5. Empirical analysis of total, debt and equity holdings
5.2 Home bias
Uma tarefa essencial das ciências humanas tanto do paradigma normativo quanto do interpretativo é, então, ocupar-se da questão de como o cerne da vida social – no seu decorrer histórico e nas suas mais diversas manifestações culturais – mantém-se junto até ser modificado ou substituído por outro e como as ações dos seus componentes individuais produzem os efeitos que têm. Por conseguinte, nas disciplinas que tratam dos aspectos do homem como indivíduo e como ser social, os pesquisadores mostram, de uma maneira geral, um interesse por estruturas, processos e interações. Em geral, podemos observar que o estudo desses três objetos de pesquisa ocorre a partir de uma perspectiva reflexiva que se baseia na disposição estratégica de imaginar que os fatos não são naturais e, portanto, poderiam, também, ser diferentes. Contudo, é evidente, também, que entre os pesquisadores do mundo social dominam duas posições básicas: enquanto os representantes da primeira recomendam afastar sistematicamente as prenoções e evitar todos os juízos de valor ou opiniões pessoais, ressaltam os defensores da outra que é sempre a partir de uma opinião solidamente formada que se parte em busca de respostas e que, por essa razão, são precisamente os juízos de valor que devem aparecer já no início de toda pesquisa. A nosso ver são frequentemente os estudiosos desse segundo grupo que – enquanto visam a tornar transparente a realidade observada – cultivam o que Nietsche (apud DREITZEL, 1966, p. 222) chamou de “a arte da desconfiança”.
Os trabalhos que se dedicam a essa arte distribuem se num contínuo teórico que se desdobra entre dois pólos opostos: uma posição extrema que pode
ser resumida pela afirmação There is no such thing like society. There are only
individuals. [“Não há sociedade, apenas indivíduos”], atribuída à antiga primeira
ministra inglesa Margaret Thatcher, e outra que é representada pela concepção aristotélica do homem como zoon politikon. As numerosas teorias que dão um fundamento mais ou menos firme a esses trabalhos têm em comum o objetivo de fornecer explicações racionais e sistemáticas para a complexidade de determinados fenômenos sociais. O que as divide principalmente são duas perspectivas diferentes: enquanto um grupo de pesquisadores fixa a atenção no individuo e no seu agir (verbal e/ou não verbal), a outra explora a sociedade e as suas estruturas políticas, econômicas e sociais.
Uma perspectiva, abrindo-se de cima para baixo, focaliza a sociedade como um corpo social no qual as diversas partes contribuem, cada uma a seu modo, para a vida em comum. Quem trabalha nessa linha, pergunta, então, como determinadas estruturas se desenvolvem e se unem para formar um sistema e para estabelecer uma determinada ordem e como o indivíduo pode ser motivado para manter essa ordem e agir de acordo com as suas regras. A outra perspectiva, abrindo-se de baixo para cima, contempla os indivíduos como verdadeiros produtores da vida social que, baseando-se no senso comum, constituem os cenários socialmente organizados. Quem opta por essa abordagem pergunta como os membros chegam a um sentido do seu mundo ou da sua realidade e – caso não se destinja por uma falta absoluta de qualquer reconhecimento de fatores estruturais – pesquisa, além da contextura da cena e dos procedimentos interpretativos, como, do agir dos atores sociais em situações cotidianas, emergem continuamente normas sociais e como os indivíduos conseguem se impor sob determinadas condições sociais e uma determinada distribuição de oportunidades e recursos culturais.
A principal questão que, no contexto dessas duas perspectivas, deve ser levantada diz respeito à relação entre o indivíduo e a sociedade em geral e o indivíduo e seu agir em particular. Será que são as ações que determinam a estrutura ou será que a estrutura determina as ações? Em que medida é que o indivíduo depende da sociedade e qual é o efeito do seu agir? Ou, em outras palavras: como é possível explicar os acontecimentos e as características no nível da sociedade enquanto macrossistema, tomando por base o comportamento dos
indivíduos, ou seja, os acontecimentos nos microssistemas interacionais? John Stuart Mill (1843), por exemplo, teve a convicção que a unidade elementar da vida social é a ação humana. Logo, para ele, falar da sociedade significa sempre falar de indivíduos que agem. Karl Marx (1859), por outro lado, acreditou que as condições sociais sejam independentes da vontade humana e dependam apenas das relações de produção: “Não é a consciência dos homens que determina o ser, mas o ser social determina a consciência” (op. cit., p. 8).
