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No campo militar o poder do Estado existia, à altura, ainda omnipresente e omnipotente. Exigia o uso da violência física, o que surpreendia os mais esclarecidos

Capitães do Fim, habituados aos discursos anti-guerra ouvidos no campus universitário.

Os Capitães do Fim começaram o seu percurso militar em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, EPI. Durante seis meses de instrução, como Soldados-Cadetes, foram sujeitos a um processo de selecção nada transparente, pois poucos souberam

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porque e como foram seleccionados, incluindo os oferecidos como voluntários que também não souberam o motivo da escolha. Neste curto período temporal eram transformados em Aspirantes-a-oficial miliciano. Poucos dias depois já eram Alferes e, nessa qualidade, embarcavam para os teatros de guerra como adjuntos de Comandante de Companhia, onde faziam um estágio de quatro meses. Regressavam, abraçavam o posto de Tenente e frequentavam um Curso de Comandantes de Companhia, CCC2. Depois eram colocados em unidades mobilizadoras. Aí seriam incorporados em batalhões3 (e era em rigor para isso que estavam destinados), formando e instruindo a sua Companhia, presumivelmente, acompanhados pelo saber e experiência dos seus Comandantes4.

Não se cumprindo o que estava normativizado, porque a espécie Capitão rareava cada vez mais, estes milicianos começaram também a comandar e a formar Companhias independentes5, quantas vezes entregues a si próprios, ou mobilizados em regime de rendição individual, sem qualquer experiência de instrução e de comando, partindo para substituir outros Capitães, por diversos motivos como doença, ferimento, morte, castigo, promoções ou deslocações por conveniência de serviço.

Estes foram os Capitães que estiveram até ao fim, calcorreando os principais teatros de guerra, participando em conflitos bem complexos da ponta final da descolonização e assistindo ao arrear da soberania portuguesa, com as lágrimas nos olhos ou com o brilho de alegria neles esculpido, consoante o seu posicionamento ideossincrático.

Participaram alguns no 25 de Abril. Mais de uma dúzia ajudou à conquista da liberdade. São dos últimos, os do fim, mas não são os responsáveis pelo fim havido. Durante muitos anos os Capitães do Quadro Permanente fizeram a guerra, não se dirá sem total abnegação, mas não a ganharam. Desgastaram-se e arrastaram-se ao longo de comissões. E, para fora da instituição, deram o sinal de que o sofrimento era demasiado para as vitórias ténues alcançadas, principalmente na Guiné e em Moçambique. A

2 Razão porque também são conhecidos por Capitães CCC. 3

Pelo menos 53 batalhões tinham todas as suas Companhias operacionais comandadas por Capitães CCC.

4 De Aspirantes-a-oficial miliciano de Infantaria, eram sucessivamente graduados em Alferes, Tenente e

Capitão. Graduados ao posto de Capitão, nos termos do artigo 103º do Decreto-Lei nº 36304 de 24 de Maio de 1947, com a nova redacção dada pelo Decreto-Lei nº 44048 de 21 de Novembro de 1961.

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impotência esvaziava a Academia Militar e os Capitães milicianos, CPC6 e CCC, tornavam-se as elites intermédias, mas fulcrais, do Exército Português entre 1970 e 1975.

O poder esboroava-se, as Forças Armadas desacreditavam-se, e os lideres imergiam perante o soçobrar da componente militar e da(s) política(s). Os Capitães do Fim, e outros Capitães, lá se iam «desenrascando» no auge do processo de desacreditação. Tornaram-se os “peões de brega”, “pau para toda a colher”, como diz o povo, ou os “peões das nicas” na expressão de Silva (2007: 1). Não admira que a revolta tenha chegado mansa.

Os Capitães do Fim foram criados numa altura em que o Exército vivia postergado debaixo do conceito designado, por vários autores, como «mente organizacional», impeditivo da organização prestar atenção a sinais e a fenómenos que já não escapavam ao paradigma social vigente, como a contestação à guerra nos meios da juventude universitária7. Os Capitães, de ambos os quadros, viveram imersos numa organização onde se mascarava algum do sucesso e arrogância, do passado, com a crise do momento que lhe vertia para o seu interior a complacência e a desatenção. Lobrigava-se, no seu seio, um misto de acomodação (persistência nas receitas de outrora, dificuldade em mudar de rumo) e desistência (colapso, ineficácia, resignação), com vitalidade de alguns (revisão de estratégias, criatividade, mudança) e resiliência de poucos (interpretação da crise como oportunidade para a criatividade, sentido da necessidade de mudar) (cf. Pina e Rego 2007: 109-131).

