Maria Carrilho tem vindo a interrogar-se sobre o grande embaraço da afirmação universitária da Sociologia Militar sendo que, “a partir do fim dos anos vinte, no contexto norte-americano, começam a ganhar forma e reconhecimento as sociologias sectoriais e especializadas que se encontram hoje completamente instaladas” (Carrilho 1985: 38-40).
militar”, “Forças Armadas e poder político”. Por último, a Parte III trata “As Marcas da Modernidade”, abarcando “Forças Armadas na transição para o século XXI”, “Forças Armadas e minorias”, “A integração das mulheres”, “O associativismo militar”, “A profissionalização”, “Os militares e o campo de batalha”, “Opinião pública e Forças Armadas”, “Os referenciais da mudança”, “As novas missões do
guardião-soldado”, “A revoluçāo nos assuntos militares”, “As empresas militares privadas” e a
A investigadora considera as razões, para que tal aconteça, incertas em factores de natureza ideológico-cultural e teórica. Há, no entanto, segundo a autora e outros estudiosos, tais como Moskos e Jenkins, outras contribuições para as reticências no reconhecimento da Sociologia Militar. Uma delas é a tradição daquilo que denominam pesquisa in-house, verificando-se serem as investigações sociológicas referentes às Forças Armadas essencialmente realizadas no âmbito dos organismos militares, orientadas fundamentalmente mais para a recolha de dados do que para a análise sociológica. e com finalidade nitidamente mais prática do que teórica (cf. Carrilho 1985: 38-40).
Maria Carrilho fala-nos também do início da Sociologia Militar, de estudos que são a base teórica desta especialidade e são os seus primórdios, como sejam “os estudos específicos referentes ao fenómeno da guerra e a revista intitulada The American Soldier”. A sua explicitação vem contextualizar e ampliar a informação já atrás referida.
Afirma a autora:
Ainda antes do final da 2.ª Guerra Mundial aparecem estudos específicos, referentes ao fenómeno da guerra, entre os quais é de salientar a série de monografias sobre as consequências sociais e económicas do primeiro conflito mundial nos países europeus, financiadas pela Fundação Carnegie entre 1919 e 1941, e, principalmente, The Study Of War, de Quincy Wright, elaborado no ambiente da Universidade de Chicago, sobre os múltiplos aspectos militares, jurídicos, sociológicos, psicológicos da guerra, que pode ser considerado precursor de uma área de estudos sociológicos: a da análise das causas, decurso e efeitos das guerras e conflitos armados. Também na iminência da 2ª Guerra Mundial constitui-se, na New School for Social Research, um grupo interdisciplinar que publica War in Our Time, um conjunto de ensaios sobre aspectos económicos e sociais da guerra. (Carrilho 1985: 38).
Maria Carrilho considera ter sido a grande mudança encetada no Exército dos Estados Unidos, durante a II Guerra Mundial, que incrementou e modelou esta especialização militar no âmbito das Ciências Sociais:
Um exército relativamente pequeno e de sistema voluntário – menos de 300000 efectivos em 1940 – irá alcançar a dimensão de oito milhões de homens no fim da guerra, com um sistema de conscrição. Com o objectivo de estudar e solucionar problemas de natureza psicológica e sociológica levantados pela necessidade de uma rápida mobilização, é criado, em 1941, pelo
Governo dos Estados Unidos, o Research Branch of Army’s Information and Education. […]
Ligados à investigação do Research Branch aparecem sociólogos como Paul Lazarsfeld, Rober K. Merton, Samuel Stouffer, John Dollard.
Da ingente recolha de informação (mais de 200 relatórios, centenas de milhares de entrevistas a soldados) resultariam quatro volumes intitulados Studies in Social Psychology in World War II. (Carrilho 1985:39).
Saudade Baltazar, investigadora da área, no seu minucioso e profundo trabalho de doutoramento, e no livro nele baseado escrito em 2005 sob o título As forças armadas portuguesas desafios numa sociedade em mudança, trabalha modelos de
relação exército-sociedade, muito na senda dos estudos de Samuel Huntington na década de 50 (cf. Baltazar 2005: 46-47).