Essa invocação de Mill e Marx já mostra que a questão da articulação entre ações individuais e estruturas sociais, a chamada problemática micro-macro, há muito tempo representa um assunto central do estudo da vida social. Tradicionalmente, alteram-se abordagens estruturalistas que abstraem – em graus diversos – dos atores individuais com abordagens fenomenológicas e/ou teorias pragmático-interacionais que, na melhor das hipóteses, tematizam as estruturas sociais como pano de fundo das ações individuais. O que esses conceitos dualísticos do individuo e da sociedade têm em comum são as tendências de resolver o debate favorecendo um dos dois pólos – micro ou macro – alterando abruptamente entre os dois níveis e dando pouca atenção ao problema de como estabelecer uma passagem bidirecional.
No âmbito da perspectiva dos indivíduos em ação, observou-se, nas últimas décadas, o desenvolvimento de teorias sociais e metodologias que podem ser caracterizadas pelo seu interesse em interações face a face, em rotinas e categorizações da vida cotidiana, nos mecanismos e padrões das conversações, nas definições situacionais dos papeis sociais e da identidade das pessoas e na produção, circulação e recepção do discurso. É possível recorrer a várias tradições teóricas e analíticas para aprovar ou desapoiar uma interpretação particular de certos aspectos do agir humano e das interações com o meio social, a saber: o agir como maximização do lucro e a interação como troca (HOMANS, 1958; BLAU, 1964; COLEMAN, 1974), o agir como realização de objetivos e a interação como conflito (COLLINS, 1975; BACHARACH e LAWLER, 1981); o agir como reprodução das estruturas do mundo vivido e a interação como geração de um mundo intersubjetivamente compartilhado (SCHÜTZ, 1932; BERGER e LUCKMANN, 1966); o agir como construção do sentido e a interação como processo comunicativo
(BLUMER, 1969; GOFFMAN, 1959; STRAUSS e CORBIN, 1990; JOAS, 1992) ou o agir como construção de sentido moral e a interação como formação de valores compartilhados (PIAGET, 1932; KOLBERG, 1975).
Essas abordagens formam o oposto das teorias sociais desenvolvidas para analisar holisticamente a sociedade e as suas dimensões institucional e organizacional – por exemplo: o funcionalismo empírico de Robert K. Merton (1968 [1949]), a teoria dos sistemas de Talcott Parsons (1968 [1937]) e Niklas Luhmann (1984), o neomarxismo de Jürgen Habermas (1981) e Immanuel Wallerstein (1991), a teoria do conflito de Lewis Coser (1964 [1956]), Ralf Dahrendorf (1971 [1958]) e Norbert Elias (1976 [1939]) e o estruturalismo francês de Claude Levi-Strauss (1947), Michel Foucault, (2009 [1975]) e Pierre Bourdieu (1990 [1980]). Nessas teorias, a análise da sociedade e a elaboração de um instrumentário teórico para essa tarefa ocupam um espaço maior do que nas teorias do agir e, ainda que – com exceção de Niklas Luhmann – todas essas abordagens desenvolvem sua própria teoria do agir e consideram a sociedade uma unidade constituída por ações ou comunicações elementares, defende-se, de uma maneira ou outra, a opinião de que essa unidade social emergente se distingue por propriedades específicas. As teorias do agir desenvolvidas nesse paradigma, então, não têm sua finalidade em si mesma, mas são sempre parte de uma abordagem mais abrangente que, em diferença com as teorias do agir, no sentido estrito, disponibiliza conceitos teóricos e ferramentas metodológicas para a análise da sociedade como um todo.