Ao tempo da formação destes Capitães do Fim, os altos Comandos militares não conseguem, ou não querem, ler os indícios que prenunciam o fracasso, ou lêem os sinais mas não são capazes de convencer o poder político da necessidade da mudança. Muitos deixam-se enredar pelos sucessos passados, desenvolvendo uma crença desmedida e irrealista nas suas capacidades, encarando os pequenos desaires surgidos como episódios esporádicos que a realidade e o tempo acabarão por sanar. Enquanto os desaires são relativamente pequenos, ocultam-nos ou desenvolvem argumentos que minimizam a sua importância. Mas essa acaba por ser a razão pela qual, a certo

6 Mancebos que, já tendo cumprido o Serviço Militar Obrigatório na Metrópole, eram pela segunda vez

chamados às fileiras e mobilizados. Será o assunto retomado adiante com outra profundidade.

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momento, as derrotas e os acontecimentos problemáticos começam a ser demasiadamente grandes e já não podem ser encobertos.

A selecção e a formação dos Capitães do Fim, os desempenhos e os protagonismos que tiveram, desenvolveram-se neste clima. O acto de seleccionar foi o primeiro vértice de um quadrilátero complexo que permitiria identificar as competências requeridas, proporcionar reflexão estratégica, reconhecer as existentes nos seleccionáveis e prospetcivar as novas competências adquiridas, decorrentes da evolução de catorze meses de formação.

A formação, o segundo vértice do tal quadrilátero, foi concebida por organizações militares que tinham sistemas cognitivos e memórias. Desenvolviam rotinas e procedimentos relativamente padronizados para lidar com a inovação a introduzir. Então muitos questionamentos se poderiam fazer. Estas rotinas continuaram a emergir nesta formação? A mudança nos processos formativos, nas estruturas e nos comportamentos aconteceu? E as aprendizagens significativas ocorreram? O itinerário formativo envolveu a concretização de novas estratégias de acção, diferenciadoras do nível mais baixo? Ou foi proporcionado o conhecimento de nível mais elevado, o que resulta da (re)estruturação de quadros de referência, da apreensão de novas habilidades, e do desenvolvimento das competências essenciais à realização de profícuas acções de comando? (cf. Fleury e Fleury 2001: 193)

Poder-se-á ainda questionar de outra forma. Teoricamente as competências ganhas pelos Capitães do Fim, ao longo de um processo formativo militar formal, em média de cerca de catorze meses (três meses de instrução generalista, três meses de instrução especializada, quatro meses de estágio como adjunto de Comandante de Companhia em zona de guerra, dois meses de curso CCC, e dois meses de IAO e outra formação acompanhada), com o conhecimento e os comportamentos em acção, foram significativos tornando-os aptos para o comando de uma Companhia? A experiência de vida civil e, sobretudo, os saberes adquiridos formalmente nos meios académicos universitários foram, por outro lado, âncora decisiva para as novas aprendizagens? Por último, a experiência alcançada na realização de um estágio de quatro meses8, como adjunto de um Comandante de Companhia, em pleno teatro de guerra, antecipando o curso CCC, poderá ter sido a melhor solução formativa?

8 O estágio poderá ter sido uma boa opção formativa. Esta prática foi estendida, a partir de 1972, aos

Questionamentos relevantes da reflexão sobre os saberes tácitos e os saberes explícitos, acerca do que significa e como se pratica a prática reflexiva, os tais saberes construídos na e pela acção, a abordar em capítulo específico.

Considera-se desempenho, a eficácia e o resultado de comportamentos. Num contexto de conflito armado, é a acção de levar a efeito determinada tarefa ou serviço. Mais ainda: o modo de agir, de reagir, de se comportar ou de funcionar, especialmente em determinadas situações de violência. Desempenho também tem a ver com a capacidade dos Capitães do Fim para cumprir os processos conducentes ao aumento da probabilidade de obter os resultados desejados.

O Capitão do Fim protagonista busca colocar-se como principal sujeito da acção do grupo que comanda e, em estado de violência, desenvolve possibilidades concretas de organização.