A emergência da Sociologia Militar, como área de conhecimento, granjeia-lhe as melhores reflexões, e a sua reduzida tradição de pesquisa também. Diz Baltazar:
É de facto paradoxal a situação de atraso no estudo das Forças Armadas – instituição presente em todas as sociedades com Estado, cuja actuação tem sido determinante nas mudanças políticas, sociais e económicas e que na actualidade possui os meios para a destruição da humanidade (Baltazar 2005: 47).
Braz da Costa é um cultor da Sociologia Militar. Dos seus estudos sobressai, neste âmbito, um artigo seu publicado na revista Nação e Defesa, sob o título Forças Armadas e Sociologia, onde, para além de outras questões, se interroga sobre o porquê de uma Sociologia Militar e sobre os obstáculos na sua investigação (Costa 1984: 118- 125; 129-137).
Apoia e demonstra o “duplo interesse” das relações possíveis a estabelecer entre a Sociologia e as Forças Armadas, fundamentalmente ao nível da “arte de comandar”:
O mundo militar é dilatado, complexo e, além do mais, processa a administração da violência organizada. Nele coexistem homens (em alguns exércitos também mulheres, o que naturalmente colocará outra espécie de questões) das mais diversas proveniências, com diversos estatutos, desempenhando papéis rigidamente diferenciados, obedecendo a rituais e ao culto de um conjunto de valores específicos ou de virtudes militares, com materiais dos mais simples aos tecnologicamente mais avançados.
É uma instituição que vive com militares profissionais, com jovens recrutados e com elementos civis. Cada um destes grupos de seres sociais coloca tipos diferentes de questões a serem equacionadas, além das inerentes ao interrelacionamento entre si (Costa 1984: 124).
Sobre a pesquisa em Sociologia Militar aponta as “circunscritas no conceito civil-militares”, de onde nascem múltiplas investigações que “têm permitido estudos e análises comparativas dessas relações entre diversos sistemas políticos” (Costa 1984: 125). Apresenta situações perturbadoras dessas mesmas investigações, onde o “primeiro obstáculo que se coloca ao investigador da coisa militar é a própria instituição militar” (Costa 1984: 131), pois os seus elementos “institucionalizaram um conjunto de medidas tendentes a salvaguardar o segredo militar, a segurança da própria instituição, o seu relacionamento com o poder, a política e a Sociedade no geral”(Costa 1984: 132).
Existem hoje novos problemas nas Forças Armadas e novos campos de investigação.
O serviço militar voluntário, e a reintegração sócio-profissional dos ex-militares voluntários, assumem importância indagativa para a investigadora Lurdes Fonseca
(2009). Este é um assunto presente e de repercussão significativa nas Forças Armadas actuais, em plena ruptura organizacional com o passado.
Segundo se sabe, as Forças Armadas portuguesas assumem-se hoje como «profissionalizadas» o que tem sido usado, segundo a investigadora, “como sinónimo de voluntarizadas e de crescentemente qualificadas” (Fonseca 2009: 6). Na sua concepção:
A crescente necessidade de qualificação e especialização técnica e operacional dos militares redundou, desde logo, no aumento médio da qualificação dos seus recursos humanos em geral, o que teve, evidentemente, especial impacto nos estratos tradicionalmente menos qualificados. Depois, a diversidade de qualificações «civis» dada pela crescente complexidade científica, técnica e organizacional da guerra moderna, implicou um rápido e estável aumento (em tamanho e importância funcional e organizacional) dos oficiais altamente qualificados em áreas estranhas às ciências militares (Fonseca 2009: 10).
Pela leitura do trabalho investigativo de Maria de Lurdes Fonseca, constata-se que este vem associar, refundir e difundir “o espectro intervencionista da Sociologia Militar e dar dinamismo à sua especialização nas questões ocupacionais e profissionais, significativamente importantes nos dias de hoje” (Fonseca 2009: 10).
Como síntese apela-se à atenção para as definições, bem gerais e sucintas, de dois sociólogos norte-americanos. Para Huntington a Sociologia Militar é a “aplicação da ciência do comportamento aos problemas directamente relacionados com a gestão militar” (1957: 83). Para Moskos a Sociologia Militar é “o estudo específico das estruturas e situações marcadas pelo emprego (ou ameaça de emprego) de uma violência organizada entendida como legítima” (1988: 15).
Nas duas cabe o objecto de estudo deste trabalho.