As abordagens centradas na estrutura e nos sistemas funcionais (por exemplo: Marx, 1845; Durkheim, 1895) têm como objeto de pesquisa a sociedade como ordem sui generis cuja unidade é postulada veementemente. Pressupõe-se, nos trabalhos dessa linha de pesquisa, que as macroestruturas sociais e os fenômenos coletivos têm propriedades holísticas que não podem ser explicadas satisfatoriamente pelo comportamento dos indivíduos (coletivismo metodológico). De uma maneira geral, esse tipo de estudos é motivado pelo interesse na (re)produção e transformação das estruturas sociais institucionalizadas ou ritualizadas e nos processos pelos quais os membros de uma sociedade chegam a um senso da estrutura social. Os pesquisadores costumam recorrer a representações numéricas dos fatos empíricos, as quais permitem afirmações sobre
uma ordem abstrata de caráter normativa. Isso significa que os processos que ocorrem nos sistemas sociais parciais são estudados sem decompô-los analiticamente até o nível das atividades interacionais.
Desse modo, é inevitável que os indivíduos com sua consciência prática e seus espaços de decisões e de objetivos desaparecem na análise de dados quantitativos ou de levantamentos topográficos que buscam explicar os sistemas de conhecimentos e de valores culturais ou as estruturas das instituições, das organizações e das classes sociais. O dilema das abordagens radicalmente coletivistas é que, ao ocupar-se com estruturas sociais e populações inteiras e não com interações situacionais e indivíduos, elas afastam sua atenção teórica completamente da análise da consciência, dos motivos e das intenções individuais e concebem os atores sociais como meras vitimas das circunstâncias coletivas, reduzindo-os, desse modo, a seres passivos que calculam mecanicamente seu meio externo. Em outras palavras: as teorias macroscópicas têm dificuldades em explicar como as estruturas sociais tornam-se relevantes para as ações individuais e como os resultados obtidos pela análise do nível macro podem ser fundados no agir dos indivíduos e dos grupos (MÜNCH e SMELSER, 1987, p. 380).
Por outro lado, as teorias centradas nos atores ou nas situações sociais (por exemplo: MEAD, 1934; BLUMER, 1969) tematizam os processos cooperativos no nível básico da interação cotidiana e tentam assentar a ordem social no agir humano. Metodologicamente, os trabalhos que se inserem nesse quadro teórico, não visam a compreender a realidade social pelas instituições, estruturas ideológicas ou padrões coletivos de comportamento, mas pela observação e análise dos processos concretos de interação, os quais são constitutivos da ordem social. Essas abordagens, então, têm na palavra enunciada um dos seus pilares e com ela realizam seu cometido com eficácia. Tomando a consciência individual e a intencionalidade como ponto de partida, recorrem a dados qualitativos vindos, por exemplo, de relatos de observações participantes, descrições de cenários sociais e transcrições reconstrutivas de conversações autênticas. Dando uma ênfase unilateral sobre a subjetividade, os pesquisadores tentam reconstruir a produção de sentido nas intenções dos atores sociais, em detrimento de qualquer exame das macroestruturas sociais ou das consequências coletivas da ação humana. De fato,
as interpretações dos fenômenos em questão baseiam-se no princípio metodológico de que o mundo em que vivemos tem um significado para nós apenas na medida em que o interpretamos – em qualquer momento da interação com os outros – com base em nossas experiências, nossas categorias simbólicas e nossos conhecimentos habituais (individualismo metodológico).
Tomando interesse, particularmente, pelo funcionamento da linguagem a qual se põe entre a consciência individual e a vida coletiva como uma ferramenta que cria, intervém e modifica, o paradigma interpretativo caracteriza-se pelo modo microssociológico da explicação dos fatos sociais. Isso significa geralmente que os representantes dessa linha de pesquisa, ao presumir que a razão prática tem um caráter organizacional e que a linguagem tem na (re)produção e regulamentação da realidade social um papel privilegiado, afirmam que a comunicação simbólica e as convenções que organizam as situações comunicativas são decisivas para a constituição da ordem social. Pressupõe-se, nesse quadro teórico, que as interações humanas possam ser explicadas por um observador que sabe pormenorizar de que modo os atores sociais se mostram mutuamente como definem a situação em que se encontram e como interpretam as ações uns dos outros a partir das suas sinalizações verbais e não verbais. As abordagens fenomenológicas e hermenêuticas, portanto, focalizam os métodos pelos quais os interactantes produzem as situações sociais em que estão envolvidos; o que inclui, sobretudo, um interesse pelas regras convencionais e pelos recursos semióticos disponíveis que possibilitam as negociações de sentido nas interações concretas. Dito de uma maneira pleonástica (BATESON, 1972; SERRES, 1997), a reconstrução científica da construção do sentido como objetivo epistemológico mais geral do paradigma interpretativo almeja a compreender o compreender do compreender (understanding
understanding of understanding).
