradições hermenêuticas rejeitando a ideia de estruturas sociais que possuem propriedades sui generis e eficácia causal e, do outro, do campo do realismo crítico (ARCHER, 1982, 1995 e 1996; BASHKER, 1993; SEWELL, 1992; WILMOTT, 1997) e do objetivismo sociológico (LAYDER, 1987 e 1997), que defendem um dualismo

analítico ou ontológico, respectivamente, e a existência de propriedades e poderes

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