Baseando-se numa conceituação pragmática e performativa, as abordagens que estudam como a agentividade emerge nas interações sociais reformulam o problema da relação entre o indivíduo e a estrutura, sugerindo que a estrutura social emerge do agir dos atores sociais que são hermeneuticamente ativas. Nessa perspectiva, são as interações concretas e não as abstratas normas e os valores socioculturais preexistentes que constituem o fundamento da vida social.
A sociedade, por conseguinte, é compreendida explicitamente como uma aglomeração de ações individuais contingentes e a autonomia das sociedades – enquanto fenômeno ou nível que certamente emerge das ações, mas que abrange também novas qualidades – é rejeitada ou vista com cautela como um objeto que deve ser excluso das considerações teóricas. As pessoas, por outro lado, não são consideradas entidades passivas, condicionadas pela sua classe de origem e seu status socioeconômico; muito pelo contrário, elas participam ativamente na construção do contexto das interações. As estruturas sociais e a sociedade não preexistem ao indivíduo e nem existem independetemente ou separadamente das suas ações. Na melhor das hipóteses, a ordem social oferece modelos convencionais, normas de procedimento ou de conduta, mas é na interação que esses modelos e regulamentos são usados e são continuamente modificados. Uma vez que a interação é a forma de organização social que estrutura as atividades e as trocas entre os membros de uma comunidade, influenciando e configurando os enquadres que tornam suas macroatividades significativas, as diferentes situações sociais de interação são um objeto legítimo de pesquisa. Afinal, a análise dos microprocessos ajuda a entender os métodos pelos quais as pessoas fazem a vida e constroem as macroestruturas sociais.
Contudo, diante do fato de que as estruturas sociais, muitas vezes, emergem – como diz Marx – “atrás das costas dos participantes”, é legítimo duvidar se a pergunta pelos fundamentos da ordem social, pode ser esclarecida satisfatoriamente por uma estratégia de pesquisa que leva em conta exclusivamente a lógica da reconstrução. Certamente, o foco fino das abordagens micro aperfeiçoa as imagens de vistas magnificadas, mas dificilmente é adequado para abranger com a vista a emergência de estruturas sociais que se distinguem por propriedades novas as quais não podem ser explicadas diretamente pelo agir dos indivíduos ou pela agregação de características das estruturas elementares. O dilema das abordagens radicalmente individualistas é, então, que elas não são capazes de incorporar os aspectos coletivos da ação social (MÜNCH e SMELSER, 1987, p. 380). Além disso, um observador atento pode perceber facilmente que, em muitos estudos, a passagem brusca das sequências interacionais para as instituições sociais parece inverossímil ou controvertida. Conclui-se, portanto, que essas
abordagens dificilmente podem compreender plenamente a complexidade da vida social.
Fazendo um balanço do que se discutiu até o momento, pode-se afirmar que a ligação entre o indivíduo e o mundo social, entre o agir e a estrutura ou entre o simples e o complexo representa um problema fundamental que se coloca, praticamente, em todas as disciplinas das ciências humanas. Os termos-chave da controvérsia entre as perspectivas micro e macro são emergência e redução (HEINTZ, 2004): enquanto, numa parte, as teorias reducionistas afirmam que a sociedade, as organizações e as famílias nada mais são do que as relações entre seus membros, ou seja, que os fenômenos emergentes no nível macro não existem; numa outra, que eles são uma mera construção mental das pessoas; e, numa terceira, que eles podem ser derivados perfeitamente das ações individuais e dos processos no nível micro; defendem as teorias emergentistas a opinião de que o todo e mais do que suas partes e têm características novas que, embora causadas por processos no nível micro, não podem ser explicadas de modo reducionista. Sobressai ainda, nessa disputa, que nenhuma das versões radicais dos dois paradigmas procura seriamente incorporar níveis intermediarias que poderiam amenizar a suposta incompatibilidade e explicar, através de “regras transformacionais” como as ações individuais acumuladas podem se transformar em macrofenômenos que, por sua vez, determinam, então, as situações interacionais nas quais os atores fazem as suas decisões.